Archive | Agosto 2012

O Desconcerto do Mundo

O Desconcerto do Mundo é o meu primeiro vídeo. Seguiram-se outros, mas é deste que gosto mais. Foi apresentado no seminário internacional O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo, no Mosteiro de Tibães, em Braga, no dia 19 de Abril de 2005. Dura 38 minutos. Este exagero é compensado pela originalidade, pela variedade e pelo encanto das imagens e dos sons. De espanto em espanto, o tempo passa. Faltam os comentários, o que é uma falha. Desconcerto do mundo. Do mundo ou dos homens? Loucura ou realismo? Não há luz sem sombras, a não ser, porventura, no vazio. Só não enxerga sombras quem apaga a luz. Resisti, até hoje, a publicar este vídeo na internet. É uma prenda de aniversário a um blogue criança. Peço a quem ousar visionar este Desconcerto do Mundo que carregue em HD no canto superior direito do ecrã. Faz diferença.

Aniversário

O blogue Tendências do Imaginário completa amanhã um ano de existência, com 464 artigos publicados e 36 164 visualizações. O Brasil e Portugal destacam-se, naturalmente, dos demais países (ver gráfico). Atendendo ao lugar concedido aos anúncios publicitários, não deixa de ser curioso que entre os dez artigos mais visualizados apenas o último convoque a publicidade (ver gráfico). Este blogue vai fazer um ano. Os vícios nascem assim, nas dobras do tempo.

Visualizações de artigos do blogue Tendências do Imaginário

A fuga do nariz

Seguindo as pegadas do nariz do major Kovaliov do conto de Nicolau Gogol e da ópera de Dmitri Shostakovitch, o nariz das modelos deste anúncio da Chanel sumiu-se. Mas com outras (pop) artes…

Marca: Chanel. Título: I love Chanel. Agência: Psycho (Paris). Direção: Solve Sundsbo. França, Agosto 2012.

Expressão

Um momento de boa disposição, em especial para os amantes de histórias bem contadas! Quase sem palavras… O paradoxo da individualização em grupo. Desde o recorte inicial do espelho até à montagem da anamorfose final, este anúncio lembra, sequência a sequência, a microssociologia de Georg Simmel.

Marca: Philips. Título: Exprésate todos los días. Agência: Phantasia, Lima. Perú, Agosto 2012.

Homens e Bestas 3. Rubens

Théorie de la Figure Humaine é a tradução francesa, editada em 1773 (ver frontispício na figura 1), do original em latim da autoria de Peter Paul Rubens (1577-1640). Parte do tratado associa os corpos e os temperamentos dos seres humanos aos animais. “O rosto do homem tem muito a ver com a cabeça do cavalo; esta semelhança é visível na cabeça de Júlio César, e na estampa I [figura 2], onde se pode comprovar como o rosto próximo do cavalo deve ser longo e oval, com nariz longo e recto, ossos bem marcados, rosto duro, tal como as faces, preservando porém alguma delicadeza e doçura (…). A estampa V [figura 5] evidencia como a cabeça de Hércules, e a dos atletas, ou dos homens mais vigorosos, remete para o leão, mas com tanta arte e suavidade que se nos torna difícil discerni-lo (…) Para cada homem existe sempre um qualquer animal com o qual mais se aparenta ” (pág. 10-11). Nem mais, nem menos!

Obsolescência programada e criação destrutiva

Da General Motors dos anos 1920 à atual Microsoft, suspeita-se de um encurtamento propositado da duração dos produtos (a obsolescência programada). Pois na era do hiperconsumismo e do upgrade, raros são os bens que completam o seu ciclo de vida. São ultrapassados, ainda em uso, por outros mais recentes. Estamos perante um “massacre” de objetos motivado pela inovação e pela atualização. Não se trata de obsolescência programada mas de morte precoce. Os anúncios da Etsalat e da Virgin Mobile ilustram esta “criação destrutiva”. Publicados em Agosto, quase em simultâneo, parecem gêmeos. O primeiro, egípcio, elenca uma série de artes de executar um telemóvel, o segundo, norte-americano, uma série de “acidentes felizes” com o mesmo resultado: o apocalipse dos objetos démodés. Ambos anunciam, profeticamente, novos produtos e novos tempos.

Anunciante: Etisalat. Título: Mobile Massacre. Agência: Strategies, Cairo. Direção: Omar Hilal. Egipto, Agosto 2012.

Anunciante: Virgin Mobile. Título: Happy Accidents. Agência: Mother New York. Direção: Guy Shelmerdine. EUA, Agosto 2012.

Seres ronronantes

A relação com os animais na pós-modernidade não é menos intricada nem menos intensa do que na Idade Média. Segundo este anúncio, somos mimalhos até ronronar por mais. Uma espécie de felinos sem garras. Vejamos o que nos diz a agência publicitária: “Cuando llega el invierno, cambiamos nuestros hábitos. Nos ponemos la bufanda, los guantes y el gorro. Pero sobre todas las cosas, nos ponemos mimosones. ¿Qué es estar mimosón? Es estar mimoso. Pero como un campeón. Es  animarse a hacer las cosas más cursis y disfrutarlas. Es encender la estufa, ponerse las pantuflas y acurrucarse con alguien a escuchar una chanson francesa y ronronear hasta que el frío invierno se aleje. Y para acompañar ese momento, ¿qué mejor que una buena taza de café suave y espumoso? Porque si hay una verdad irrefutable sobre esta infusión ancestral, es que café rima con cliché”.

Marca: Arlistan. Título: Le Gató. Agência: Madre. Direção: Cinco. Argentina, Agosto 2012.

Homens e Bestas 2

No que respeita à fisiognomonia, Giambattista della Porta não foi um caso isolado. O imaginário da Idade Média destacou-se pela proximidade, híbrida ou não, entre seres humanos e animais. Gostaria de mencionar três grandes vultos da história da arte que também abordaram o tema: Ticiano Vecellio, Peter Paul Rubens e Charles Le Brun.

Ticiano. Alegoria da prudência. C. 1565-1570

Comecemos, neste artigo, com Ticiano Vecellio. Falecido em 1576, pintou entre 1565 e 1570, alguns anos antes do tratado de Giambattista della Porta, a Alegoria da Prudência. O quadro comporta dois níveis. Em cima, três rostos humanos, dispostos segundo as idades da vida: um idoso, à esquerda, de perfil na sombra; um adulto, ao centro, de face; e um jovem, à direita, de perfil, algo ofuscado pela luz. Há quem sustente, incluindo Erwin Panofsky, que os retratados são, da esquerda para a direita, o próprio Ticiano, seu filho Orazio e o seu jovem primo Marco. Em baixo, figuram três cabeças de animais alinhadas do mesmo modo que os três humanos: o lobo corresponde ao idoso, o leão ocupa o centro, a direita sobra para o cão. Para além destes dois reinos ou ordens, o quadro encerra mais duas dimensões. Em primeiro lugar, o tempo: passamos, gradualmente, do ancião para o jovem, do passado para o futuro. Em segundo lugar, a dimensão comportamental ou “psicológica”. A “prudência” assenta, da esquerda para a direita, em três pilares: a memória, a inteligência e a previdência. O lobo recorda ciosamente as suas presas, e o ancião as proezas. As figuras centrais, incluindo o leão, concentram-se, rápidas e vorazes, no imediato. Estão no vértice da ação. À direita, o jovem e o cão aguardam o futuro, afagam esperanças. O seguinte mote acompanha o quadro: “Com a experiência do passado, o presente age com prudência, para não comprometer a ação futura”.

Em próximo artigo, contemplaremos os outros dois “vultos da história da arte” anunciados.

Homens e Bestas

A associação entre as morfologias humana e animal remonta, pelo menos, à Antiguidade. Às respetivas afinidades corresponderiam semelhanças ao nível das tendências de carácter. Por exemplo, nariz em forma de bico de corvo significaria descaramento; de galo, luxúria; e de águia, generosidade. Por sua vez, olhos de carneiro revelam depravação; os de cervo, espiritualidade; e os de burro, loucura. Pelos vistos, Aristóteles navegou por estas águas, particularmente férteis durante a Idade Média, período em que as fronteiras entre reinos, incluindo o humano e o animal, se esbatem e o hibridismo se propaga na decoração das igrejas, nos romances, nos livros de horas e, a partir do século XV, nos grotescos. Giambattista della Porta (1535-1615), sábio italiano renascentista associado, por muitos, à história da câmara escura, dedicou-se, entre várias atividades, à fisiognomonia. Em 1586, publicou De humana physiognomonia, que comporta quatro livros. Provém de esta obra a maior parte das imagens que seguem. Pode consultar-se e “descargar” a edição de 1644 (Della fisionomia dell’huomo), agora com seis livros, no seguinte endereço da Bibliothèque nationale de France: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k51316f.r=Giambattista+della+Porta.langPT. Sobre estas “fisiognomonias”, a principal referência da História da Arte parece-nos ser Baltrusaitis, Jurgis (1995), Les Perspectives dépravées. Tome 1: Aberrations, Paris, Flammarion. Do ponto de vista da sociologia, pode consultar-se Dumont, Martine (1984), “Le succès mondain d’une fausse science: la physiognomonie de Johann Kaspar Lavater”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº54, pp. 2-30.

Pergunta

Por que motivo um homem (ou uma mulher) quando perde um apoio mais nele se firma?

Abel Korzeniowski: Song of Time. Music for Drama. 2005.

Será histerese? Será vício? Será luto? Ou ter a vontade mais forte do que o discernimento?

Abel Korseniowski: W.E. – Soundtrack Score Suite. 2011.