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Margens. Passo a passo

Pé ante pé, o blogue Margens lembra a neta: de ensaio em artigo, começa a andar. Devagar, para não cansar, vai plantando um pomar de ideias, uma horta de novidades, com alguns morangos silvestres a insinuar-se nas bordas dos regos de água. Sem chavões, sem palas, sem filtros, sem revisões cegas… Mas com nervo, fibra e autoria assumida. Folhas soltas que ressoam num espelho d’água danças envolventes que lembram uma folia portuguesa. “A coisa prometendo”, aguarda-se, com alguma ansiedade, a estreia, a pegada pioneira, dos demais autores deste pequeno círculo, um ninho de iniciativas, dedicado à cultura, à arte e ao imaginário.

O artigo mais recentes, Viúvas de Braga… sem filtros, da Anabela Ramos, é uma delícia. Abre o apetite, dá vontade de experimentar comer viúvas. E mais não digo! Está acessível no seguinte endereço: https://margens.blog/2023/04/20/viuvas-de-bragasem-filtros/.

Manuel Machado. La Folia Dos Estrellas Le Siguem. Folia portuguesa do séc. XVII. Pelo Ensemble CIRCA 1500.

Avaliação dos impactos económicos e sociais da Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Relatórios

O blogue Margens acaba de publicar uma análise das repercussões da Capital Europeia da Cultura em 2012 no desenvolvimento do concelho de Guimarães, volvidos dez anos, da autoria de Samuel Silva, que integrou a equipa, que coordenei, do Instituto de Ciências Sociais responsável, a seu tempo, pela avaliação dos impactos sociais e culturais do evento. Pelo interesse, oportunidade e lucidez, recomendo o artigo E tudo se transforma? (https://margens.blog/2023/04/15/e-tudo-se-transforma/).

Aproveito o ensejo para partilhar dois relatórios, em português e inglês, da avaliação dos impactos económicos e sociais da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, publicados em 2012 e 2013: intercalar (fevereiro de 2013) e final (setembro de 2013).

Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Impactos Económicos e Sociais. Relatório Intercalar – Fevereiro 2013 – Universidade do Minho:

Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura. Impactos Económicos e Sociais. Relatório Final – Setembro 2013 – Universidade do Minho:

Uma tristeza!

Aimee Mann

Um é o número mais solitário
Que você poderá conhecer
Muito muito pior que dois
Um é um número divisível por dois
(Magnolia. One. 1998).

Quem divaga sempre acaba por encontrar. A dedilhar os CD, cruzei-me com a banda sonora do filme Magnólia (1999), quase toda interpretada por Aimee Mann; e a folhear o Público, cruzei-me com o artigo de opinião, “Sinto-me triste”, de Eduardo Marçal Grilo, com o qual me identifico, salvo esquecer-se de enfatizar o enorme contributo para o alívio da tristeza nacional que poderia dar a justiça e o aparelho jurídico. Enfim, Tristezas. Partilho três músicas do filme Magnólia, bem como o início do artigo de Malçal Grilo.

Aimee Mann. One. Magnolia. 1999
Aimee Mann. You Do. Magnolia. 1999
Aimee Mann. Wise Up. Magnolia. 1999

https://www.publico.pt/2023/01/31/opiniao/opiniao/sintome-triste-2036953

Eduardo Marçal Grilo. Sinto-me Triste. Público. 31 de Janeiro de 2023, 0:27

Escrutinadores e agitadores

Teresa de Sousa, do Público, jornalista desde 1977, que admiro, escreveu hoje uma “Newsletter exclusiva para assinantes”. Venho dizendo, aproximativamente, o mesmo, embora com parcas palavras, voluntariamente, algo enigmáticas. Sem autorização para reproduzir o artigo, remeto para a fonte: https://www.publico.pt/2023/01/24/newsletter/mundo-hoje. Teresa de Sousa começa por interpelar o leitor com um conjunto de interrogações:

Caro leitor, cara leitora, não sei se já lhe passou pela cabeça admitir que algo de errado se passa neste país quando, todos os dias, surge na imprensa mais um “caso” sobre um membro do Governo que, de um modo ou de outro, afecta a sua imagem e a sua credibilidade, dominando quase totalmente o debate público. Teremos o pior Governo do mundo? Os governantes são corruptos? Não há mais nada a acontecer no país? A quem interessa esta situação? A mim, estas dúvidas colocam-se todos os dias. Por isso, decidi partilhá-las consigo ((https://www.publico.pt/2023/01/24/newsletter/mundo-hoje)).

Queima-santos

Alumiada a São Tomé. Penso. Melgaço. 20.12.2022

Ontem à noite vi o filme Diamantino (2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, que uma colega amiga, a Isabel Macedo, teve a gentileza de me proporcionar. Mais um caso em que o humor e a fantasia se insinuam como via de acesso à realidade! Quase premonitório.

No rescaldo do Mundial de Katar, surpreendi-me a cogitar sobre o poder do pontapé. Um único pontapé é capaz de consagrar ou humilhar, de promover um jogador, ou uma equipa, a herói divino ou reduzi-lo a figurante desgraçado. No Mundial, foram muitos, demasiados, os jogos decididos por desempate por grandes penalidades. Até a final! Manifesta-se assombroso o alcance planetário de um simples pontapé! Pontapé na bola; pontapé no mundo! Resulta resplendor ou apagamento, anjo ou besta. Fenómeno pouco lógico, porventura mágico-religioso. Em verdade vos digo, a sensatez humana não vale um tostão.

Diamantino. Trailer oficial. Direção: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Portugal, 2018

Eutirox é um medicamento incómodo. Tomado de manhã em jejum, convém aguardar meia hora até ao pequeno almoço. No intervalo, acontece recostar-me a ouvir música e voltar a adormecer. Momento propício a sonhos que o acordar costuma recordar.

Diamantino. Excerto. Cannes 2018

Hoje, em sonho, regressei à infância, irritado com a nomeada de queima-santos atribuída aos residentes de Prado (São Lourenço), minha terra natal. Desviado o olhar para o mapa, os limites da freguesia começam a expandir-se até coincidir com o País, Portugal (Santa Maria), agora travestido de “mátria” de queima-santos! Novo salto até à Alumiada a S. Tomé, na freguesia de Penso, em Melgaço. Fachos de palha de centeio incendeiam a noite (ver vídeo 3). Os participantes acabam por se juntar numa fogueira colossal (vídeo). Mas, em vez de São Tomé, aparecem São Cristiano e São Fernando, consumidos pelas chamas como o boneco, também de palha, do “entroido” de Castro Laboreiro. Tomados por uma fé avessa a falhas (pecados? traições?), atentos aos profetas da comunicação social, os queima-santos sentam-se à volta da fogueira, à espera de novas epifanias, novos êxtases e novas santificações.

Acordei envergonhado com o meu subconsciente.

Freguesia de Penso alumia a São Tomé e cumpre tradição antiga | Altominho TV. 21.12.2022

Há vinte anos escrevi um artigo dedicado ao futebol. Desde então muita água correu; o texto permaneceu enxuto. Permito-me recolocá-lo.

Cirurgia à memória coletiva

Fotografia de Valter Vinagre. Fonte: https://www.timeout.pt/lisboa/pt/arte/despedido

Interessa-me a questão da destruição da arte. É uma modalidade de erosão da memória coletiva mais frequente do que estamos, espontaneamente, inclinados a pensar. A arte não detém, contudo, o exclusivo. Longe disso. Existem outros mundos alvo de apagamento da memória coletiva, alguns relativamente próximos da arte. É o caso de espaços de diversão e lazer tais como a Feira Popular de Lisboa ou o Palácio de Cristal do Porto devorados pela reconversão urbana. Em Braga, sucedeu algo semelhante à Bracalândia.

A propósito da exposição e do livro de fotografias, ambos com a mesma designação (Despedido), de Valter Vinagre (Narrativa, Alvalade), o jornal Público / ípsilon de hoje (18 de Dezembro de 2022, 7:46), dedica um artigo de fundo, da autoria de Sérgio B. Gomes, às “feridas” e às “cicatrizes” da Feira Popular de Lisboa, com o título “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Ousando extrair dois parágrafos, recomendo a leitura.

Nas sete fotografias de destruição da feira escolhidas por Vinagre — as mesmas, tanto para o livro (edição da Pierrot Le Fou, com ensaio de Emília Tavares), como para a exposição — só se vislumbram pormenores em segundos planos que identificam Lisboa. Este “fotografar de dentro para dentro” foi uma opção deliberada na tentativa de provocar “mais curiosidade” e de alargar o campo de discussão. “Ao fechar estas imagens, posso falar mais amplamente sobre destruição de memória colectiva, porque não as vemos apenas como fotografias de entulho da antiga Feira Popular, mas de qualquer processo de destruição de memória colectiva. Claro que elas pertencem a uma geografia, neste caso lisboeta, mas eu quero falar de um problema que é mundial, sobretudo das grandes cidades.

Se se perguntar hoje porque é que a Feira Popular de Lisboa acabou (ou foi acabando, consoante quem perguntar), a resposta pode ser tudo menos evidente ou simples. Um pouco como se se perguntar no Porto porque é que o antigo Palácio de Cristal foi destruído. Aqui, a resposta pode ser: porque a cidade não tinha um espaço para organizar o Campeonato Mundial e Europeu de Hóquei em Patins Masculino de 1952. Mas é sempre mais complexo do que um facto, um soluço, uma dificuldade, a falta de um campo de patinagem, um presidente, um vereador. E não é por acaso que muitos, dentro e fora do Porto, se referem ao actual Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota como ​“Palácio de Cristal”. Será um sinal de que as cidades são as pessoas, o usufruto que delas fazem, carregado com os seus imaginários, os seus quotidianos? Que cidade é Lisboa agora? É de ruínas que ainda falamos? “É. Quando olho para a cidade hoje, sobretudo a cidade que foi despejada, vejo-a cheia de cores, mas o que está à minha frente parece um filme — o que nos é dado a ver, porque já só quase vemos a cidade de fora —, é como se fosse um cenário. Os que viveram a cidade antes não conseguem abstrair-se do que existia. Por muito que gostemos de ver os bairros de Lisboa sem a decrepitude ou com condições de habitabilidade infra-humanas, aquilo que aconteceu é que deixou de ser isto para ser um artifício, um lugar a que não se tem acesso — ou melhor, só se entra nele se for para trabalhar, não para viver, porque não há poder económico para viver na cidade.

(Sérgio B. Nunes. Público / ýpsilon. “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Jornal Público, 18 de Dezembro de 2022, 7:46)

It’s the age, stupid! Discriminação etária

Edvard Munch. As quatro idades da vida. 1902. Bergen Kunstmuseum

Uma vez assente a poeira, gostaria de revisitar uma bolha mediática que, pela mão de políticos e da comunicação social, absorveu e preocupou os portugueses.

Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros (Título de artigo, 08 nov, 2022: https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2022/11/08/jovem-de-21-anos-sai-da-faculdade-para-o-governo-e-vai-ganhar-quatro-mil-euros/307102/).

Aponta-se o dedo, mediático, a uma “anomalia”: suspeita-se de entorse político. Até que ponto é admissível um jovem de 21 anos ir para o governo ganhar quatro mil euros? Inverto a pergunta: por que é que não é possível? Por causa da idade, por ter 21 anos? Este é o nó da discórdia, os outros argumentos convocados ou são meros corolários ou falácias. Assumir que um jovem de 21 anos não deve ir para o governo ganhar 4 000 euros, brutos, é um preconceito entranhado que se traduz numa discriminação abusiva baseada na idade. E, no entanto, quanta obra notável da história da humanidade empreendida por pessoas com menos de 21 anos na música, na arte e na literatura, na ciência e na técnica, na economia, na política e na guerra! Tal como não existe raça ou género, também não existe idade que diminua, à partida, um ser humano. Esta penalização pela idade, por mais espontânea que seja, nem sempre é bem-intencionada. Neste caso, o denunciante é tão suspeito quanto o denunciado.

A experiência profissional oferece-se, de algum modo, como um corolário da idade, um avatar preconceituoso, logo nem sempre justificado, que dificulta o acesso dos mais jovens à vida ativa. Configura um preconceito considerar mais garantia para a assessoria de um órgão do governo a experiência profissional, seja ela qual for, em detrimento das experiências política e de gestão associativa, sejam elas quais forem.

Em suma, discriminação e preconceito de braço dado.

Nirvana. Smells Like Teen Spirit. Nevermind. 1991. Vídeo oficial

Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros

(…) Um jovem de 21 anos que acabou recentemente o curso de Direito foi contratado para ser adjunto da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, sem ter qualquer experiência profissional.

Tiago Alberto Cunha vai ganhar cerca de quatro mil euros brutos por mês.

Segundo a nota biográfica publicada em Diário da República, Tiago acabou o curso de Direito no ano passado, na Universidade do Porto, e este ano ingressou no mestrado na Universidade de Lisboa, na mesma área.

Nas últimas autárquicas foi candidato à Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia pelo Partido Socialista, não tendo no entanto sido eleito. Ocupava o 32.º lugar da lista.

Entre 2020 e 2021, o agora adjunto de Mariana Vieira da Silva foi secretário-geral do Conselho Nacional de Estudantes de Direito (CNED).

Faz também parte da Assmblei de Freguesia de Vilar de Andorinho, em Vila Nova de Gaia.”

(https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2022/11/08/jovem-de-21-anos-sai-da-faculdade-para-o-governo-e-vai-ganhar-quatro-mil-euros/307102/)

Jean-Claude Combessie: O Método em Sociologia

Em março de 2020, em plena pandemia e ensino à distância, sugeri alguns textos para iniciação à metodologia e aos métodos e técnicas de investigação em Sociologia (ver Aula imaterial 2. A arte da sociologia: https://tendimag.com/2020/03/19/aula-imaterial-2-a-arte-da-sociologia/). Entre estes, constava O método em Sociologia, de Jean-Claude Combessie, meu antigo professor na Sorbonne. Não indicava, porém, nenhum link para descarga. Nunca é tarde. Pode descarregar agora o original, La Méthode en Sociologie, no seguinte endereço: https://www.academia.edu/36245797/Jean_Claude_Combessie_La_methode_en_sociologie. Existe tradução em português pelas Edições Loyola.

O ar e a água, a voz e o sonho, numa tarde de domingo

O quarto anjo toca a trombeta (Apocalipse 8). Iluminura do Beatus de l’Escorial, ca. 950-955.

“Dorme com os anjos e sonha comigo porque um dia poderás dormir comigo e sonhar com os anjos” (anónimo)

O Tendências do Imaginário é um blogue unipessoal nada participado. Tenho sonhado com o oposto, com uma alternativa. Está, nesse sentido, em vias de construção um blogue coletivo que reúne autores amigos das áreas da cultura, da arte e do imaginário. Por enquanto, sempre que se proporcione, atrevo-me a abrir exceções convocando uma ou outra pessoa. É o caso deste recanto que dedico à Almerinda Van Der Giezen: deu-me a conhecer Meredith Monk e enviou-me, há tempos, o seguinte texto que rivaliza com os melhores escritos dos melhores sonhadores de estórias.

Meredith Monk & Collin Walcott. Cow Song. Our Lady of Late. 1973. Banda sonora da série Dark. Netflix. 2017

[Nina e Saul]

por Almerinda Van Der Giezen

“Nina disse a Saul:
– Que querem dizer estas palavras?
E Saul respondeu:
– Pensei que querias brincar.
Ao que Nina replicou:
– Magoa?”
Saul correu, com as mãos a cortar o vento e gritou:
– Nina! Nina! Onde estás?
Silêncio.
Ouvia-se apenas um assobiar baixinho, por entre as moitas. Nina espreitava, com o olhar acossado, vigiava todos os gestos de Saul.
Quando ele de súbito a viu, estremeceu. Disse-lhe:
– Não tenhas medo. É só a brincar.
Nina foi escorregando pelo chão, muito cautelosa, até chegar a Saul.
Olhou-o muito séria e perguntou-lhe:
– Quanto é a “a brincar”?
Saul tem largos horizontes dentro, a brincar com as fronteiras.
Irradiante, secreto algoz, acomete-se na missão de ser, não sendo.
Tem o olhar fundo e maduro de quem sabe o tempo e ri, ri muito, estremece as casas com o ruído do seu desejo.
Mas, num soluço interior, enrola-se, quedo. Tem medo de não ser feliz.
“Vamos brincar “, diz à Nina.
Nina tem perguntas simples de respostas impossíveis, um olhar muito aberto a querer saber o mundo, muita inocência, muito medo.
Quer correr contra o vento, subir aos montes, molhar os pés no mar, fazer castelos na areia, rir…rir muito.
Mas pergunta: “Magoa?” “Quanto é brincar?”
Dois sopros contra um muro.
Dois trovões.
Estava Saul sentado na beira do caminho, os braços e o rosto pendentes.
Quieto.
Nina abermou-se dele. Aninhou-se a entrar em seus olhos escondidos.
– Tens medo?, perguntou-lhe.
Saul titubeou as pestanas e, confuso, disse, para o vento:
– É longe de chegar.  Onde se começa?
Nina sorriu, gaiata. Olhou as flores minúsculas que bordavam a vereda, e o horizonte sem fim.
– Não é tão bom ser o infinito? Vamos descobrir os duendes na curva da estrada.  Enganamo-los?
Saul levantou de súbito a cabeça, incrédulo, e riu, riu muito, de Nina. Para Nina. Ficou aos pulos de contente, disse até:
– Conheço aquele malandro de barbas ruivas e dentes podres de comer amoras. Vou fazer-lhe uma que não vai esquecer.
E continuava gargalhando, sem querer caminhando pela estrada que tanto o acabrunhara. Agora era ele que contava histórias loucas a Nina que, secreta, reinventava a força de prosseguir. “Tanto tempo!”, pensava, “vou fazer de conta que estamos no mar”.
E assim foram os dois cabriolando no céu limpo de dores, velhos êxtases, sensabores.
Era o prazer de voar. “
O mar.
Saul a chorar, copiosamente.
Nina, tão muda, olhando-o.
O sol, quente, a brilhar.
Silêncio.
Cintilação.
Nina, tão muda, olhando.
Saul que sorri, sereno.
Nina, tão muda.
Ali.
Saul havia-lhe feito recordar: a alegria, o riso, a leveza, o voo.
Agora Nina perguntava:
– Dói-te, o mar?
Saul, a pele branca do salitre, tardava em responder.
Nina ajeitava o mar, com lentidão, com toda a paciência. As ondas iam, e vinham bater nas suas mãos abertas, e escorregavam pelos dedos, sem pressa, até formar um fiozinho brilhante que deixava um rasto vivo na areia.
Saul mirava o horizonte, com o queixo levantado, como se assim segurasse o eixo do mundo. Lembrava a Nina aquelas figuras prestes a conquistar o vento. Faltava-lhe apenas uma vela.
O vento assobiava, a rasar os cabelos e a pôr gotas no olhar.
Fitavam os dois o risco.
Sonhavam.
Saul virou as costas a Nina, caminhando pela areia, rumo ao tempo. Ela lembrava-lhe as dores dos primeiros passos, os tropeços, as corridas nos labirintos. E… não. Nina não entendia, levava-o para o remoinho. E olhou subitamente para a água, que remexeu em espiral, junto aos seus pés, plantados.
Ouviu a voz de Nina:
– Também estás aí. Podes fugir, mas as voltas enredam-se em ti.
– E tu? – pergunta Saul, sem se virar.
– Eu não sou um enredo.
– Porquê?
– Dou-te a mão.
– E se eu não quiser?
– A mão é longa e transparente, nunca te cortará.
– E se eu ainda não quiser?
– É porque pensas que eu quero.
– Não?
– Não.
– Explica-me.
– Quando brincávamos… lembras- te quando eu te fazia fintas e tu me insultavas?
– Às vezes era um sufoco.
– A minha mão estava sempre na tua.
– Eu não queria.
– Não querias, mas aquietavas-te.
– Tu, às vezes…
– Demais?
– Demais, sem mais – disse ele.
– Demenos, sem menos – disse ela.
– Queres que me volte? para o lado? para trás?
– Gostava que visses onde estou.
– Atrás de mim.
– Vê.
Saul virou-se bruscamente. Nina brincava com as ondas, em direcção ao mar. Abria os braços, com deleite, o peito aberto à brisa suave e melodiosa que enchia o ar.
– E agora, Nina, que me queres dizer?
– Quero dizer-te…
E, num gesto firme, Nina pegou-lhe na mão e levou-o para as ondas. Sentou-se na água, e pediu:
– Conta-me a história da amizade. O mar não sabe falar, e eu, às vezes, perco-me nas ondas.
– Eu tenho medo das ondas.
– Tens medo de mim?
Saul olhou-a. Saberia responder? Teve vontade de deixá-la de novo e voltar a caminhar na praia. Ela e aquelas perguntas…
Nina sorriu e disse-lhe:
– Lembras-te do amigo que ninguém te roubaria, porque ninguém sabia? Porque ninguém podia?
E acrescentou:
– Tenho a memória funda. E sou inviolável. Não queres ficar?
Saul sentou-se à beira dela, perguntou:
– Como é “querer ficar”?
Nina deu-lhe a mão. Olhou o mar. Disse:
– Sabes, é bom ter-te a meu lado…para perguntar-te coisas…
Saul, de repente, ficou com o rosto afogueado, a pergunta a queimar-lhe a garganta.
Nina não sabia se era a água salgada, se a inocência cruel que sustinha aquele nó. Saul olhava-a em súplica, sem emitir um som, fundo de uma espécie de agonia que Nina aplacava com o pensamento, dizendo, para si
” os caminhos da iniciação são fundos e feitos de lajedos; é preciso inscrever aí a pele”
Nina, me-nina!
Retornou ao lugar. A memória havia-a levado longe do horizonte, e Saul surtia no brilho do clarão verde, um susto de beleza.
“Adeus, Saul”, apeteceu dizer-lhe. Mas lembrou-se como essa palavra era tão “olá, como vais?”
– Vou viajar, responde-lhe Saul – não sei como voltarei. Trar-te-ei um pouco dos dias para que tu me contes uma história para eu adormecer.
– É, eu nunca fico. Realmente.
– Não querias?
– Gostaria, com amor.
Saul não se cansava de se surpreender. Que lhe dizia ela? Com amor? De que falava?
– Falo-te do futuro, das minhas memórias lendárias, do sopro que alimenta o mundo. Sabes como fantasio…
Saul deu-lhe um beijo, um segundo beijo, avidez, os lábios derrapando na pele de Nina. Que tormentos?
Deixou-a ir, com placidez, não a viu olhar para trás. Também não olhou para trás.
Sorriem. O vento já sopra baixinho, o mar veste-se de luz e a areia gorgoleja fantasticamente na pele do tempo. Sudações do Verão.
Verão.
Meninos caminhando na praia, com puro ardor no calor do
Verão. As ondas vão e vêm, afagando-lhes os pés cansados. Riem. Atiram pequenos seixos ao largo. Correm na desmesura do sossego quieto da tarde cálida.
Meninos. Caminhando na praia.
Mas o Verão ainda não havia chegado.
O mar continuava revolto e Saul, incólume, virava-lhe as costas, construindo as suas ameias, enfeitadas de conchas e algas esquecidas. Apenas, de quando em quando, mirava de soslaio o mar, não fosse surpreendê-lo, e ao seu castelo murado.
Nina, ao longe, alargava os passos, vagarosa. Num tropeço, caiu sobre si, e foram os seus soluços estremes que acordaram Saul. Caminhou até ela, mais curioso que preocupado, certo da fortaleza de Nina, suave declinar nas palavras.
Quando se aninhou junto dela, teve de lhe erguer a cabeça, que ela teimava em enfiar entre os joelhos, balouçando-se para trás e para a frente, as mãos cerradas como punhos, donde se escoavam grãos de areia.
Olhou-a. Pela primeira vez.  Olhou-a no fundo dos seus olhos e viu, viu tudo. O horror, a tristeza infinda, a ternura, a sede, a dor, a transparência. Apeteceu afogar-se ali, naquele mar de solidão. Perguntou-lhe assim:
– Que foi, Nina?
– A areia está a transformar-se em sal. Que faremos da cegueira? – e, ao dizer isto, lágrimas de areia perdida rolavam pela pele branca de espuma.
Saul teve o primeiro gesto de marinheiro da sua vida. Inclinou-se, e delicadamente, com a ponta dos seus dedos, retirou, um a um, os grãos do sal mordente do rosto de Nina.
Ela olhou-o longamente, a mágoa a sumir-se na luminosidade reencontrada. Agradeceu-lhe:
– Sabes, tenho uma vela de um barco antigo, lá, no meu sótão. Está um pouco rota, mas cosê-la-ei para ti.
E sorriu. Com mil estrelas.
Saul baixou a cabeça, timidamente, e foi até ao mar. Juntou alguma água entre as mãos e foi regar o seu castelo, vendo-o desfazer-se lenta e docemente.
Disse a Nina:
– O Verão está a chegar.
– Saul?
– Nina…
– É tempo de ir à floresta.
– E o barco?
– É o sonho…
– E o frio, as sombras?
– É só o medo. As sombras são as nossas mortes.
– E os picos, as silvas? Como fazemos?
– Desvia-as suavemente, como se as afagasses, e a dor não te cortará. Respira a floresta como se faz o amor.
– Nina, preciso de luz.
– Há sempre uma clareira na floresta, Saul.
– E duendes?
– Estamos no tempo das cerejas. Divertem-se a construir pequenas casas com os caroços e os seus telhadinhos feitos de caules. Abrigam-se no tronco da cerejeira louca com flores do Japão. Outros, armam-se de fisgas, a desafiar os ouriços do castanheiro bravio. Existe também uma pequenina fada, com cabelos de miosótis, que tinge os lábios nos morangueiros silvestres. E à noite, o céu deita-se na erva fofa e salpica-se de todas as estrelas sonhadas pelo arco-íris. A lua cobre todos os segredos. Há quem diga até, que nessas noites quentes e azuis, o velho e sábio carvalho entra nas danças de roda, e de mãos dadas com as campainhas cor de oiro, se faz rosado de luz, e ri, muito verde, feito menino. A terra sussurra músicas encantadas e os musgos acariciam-lhe o ventre. Os pirilampos espreitam no meio dos embaraçados arbustos que tapam a vereda. No pequeno lago, os nenúfares bailam, de mansinho, e pedem…um toque de pétala…uma asa de borboleta…
– Nina?
– Saul…
– É tempo de irmos à floresta.
– Depois ensinas-me o mar? “
(Almerinda Van Der Giezen)
Meredith Monk. Do You Be. Key. 1971
Meredith Monk. Memory song. Do You Be. 1987. Bang on a Can All-Stars com Meredith Monk, Theo Bleckman & Katie Geisinger, 2011

Indolência extravagante

  • AS LENTAS NUVENS FAZEM SONO
  • Indolência aberrante
  • As lentas nuvens fazem sono,
  • O céu azul faz bom dormir.
  • Bóio, num íntimo abandono,
  • À tona de me não sentir.
  • E é suave, como um correr de água,
  • O sentir que não sou alguém,
  • Não sou capaz de peso ou mágoa.
  • Minha alma é aquilo que não tem.
  • Que bom, à margem do ribeiro
  • Saber que é ele que vai indo…
  • E só em sono eu vou primeiro.
  • E só em sonho eu vou seguindo.
  • (Fernando Pessoa, Poesias Inéditas, São Paulo, Poeteiro Editor, 2014)

De evento em evento, não me apetece pensar. Pasmo, escuto música e embalo os sentidos. Abandono puro. Não me serve qualquer música. Nem dos gavetões, nem das estantes, mas das raras e singulares, que releguei para as pastas de arquivo. Por exemplo, o folk psicadélico “esquisito” (weird) de Devendra Banhart, que, por sinal, adora Portugal. Conhece?

“O cantor norte-americano Devendra Banhart gostou tanto da recepção que obteve durante o “Festival para Gente Sentada”, realizado na cidade de Santa Maria da Feira, que decidiu homenagear a cidade nesta bonita canção interpretada em espanhol/castelhano” (Devendra Banhart encanta-se por “Santa Maria da Feira” (2005). Portugal através do mundo: http://portugal-mundo.blogspot.com/2007/11/devendra-banhart-encanta-se-por-santa.html).

Devendra Banhart. Santa Maria da Feira. Cripple Crow. 2005

Em 2020, regressou a Portugal para apresentar o álbum Ma. Segue a gravação da canção Is This Nice na Antena 3. O vídeo 4 retoma esta canção mas em versão estúdio.

Devendra Banhart. Is This Nice?. Ma. 2019. Ao vivo na Antena 3, Portugal, fevereiro 2020

Acrescento a interpretação acústica de Never Seen Such Good Things, um dos seus maiores sucessos.

Devendra Banhart. Never Seen Such Good Things. Mala . 2013. Ao vivo, L’Express, 2013
Devendra Banhart. Is This Nice. Ma. 2019. Versão estúdio.