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Previsões e antecipações

Wim Wenders. As asas do desejo.1987

Wim Wenders. As asas do desejo.1987.

Há anúncios que nos revisitam sem que tenhamos que andar para trás. O anúncio What now, what next, do Now Magazine, é notável. Um homem (ou um anjo) mediante gestos inesperados, alguns bruscos, salva pessoas de acidentes mortais. Corrige a marcha do tempo. Seguiram-se anúncios congéneres promovidos por outros órgãos de comunicação social. A comunicação social tem esta sina: prever para precaver. Não para de antecipar! Socorre-se, amiúde, de self fulfilling prophecies (William I. Thomas). Antecipar e anunciar faz parte do seu poder, o quarto poder.

As sondagens são as bruxas da política e as fadas da comunicação. Importa soletrar o futuro. Como seriam as eleições sem as sondagens? E os resultados eleitorais como seriam se a comunicação social, em vez de apregoar que (1) o candidato A vai ganhar, desconhecendo-se apenas por quantos pontos, sustentasse que (2) a disputa é acesa ou que (3) o candidato B denota uma dinâmica de vitória? São perguntas importantes para a democracia. É costume não se encontrar respostas, apenas indícios. Subsiste uma margem de ambiguidade: onde para a notícia e começa a propaganda? A “velha sociologia norte-americana” dos anos trinta a cinquenta ousou debruçar-se sobre estes problemas. Quanto à novíssima sociologia internacionalizada, desconheço a obra.

Marca: Now Magazine. Título: What now, what next. Agência: Hasan & Partners. Finlândia, 1999.

O tamanho do poder

Na fantasia histórica, não existe baixinho mais célebre do que Napoleão Bonaparte. O psicólogo Alfred Adler chamou, inclusivamente, “complexo de Napoleão” ao sentimento de inferioridade associado à estatura. Na realidade, considerando a época, Napoleão não era assim tão baixinho. Media entre 1,68 metros, medidos pelo seu médico. Na primeira metade do século XIX, o homem tinha em média 1,62 metros: 6 a 7 cm menos que Napoleão. A ideia de Napoleão como anormalmente baixo pode decorrer de uma ilusão: aparecia em público rodeado pela guarda imperial, composta por autênticos gigantes. A moldura não lhe era favorável. Existem várias explicações. Acrescento duas. Tendemos a associar o poder à altura. Abraham Lincoln (1.93) e Charles de Gaulle (1,96) são dois casos exemplares. Mas abundam as “excepções”. A estatura corporal e a estatura política de Napoleão revelam-se divergentes, o que o rebaixa. Por outro lado, pode-se conjecturar que as elites eram mais altas do que a população em geral. Entre as elites, Napoleão era comparativamente baixo, como se comprova no quadro de Nicolas Gosse:

Nicolas Gosse - Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807

Nicolas Gosse – Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807.

Na imaginação publicitária, Napoleão é mesmo baixinho. No segundo anúncio, Napoleon, do Al Balad Newspaper, é associado a uma criança que se esforça por trepar à mesa de bilhar. No primeiro anúncio, Follow the leader, da Garmin, Napoleão conduz, invisível, um carro minúsculo. Vale-lhe o GPS. No fim do anúncio, Napoleão e o seu ”pónei” contrastam com a envergadura da guarda imperial e respectivos cavalos.

Marca: Garmin. Título: Follow the leader. Estados Unidos, 2008.

Marca: Al Balad Newspaper. Título: Napoleon. Agência H&C Leo Burnett Beirut. Direcção: Carlos Lascano. Líbano, Março de 2009.

Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

A aranha e a mosca

MM-ART. La mouche

MM-ART

Fala-se pouco das sociedades secretas, mas existem. Com proveniências e poderes diversos, as sociedades secretas conjugam efeito e proveito. Garantes da desigualdade, os seus membros dispõem de recursos que os outros concidadãos nem sonham. São redes de dependência pessoal seletivamente performativas, mais invisíveis do que as teias de aranha: “um certo modo de processamento da desigualdade” (Balandier, Georges, “Les relations de dépendance personnelle”, Cahiers d’Études Africaines, Année 1969, 35, pp. 345-349). Dan Brown dedicou-lhes vários livros. Por seu turno, a McDonnells dedica-lhes um anúncio: Chippus Currius. Entretanto, enredamo-nos como moscas tontas.

Marca: McDonnells. Título: Chippus Currius. Agência: Boys + Girls. Direcção: Chris Cottam. Irlanda, Setembro 2018.

O Tendências do Imaginário não tem nenhuma canção dos Les Compagnons de la Chanson. Uma falha.Ainda se vai a tempo. La Mouche não é um dos seus maiores sucessos, mas tem a virtude de falar, com bom humor, da nossa relação com as moscas.

Les Compagnons de la Chanson. La Mouche. Live à l’Olympia. 1983.

 

Até que a morte nos separe

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway.

Na Internet, esta escultura de Gustav Vigeland aparece quase sempre intitulada: “Até que a morte nos separe” (Till Death Do Us Part). A designação original é: “Death Parting Man and Woman (“A Morte Separando um Homem e uma Mulher”). O sentido é praticamente o mesmo: a separação pela morte.

Apetece-me desconversar. Renovemos o olhar. A escultura apresenta um homem e uma mulher abraçados e a Morte a interpor-se. Lembra as danças macabras. Mas o casal não está separado nem a morte está em pose de triunfo. O casal continua abraçado e a morte concentrada no seu trabalho. Será que o Amor pode resistir à Morte?

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

“Falava Camões daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Todos resistimos à mortalidade, uns valerosamente, outros nem tanto” (Rita Ribeiro). Camões sabe que não é apenas “por obras valerosas que nos vamos da lei da morte libertando”, pelo amor, também. No Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel o Velho, ninguém escapa à fúria de Morte. Ninguém excepto um par de namorados, alheados da tragédia envolvente (ver no canto inferior direito do quadro da Fig. 11). Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Pedro e Inês, “da lei da morte se libertaram”.

11. Pieter Bruegel the Elder - The Triumph of Death (1562).

11. Pieter Bruegel the Elder – The Triumph of Death (1562).

As obras de arte permitem várias interpretações, por vezes, opostas. São polissémicas. Quem vence? O Amor ou a Morte? Depende da perspectiva. Como num poema de Clarice Lispector, se o olhar desce, surpreende a morte a separar o casal; se o olhar sobe, vislumbra o casal a resistir à Morte. As obras de arte ganham em ser ambivalentes.

Qual é a opinião do escultor? Ignoro. Mas, por importante que seja, não é a única nem, porventura, a mais decisiva. Esta é uma questão polémica no seio da sociologia da arte. A interpretação alternativa resume-se a um enxerto de sentido, neste caso, apressado e atrevido? Naturalmente. É um mero exercício de pensamento, que convoca um provérbio distinto: “nem a morte nos separa”. Mas a sina das obras de arte reside, precisamente, em incorporar as interpretações que suscita, incluindo as mais bárbaras. Esta é outra questão polémica na sociologia da arte.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

Gustave Vigeland (1869-1943) é um reputado escultor norueguês. Em 1921, a cidade de Oslo disponibilizou-lhe um estúdio em Frogner, nos arredores de Oslo. É o início de uma obra monumental que culmina no actual parque Vigeland. Desenha o parque, ao mesmo tempo, que introduz as esculturas. Começa com o Monólito (Fig 3) e a Fonte (Fig 6 ). No conjunto, são mais de 200 esculturas da sua autoria. O Parque Frogner/Vigeland, o maior da cidade de Oslo, destaca-se como uma maravilha mundial.

Esculturas de Gustav Vigeland. Vigeland Park. Oslo. Noruega.

Passar pela Noruega sem ouvir Edward Grieg não me parece bem. Edvard Munch pode esperar. Opto pela famosa Solveig’s Song. A canção termina com os seguintes versos:

“If you are in heaven now waiting for me
In heaven for me
And we shall meet again love and never parted be
And never parted be!”

(Edward Grieg. Solveig’s Song).

No céu, ninguém nos separará! Nem sequer as asas dos anjos.

Edward Grieg. Solveig’s Song. Peer Gynt. Intérprete: Marita Solberg. Direcção de Neemi Jarvi.

O nariz de Cleópatra: o presente no passado

Não fosse a Dra. Aida Mata convidar-me para uma comunicação sobre a memória num encontro no Mosteiro de Tibães, este texto nunca teria sido escrito. Pouco se perdia!

Não vou falar do que me ensinaram, mas do que aprendi com a experiência. Na verdade, vou contar histórias.

Há trinta anos, costumava, durante as férias, entrevistar pessoas de idade. Tive, por exemplo, o prazer de entrevistar o tio M. Tinha, então, 99 anos e a mulher, 101. Contou um episódio da sua juventude: a organização da procissão do Enterro do Senhor. Uma canseira! Andou tanto a cavalo (estamos no início do século XX) que ganhou feridas no rabo. A procissão sai, com o caixão, de uma capela particular, circunda o cruzeiro e entra no largo com entroncamento para a igreja, onde aguarda uma multidão. Ouve-se um estrondo. O caixão abre e o pregador assoma aos gritos: “Que fizeste, levitas? Mataste o vosso irmão…”

No ano seguinte, domingo de Páscoa, passo pela casa do tio M. O ambiente é de consternação. O tio M. está prostrado com os olhos postos no teto. Sem reconsiderar, sento-me na cama, pego-lhe na mão e segredo-lhe ao ouvido: “Tio M., lembra-se da procissão do Enterro do Senhor?” O tio M. ergue-se, encosta-se à cabeceira e recita, em voz alta, o sermão da procissão do Enterro do Senhor. Qual não foi o espanto geral! Despedi-me sem demoras.

O poder da memória é incomensurável. Individual ou colectiva, a memória é uma potência mobilizadora no presente. É no presente que vive e surte efeito. E alastra-se ao futuro. « O futuro pertence àquele que tem a memória mais longa » (atribuído a Friedrich Nietzsche).

Tenho uma predilecção pelas entrevistas de grupo. Conversar com velhotes, num pátio com ramada, sentados à volta de uma mesa imaginária, gratifica o sociólogo. As entrevistas individuais tendem a ser mais axiais e mais pré-construídas. A vida desfia-se numa “ilusão biográfica” (Bourdieu Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, juin 1986). Importa que a palavra saia dos eixos da cristalização identitária. Isto é difícil de explicar, mas fácil de entender para quem recolhe relatos de vida. As entrevistas de grupo conjugam concentração e descentramento. Atardam-se em ambientes, processos, redes e interacções, numa espécie de deambulação de memórias e afectos. As entrevistas de grupo proporcionam, nos momentos felizes, uma “deslocação” no espaço e no tempo. Memória puxa memória, desejo acende desejo, gesto convida gesto, e eis o advento da alquimia: com o corpo no presente, mergulha-se no passado. Um retorno aberto, vivido e partilhado.

Miguel Torga descreve o fenómeno:

“Estávamos em Paris, o criado que nos servia falava francês, na ementa não figurava bacalhau, e o vinho era um Bordeaux qualquer. Mas nenhuma destas razões impediram que se realizasse o milagre que o nosso anfitrião certamente esperava. Depois das primeiras garfadas, a conversa tomou tal rumo e tal calor, que daí a nada tudo se passava como se o restaurante fosse uma tasca da Alta e vivêssemos nela uma hora coimbrã. Insensivelmente, todos se deixaram arrastar pela onda saudosista. O próprio Navarro, o mais relutante à tentação, acabou por não lhe resistir, a contar também, a evocar, a meter carvão na fornalha. Os episódios sucediam-se, cada qual o mais pitoresco ou irreverente, as guitarras gemiam, os rouxinóis cantavam, o luar radiografava o Choupal” (TORGA, Miguel, A Criação do Mundo, Coimbra, 1991, p. 296).

Viver o presente no passado é experienciar o passado como se fosse presente. Mas este “milagre” não acontece por geração espontânea. Requer, além da “cumplicidade dos astros”, arte, saber e jeito.

O entrevistador pergunta: “E das modas, gostavam das modas?”

Por entre palavras, imagens e emoções, a tia B recorda uns sapatos que levou ao baile junto à capela dos Bouços. Eram tão bonitos! E os seus 86 anos envaidecem-se. Os outros dois velhotes pegam ao palio: “Eram mesmo bonitos! ”. Atingir este nível de pormenor e insignificância é bom sinal, é sinal que a entrevista não desmerece. Quando a conversa envereda por este rumo, conquistamos o acesso ao presente do passado. Mas a técnica não é fácil. Perguntar se gostavam das modas não é o mesmo que perguntar como eram as modas. São chaves distintas: a primeira convoca um relator e a segunda, um actor. Por seu turno, a palavra “modas”, em vez de “danças”, remete empaticamente para o passado, para aquele passado. A aproximação das línguas, mesmo que utópica, é um aconchego para a comunicação. A dança da memória tem muitos passos e improvisos.

Há cerca de dez anos, participei na criação do Espaço Memória e Fronteira (inaugurado em 2007), em Melgaço. O senhor L foi “lugar-tenente” de um dos maiores contrabandistas da região. Granjeava a reputação de não ter igual a atravessar o rio Minho numa batela (embarcação típica). Numa das nossas conversas, propôs-se fazer uma reconstituição da passagem de contrabando no rio Minho. Tinha cerca de 80 anos!

  1. Aproximou a batela da margem do rio (fotografia 1);
  2. Cortou ramos de árvores para os colocar na batela (fotografia 2);
  3. Retirou a água que estava no interior da batela;
  4. Colocou a carga na batela (fotografia 2);
  5. Acena em direcção à outra margem (fotografia 3);
  6. Atravessa o rio (fotografias 4 e 5).

Travessia de contrabando no rio Minho. Reconstituição.

Não é apenas nos casos de polícia que a reconstituição propicia informação relevante. Desconhecíamos o recurso aos ramos de árvore para protecção da carga. Tão pouco sabíamos dos acenos para a outra margem. “A experiência he madre das cousas” (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, 1506). Antes da passagem do contrabando, um “batedor” insinuava-se na outra margem para vigiar os passos da Guarda Civil. Cumpria-lhe assinalar se a passagem era segura.

A reconstituição foi um momento de aprendizagem. A batela descansa, agora, no Espaço Memória e Fronteira, junto a uma fotografia com a travessia do rio Minho. Os ramos na batela constituem uma curiosidade inesperada para os visitantes.

Espaço Memória e Fronteira

Espaço Memória e Fronteiro. Melgaço.

A nossa relação com o passado é problemática e polémica. “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670). Em poucas palavras, Pascal toca na ferida da contingência histórica. Na mesma linha, Ernst Bloch (Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução, 1921) alerta: se é verdade que a história está cheia de impossíveis realizados, não está menos cheia de possíveis não realizados. Contemplar o presente no passado é captar a história enquanto se faz. No início dos anos sessenta, Portugal envolveu-se na Guerra do Ultramar, mas, na altura, existiam alternativas. Bastava ceder às pressões internacionais. Como seria, hoje, Portugal sem a “herança” da Guerra Colonial?

Nós insistimos em descarnar o passado, extraindo-lhe a incerteza do momento presente. Para muitos, a história é uma extensa peregrinação rumo à contemporaneidade. Como se a história não fosse trágica. Assim se servem os banquetes e as migalhas do nosso entendimento.

Na Internet, não há sinopse que não sublinhe que o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1940) “saiu um ano antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1941)”. Que nos diz este apontamento sobre o filme? Não seria mais ajustado informar que o filme se estreou um ano após o início da Segunda Guerra Mundial? Isto é tique, isto é vício. Vício de ler a história de frente para trás. Incapacidade de ancorar no tempo, de sondar os horizontes do passado.

Compreender o passado é difícil. Compreender-nos a nós próprios, também. Há muitas formas de lidar com o passado: ignorar; dissecar; conservar; restaurar; revitalizar; desvirtuar… Está em voga carnavalização da memória. Proliferam iniciativas que arremedam o passado para gáudio do presente. A todos os níveis, com todos os pretextos e para todos os públicos. Canibalizar, perdão, carnavalizar a memória é timbre do nosso tempo. Uma presentificação festiva.

Alimentação e diálogo cultural

Gargantua. Gravura de Gustave Dore. 1854.

Gargantua. Gravura de Gustave Doré. 1854.

“Qual é a importância de todas essas imagens do banquete?
Já explicamos que elas estão indissoluvelmente ligadas às festas, aos atos cómicos, à imagem grotesca do corpo; além disso, e da forma mais essencial, elas estão ligadas à palavra, à conversação sábia, à verdade alegre. Já notamos enfim a sua tendência inerente à abundância e à universalidade (…). Na absorção de alimentos, as fronteiras entre o corpo e o mundo são ultrapassadas num sentido favorável ao corpo, que triunfa sobre o mundo (…) Essa fase do triunfo vitorioso é obrigatoriamente inerente a todas as imagens de banquete. Uma refeição não poderia ser triste. Tristeza e comida são incompatíveis (enquanto que a comida e a morte são perfeitamente compatíveis) (…) O triunfo do banquete é universal, é o triunfo da vida sobre a morte. Nesse aspecto, é o equivalente da concepção e do nascimento” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na idade média e no renascimento, São Paulo, Hucitec, pp. 245 e 247).

E não digo mais! Apenas o seguinte: o banquete é um dos principais lugares de comunhão. Comunhão com o outro, comunhão com o mundo e comunhão com a transcendência. No banquete, serve-se e come-se o pão e o vinho. O vocabulário do banquete, do comer, é, porventura, o mais rico independentemente da língua. O anúncio Zomer, da Plus Supermarkets, foi particularmente feliz ao eleger a troca alimentar como charneira do diálogo cultural.

Marca: Plus Supermarkets. Título: Zomer. Agência: JWT Amsterdam. Direcção: Ismael ten Heuvel. Holanda, Agosto 2018.

Inversão de papéis

Aruba

“Aruba es uno de los destinos más románticos del caribe. #HeSaidYes es una iniciativa de la Isla Feliz que invita a las mujeres a cambiar los roles del amor”.

Trata-se de uma inversão dos papéis de género num gesto densamente simbólico: o pedido de casamento. Um anúncio polémico? Sinais dos tempos? Crítica de clichés? Pequenos passos a caminho de grandes mudanças?

Ressalvando o Mamma Mia, o pedido de casamento é um ritual em vias de esvaziamento social e simbólico. Ainda do meu tempo, a família do futuro noivo deslocava-se a casa da futura noiva para pedir a sua mão. Algumas décadas atrás, negociavam-se os dotes e os contratos de casamento. Há alguns séculos, a comitiva da prometida deslocava-se em coche durante dias e dias para ir ao encontro do prometido. Quanto às novas gerações, vai chegar a altura em que um sms basta (ou talvez não).

Ao visionar o anúncio, insinua-se uma dúvida: quem influencia a escolha dos destinos turísticos? Ele? Ela? Ambos? Os filhos? Pelos vistos, elas são as mais influentes na escolha dos paraísos terrestres, como a ilha Feliz, em Aruba.

Marca: Isla de Aruba. Título: #HeSaidYes. Agência: Mullen Lowe Bogotá. Colômbia, Agosto 2018.

Saudades! Saudades de quê? De pedidos de casamento como o do anúncio Marry Me, da Siemens.

Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

 

Vento do Norte

Led Zeppelin IV. Capa.

Led Zeppelin IV. Capa.

“Imaginar-me-ia dificilmente que o diabo fosse misantropo” (Johann Paul Friedrich Richter dito Jean-Paul, 1763-1825).

Debate-se na sociologia a existência de actores ou, em alternativa, de agentes. Com recurso a palavras mágicas tais como “habitus” e “agência”. Em Moledo, pasmam os corpos e derretem os neurónios. Nem reactores, nem reagentes. Só ovos estrelados com protector solar. Tanto prazer em massa sem descarga energética. Nem o anúncio Supermodel, da LG, me consegue animar. Opto por colocar os Led Zeppelin nos auscultadores e dar uns pontapés na espuma do mar. Nem actores, nem agentes, só ovos estrelados. Nem sequer mexilhões. E eu, misantropo, à espera, à espera do vento do Norte ou das nuvens do Sul.

Marca: LG. Título: Supermodel. Agência: Young & Rubican. Direcção: Dave Klaiber. Austrália, Abril 2012.

Led Zeppelin. Black Dog. Led Zeppelin IV. 1971

Modernidades

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946.

Quanto mais observo a sociedade, menos leio os sociólogos. Dizem que somos pós-modernos… Quando saio de casa, saio da modernidade e quando entro na universidade, na modernidade entro. Duvido que tenha existido algures universidade mais moderna do que a actual. Não sou um incondicional do Jurgen Habermas (O Discurso filosófico da modernidade, 1988), do Anthony Giddens (As consequências da modernidade, 1990), nem do Gilles Lipovetsky (Os tempos hipermodernos, 1985), mas atrai-me a ideia de a pós-modernidade não passar de uma faceta, de uma das máscaras, da hipermodernidade ou da modernidade tardia. Para complicar, duvida-se que tenhamos sido modernos…

“A modernidade jamais começou. Jamais houve um mundo moderno. O uso do pretérito é importante aqui, uma vez que se trata de um sentimento retrospectivo, de uma releitura de nossa história. Não estamos entrando em uma nova era; não continuamos a fuga tresloucada dos pós-pós-pós-modernistas; não nos agarramos mais à vanguarda da vanguarda; não tentamos ser ainda mais espertos, ainda mais críticos, aprofundar mais um pouco a era da desconfiança. Não, percebemos que nunca entramos na era moderna. Esta atitude restrospectiva, que desdobra ao invés de desvelar, que acrescenta ao invés de amputar, que confraterniza ao invés de denunciar, eu a caracterizo através da expressão não moderno (ou amoderno)” (Latour, Bruno, Jamais fomos modernos, São Paulo, Editora 34, 1994, p. 51).

M.C. Escher. Devils. 1950.

M.C. Escher. Devils. 1950.

Pensar deste jeito baralha-me. Não obstante esta encruzilhada baptismal, estimo que o anúncio Les Français et la route, da Sécurité Routière, corresponde a um discurso moderno. Obra de uma burocracia, evidencia uma narrativa linear, com princípio, meio e fim. O objectivo, assumido, é claramente conseguido e o desempenho devidamente medido. O projecto engloba subprojectos calendarizados, articulados e hierarquizados. Eficaz, convoca e vence os obstáculos mais ou menos bárbaros: os recalcitrantes e os inconscientes. Em suma, a acção, que visa a sensibilização dos cidadãos, é racional. Ao contrário do que sustenta Michel Crozier (On ne change pas la société par décret, Paris, Fayard, 1979), com autoridade, razão e técnica, não é impossível mudar a sociedade por decreto.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

Em voz baixa, posso ousar uma confissão. Ao arrepio do comando e do primado epistemológico da teoria, nas minhas investigações concretas, as teorias da pós-modernidade, da modernidade líquida, da modernidade tardia e da hipermodernidade de pouco préstimo se têm revelado. Têm sido úteis para quase nada. São faróis que não me ofuscam. Tenho um defeito de estimação: durante a investigação, não sirvo a teoria, sirvo-me dela. Nesta perspectiva, encaro o “estado da arte” e a “revisão da literatura” como rituais de iniciação e, porventura, de menorização do investigador. Capacitar-se teoricamente é tarefa sem início nem fim, onde cabem, eventualmente, o estado da arte e a revisão da literatura. A  reflexão teórica quer-se activa e criativa. Reconfesso: nunca a actividade científica me pareceu tão burocrática como hoje. E ainda pedem mais! Os críticos da burocratização da ciência Pitirim A. Sorokin (Fads and Foibles in Modern Sociology, 1956), C. Wright Mills (A imaginação sociológica, 1959) e Alvin Gouldner (Anti-Minotaur: The Myth of Value-Free Sociology, 1964) não concebiam, há meio século, tamanha teia burocrática. O cientista move-se, cada vez menos, pela vocação (Max Weber, A ciência como vocação, 1919) e cada vez mais pelo rendimento. Torna-se mensurável. Proletariza-se. Às voltas com metas e milestones.

O anúncio da Sécurité Routière, bem conseguido, aposta na eficácia. Oferece ao público um efeito de espelho. Assinalar, legitimar, disciplinar, eis uma tríade que mais que moderna, é simplesmente humana.

Marca: Sécurité Routière. Título: Les Français et la Route. Agência: La Chose. França, Maio 2018.