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A espuma do desejo e a aritmética da fecundidade

Sou um demógrafo descontinuado. Na licenciatura em Sociologia, optei pela especialização em Demografia. Sete disciplinas, com excelentes professores: Alain Girard (Théories Démographiques; Prospective Démographique), Léon Gani (Démographie), Thérèse Hibert (Analyse Démographique I e II), Alain Norvaez (Méthodes Quantitatives) e Catherine Rollet (Démographie du Tiers Monde). Neste texto breve, a facilidade de acesso à informação justifica o recurso a estatísticas francesas.
Apresentei, com o José Machado e a Rita Ribeiro, no dia 11 de setembro, no Jardim do Solar dos Castros, em Vila Nova de Cerveira, o livro Demografia: É Tempo? de dar mais Tempo à Natalidade e aos Fluxos Migratórios, da autoria de Fernando Cabodeira, editado pela Afrontamento.. Carregar nos gráficos para os aumentar.

O decréscimo da natalidade concita vários temas. Por exemplo, a estabilidade e a confiança no futuro; as políticas natalistas; e a participação das mulheres na vida activa. Proponho uma alternativa romântica: ter ou não ter filhos depende do desejo. A fecundidade diminui porque diminui o desejo de ter filhos. O problema é profundo.

Desde os anos sessenta, Portugal e a Europa conheceram períodos de prosperidade, segurança e esperança, tais como os anos sessenta e os anos noventa. Mas a fecundidade manteve a tendência negativa. A confiança é, apenas, um dos motivos plausíveis.

Fonte: PORDATA.

As políticas natalistas estão na ordem do dia. Prémios ao nascimento, subsídios e demais almofadas. Esforço ingrato. As políticas multiplicam-se e a fecundidade declina. A França, com o índice de fecundidade mais elevado da Europa, configura uma exceção. Iniciou, nos anos setenta, uma política natalista pioneira e arrojada. Se na maioria dos países europeus a fecundidade desceu, em França manteve-se numa espécie de planalto (1978, 1.89 filhos por mulher; 2017, 1,90; ver gráfico 1). Mas as medidas natalistas beneficiaram de outros contributos.

A França afirma-se, em 2008, como um dos países europeus com mais imigração, se incluirmos a segunda geração (ver Gráfico 2).

Fonte: INSEE.

A fecundidade das mulheres imigrantes supera a das “francesas”. Em 2008, o índice de fecundidade ascendia a 1,89, nas mulheres nascidas em França, e 2,89, nas mulheres nascidas no estrangeiro. A incidência dos nascimentos provenientes de mães imigrantes não cessa de aumentar: 16,7%, em 1977, e 22,8% em 2017 (fonte: Tableau T38bis, Insee 2017). Na Ile-de-France (região parisiense), em cada cem nascimentos, 48 têm pelo menos um dos pais estrangeiro. Retenha-se que, por pequena que seja, existe uma dimensão cultural, ver civilizacional, que influencia a fecundidade em França.

Mudemos de assunto. A actividade profissional feminina não começou nos anos sessenta. Em França, no período entre as duas Guerras Mundiais, a taxa de actividade feminina rondava os 38%. Este valor desce no pós-guerra e só será recuperado nos anos 90.

No gráfico 3, observa-se o aumento regular da taxa de actividade das mulheres (15-64), entre 1975-2017.  Regressaremos a este gráfico.

3. Taxa de atividade: por sexo e idade (%). França, 1975-2017.

Fonte: INSEE.

Os portugueses apresentam duas séries estatísticas distintas para a mesma realidade: os censos e as estimativas por inquérito.

Fonte: INE.
Fonte: INE. PORDATA.

Do censo de 1981 para o censo de 2011 (gráfico 4), a taxa de atividade feminina sobe 11,2 pontos percentuais (de 38,2 para 51,0). Nas estimativas dos inquéritos ao emprego (gráfico 5), a diferença, entre 1983 e 2019, resume-se a 3 pontos percentuais (de 51,7 para 54,7). A evolução da taxa de atividade masculina diminui significativamente. Do censo de 1981 para o censo de 2011, a taxa desce 16,8 pontos percentuais. Nas estimativas, 14,4 pontos percentuais. A taxa de atividade masculina desce mais do que sobe a taxa de atividade feminina. Algo semelhante, embora menos vincado, sucede em França (ver gráfico 3).

Importa descobrir o óbvio. Para fazer um filho são precisas duas pessoas: um homem e uma mulher. A quebra da atividade, mais acentuada nos homens (Ver, para a França, o gráfico 3) repercute-se no índice de fecundidade. Envolve, sobretudo, os mais jovens. Entre 1983 e 2019, o grupo etário “menos de 25 anos” é o único grupo etário em que diminui de um modo persistente a taxa de atividade (ver gráfico 6). Desce para quase metade: 67,6%, em 1983, e 34.2%, em 2019. Este decréscimo prende-se com o aumento da escolaridade e com o “prolongamento da adolescência”. A independência dos jovens adultos é tardia. Começam a trabalhar, casam-se e adiam o aumento da família, o que torna problemático, por exemplo, o nascimento do terceiro filho. São económicas as causas deste fenómeno? Diria que são culturais. A economia permite muitas possibilidades. Possibilidades que a cultura escolhe.

A evolução da fecundidade depende da taxa de actividade feminina? Do prolongamento da adolescência? Das políticas demográficas? Estão associados, mas o desejo é decisivo. No Inquérito à Fecundidade, promovido pelo INE, em 2013, as mulheres dos 18 aos 49 anos de idade e os homens dos 18 aos 54 anos de idade, residentes em Portugal, têm em média, 1.03 filhos (fecundidade realizada); pensam vir a ter, em média, 0,74 filhos; assim, o numero médio de filhos que têm e que ainda pensam vir a ter é 1,78 (fecundidade final esperada) (INE, Inquérito à Fecundidade, 2013). Não é uma perspetiva animadora. É a espuma do desejo.

O que mudou, no século XX, foi a condição e a identidade da mulher. Mudou a sua relação com o outro, com a família, com cônjuge, com os filhos, com os colegas e os amigos. Mudou a relação com a casa, com o trabalho e com o lazer. Mudou a relação com o tempo, com o corpo, com o sacrifício e com o prazer. Mudou a autoimagem. Mudou, também, a condição masculina. Uma mudança cultural. O declínio da fecundidade faz parte deste “processo civilizacional”. São novos os laços, as dinâmicas e as âncoras simbólicas. Esta evolução mobiliza o desejo. Águas profundas. A intervenção quer-se mais da ordem da massagem do que da mensagem. Mais contextual do que pontual. Envolvente. O contrário do que se está a fazer. Neste mundo, para motivar é preciso valorizar. Para valorizar é preciso embeber simbolicamente. Quem se lembra, nos últimos sessenta anos, de uma iniciativa simbólica valorativa da figura do casal procriador? Dos outros casais a promoção é, no mínimo, todos os meses? O nevoeiro tem estas artes: enxerga-se bem na encosta e mal junto ao rio. A quem serve o estrabismo social?

Fonte INE / PORDATA.

O Japão debate-se com um índice de fecundidade baixo: 1,36 filhos por mulher, em 2019. Adivinha-se sinais de uma aposta numa intervenção desmultiplicada e ambiental para estimular a fecundidade. A célebre série de anime Naruto prossegue, mas o novo herói é o filho de Naruto. Crescem os manga e os anime em que o herói é familiar: pais e filhos. Talvez seja a hora de tomar um chá de benchmarking.

Riqueza vaidosa

Rich and Poor – Unknown Painter 17th Century

Passam ferrari, porsche e lamborghini. E carros de colecção. Portugal é um país particularmente desigual? A desigualdade dos rendimentos de um país pode ser medida pelo índice de Gini. Varia entre um máximo de igualdade, 0, e um máximo de desigualdade, 100. Observemos os valores do índice de Gini nos países europeus, em 2017.

Índice de Gini nos países europeus, em 2017. Fonte: PORDATA.

Portugal consta entre os países em que existe maior desigualdade de rendimentos. Tem um índice de Gini de 33,5, próximo da Grécia e da Espanha, ultrapassado apenas por três países de leste: a Letónia, a Lituânia e a Bulgária.

Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Justifica os carros de desporto e de luxo? Pode-se ser rico e discreto. Segundo Max Weber, os protestantes imbuídos do espírito o capitalismo preferiam o investimento ao fogo de artifício. Em Portugal, não impera nem a ética protestante, nem o espírito do capitalismo, predomina o consumo ostentatório e o espírito de corte. Consome-se luxo, faz-se lixo. Somos o 24º país mais desigual da Europa. Somos, também, aquele em que a riqueza rima com uma opulência quase ofensiva.

O índice de Gini é uma sequência da curva de Lorenz. No gráfico , indica-se na abscissa a população acumulada e na ordenada, os rendimentos acumulados.

Curva de Lorenz (país não identificado)

Comprova-se, por exemplo, que aos 20% mais pobres corresponde uma parte ínfima do rendimento nacional, enquanto os 20% mais ricos possuem acima de 60% do rendimento nacional. Segundo o gráfico, entre 1989 e 2004, a desigualdade diminuiu. A curva aproxima-se da diagonal a que corresponde a igualdade absoluta.

No início dos anos oitenta, era professor do curso de Relações Internacionais. Um dia, pergunto: “Conhecem a curva de Lorenz?”. Responde-me um aluno: “Não, professor, só conhecemos as curvas da Bo Derek”. Dar aulas pode ser estimulante.

If I were a rich man. Film: Fiddler on the roof. 1971.

Simulacro de pensamento

Pablo Picasso. Homme à la marinière et à la cigarette. 1966.

Durante as férias, passo os dias na varanda, a fumar. Dá para observar os transeuntes. Alguns param, como quem escorrega, em frente à casa do António Pedro. Que fotografam os telemóveis? Uma placa de homenagem. E seguem caminho, entregando-se a um novo ofício: o turismo. A fumar, preparo as aulas. Por exemplo, sobre as noções de extensão do homem, de Marshall McLuhan (Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem, 1964), e de reificação, de Georg Lukács (História e Consciência de Classe, 1923) a Herbert Marcuse (O Homem Unidimensional, 1964). O telemóvel/câmara é uma mediação entre o ser humano e a realidade envolvente. Um terceiro olho junto ao corpo. Capacita-nos para o que nos é impossível. Numa situação limite, quem é, afinal, a extensão e quem é o sujeito, o extenso? Quem influencia quem? A extensão pode adquirir “vida” e efeitos próprios como os objectos de E.T.A. Hoffman (O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos, 1816) ou a mercadoria de Karl Marx (O Capital, Livro I, 1867). É um tópico corrente na ficção científica. O telemóvel/câmara é uma extensão do homem que interfere na sua relação com a realidade. Os postais ilustrados provocaram, no início do século XX, uma “postalização da experiência” (Martins, Moisés de Lemos (dir.), 2017, Os postais ilustrados na vida da comunidade, CECS). As paisagens, as cidades e as pessoas passam a enquadrar-se à luz do formato postal. Nunca, como hoje, a vida se aproximou tanto de um álbum de fotografias. “Mosaicos”! Dia a dia, dose a dose. O Facebook não engana!

Os teóricos da reificação, incluindo os sociólogos da Escola de Francoforte, nomeadamente Theodor W. Adorno (com Max Horkheimer, Dialéctica do Esclarecimento, 1944) e Jurgen Habermas (Técnica e Ciência como “Ideologia”, 1968), não se fariam rogados a falar, neste caso, em fetichismo. O turista tira uma fotografia à placa comemorativa na casa de António Pedro. Uma câmara, uma extensão do homem, capta uma placa comemorativa, uma inscrição do homem. Tudo se passa como se acção se processasse entre objectos que estão à superfície e no exterior do homem. Estamos num mundo de coisas, em que uma coisa, a mediação, a câmara, substitui o sujeito e outra coisa, a placa comemorativa, se sobrepõe ao todo, subsume a casa e o António Pedro. Eis a dança da reificação. A acção do turista resume-se a uma câmara e a uma placa. O resto são suportes.

Imaginemos! A imaginar aprende-se. Passam pessoas a falar ao telemóvel. Algumas gesticulam. Como se estivessem sob o olhar do interlocutor. Por quê? Por histerese do habitus, diria Pierre Bourdieu (Meditações Pascalianas, 1997). Habituadas à comunicação não-verbal na interacção presencial, as pessoas utilizam-na a propósito e a despropósito. O que é a histerese? Na Física, “a histerese é a tendência de um sistema de conservar suas propriedades na ausência de um estímulo que as gerou”. Por exemplo, quando alguém, como a “Maria Papoila” (1937), migra do campo para a cidade. Por um tempo, reage na cidade como se estivesse no campo. Admito que a gesticulação ao telemóvel não é uma histerese canónica. Pierre Bourdieu não a validaria. Mas um exemplo não precisa de ser verdadeiro para ser pedagógico. Imaginado ou não, este exemplo comporta falhas. A gesticulação ao telemóvel pode remeter mais para um automatismo do que para uma incongruência. Fale o que falar, como e com quem, a pessoa entrega-se a uma “coreografia” que lhe é natural. Acresce que a gesticulação pode relevar mais da esfera da emissão do que da esfera da recepção. Os gestos podem ser mais úteis ao emissor, para autogerir, por exemplo, emoções, do que ao destinatário. A linguagem corporal não é um complemento, faz parte da linguagem como um todo. Pierre Bourdieu teria razão, a gesticulação ao telemóvel pode não relevar de uma histerese do habitus. Para coroar este simulacro de pensamento, convenha-se que é raro as pessoas gesticularem enquanto falam ao telemóvel.

De qualquer modo, imaginar é importante. A maioria das descobertas científicas passa por fases decisivas de imaginação. No ranking dos livros de sociologia mais influentes no século XX, A Imaginação Sociológica (1959), de Charles Wright Mills, ocupa o 2º lugar. O livro de Martin Jay sobre a Escola de Francoforte tem o título A Imaginação Dialéctica (1973). A imaginação dialógica (1975) é o título de um livro de Mikhail Bakhtin.

Este texto é intragável. Começa barroco e acaba maneirista. É um desfile de autores. Ou se escreve um texto ou se faz uma vénia. É louvável subir aos ombros de um gigante, já não o é arrastar-se aos seus pés. Este texto é pedante? Não, pedante é quem o escreveu.

Desaprender

Michel de Montaigne (1533-1592).

Estou a escrever um artigo sobre o questionário para inquérito sociológico. A páginas tantas, dei comigo a folhear os Ensaios de Montaigne (1580). Encontrei estas passagens sobre o ensino e a aprendizagem. A deambulação tem destas artes: encontra-se o que não se procura mas que, por sinal, interessa.

Gostaria também que se tivesse o cuidado de lhe escolher um preceptor com a cabeça mais benfeita do que bem recheada (…) Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram (…) Gostaria que ele corrigisse essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começasse a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir. Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar (…) A autoridade dos que querem ensinar é, no mais das vezes, nociva para os que querem aprender (Michel de Montaigne, 1580. Ensaios. Livro I, Sobre a educação das crianças).


Que o preceptor faça o menino tudo passar pelo próprio crivo e que nada aloje em sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Que os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, não mais que os dos estoicos ou dos epicuristas; que lhe proponham essa diversidade de julgamentos e ele escolherá, se puder, do contrário permanecerá na dúvida.
Che non men che saper dubbiar m’aggrada / E, não menos que saber, duvidar me agrada (Dante, Inferno, XI, 93) (Michel de Montesquieu. Ensaios. Livro I. Capítulo XXV: Sobre a Educação das crianças).

Michel de Montaigne. Essais de Morale. 1580

Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto. Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante (Michel de Montesquieu. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII: Sobre a experiência).

Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há grande escassez. O principal e mais famoso saber de nossos séculos não é saber compreender os sábios? Não é essa a finalidade comum e última de todos os estudos? Nossas opiniões enxertam-se umas nas outras. A primeira serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalamos, degrau a degrau. E resulta que quem sobe mais alto costuma ter mais honra do que mérito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os ombros do penúltimo (Michel de Montesquieu. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII. Sobre a experiência).

É só nossa fraqueza individual que faz que nos contentemos com o que outros ou nós mesmos encontramos nessa caça ao conhecimento: um mais hábil não se contentará. Há sempre lugar para um sucessor, e até para nós mesmos, e um caminho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está no outro mundo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si mesmo. Sempre se empenha em ir mais longe e vai além de suas forças. Seus impulsos vão além de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se choca e se revira, só está vivo pela metade. Suas buscas não têm término nem forma. Seu alimento é o espanto, a caça, a incerteza (Michel de Montesquieu. Ensaios. Capítulo XIII: Sobre a experiência)

Vem mais ou menos a propósito a música Mon ami, mon maître, de Serge Lama, um cantor francês.

Serge Lama. Mon ami, mon maître. D’aventures en aventures. 1968. Ao vivo: Bercy 2003.

Etnografia da etnografia. A um professor.

Máscara. Museu Nacional de Etnologia.

Conversa fiada:
Nos anos setenta, num corredor da Sorbonne, Georges Balandier comenta:” A relação dos portugueses com a distinção social é estranha. Nem nas autoestradas aceitam ser confundidos…”
Esperei uma alusão à “doutorite”, o socalco linguístico lusitano. Mas não, contentou-se com os automóveis. Ainda me assombra o reparo de Georges Balandier. Para cúmulo, vindo de um francês… Em férias, estou confinado a fumar na varanda. Vejo os carros passar. Georges Balandier tinha alguma razão. Hoje, passou um carro espalmado vermelho com o símbolo de um cavalo. Talvez me engane, mas Portugal é uma jardim de desigualdades onde as estradas são passerelles.

Desigualdade em repouso. Moledo do Minho, 09.08.2020.

Georges Balandier (1920-2016) é um nome marcante da sociologia francesa. Foi meu professor três anos consecutivos. Um professor de respeito. Falava como escrevia, de um modo exímio. Escreveu romances. No livro Afrique Ambigüe, relata um encontro com um indígena apostado em lhe vender uma máscara. Um episódio heurístico. Quando um investigador aprende com os outros é garantido que aprenderemos com ele.

Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães
Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães

A presença aflitiva
Encontrava-me há alguns dias no acampamento do Monte Nimba, quando um jovem de uma aldeia vizinha veio ter comigo ao anoitecer. Exigiu ver-me em privado (…).
Disse-me em tom solene :
“Cala-te, é perigoso, repara!”
Em seguida, acrescentou:
“Trago-te Nyon Néa.”
De uma velha peça de roupa rota, embrulhada por baixo do braço, retira uma máscara aconchegada num invólucro de ráfia. Os traços convencionais, que viria a aprender a reconhecer, estavam respeitados: face longa oblonga cujas estrias paralelas marcam o contorno; olhos esticados, simplesmente recortados, como se estivessem semicerrados; boca proeminente ornamentada com dentes de alumínio. Mas era uma máscara desleixada, talhada em madeira medíocre e mole, toda besuntada com uma tinta violeta inseparável, no que me respeita, das recordações da mercearia-papelaria campestre. Apesar de respeitar as convenções, nada restava daquilo que concedia valor às formas antigas; e o artesão, na falta de tinta negra que a velha paciência sabia compor, contentou-se com esta tinta comprada a um tratante da aldeia. O objecto fazia pensar num exercício de aprendiz. Recusava-me a acreditar que pudesse albergar o suporte das forças que moravam nos modelos do passado. Parecia demasiado caricato que se pudesse aplicar a velha fórmula da transferência de potência:
Sémè yabé nyon ploki zuki éto yiké zu.
« Que a força (semè), que estava na máscara antiga, entre na nova!” (…)
Tentei interrogar o meu interlocutor. Segundo ele, tudo era conforme: sim, os sacrifícios tinham sido realizados (mas a máscara não comportava na fronte nem marcas de sangue de frango sacrificado, nem fragmentos de cola mascada pulverizados pelo oficiante); sim, a máscara tinha nome: “Aquela-que-dá-a-paz”; sim, a primeira saída pública teve lugar. Tantas afirmações suspeitas, mas quis prosseguir:

  • Quem é Nyon Méa?
  • É a mulher.
  • Mas que mulher? A mulher de quem?
  • Ah ! isso, patrão, os « pequenos » como eu não conhecem os feitos das máscaras como outrora… Talvez seja a mulher dos iniciados.
    Tivemos que ficar por aqui. O meu interlocutor tinha apenas uma preocupação: queria algum dinheiro pela sua máscara – esta obsessão prendia-se com uma história confusa de honorários a pagar a um médico-mágico. Cedi perguntando-me se, por qualquer tipo de subterfúgio, os objectos tornados feios e disponíveis a quem assim o entender não iriam impor-me uma presença aflitiva (…).
    Mal souberam da minha aquisição da horrível figura violeta (…) as pessoas da aldeia pensaram ter descoberto uma das minhas fraquezas. Tiraram dos cestos, onde guardavam as máscaras antepassadas em desuso, algumas peças para negociar. Eles delegaram-me emissários”.
    Ballandier, Georges (2008), Afrique ambiguë, Paris, Plon. Primeira edição, 1957, pp. 137 e seguintes.

A dança das máscaras

Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado. Valongo

Conversa parva:

No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.

As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.

Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133

Dead Can Dance. ACT II: The Invocation. Dionysus, 2018.
Dead Can Dance. Kiko. Anastasis. 2012. Imagens do filme Samsara (2011), realizado por Ron Fricke

As novas máscaras

“Que a força (sémè) que estava na máscara antiga entre na nova!” (Kono, Guiné, in Balandier, Georges, Afrique Ambigue, 1957).

“A máscara traduz a alegria das alternâncias e das reencarnações,· a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, das violações das fronteiras naturais, da ridicularização, dos apelidos [alcunhas]; a máscara encarna o princípio de jogo da vida, está baseada numa peculiar inter-relação da realidade e da imagem, característica das formas mais antigas dos ritos e espetáculos. O complexo simbolismo das máscaras é inesgotável. Basta lembrar que manifestações como a paródia, a caricatura, a careta, as contorções e as “macaquices” são derivadas da máscara. É na máscara que se revela com clareza a essência profunda do grotesco.” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, p. 35).

James Ensor. Squelette Arrêtant Masques. 1891. Leiloado, em 2016, por 7,4 milhões de euros.

“Fala-se muito em identidades líquidas (Zygmunt Bauman) e polifónicas (Mikhail Bakhtin). Em máscaras, também (Anselm Strauss). Pelos vistos, habituámo-nos a trocar ou a retocar as máscaras consoante transitamos de arena ou de palco. Máscaras que se fazem corpo, que ora se entranham, ora se desprendem (Constantin Stanislavski). Mas o mais intrigante não é que a máscara faça corpo, mas a tendência de o corpo funcionar, ele próprio, como máscara, a máscara que mais bem se ajusta às nossas identidades múltiplas e que, provavelmente, mais bem as costura” (Gonçalves, Albertino: https://tendimag.com/2012/06/10/ave-corpo/).

A máscara tem vida e poderes próprios. Adere, por vezes, ao corpo. A máscara encobre, subverte e exprime. Também protege. Protege o portador e protege os outros. Um professor de antropologia referia, há cerca de quarenta anos, que em África havia réis que nunca tiravam a máscara em público para proteger os súbditos. Alfred Adler não descreve outra realidade: entre os Mundang, dos Camarões, o rosto do rei inspira um receio reverencioso. “O Mundang desvia-se o mais rápido possível de um face a face insuportável com esta figura singular do sagrado que lhe queimaria a pele” (Adler, Alfred, Des Rois et des Masques, Homme, Année 1998, 145. pp. 169-203, p. 169). Com uma máscara, talvez Medusa tivesse um final mais feliz.

Otto Dix. Shock Troops Advance under Gas. The War, 1924.

As novas máscaras, públicas, interpõem-se mais do que interagem. Conjugam vulnerabilidade e exorcismo. São máscaras sem segredo, apenas medo. São colectivas, mas sem potência carnavalesca e com alguns laivos de claustrofobia. Sem arte nem diversidade, lembram as máscaras dos médicos da peste negra e as máscaras de gás dos militares da Primeira Guerra Mundial. As novas máscaras protegem, pelo menos simbolicamente, o portador. Mas, à semelhança das máscaras dos réis africanos, também protegem o outro. Protegem-nos!

Os especialistas do gosto

Pablo Picasso. Girl before a Mirror. 1932.

Quem gosta mais de ti do que tu? Quem gosta mais do que tu gostas? Quem te estuda e prevê? Centros de investigação, empresas de marketing, agências de publicidade, políticos, sociólogos, psicólogos, semiólogos… A missão? Conhecer para seduzir, conhecer para antecipar. Bernard Cathelat e o CCA (institut d’étude des Socio-Styles de Vie)) são um bom exemplo : dedicam-se à cartografia e à infografia dos comportamentos e das tendências sociais. E vendem os resultados (Cathelat, Bernard, Socio-Life Styles Marketing, the new science of identifying, classifying and targeting consumers, Probus Publishing, Chicago, 1994). O livro A Distinção (1979), de Pierre Bourdieu, oferece-se como uma bíblia do estudo dos gostos e dos estilos de vida.

 Num catálogo online, os produtos piscam-te o olho, parecem escolhidos a pensar em ti. Numa loja de roupas, há peças que estão à tua espera. Parece bruxedo, uma nova espécie de “feiticismo da mercadoria” (Karl Marx, O Capital, 1867). Jean Baudrillard fala em “estatuto miraculoso do consumo” (A Sociedade de Consumo, 1970). O Youtube sugere alternativas, “expressamente para nós”. Os cookies ajudam. Já dizia a rainha santa Isabel: “são bolachas, Senhor!”. Que conforto haver especialistas capazes de gostar por nós. Nada novo sob o sol da inteligência, trata-se de uma verdade gasta, mais gasta do que as calças de um cowboy. Ferrugem da sociologia litúrgica. Ninguém esconde, ninguém disfarça. O anúncio espanhol ADN, da empresa Adolfo Dominguez, proporciona uma ilustração desinibida. A verdade despida.

“ADN combina dos tipos de inteligencia. Un algoritmo que crea un perfil con tu estilo al completar un test online. Y un equipo de estilistas que saben lo que te queda bien”.

Marca: Adolfo Dominguez. Título: ADN. Agência: China. Espanha, Julho 2020.

O consumo da violência

A violência sempre acompanhou o homem. Diz-se que é bíblica. Uma égua do apocalipse. Ambivalente, provoca atração e repulsa. Não desejamos ser nem carrascos nem vítimas, mas assistimos ao espectáculo. A violência é ubíqua: aparece nos ecrãs, nas estradas, nas manifestações, nos atentados, nos tiroteios, na escola, no desporto e, até, dentro de casa. Ambivalentes e ambíguos, proibimos um anúncio com uma menina sentada numa ferrovia mas facilitamos o acesso às armas. Nos ecrãs, convivemos mais facilmente com a violência do que com o tabaco: nos livros e nas séries do Lucky Luke, a palhinha não substitui a pistola mas o cigarro. Maná ecránico, a publicidade encena e parodia a violência, em princípio gratuita, mas, presumivelmente, com custos.

Apetece “virar o bico ao prego”. Abraçar a contradição. Nos anos sessenta, apreciava-se os filmes violentos. As pessoas riam com as cenas violentas dos filmes Péplum (e.g., Hércules), de terror (e.g., O Exorcista, 1973), de guerra (e.g., O dia mais longo, 1962) ou western (e.g., Trinitá, cowboy insolente, 1970; o filme é italiano, bem como os actores Terence Hill e Bud Spencer). No entanto, nenhum dos meus amigos se tornou serial killer. Autores como Georg F. W. Hegel, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Georges Bataille ou Lewis A. Coser consideram a violência fundacional e funcional. Na Idade Média, acreditava-se que a contenção excessiva da violência podia desembocar numa explosão de violência. Recomenda-se a catarse, a excitação (Norbert Elias) e a homeopatia (Michel Maffesoli). A violência existe, mas coloquem um filtro, um véu ou óculos para não se ofuscar.

Marca: Fox Sports. Título: We are all superstars. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Outubro 2019.
Marca: CANAL +. Título: Mission really impossible. Agência: BETC Paris. França, Maio 2019.

Mãos de eternidade. Poética do macabro

Figura 1. Death Clasp Your Hands on the Tombstone of the Oakland Cemetery, in Iowa City

O envelhecimento agrava a dependência física, mas, demência à parte, propicia a autonomia de espírito. Dedicar-se, por exemplo, a assuntos que não interessam aos outros. O interesse alheio esmorece como critério de relevância e oportunidade. O próprio interesse pessoal pode adquirir feições estranhas. Interesses fortuitos. Durante a quarentena, o Álvaro Domingues tem-se dedicado a desenhar pássaros (ver Galeria 1). Um por dia!

No que me respeita, salto de imagem em imagem, “percorro” centenas de cemitérios no ecrã. Qual o interesse? Do Álvaro, não imagino, o meu, admito que seja nenhum. Parece emergir a idade da reflexão desinteressada Não se trata, porém, do “interesse no desinteresse”, de que fala Pierre Bourdieu. O interesse no desinteresse é duplamente interessado: pressupõe o interesse mais o seu disfarce. Distinto é o lustro da idade da reflexão desinteressada. Recordo a infância, fase da vida pautada por alguma “distância à necessidade”. As palavras cruzadas, a descoberta das diferenças e o enigma policial eram desafios quase compulsivos. Para quê? Talvez para exercício mental, como a semiótica das sepulturas. Esta autonomia requer desprendimento e indiferença face às conveniências e à ética da responsabilidade. Releva do capricho lunar.

Figura 6. Cemitério Judeu de Remiremont.

O cemitério é um labirinto de símbolos minuciosamente codificados. Desconcerta um mentecapto. As sepulturas compõem “uma cultura material [que] cria, comunica e preserva sentido. Os artefactos e as sepulturas oferecem-se como evidências tangíveis de relações sociais que sancionam atitudes e comportamentos” (Rainville, Lynn,  1999, Hanover Deathscapes: Mortuary Variability in New Hampshire, 1770-1920, Ethnohistory Vol. 46, No. 3, pp. 541-597. p. 543). As esculturas tumulares são caracterizadas pela diversidade. Algumas revestem, inclusivamente, um cariz pessoal. Regra geral, adivinha-se o que visam e o que significam. Alguns símbolos são antigos, milenares. Assim sucede com as mãos entrelaçadas, motivo frequente nos cemitérios (ver figuras 7 a 10). Mas não único. Abundam outros motivos funerários com mãos: em oração, que apontam para cima ou para baixo, que abençoam, que tocam em argolas ou seguram ramos de plantas, artísticas ou pessoalizadas.

As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, oscilam entre mundos. Nem este, nem aquele. Entre a vida e a morte, o céu e a terra. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, dando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Não se vislumbra sinal de esforço para contrariar o destino. Trata-se de uma figura trágica.

O enlace das mãos, vulgar nos cemitérios, não é exclusivo de nenhuma religião, cultura ou região. É transversal. Não obstante, esboçam-se algumas afinidades históricas e sociais.

As caveiras, os relógios e as urnas remetiam, outrora, para uma semiótica do medo e da culpa, Durante o romantismo e a era vitoriana, as esculturas tumulares concentram-se no foro pessoal, no amor e na família. As mãos entrelaçadas inscrevem-se nesta nova tendência apostada no reencontro e na salvação. Existem vários grupos religiosos e sociais particularmente propensos ao recurso às mãos entrelaçadas.

Figura 11. Cemitério menonita em Haraucout-sur-Seille.

Os menonitas, anabaptistas dissidentes do protestantismo, perseguidos brutalmente durante séculos, povoam os cemitérios com esculturas de mãos entrelaçadas.

“Os menonitas não tinham, geralmente, direito a inumar os seus defuntos nos cemitérios católicos. Faziam-no nas suas propriedades. Em Haraucourt-sur-Seille, a comunidade deve ter sido suficientemente pujante para fundar o seu próprio cemitério” (Patrimoine: du cimitière mennonite d’Haraucourt-sur-Seille: http://blogerslorrainsengages.unblog.fr/2015/02/02/patrimoine-du-cimetiere-mennonite-dharaucourt-sur-seille/.

A figura 11 proporciona uma noção da “densidade” das mãos entrelaçadas nos cemitérios menonitas: a menos de dez passos de distância, duas sepulturas com mãos entrelaçadas.

Por último, “as mãos entrelaçadas podem, eventualmente, representar a irmandade de uma loja. São motivo frequente nas lápides maçónicas e I.O.O.F. [International Order of Odd Fellows]”(Cemetery Symbolism: https://www.thoughtco.com/cemetery-symbolism-clasped-hands-pointing-fingers-1420808). Um anúncio numa publicação maçónica, revista maçônica de cultura e informação, reproduz como fundo o motivo de duas mãos entrelaçadas ( ver figuras 1 e 12).

Figura 12. G.O.S.P Cultural online. Revista maçônica de cultura e informação. Nº 5, Abril/Maio de 2008. p. 14.

Retomemos a questão da discriminação e da segregação dos mortos. No Cemitério de Het Oude Kerkhof, em Roermond, na Holanda, dois túmulos, separados por um muro, unem-se graças às mãos entrelaçadas (ver figuras 13 a 15). O muro separa os protestantes dos católicos. O coronel protestante J.W.C. van Gorcum casou, em 1842, com a nobre católica J. C.P.H. van Wefferden . Falecido em 1880, foi sepultado na parte protestante do cemitério. A esposa, falecida em 1888, recusou o túmulo familiar. Pediu para ser sepultada junto ao muro, o mais perto possível do marido. Separados pela geometria humana, o coronel protestante e a esposa católica entrelaçam as mãos por cima do muro (ver Unusual Places. Graves of a Catholic woman and her Protestant husband:  https://unusualplaces.org/graves-of-a-catholic-woman-and-her-protestant-husband-2/)

Separados em terra, reencontrados no céu. Promove-se a (re)união na eternidade mediante as mãos entrelaçadas. Os textos que acompanham as mãos sugerem este voto de não separação: “Toujours unis” (Figura 16), “Farewell Dear Husband” (Figura 17) ou outras frases como, por exemplo, “até nos reencontrar”.

O motivo do túmulo do cemitério de Abbeville (Figura 17) surpreende. E intriga. Configura um caso especial: uma mãos entrelaçada aponta, com o indicador, para baixo. O que, atendendo à simbologia da mão que aponta para baixo (ver Figura 18),  pode significar que, ao pedido de união entre os esposos, acresce o pedido a Deus para vir buscar a alma. Uma escultura polifónica.

Figura 18. Mão a apontar para baixo. City of Grove. Oklahoma.

“Se as mangas das duas mãos são masculina e feminina, o aperto de mão, as mãos entrelaçadas, pode simbolizar o matrimónio sagrado, ou a união eterna de um marido ou esposa. Às vezes, a mão sobreposta ou o braço posicionado um pouco mais alto indica a pessoa que faleceu primeiro e que está agora guiando seu ente querido na travessia para a próxima vida” (Cemetery Symbolism: https://www.thoughtco.com/cemetery-symbolism-clasped-hands-pointing-fingers-1420808).

Figura 19. Cimetière communal Court. Saint-Étienne.

As esculturas com mãos entrelaçadas respeitam determinados padrões.

“As mãos – quase sempre as mãos direitas – são incrivelmente detalhadas, com unhas e punhos de roupa esculpidos em mármore macio. Um dos punhos tendia a apresentar folhos ou plissados, sugerindo a mão de uma mulher; o outro estava decorado com abotoaduras, sugerindo a mão de um homem. Juntos, representam um marido e uma esposa que compartilham um último aperto de mão. Uma mão manifesta-se, em geral, plana e frouxa, com os dedos estendidos [ver Figura 19]. Pode ser interpretado como o falecido a interpelar os vivos a segui-lo ou a deixá-lo partir (The Cemetery Symbol of Eternal Love: https://daily.jstor.org/the-cemetery-symbol-of-eternal-love/).

Figura 20. Estela funerária de Julia Epicarpia. Fréjus. Séc. I.

As mãos entrelaçadas nas sepulturas remontam, pelo menos, ao império romano. Nas escavações arqueológicas de Fréjus, no Departamento de Var, em França, encontram-se cinco estelas tumulares com mãos entrelaçadas (ver exemplos, nas Figuras 20 e 21). Parece que as mãos romanas têm um significado diferente das mãos contemporâneas. Menos, porém, do que seria de esperar. Para terminar este primeiro percurso pelas mãos nas lápides tumulares,  cedemos a palavra, erudita, aos arqueólogos de Fréjus, localidade onde foram descobertas as referidas estelas datadas do primeiro século da era cristã.

Figura 21. Estela funerária de Petronia Posilia. Fréjus. Séc. I.

“A imagem da dextrarum junctio entre os cônjuges, particularmente bem representada nas estelas de Fréjus, é um motivo recorrente na iconografia funerária. A hipótese de vislumbrar uma esperança no reencontro final dos cônjuges na vida após a morte, após sua morte, não parece fundamentada, sendo hoje abandonada (…) Seu verdadeiro significado original foi analisado por P. Boyancé (…) Começa por sublinhar o valor eminente da mão direita, dedicada à deusa Fides, primeira divindade protectora de tratados e juramentos. A imagem das mãos entrelaçadas não significa, portanto, a salvação moderna (…) significa a harmonia e a boa fé que reinaram entre os cônjuges (…) o casal que celebra a concordia a que permaneceu apegado. A sua vida participa de alguma forma da imortalidade que concede o acordo sob o signo de Fides. Também temos evidências disso em várias representações mitológicas sobre sarcófagos, onde a dextrarum junctio significa que o amor é mais forte que a morte” (Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, Sculptures de la Gaule romaine : Fréjus – https://www.aibl.fr/seances-et-manifestations/expositions-virtuelles/article/sculptures-de-la-gaule-romaine?lang=fr).

Acerca da dextrarum junctio, de Fides e da Concordia, retenha-se o seguinte: o casal que celebra a concordia acede à imortalidade sob o signo da deusa Fides. Em vários casos, a dextrarum junctio admite que o amor supera a morte. Como nas mãos entrelaçadas contemporâneas.

Com palavras se fazem coisas (J. L. Austin. How to do things with words, 1962) e com coisas se dizem palavras, de amor e eternidade.