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Lesão cerebral infantil. Recuperação

Afasia. Autoria: MARC DOZIER / CORBIS

A recuperação de um trauma ou de uma lesão cerebral pode representar um desafio incerto e tenebroso para uma criança. O anúncio One Word, vencedor do Leão de Ouro de “Melhor Filme” no Festival de Cannes 2019, ilustra este tormento com sons e imagens arrepiantes. Mas, no que respeita à recuperação da fala, existe uma esperança: a aplicação Constant Therapy.

É admirável como uma animação consegue expressar tão intensamente a impotência e o pânico.

Anunciante: Constant Therapy. Título: One Word. Agência: Area 23. Produção: Lightfarm Studios Rio De Janeiro. Estados Unidos, Maio 2019.

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.

Conversa sobre investigação

Convite: O ofício do investigador: aprender com a prática

Sexta, dia 1 de Março, vou partilhar experiências graças às quais melhorei a arte de investigar. Com uma vintena de projectos concluídos, algo se aprende. As histórias contadas não aparecem nos manuais. Pouco valem se as procuramos nos livros. São histórias que remetem para a vida e as suas contingências. Sexta, às 17:30, é uma data ingrata. Para muitos, já é fim de semana, tempo para voar noutras paragens. Acresce que estas conversas não dão pontos no pinball da intelligentsia académica.

Homo carnivorus

No artigo precedente, abordámos a situação do homo sapiens fumus. Num registo sério que não me assenta. Resultado: “a argumentação não é má, mas não convence”. Hoje é a vez do homo carnivorus, outra espécie em projeto de extinção. Os sábios do terceiro milénio entendem corrigir o atrevimento que, há cerca de 2,6 milhões de anos, tiveram os nossos antepassados: comer carne. Uma inovação complicada. Não havia talhos e os animais não se deixavam caçar. Por vezes, convinha fugir deles.

Desventuras do homo carnivorus, que a série de anúncios da Nissin, empresa japonesa fabricante de massas alimentícias, recorda.

Marca: Nissin. Título: A avestruz. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: O rinoceronte e os parasitas. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima / Onuki. Japão, 1994.
Marca: Nissin. Título: Puma adormecido. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.
Marca: Nissin. Título: Mamute. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: As maçãs e o puma. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.

Anime

Mike Diva. Japanese Donald Trump Commercial. 2016.

Os manga e os anime constam entre os produtos culturalmente ancorados, neste caso de origem japonesa, cuja difusão cresceu e se globalizou a um ritmo impressionante. Povoam o mundo gráfico e audiovisual, designadamente a Internet. Não adquirem, porém, uma presença correspondente nas universidades e noutros templos do conhecimento.

O Tendências do Imaginário dedicou poucos artigos aos manga e aos anime. É tempo de recuperar, com a ajuda de um especialista: o meu rapaz mais novo. Seguem dois vídeos. O primeiro, dirigido por Mike Diva, é uma paródia viral centrada na figura de Donald Trump, porventura o mais mediático e o mais globalizado dos presidentes norte-americanos. O segundo vídeo, da Mercedes Benz, atarda-se, seis minutos, numa perseguição automóvel fantástica e alucinante.

Direcção: Mike Diva. Tema: Japanese Donald Trump Commercial. 2016.
Marca: Mercedes Benz. Título: NEXT A-Class. Produção: Hakuhodo, AOI Pro., Production I.G. Direcção: Mizuho Nishikubo. Japão, Novembro 2012.

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

O limpo e o sujo

Don't be a tosser

Esta semana, na aula de sociologia da cultura, disse aos alunos que a vida quotidiana era pautada por uma enorme confiança nos outros e por um sem número de interditos. Alguns interditos desenvolvem-se e consolidam-se aos nossos olhos. Por exemplo, deitar pontas de cigarro para o chão. Brevemente, um fumador andará com um cinzeiro portátil. A tendência para a higienização tem séculos (Elias, Norbert, O processo civilizacional, 1939). Convém acrescentar a preocupação com o lixo destinado às nossas cabeças. Esta preocupação consubstancia-se em actividades como a censura ao nível da Internet e da publicidade. Trata-se de uma espécie de “ecologia do espírito”, para abusar de uma expressão de Gregory Bateson (Steps to an ecology of mind, 1972). Mas esta higiene dos neurónios comporta falhas. Não se sabe ao certo quem anda a tirar e a pôr lixo nas nossas cabeças. Os anúncios da campanha Dont be a tosser, da NSW Environment Protection Authority, mostram uma elevada intolerância ao lixo nos espaços públicos. No anúncio Report a tosser, apela-se, inclusivamente, à denúncia dos infractores. A ponta de cigarro destaca-se em três dos quatro anúncios de animação.

1) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

2) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

3) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

4) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

5) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Report a Tosser. Austrália, Outubro 2018.

Os nós da globalização

Quino 1. Cada um no seu lugar

Quino 1. Cada um no seu lugar

Global, local, glocal? Comprimido, estável, expandido? Líquido, mole, firme? Próximo, distante? Rápido, lento? Grande, pequeno? O mundo depende das nossas pegadas, das nossas relações, das nossas escalas e dos nossos mapas mentais. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (Protágoras). “O que conta está no interior”, a fazer fé no anúncio da Delsey Paris. Simon, após dar a volta ao mundo, encontra o que persegue, a mala, no ponto de partida. Durante a travessia, cresce-lhe a barba, entrega-se à aventura, restaura a identidade e abraça o amor paterno. Vê-se ao espelho do pai. A passagem de testemunho entre gerações é, frequentemente, pautada pela reincidência: fecha-se um ciclo, abre-se outro. E o mundo continua a girar em torno de si mesmo. Ao jeito do Quino.

Marca: Delsey Paris. Título: What Matters is Inside. Agência: Buzzman. Direcção: Against all odds. França, Abril 2018.

Mundo Quino

 

Dádiva e contradádiva

Chinês Cão e Garça

Qual é a regra de direito e de interesse que (…) faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa dada que faz que o donatário a retribua? (Mauss, Marcel, 1923-1924, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série).

A dádiva e a contradádiva possuem os seus requisitos. O primeiro consiste na obrigatoriedade de receber. Quando alguém oferece uma prenda, espera que o destinatário a receba condignamente. Rejeitar uma dádiva é uma ofensa. Por outro lado, quem recebe uma oferta é suposto retribuí-la, mas de modo que não pareça um retorno da oferta inicial. A contradádiva  quer-se adiada e eufemizada. Se me ofereceram laranjas, não vou retribuir imediatamente com laranjas. A contradádiva não deve lembrar a dádiva, deve assumir-se como uma dádiva original. Por último, a contradádiva ganha em ascender a um valor ligeiramente superior ao da dádiva recebida. Este pormenor induziu os economistas a pensar, erradamente, numa espécie de juro “primitivo”.

O anúncio chinês A Joy Story: Joy and Heron é uma animação que celebra a proximidade do “ano do cão”. Baseia-se, precisamente, na relação entre dádiva e contradádiva: o cão dá as minhocas e a garça retribui com o peixe. No linguajar atual, configuram uma parceria. Mas, como o anúncio dura quatro minutos, não sobrou tempo para o diplomático adiamento.

Marca: JD.com. Título: A Joy Story: Joy and Heron. Agência: 180.ai. Direcção: Kyra & Constantin. China, Fevereiro 2018.