Desenhar vidas / Animar Edward Hopper

A memória não descansa. Tudo me lembra alguma coisa.
Uma amiga de Melgaço partilhou este belo vídeo, com música de fundo de Vangelis: La Petite Fille de la Mer. O Tendências do Imaginário já contempla o vídeo oficial desta música (https://tendimag.com/2022/06/30/top-of-the-pops-com-rugas-5-michel-colombier-vangelis-e-francis-lai/). Neste caso, “Maria” (2015) limitou-se a retomar a curta-metragem LILA (2014) de Carlos Lascano mantendo o vídeo e substituindo apenas a música. Esta “remistura” não desmerece os originais. Coloco os dois vídeos: a adaptação de “Maria” e o original de Carlos Lascano.
A curta-metragem LILA lembra-me [adoro co(r)tejar realidades distintas] os quadros de Edward Hopper: seres humanos entregues a si mesmos, isolados em ambientes amplos, delineados e despojados com uma luminosidade estranha. Só por magia ou milagre as personagens parecem suscetíveis de resgate, de ganhar vida. Algo semelhante carateriza as situações iniciais no vídeo do realizador e escritor argentino Carlos Lascano, animadas pelos desenhos, por vezes em stop-motion, esboçados por uma jovem, qual anjo ou cupido travesso, (re)anima, incutindo vida e amor às pessoas e seus contextos. Como que restaura, transfigura e subverte o universo melancólico, desolado e solitário de Hopper.
Galeria com quadros de Edward Hopper












Vai uma aula? Versão alargada do vídeo Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo

À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
E valentes remadores! …
À barca, à barca segura,
Barca bem guarnecida,
À barca, à barca da vida!
(Gil Vicente)
Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo é o meu vídeo mais extenso e, porventura, predileto. Também é aquele a que mais me entreguei. Cristaliza anos de estudo e investigação. Não está perfeito, mas dou por encerrado o capítulo. Cada novo retoque implica horas de renderização. Esta versão aumentada inclui, no início, a curta-metragem Destino, idealizada por Salvador Dalí e Walt Disney, e, no fim, a apresentação Maniera: A Arte do Artista, entretanto produzida. Trata-se da minha rosa mais recente. Com pétalas, folhas e espinhos. Não é uma mercadoria mas possui o seu valor, e está ao alcance de todos e de ninguém em particular.
Incorporei este vídeo com a qualidade que o WordPress permitiu. Parece-me mais conseguida a visualização disponível no seguinte link da Clipchamp: https://clipchamp.com/watch/DmbfFtHuPz8. A versão reduzida, apenas com a conversa e respetivas apresentações, está acessível em HD no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=1LM9SLzHzIA&t=18s.
Franz Ferdinand e o anime Cyberpunk

Os admiradores de anime revelam-se um público interativo. Reagem! No mesmo dia em que foi colocado o artigo “David Sylvian, Japan e os anime”, recebi o vídeo de abertura dos créditos do anime Cyberpunk: Edgerunners, estreado em setembro no canal Netflix. Lembra vagamente a Pop art e as viagens psicadélicas. O lettering é notável. A música, This Fire, é dos Franz Ferdinand. Além do referido vídeo dos créditos do anime Cyberpunk, acrescento dos vídeos musicais deveras criativos dos Franz Ferdinand: Love Illumination; e Take Me Out.
David Sylvian, Japan e os anime

Orientalização do Ocidente? A questão já se colocava, há meio século, a Fernando Namora (ver https://tendimag.com/2022/01/23/estamos-no-vento/). O entusiasmo pelos manga e pelos anime constitui um dos sinais. Continuo, no entanto, desde os anos setenta, a estranhá-los. Estou em crer que, no meu caso, a orientalização do ocidente tenha revertido numa oxidação da razão com a respetiva camada de ferrugem. Mas admito que a explicação mais plausível remete para a falta de exposição: quem não prova, não entranha.
Constato, contudo, que os anime, dignos de culto, evidenciam qualidade, criatividade e recursos. E aproveitaram a pausa da pandemia. A nova temporada do anime Golden Kamuy oferece-se como exemplo.
David Sylvian, e o grupo Japan (1974-1982), tornaram-se, ajudados pelo nome, particularmente populares no Japão. Adotadas pelos anime, algumas das suas músicas viram a audiência disparar. É o caso da canção For The Love Of Life, tema final do anime Monster. Acrescento Ghosts; condiz com a conversa que vou dedicar às “coisas do outro mundo” (Melgaço, 21 de outubro).
Bandas sonoras: Stephen Warbeck
Já lhe aconteceu ver um filme para ouvir sobretudo a música? Porventura o Laranja Mecânica (de Stanley Kubrick, 1974) ou o português Capas Negras (de Armando de Miranda, 1947), com a Amália Rodrigues. E ver um filme para ouvir música e relaxar? Talvez O Rei e o Pássaro (de Paul Grimault, 1980), um regalo para o olhar e os ouvidos.

Stephen Warbeck, inglês, nascido em 1953, é um compositor de música para filmes e séries de televisão. Ganhou o óscar de Melhor Banda Sonora Original Musical ou Comédia, pelo filme A Paixão de Shakespeare (1998), bem como outros prémios: BAFTA, BMI, Cannes, European Film Awards, Ghent e Grammy. Compôs mais de trinta bandas sonoras para filmes e séries televisivas.
A televisão

La télévision n’est pas le reflet de ceux qui la font, mais de ceux qui la regardent.
(Françoise Giroud).
A televisão é uma tempestade de críticas e apelos. Desde a testemunha ocasional até ao político consagrado. Pede-se, com egoísmo assumido, sem eufemismo. Pedir é uma tradição, reparadora da pessoa e dos laços sociais. O segredo é criticar mais do que melhorar. Corrigir o mundo à sua imagem. A televisão é uma ilusão enganadora? A televisão não captura nem engana, mostra!
Fuga

Numa gaiola as imagens entram pelas janelas e as pessoas saem pelas portas. Uma solidão empoleirada à pesca de sentimentos. O anúncio The Chase, da Head & Shoulders, consiste numa perseguição interminável. O perseguido não consegue despistar aos perseguidores. Tem um talão de Aquiles: a caspa. Nada que o shampoo Head & Shoulders não resolva. Japonês, o anúncio adota o estilo de um anime.
Gravidez e carreira profissional

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:
Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).
Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.
À minha maneira

Há anúncios que vêm aos pares. Por exemplo, os anúncios The Chase, apresentado no artigo precedente, e Leaving The Nest, em baixo, ambos produzidos para a marca Renault Zoe-E-Tech. Leaving The Nest manifesta-se particularmente feliz na escolha da música, de Tom Rosenthal:
I’m happy, nothing’s going to stop me
I’m making my way, i’m making my way
I go solo, oh go solo,
I’m making my way home
I’m making my way
(Tom Rosenthal – Go Solo. 2014)
Segue o anúncio Leaving The Nest, mais duas canções de Tom Rosenthal: Go Solo (do anúncio) e Leaving The Nest.

