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Educação sexual. Alternativas

A série Jogar às cartas com o Diabo não é leve; e ainda faltam dois episódios. Convém introduzir um intervalo para publicidade.

Existem muitas fontes de educação sexual. A publicidade será uma delas. Os anúncios seguintes, dois portugueses, oferecem-se como exemplos de modalidades alternativas.

O “Cavalo”, da Indie Júnior, aponta para a autoaprendizagem entre pares. “Os boxes para toda a obra”, da Leroy Merlin, e “Um canalizador picante, mas não muito picante”, da Doritos, possuem um valor ilustrativo, convocando a figura metafórica, assaz corrente e didática, do canalizador a domicílio.

Anunciante: Indie Junior. Título: Cavalo. Agência: Leo Burnett (Lisboa). Direção: Telmo Vicente. Portugal, abril 2014
Anunciante: Leroy Merlin Portugal. Título: Merlundies: os boxes para toda a obra. Portugal, março 2025
Anunciante: Doritos. Título: A Spicy But Not Too Spicy Plumber. Agência : Rethink. Direção : Björn Rühmann. USA, julho 2025

Inicia no dia 28 de julho, até 3 de agosto, a 11ª edição do MDOC  – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, uma iniciativa a vários títulos única e notável. Acerca do programa deste ano, João Martinho publicou no jornal Voz de Melgaço uma apresentação ao mesmo tempo atenta e concisa: “MDOC 2025: Novos olhares e reflexões sobre o território regressam de 28 de julho a 3 de agosto”.

Memorial

Existem momentos em que é muito importante recordar; nos outros, também! Agradeço à Almerinda Van Der Giezen a partilha deste dois links respeitantes ao espiritual “Wade in the Water”.

Imagem: Peter Lely. Elizabeth Murray (1626–1698)with a Black Servant. C. 1651

“Wade in the Water” é um dos espirituais afro-americanos mais conhecidos e carregados de significado histórico, cultural e religioso. A canção remonta ao século XIX e está profundamente ligada à experiência dos escravizados nos Estados Unidos e ao movimento de libertação por meio da Underground Railroad (Rede de Fuga). (…)
Interpretação religiosa:
• Faz alusão ao episódio bíblico de João 5:4, onde um anjo “agitava as águas” e quem entrasse primeiro seria curado. A ideia é que Deus está presente e ativo, oferecendo livramento e cura.
• O uso da palavra “trouble” (perturbar/agitar) sugere que algo milagroso está prestes a acontecer.
Interpretação codificada:
• Acredita-se que essa música também tinha função prática na fuga de escravizados. “Wade in the water” era um conselho literal: entrar na água para mascarar o rastro e confundir os cães farejadores dos caçadores de escravos.
• Harriet Tubman, uma das principais líderes da Underground Railroad, teria usado canções como essa para comunicar rotas e perigos de forma velada. (…)
Legado
“Wade in the Water” é mais que uma canção: é um símbolo de resistência, fé e inteligência coletiva dos povos escravizados. Faz parte de um legado musical e cultural que influenciou o gospel, o blues, o jazz e o soul, sendo até hoje cantada em contextos religiosos, educacionais e artísticos. (ChatGPT, 29/05/2025)

Wade in the Water (Spiritual) – A Cappella Academy Choir. A Capella Academy. Arranged and directed by Rob Dietz. Soloist: Shakale Davis. Video: Ryan Parma. Posted: 21/09/2016
Harris, K. & Harris, R. (1997). Wade in the Water. On Steal Away: Songs of the Underground Railroad [c.d.]. Morristown, NJ: Brooky Bear Music. (1984)

Face a Face. Entrevista a Michel Maffesoli

Infeliz aquele que não tem mestre.
Os mestres são aqueles que nos mostram o que é possível no domínio do impossível
(Paul Valery).

Michel Maffesoli foi meu professor em 1981, o primeiro ano que deu aulas na Sorbonne e o meu último como aluno.

“Apologie”, l’autobiographie intellectuelle de Michel Maffesoli! Entrevista com André Bercoff. LE FACE A FACE. Sud Radio, 28/01/2025

De mão dada com a morte. O Retrato de Arnolfini

1. Jan van Eyck, The Arnolfini Portrait (1434).. National Gallery, London

“O Retrato de Arnolfini”, também conhecido como “O Casal Arnolfini”, distingue-se como um dos quadros mais notáveis da história da arte. Da autoria de Jan van Eyck, pintado em Bruges, em 1434, está exposto na National Gallery, em Londres. Inovador a vários títulos, extremamente minucioso, tecnicamente incomparável, com uma profusão de motivos e uma grande complexidade de símbolos, tem sido alvo de inúmeros estudos.

A interpretação mais consagrada, mas controversa, foi proposta por Erwing Panofsky, em 1934, no ensaio “Jan van Eyck’s Arnolfini portrait” (ver pdf no final do artigo). A pintura representaria uma cerimónia matrimonial privada entre Giovanni Arnolfini, comerciante abastado de Bruges, e Constanza Trenta (?), ambos oriundos de Luca, em Itália.

2. Jan van Eyck, Retrato de um homem (autorretrato ?). 1433, National Gallery, Londres

Surpreendeu-me recentemente uma hipótese alternativa apresentada por Margaret L. Koster, historiadora de arte, num documentário de três episódios, e outras tantas horas, da BBC sobre o Renascimento do Norte, emitido em 2007.  A proposta de Margaret L. Koster, já defendida em 2003 no artigo “The Arnolfini double portrait – a simple solution” (pdf em anexo, sem imagens), é apresentada entre os minutos 3:00 e 10:00 do seguinte excerto do referido documentário.

Northern Renaissance. Episódio 1 de 3: The Supreme Art (quarta parte; 4/4). BBC FOUR, 15 de novembro de 2007. A partir do minuto 45:00 do episódio 1

Os contra-argumentos invocados são, entre outros:

  • A descoberta de que Constanza Trenta faleceu em 1433, um ano antes da datação do quadro;
  • A expressão melancólica de Arnolfini;
  • O rosto lívido, idealizado, de Constanza, a lembrar uma “boneca de porcelana”;
  • O cachorro, companheiro fiel para sempre no outro mundo;
  • Os episódios da Paixão em torno do espelho, com o Cristo vivo do lado de Arnolfini e morto do lado de Constanza;
  • A vela por cima de Arnolfini está acesa (com vida); por cima de Constanza, apagada (já partiu).

Em suma, aquando da conclusão da pintura, Arnolfini está vivo e Constanza, morta. Tratar-se-ia, portanto, de uma homenagem, uma espécie de epitáfio, mediante a encenação de um casamento, digamos, póstumo. Dois espaços, o aqui e o além. e dois tempos, o presente e o passado, juntos para a eternidade.

Importa relevar um pormenor central no quadro: as mãos juntas. Estão numa posição semelhante à das mãos esculpidas em muitas lápides tumulares. A mão do ente falecido pousa, sem estar apertada, sobre a mão do sobrevivente, numa espécie de união, e eventual compromisso de fidelidade, para além da morte. “De fato, as mãos do marido e da mulher apareciam frequentemente juntas nos monumentos funerários ingleses” (Margaret L. Koster).

3. Detalhe do Retrato de Arnolfini

A principal diferença em relação à maioria das esculturas tumulares que me foi dado observar reside na mão de Constanza: repousa aparentemente inerte, com a palma virada para cima, encostada à mão de Arnolfini que a segura. Trata-se de um pormenor de um detalhe, mas convém não o subestimar, dado o preciosismo, sobretudo ao nível do simbólico, de Jan Van Eyck e da generalidade dos pintores do Renascimento do Norte. Pode, porventura, pretender acentuar a passividade, ou inação, de Constanza.

Ressalve-se que também existem relevos tumulares com as mãos “dadas” do mesmo jeito que as de Constanza e Arnolfini: com a palma da mão (des)falecida virada para cima. Por exemplo, na estela funerária de Petronia Posilia (Fig. 5).

O motivo funerário com as mãos dadas remonta, portanto, à Antiguidade, como o testemunham as imagens precedentes, extraídas do artigo Mãos de eternidade. Poética do macabro (https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).

Atente-se, por último, nos túmulos medievais com rainhas e reis de mãos dadas, tais como o de D. Duarte com D. Leonor ou de D. João I com D. Filipa de Lencastre, ambos no Mosteiro da Batalha. Estas obras, dispendiosas e morosas, eram normalmente encomendadas pelo monarca sobrevivente.

Esta associação ocorreu, com certeza, a muitas pessoas. Não sou o único com imaginação excessiva, retorcida, vadia e tétrica. Percorri, contudo, parte do caminho com os meus próprios tamanquinhos, o que não me dispensa, naturalmente, das devidas vénias de citação e referência. Por exemplo, ao breve mas incisivo apontamento do curador James Payne na conclusão do documentário The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck: Great Art Explained, de 2020:

Assumir que uma pintura qualquer tem um único sentido seria arbitrário e arrogante. É apenas uma teoria sustentar que a pintura é um memorial à sua falecida esposa. Mas existem, a meu ver, algumas pistas: a vela apagada, o lado que lhe corresponde da Paixão no exterior do espelho, o cachorro a seus pés e a possibilidade de Giovanni vestir roupa de luto. Mas o que talvez mais me convença seja a maneira delicada como segura a mão dela, como se esta pudesse escapar das suas mãos a qualquer momento” (14:00-15:39).

The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck. Great Art Explained in 15 minutes. By James Payne. 30.08.2020

No mesmo sentido, também escrevemos, um pouco antes, em 2 de maio de 2020:

As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, entre mundos. Este e o outro, nem este, nem o outro. Entre a vida e a morte, o céu e a terra, a memória e o esquecimento. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, facultando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Juntas, as mãos mais do que agarradas parecem em muitos casos encostadas. Não se vislumbra resistência, sinal de esforço, para contrariar o destino. Trata-se de uma figura e de um momento trágicos. (Mãos de eternidade. Poética do macabro: https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).

ANEXOS

A vela apagada

Importa combinar visão panorâmica e sentido do detalhe (Edgar Morin, La Métamorphose de Plozevet : Commune de France, 1967)

Nota: A resolução das imagens é bastante aceitável. Carregar nelas para as aumentar.

Deixei, propositadamente, para mais tarde a análise das três pinturas com a Anunciação atribuídas a Robert Campin e à sua oficina. Duas incluem a já mencionada miniatura do Menino Jesus com a cruz, mas justificam as três uma atenção especial.

Subestimado demasiado tempo pela História da Arte, Robert Campin (nascido em 1375 e falecido em 1444, em Tournai, na Bélgica, conhecido também como Mestre de Flémalle) é hoje considerado como “o primeiro grande pintor flamengo”, pioneiro da Escola de Flandres e, com Jan van Eyck, do Renascimento do Norte.

Afrescos de Masaccio e Fra Angelico

Introduziu um realismo, que frisa o naturalismo, minucioso e detalhado, com figuras humanas expressivas. As suas obras rivalizam com as dos primeiros artistas do Renascimento Italiano. Compare-se “A Santíssima Trindade” (c. 1428) e “O Pagamento do Tributo” (c. 1425), de Masaccio, ou “A Anunciação” (c. 1425-26), de Fra Angelico, dois dos primeiros artistas do Renascimento Italiano, com “A Missa de São Gregório” (1415), “O Noivado da Virgem” (1420-30) e a “Anunciação” de Bruxelas (1415-25), da sua autoria.

Robert Campi: “A Missa de São Gregório” e “O Noivado da Virgem”

Robert Campin consta ainda entre os primeiros artistas a utilizar a pintura a óleo, em vez da têmpera. Presumivelmente, antes de Jan van Eyck. A nova técnica melhora a duração, o realismo, a profundidade, o brilho e a gradação das cores.

Protagonista político, encabeçou, em 1423, uma revolta de artesãos contra a o poder aristocrático, tendo desempenhado vários cargos de governo e administração até 1428. Este envolvimento valeu-lhe uma punição em 1429 com “multa, obrigação de fazer uma peregrinação a Saint-Gilles en Provence e interdição de exercer qualquer função pública”. Em 1432, acusado de adultério, é condenado a exilar-se de Tournai. Este “estado de desgraça” junto do poder contribuiu para o “apagamento” de que foi vítima durante quase cinco séculos.

Com alguma preguiça, para a apresentação das três pinturas da Anunciação atribuídas a Robert Campin, vamo-nos socorrer da descrição facultada pelos museus onde estão expostas.

“A Anunciação” do Museu do Prado

Robert Campin (Oficina). A Anunciação. Óleo. Ca. 1420-25. Museu do Prado

A pintura representa a Anunciação segundo o relato de São Lucas (1:26–38). O Arcanjo Gabriel, enviado por Deus, visita Maria para anunciar que será a mãe de Jesus. A conceção é simbolizada pelos raios, que emanam do topo da composição, onde Deus Pai aparece iluminado e rodeado por uma corte de anjos, e se estendem até Maria. Alguns dos elementos iconográficos habituais da Anunciação, como a pomba do Espírito Santo, estão ausentes, mas outros estão incluídos, por exemplo, o lírio num vaso em primeiro plano à direita. Maria, reclinada nas almofadas de um banco, está absorta na leitura das sagradas escrituras e ainda não sentiu a presença do anjo.

Apesar da solenidade do espaço eclesiástico onde se desenrola a cena, o banco, o livro e, sobretudo, o armário aberto conferem-lhe uma certa atmosfera quotidiana privada. A Virgem usa um volumoso manto azul que se estende artificialmente sobre o chão em numerosas dobras e contém uma inscrição indecifrável na borda. O anjo traz na mão direita um bastão e veste uma capa de chuva vermelha de orla larga com decoração em volutas de motivos vegetalistas e letras alternadas, mais estreita e simples na bainha (…)  O anjo também possuía um halo de raios, agora bastante desgastados, que era representado numa perspetiva oblíqua e não frontal, de acordo com a sua posição. A cena sucede numa espécie de átrio ou entrada de uma igreja gótica de desenho impossível que não parece representar um tipo particular (…)

Em 1985, o catálogo [do museu] reconheceu a identificação do Mestre de Flémalle como Robert Campin, e atribuiu o painel a este último, assinalando expressamente, como acontecia desde 1933, que não havia unanimidade quanto à sua atribuição. Recordou novamente as diferenças de qualidade com o Noivado [ver imagem info)], assinalando a possibilidade de ter sido um dos primeiros trabalhos executados em colaboração com um assistente (…). apesar de manifestar conhecimento de algumas das principais criações do Mestre de Flémalle e tentar imitar alguns dos seus pontos fortes, como o equilíbrio composicional, a obtenção de uma perspetiva correta e o uso eficaz do simbolismo arquitetónico, esta Anunciação não alcança a criatividade requintada encontrada nas melhores obras do mestre. O estilo de pintura também é muito diferente. Esta pintura pode, portanto, ser atribuída a um seu seguidor e datada de alguns anos depois de o mestre ter produzido as suas principais obras. (Museo del Prado, A Anunciação: https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-annunciation/52a6820f-892a-4796-b99e-d631ef17e96a; consultado em 12.01.2025).

“A Anunciação” dos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica

Robert Campin (Master of Flémalle). A Anunciação. Óleo. 1415-25. Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica. Bruxelas. Talvez o original do exposto no Metropolitan Museum of Art (MET)

Nesta obra, a Anunciação ocorre num interior de classe média, algo inteiramente novo na arte da época. Até então, a cena era retratada dentro ou no pórtico de uma igreja. Seguindo a tradição, o Arcanjo Gabriel entra na sala pela esquerda. Em sinal de humildade, a Virgem Maria está sentada num piso de ladrilhos encostada a um banco comprido. A borda de seu casaco é decorada com uma inscrição, outra inovação adicionada pelo Mestre de Flémalle. O texto parece ser inspirado na Salve Regine, um hino medieval popular [ver o vídeo no final deste artigo]. Os gestos da Virgem Maria mostram sua aceitação: a mão direita apoiada em seu estômago e os olhos castamente abaixados. Nos joelhos de Maria e na mesa está um livro aberto. Este motivo pode inspirar-se num tratado sobre a verdadeira devoção de por volta de 1400, segundo o qual a Virgem estava a meditar nas Sagradas Escrituras quando Gabriel entrou na sala. Os livros também indicam que ela é detentora da sabedoria divina. (…) As janelas podem representar profetas que previram a vinda do Messias. Outros objetos aparentemente comuns da vida cotidiana possuem um significado mais profundo. A pequena escova perto da lareira simboliza a purificação da mancha do pecado e o lírio branco (…) a virgindade de Maria. (…) Os lustres e as velas representam a Virgem e Cristo; o fato de não estarem acesos sugerem que a conceção já ocorreu. A escultura em madeira representando São Cristóvão levando o Menino Jesus através do rio é um detalhe curioso. O motivo é um bom exemplo das inconsistências cronológicas frequentemente encontradas em pinturas dos primitivos flamengos. Como a cena principal retrata a Anunciação, o Messias claramente ainda não nasceu. (Roel Slachmuylders in ‘Musée d’Art Ancien. Oeuvres choisies’: https://artsandculture.google.com/asset/the-annunciation-master-of-fl%C3%A9malle-robert-campin/qQFSi4Q3kb6IsQ?hl=en; consultado em 12.01.2025).

Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode (MET)

Atribuído a Robert Campin e sua oficina. Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode. Óleo. Ca, 1427-1432. Metropolitan Museum of Art (MET)

Acabado de entrar na sala, o anjo Gabriel está prestes a dizer à Virgem Maria que ela será a mãe de Jesus. Os raios dourados que entram pelo óculo esquerdo carregam uma figura em miniatura com uma cruz. Na ala direita, José, que é noivo da Virgem, trabalha em sua carpintaria, fazendo furos numa tábua (…) Na ala esquerda, o doador ajoelhado parece testemunhar a cena central pela porta aberta. Sua esposa ajoelha-se atrás dele, e um mensageiro da cidade aguarda no portão do jardim. Os proprietários teriam comprado o tríptico para usar em orações privadas (…).

Entre as pinturas neerlandesas antigas mais célebres, sobretudo pela observação detalhada, riqueza da imagens e excelente condição — este tríptico pertence a um conjunto de pinturas associadas à oficina de Tournai de Robert Campin (ca. 1375–1444), às vezes chamado de Mestre de Flémalle. Documentos indicam que ele contratou pelo menos dois assistentes, o jovem Rogier van der Weyden (ca. 1400–1464) e Jacques Daret (ca. 1404–1468). Evidências estilísticas e técnicas sugerem que o retábulo foi executado por fases. A Anunciação, que se inspira numa composição da oficina um pouco anterior, não decorre provavelmente de uma encomenda. O comprador encomendou posteriormente os painéis laterais, que parecem ter sido pintadas por dois artistas. Ainda mais tarde, na década de 1430, presumivelmente após o casamento do comprador, os retratos de sua esposa e do mensageiro foram adicionados. As janelas do painel central, originalmente cobertas com folhas de ouro, foram pintadas com um céu azul, e os escudos heráldicos foram adicionados posteriormente. (The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece: https://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/56.70).

Chegados a este ponto, convém acrescentar alguns comentários, a não ser para legitimar a autoria do artigo.

Três pinturas antigas com a Anunciação

Como foi avançado na descrição do Museu do Prado, Robert Campin inovou, ao nível da forma, no equilíbrio composicional, nos volumes, na profundidade e na perspetiva.No que respeita ao conteúdo, o livro, da sabedoria, e o lírio, da pureza, mantêm-se uma constante, mas alguns motivos característicos de obras mais antigas (ver três exemplos acima) nem sempre são contemplados, pelo menos de um modo imediato e direto: a pomba, o menino e a cruz, na Anunciação do Museu do Prado; e o Deus Pai, os raios de luz, o menino, a cruz e a pomba, na Anunciação do Museu de Bruxelas. Por seu turno, o tríptico da Anunciação do Metropolitan Museum of Art (MET) inclui a miniatura com o menino a carregar a cruz, mas não explicita nem o Deus Pai, nem os raios de luz, nem a pomba.

As pinturas da oficina de Robert Campin distinguem-se das precedentes, antes de mais, pela riqueza, profusão e minúcia dos detalhes. Trata-se de um atributo, e contributo, do Renascimento do Norte, fonte de um realismo até então inédito, cujo auge naturalista é alcançado por Jan van Eyck (ver, por exemplo, ao lado, o detalhe do Adão do Retábulo de Ghent, de 1432).

Reconhecer que o realismo aumenta não significa que o investimento no simbólica diminua. Pode até intensificar-se e tornar-se mais profundo, oferecendo-se mais diversificado, inesperado, rebuscado e, porventura, dissimulado.

Sob este prisma mais fino, a obra de Robert Campin, além de deslocar a cena para um interior doméstico, inova também em termos de conteúdo.

Na Anunciação dos Museus Reais das Belas-Artes da Bélgica, a pomba do Espírito Santo não ressalta à vista. Mas deteta-se pelo menos duas vezes. Desviando o olhar, repara-se numa pomba pintada no vaso com os lírios; concentrando-o, divisa-se na janela vertical do lado esquerdo o vulto de uma pomba, acima de uma roseira. A pomba lá está (ou estava, caso tenham ocorrido alterações).

Se, para além da vista, abusar da objetividade, delirar um pouco, então os reflexos da manga do braço direito da Virgem dão a impressão de esboçar uma pomba. Passa-se, assim, da ausência à multiplicidade. Fabulações? Recorde-se, porém, que na arte, tal como na publicidade, um motivo pode gerar os efeitos desejados sem ser identificado pelos destinatários, sem assomar à consciência. Os artistas já o sabiam e aplicavam há mais de quinhentos anos.

Este preciosismo mesquinho na observação das imagens eletrónicas cansa e magoa a vista, ao ponto de obrigar a uma espécie de jejum digital, a suspensão temporária mas frequente do recurso ao computador.

Na mesa, um candelabro com uma vela apagada. Acesa, a vela significa a presença e a luz de Cristo. No caso da Anunciação, a sua chegada como “luz do mundo”. A chama também pode ser associada ao Espírito Santo no momento da Encarnação. Apagada, a vela sugere uma presença divina imaterial e impercetível. A vela apagada parece indicar que a conceção está consumada, ao jeito da Virgem Maria, discreta e humildemente.

Não se observa nenhuma miniatura com o Menino Jesus em voo picado. Em contrapartida, aparece transportado por São Cristóvão numa pequena escultura em madeira, descentrada, por cima da lareira. Não desencantei vestígios alusivos à cruz. A não ser que… A não ser que se tome a sério o requinte de criatividade do simbolismo de Robert Campin, em particular, e dos artistas do Renascimento do Norte, em geral.

O motivo de São Cristóvão com o Menino Jesus no ombro remete para a ideia da cruz. Cristóvão (do grego Christophoros, “aquele que carrega Cristo”), “ao carregar o Menino Jesus, está simbolicamente a carregar a cruz de Cristo, cruz que representa o sacrifício e o apelo para seguir Cristo mesmo na adversidade (…) Assim como Cristo carregou a cruz para redimir os pecados da humanidade, São Cristóvão carrega Cristo, que por sua vez carrega o peso do mundo”. A cruz é o fardo redentor por excelência.

Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode. Ca. 1427-1432. Metropolitan Museum of Art. Detalhe

No Tríptico da Anunciação, ou Retábulo de Mérode, do Metropolitan Museum of Art, a miniatura com o menino Jesus a carregar a cruz destaca-se,  junto às claraboias, no canto superior esquerdo, habitualmente reservado ao Deus Pai irradiante.

Sobre a mesa, um castiçal com uma única vela, ainda fumegante, acusando o efeito do “sopro divino”. A conceção pelo Espírito Santo acaba de se consumar.

Na Anunciação de Bruxelas, descobriam-se pombas, mas não cruzes. Em contrapartida, na Anunciação do tríptico do MET, descobrem-se cruzes, mas não pombas.

Na Anunciação de Bruxelas, descobrem-se pombas, mas não cruzes. Em contrapartida, na Anunciação do tríptico do MET, descobrem-se cruzes, mas não pombas.
Embora a jarra pareça a mesma em ambas as pinturas, uma pequena rotação, no tríptico, resulta suficiente para impedir uma identificação cabal; estará lá, mas oculta quanto baste. A exemplo da vela fumegante, o pintor alude à pomba, mas cuida de a encobrir.

O motivo da cruz aparece na miniatura, mas também, com boa vontade, no painel do lado direito, com São José a trabalhar como carpinteiro [repare-se que os tempos insistem em baralhar-se: Maria e José compartilham o mesmo espaço, vivem juntos, apesar de o casamento seja posterior à Anunciação]. As ferramentas na mesa estão, propositada e artificialmente, dispostas de feição a compor três cruzes, as cruzes do Calvário, de Cristo e dos dois ladrões.

O corpo fala! Na generalidade das pinturas da Anunciação, a postura da Virgem, especialmente das mãos, tende a partilhar significados convencionais. A mão erguida e aberta com a palma para a frente exprime surpresa; as mãos cruzadas sobre o peito, aceitação; a mão direita pousada no peito junto ao coração, congratulação. (Crono)logica mas nem sempre efetivamente, a sucessão, por fases, seria: palma da mão levantada, surpresa pela interpelação; mãos cruzadas, aceitação do desígnio divino; e mão direita junto ao coração, congratulação pela bem-aventurança.

O corpo fala. A posição das mãos nas pinturas com a Anunciação

A pintura do museu do Prado não contempla nenhuma destas alternativas. Absorta na leitura de um livro envolto numa toalha branca, símbolo de pureza, a Virgem “ainda não sentiu a presença do anjo”. A Anunciação está prestes a começar.

Na Anunciação dos Museus Reais de Bruxelas, a vela apagada sugere que a conceção já foi consumada. Maria volta a estar concentrada na leitura, mas com a mão direita sobre o peito, congratula-se pela bem-aventurança. Embora o Arcanjo Gabriel esteja retratado, a interação com manifesta-se concluída. A Anunciação já aconteceu.

No tríptico do Metropolitan Museum of Art, a fase propriamente dita da Anunciação parece concluída. A vela fumegante, os raios de luz e o Menino Jesus a caminho sugerem que a descida do Espírito Santo e a conceção estão em curso, senão já consumadas.

Adotando numa perspetiva policrónica (Edward T. Hall, A Linguagem silenciosa, 1ª ed. 1959), com justaposição e cruzamento de espaços e tempos, pode admitir-se que os episódios retratados nas pinturas do Prado e do MET resultam baralhados, ao ponto de a postura da Virgem, absorta na leitura e sem interagir com o Arcanjo, tanto poder sugerir que a Anunciação, propriamente dita, ainda não começou ou já terminou.

Portanto e em suma, a César o que é de César, a Campin o que é de Campin.

Despeço-me com um convite à escuta do hino medieval Salve Regina e um desafio para acender ou apagar a vela.

Patrick Lenk. Salve Regina. Salve Regina Monastic (Chant of the Mystics). 2019

Carrancudo, barbudo e com a vista cansada.

Prometi não cortar a barba antes de terminar este artigo. Sem lhe ver o fim, fiquei cada vez mais obcecado e apressado. Decidi colocar uma versão sem revisão. Tomar-me-ia demasiado tempo.

Sobram dois aspetos positivos: desisti convictamente de deixar crescer a barba e experimentei, pela primeira vez, esticar os pelos do bigode.

Amanhã, será outro dia. Preciso preparar-me para a apresentação do Boletim Cultural de Melgaço no próximo sábado.

Novo livro sobre André Soares para público infantojuvenil

Na próxima quinta ocorre o lançamento do novo livro de Eduardo Pires de Oliveira. Nada de extraordinário. O Eduardo não para de escrever e publicar textos. Mas, desta vez, resulta diferente. Dedicado à vida e à obra de André Soares e destinado a um público infantojuvenil, o autor assume o o desafio de propiciar uma leitura acessível, “amigável”. Admito aguardar com bastante curiosidade a apresentação para descobrir a solução adotada. Tenho, portanto, encontro marcado às 11 horas do dia 7 de novembro no Auditório Braga Simões da Escola André Soares.

Reacionário ou reativo?

Cada dia que passa sinto-me não sei se mais reacionário ou mais reativo. O artigo “Democratização. Um testemunho pessoal” representa um bom indício de tendência. Foi publicado hoje, 27 de setembro, na Revista ELO 31, Escola Democracia Sociedade, do Centro de Formação Francisco de Holanda. O respetivo pdf inclui a capa, a ficha técnica e o índice da revista.

A Ausência de Deus

Missal Fouquet. 48r. Entre 1450 e 1470. Yale University Library

Em Cabeceiras de Basto, sexta feira, dia 13, falei muito, talvez demasiado, do diabo, pelos vistos uma espécie de “Absens Deus”. Hoje, lembrei-me deste anúncio. Coloquei-o no Tendências do Imaginário em agosto de 2015 com o seguinte comentário: “Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião: o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião” (https://tendimag.com/2015/08/03/a-ciencia-a-bicicleta-a-cigarra-e-a-formiga/). Retomo-o como um lembrete esfíngico.

Anunciante: Ministry of Education and Science of the Republic of Macedonia. Título: Religion. Does god exist? Macedónia, 2008.

Aventura na Casa do Tempo

Sydney Opera House

Ontem à noite, estive na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto. A sala estava cheia. Conversei como quem confidencia, durante hora e meia, de pé e à vontade. Sem trejeitos académicos. À medida que envelheço apercebo-me quão castradores da inteligência e da sensibilidade podem revelar-se os academismos. Ressalvando alguma reação a uma picardia, o público manteve-se em profundo silêncio. É verdade que o recurso a ideias e imagens surpreendentes e estranhas ajuda! De qualquer modo, o silêncio prolongado resulta raro. Tanto pode ser bom como mau sinal, traduzir interesse e concentração como enfado e evasão. Fiquei, contudo, com a impressão de ter sido compreendido. Aliàs, uma mensagem pode ser desconcertante sem ser aberrante. Acarinhado, com a sexta-feira dia 13 a acabar, despedi-me com vontade de voltar.

Acordei bem-disposto. Procurei nos arquivos uma música ou um anúncio a condizer. Eventualmente festivos. Encontrei ambos num simples vídeo: o Play It Safe, da Sydney Opera House com Tim Minchin.

Anunciante: Sydney Opera House / Tim Minchin. Título: Play It Safe. Agência: The Monkeys (Sydney). Direção: Kim Gehrig. Austrália, outubro 2023