Tag Archive | Estados Unidos

Apeadeiro

SharonIrving-0351

A vida é feita de travessias. Há quem assegure que o melhor das travessias são as encruzilhadas. Para mim são as paragens. Quando coloco o pé no apeadeiro, parece que faço uma rasteira à velocidade e dou um nó nos fios do destino.

Sharon Irving é uma cantora norte-americana. Pouco conhecida. Muitas das suas canções não atingem a dezena de milhar de visualizações. Gosto de outsiders. Rest, Get Here, do álbum Bennett Ave (2016), foi a música escolhida pela Purina para o anúncio April & Dixie. Talvez seja uma boa oportunidade para Sharon Irving. Por exemplo, o anúncio Release me (2007), da Saab, alavancou o grupo sueco Oh Laura (ver https://tendimag.com/2017/06/25/vitalismo/).

Sharon Irving. Rest, Get Here. Bennette Ave. 2006.

Marca: Purina. Título: April & Dixie. Agência: The Martin Agency (Richmond). Direcção: Terry Rayment. Estados Unidos, Maio 2018.

O discurso do morto

it+can+wait6

A publicidade é omnívora: tudo serve desde que se preste. Nestes anúncios da AT&T, companhia americana de telecomunicações, os mortos são convocados para sensibilizar os vivos. Que os mortos falam é coisa em que se acredita. Comprovam-no as mesas falantes. Não dançam? Não comem? Não bebem? Não aparecem? Então por que não haviam de falar?

No anúncio The Face of Distracted Driving / It Can Wait, inteiramo-nos como Caleb e Forrest encaravam a sua vida e que aparência teriam caso não tivesse ocorrido o acidente, por uso indevido do telemóvel, que os vitimou.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Caleb. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Forrest. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Fisionomia e inteligência

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 1871

O carácter e a inteligência dependem da fisionomia e da pose? Assim o entende Franz Joseph Galo, fundador da frenologia (Gall, Franz Joseph & Spurzheim, Johann, 1809 (Untersuchungen ueber die Anatomie des Nervensystems ueberhaupt, und des Gehirns insbesondere, Paris e Strasburg, ed. Treuttel e Würtz, 1809).

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 2. 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 2. 1871

Há, precisamente, dois e sete anos, gracejei com a eventual relação entre, por um lado, a fisionomia e a postura corporal e, por outro, o desempenho intelectual. Revisitei, com agrado, estes dois textos. O humor revigora.

A cerveja e o astronauta

“E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro” (José Saramago, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, in Os Poemas Possíveis, Ed. Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição).

Depois da Coca-Cola, é a vez da Carlsberg. Uma galeria de pecados. Porque a Carlsberg também faz mal, faz com que a proeminência de uma pessoa desça da cabeça para a barriga. O que é grave. Eu professor que o diga. Há poucos anos, entrava na sala de aulas e os alunos lá apostavam: “este até é capaz de ter cabeça!”. Agora, o olhar nem sequer sobe até às palavras; fica hipnotizado no abdómen. O que é grave para a aprendizagem. A Carlsberg e um sem fim de bebidas são pedagogicamente nocivas. A avaliação dos docentes devia contemplar o seguinte índice: razão entre o perímetro da cabeça e o perímetro da barriga. Quanto maior, melhor. Entretanto, enquanto a coisa não encolhe, nada como promover acções de formação creditadas sobre o uso de corpetes e espartilhos. A venda de cerveja já foi proibida na academia. Santa sabedoria! Se quiseres ter mais cabeça do que barriga, faz como o astronauta: bebe com capacete.

Marca: Carlsberg. Título: Spaceman. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, Abril 2011.

Cabecinha pensadora

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984).

fig-10-chiu-i-wu1

Figura 01. Chiu I.

Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.

Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.

Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.

Galeria de imagens

 

 

Manuel Freire, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (1993). Poema de José Saramago.

 

 

Amor tranquilo

Land Rover The road

“Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon cœur d’une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l’heure, je me souviens des jours anciens et je pleure ; et je m’en vais au vent mauvais qui m’emporte deçà, delà, pareil à la feuille morte” (Paul Verlaine ; Poèmes saturniens, Chanson d’automne, 1866).

Gestos serenos em equilíbrio, uma beleza poética sem Adónis, nem Afrodite. Uma cumplicidade subcutânea. Como cabe tamanha delicadeza num anúncio a um carro? A harmonia e a lentidão são quebradas por um fluxo vertiginoso de memórias, numa câmera acelerada. Travessia, vertigem, aventura… Um anúncio dentro do anúncio. O Land Rover faz 75 anos. O casal ronda essa idade. No anúncio The road, o motor e o coração cruzam-se e pulsam a várias velocidades. “Uma vida juntos” num romance sobre rodas.

Marca: Land Rover. Título: The road. Produção: Kite Rock Pictures. Direcção: Fran Mendez. Estados Unidos, Março 2018.

Beleza audiovisual

Jackson Hole

Ver e ouvir com prazer. Pena não haver nem gosto, nem tacto nem cheiro digitais. O anúncio Stay Wind, da Jackson Hole Travel & Tourism Board, é uma delícia para os olhos. E para os ouvidos. A música é dos Fleet Foxes. Acrescento outra música do mesmo grupo: White Winter Hymnal (2008). E pronto! Acabo de falar em Ponte de Lima e esperam-me em Briteiros (Guimarães).

Marca: Jackson Hole Travel & Tourism Board. Título: Stay Wild. Agência: Colle McVoy. Estados Unidos, Março 2018.

Fleet Foxes. White Winter Hymnal. Fleet Foxes. 2008.

Desligar o mundo

Hello Vacation

“Eu remontava na minha memória até à infância para voltar a encontrar o sentimento de uma protecção soberana. Não existe protecção para os homens” (Antoine de Saint-Exupéry, Pilote de Guerre, 1942).

As grandes marcas ostentam um coração de anjo. Por inerência ou por conversão. Algo como o efeito Scrooge, do Conto de Natal de Charles Dickens. As grandes marcas preocupam-se connosco! No admirável anúncio novo Hello Vacation, a Motorola alerta: conectados na rede; desligados do mundo.

A Motorola produz telemóveis, smartphones e tablets! O anúncio parece um hara-kiri. Mas não é! A Motorola apenas produz telemóveis, não é responsável pelo seu uso, do foro de outras entidades, tais como as operadoras.

Convém desconfiar dos anjos, mormente dos anjos da guarda que fazem tudo para nos proteger: a protecção atrai o controlo. O abraço que protege é o mesmo que aperta.

Marca: Motorola. Título: Hello Vacancy. Agência: Ogilvy & Mather. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Internacionalização

António. Cartoon

António. Cartoon.

O perfil das consultas do Tendências do Imaginário sofreu uma alteração significativa: as visualizações provenientes dos Estados Unidos superam as portuguesas, que rondam os 17.5%. Atendo-se ao Brasil, aos Estados Unidos e a Portugal, o gráfico ilustra esta “nova ordem”. O blogue nunca foi tão “internacionalizado” nem teve tanta afluência como nas últimas semanas. Não é motivo para júbilo? Confesso alguma amargura. O blogue foi concebido para um público português. Nunca imaginei que 36,6% e 29,0% das visitas proviriam do Brasil e dos Estados Unidos. Os portugueses andam, decerto, muito ocupados a internacionalizar-se. É o novo fado da pátria.

Visualizações do Tendências do Imaginário-Brasil, Estados Unidos e Portugal

Uma caricatura do Infante D. Henrique abre o artigo; uma música do séc. XVI dedicada a D. Sebastião fecha-o. Entre ambas, deve esconder-se o V Império.

Puestos estan frente a frente. Circa 1500. O Lusitano. 1992.

Fora de pista

Sherpa-cinemas-imagination

Há algo em nós de boneco de neve. Quando nos dá para a estoicidade, derretemos firmes e hirtos (AG).

Está frio! Mas podia estar mais. Partir para a neve. Para uma estância. Daquelas onde bronzeamos de dia e convivemos de noite. Nada como calçar aquelas botas que nos prendem os tornozelos e partir à aventura em cima de duas tábuas. Fora de pista, que a neve pisada é pasmada. O esqui quer-se mais voado do que deslizado. A modos como o protagonista do anúncio Imagination, da The North Face: um esqui Parkour, surf, nos limites, saltado e voado, à medida da imaginação de uma criança.

JP Auclair, a professional freeskier who passed away in an avalanche in 2014, developed the original concept. If you feel a pinch of melancholy, it’s not just your lonely search for lost time; “Imagination” is also an emotional tribute to Auclair from friends and collaborators (Produção).

Marca: The North Face. Título: Imagination. Agência: In House. Estados Unidos. Novembro 2017.

O roubo da identidade

starburst-the-replacement-hed-2017

O anúncio Replacement, da Starburst, é um resquício da temporada do Halloween. Versa sobre um roubo de identidade, que acaba por excluir uma criança do seu mundo familiar. No poema Deus, Maria Helena Amaro escreve: “Roubem-me tudo, mas não me roubem Deus!” Uma canção popular elege a cachaça: “Pode-me faltar tudo na vida (…) só não quero que me falte a danada da cachaça”. Pois, salvaguardando Deus e a cachaça, não deve existir pior roubo do que o roubo da identidade. A canção Epígrafe para a arte de furtar aborda o tema: “e de mim mesmo / todos me roubam”.

Marca: Starburst. Título: Replacement. Agência: Team Collaboration. Direcção: Christopher Leone. Estados Unidos, Outubro 2017.

José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz outro amigo também. 1970.

Distopia

halo-top-ice-cream-flavors-FT-BLOG0617

Será este o nosso futuro? Condiz, pelo menos, com a ficção científica. O anúncio Eat the ice cream, da Halo Top, é desagradável, muito desagradável. Não é o primeiro, nem será o último. Há muitos anúncios no mesmo registo. Importa rever o provérbio: afinal, apanham-se moscas com vinagre.

Marca: Halo Top. Título:  Eat the ice cream. Agência: Red Tettemer O’Connell + Partners. Direcção: Mike Diva. Estados Unidos, Setembro 2017