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A geração +

“Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” (Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra, 1891).

Todos os dias estreiam excelentes anúncios. É o caso da série Great Shows Stay With You, da Amazon Prime Video. Cada episódio foca uma pessoa que se supera. “Prime Video propõe através das suas séries tornar-te mais forte, mais audaz e, até, mais sexy” (http://www.culturepub.fr/videos/amazon-prime-video-vikings/). A campanha exorta à superação individual. Esta exaltação inspira-me um breve devaneio.

Houve períodos no século passado em que o objectivo das pessoas residia não tanto em ser mais, uma mesmidade potente, mas em ser diverso, uma travessia pela alteridade. O desígnio da superação individual, da ultrapassagem dos limites banais, lembra o super-homem de Nietzsche. Lembra, também, a ideologia de alguns regimes do século XX apostados no aperfeiçoamento do homem. A obstinação do ser humano na superação dos outros e de si próprio pode terminar num desastre.

Escrevo fragmentos desencontrados. Escrevo, em larga medida, o que me apetece. Durante a juventude combinei as duas vontades: superação e abertura. As flores do imaginário prestam-se a vários arranjos. Gostava de continuar, mas, neste momento, só consigo ultrapassar-me em doenças. O pensamento e a escrita afinam-se por uma flauta de pastor; sempre a mesma melodia.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Vikings. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Tom Clancy’s Jack Ryan. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Outlander. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

De pequenino se torce o destino

Marca: Barbie. Título: The Dream Gap Project. Agência: BBDO San Francisco. Direcção: Karen Cunningham. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio The Dream Gap Project, da Barbie, está a ser um sucesso. Merecido. Meninas de tenra idade são as únicas protagonistas. Estou convencido que não existe melhor embaixador para a publicidade do que as crianças. Numa sequência de imagens notável, desempenham o seu papel de um modo brilhante. O objectivo, a igualdade de género desde a infância, é alcançado de uma forma magistral e cristalina.

As mensagens prestam-se a várias interpretações. Será que neste anúncio se enxerta um segundo discurso, uma espécie de “currículo oculto”? Uma vez que o anúncio interpela, principalmente, os pais, permitam que me expresse em conformidade: as nossas filhas precisam de sonhar que podem ser “presidentes, cientistas, astronautas, grandes pensadoras, engenheiras, presidentes de empresas”? Precisam de “ver mulheres brilhantes a ser brilhantes, e ver como chegaram onde estão”? É este o mundo que desejamos para nós e para as nossas filhas? As nossas filhas devem ser galgos a correr atrás das elites? É essa a nossa ideia de felicidade e de realização pessoal?

Choca a discriminação de que são vítimas as meninas: “três vezes menos provável receberem um brinquedo ligado às ciências”; pior, “duas vezes mais provável os pais pesquisarem “o meu filho é sobredotado?” do que “a minha filha é sobredotada”. Há, porém, males que vêm por bem. Na maioria dos casos, quando os pais estimam que o filho é sobredotado, o “privilégio” torna-se num suplício para os filhos e para os professores. É verdade que pode propiciar-se uma predição criadora: o filho, considerado sobredotado, acaba, na prática, por corresponder às expectativas. Mas, na maioria dos casos, a etiqueta de sobredotado converte-se num doloroso equívoco.

 

Embaixadores e semideuses

“A dúvida nasce do espírito, a fé é filha da alma” (John Peti-Senn, Les bluettes et boutades, 1846).

É antiga a história do burro e da cenoura. Hoje, a tendência é para substituir a cenoura por um “embaixador”, uma espécie de semideus contemporâneo. Vilfredo Pareto (Tratado de Sociologia Geral, 1916) classificava como acção não-lógica a tendência para seguir a opinião de uma pessoa célebre mas em domínios afastados do assunto. Por exemplo, um músico ou um político para resolver um problema de saúde. Na publicidade, abundam os anúncios que recorrem à figura do embaixador. Em muitos casos, o embaixador não tem, logicamente, quase nada a ver com o assunto; mas, não logicamente, tem quase tudo a ver. Herança da cenoura? Prodígios da fé? Convém lembrar uma máxima da Sociologia: não é porque uma ideia é falsa que ela perde eficácia.

Marca: The Allstate Foundation: Purple Purse. Título: Invisible Weapon. Agência: Leo Burnett (Chicago). Estados Unidos, Outubro 2018.

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Abstenção

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Não vale a pena? Tens mais que fazer? És um original? Não és um parafuso numa engrenagem? Nem um nada na massa? São todos iguais? Não os conheces de nenhum lado? Pois, não votes, outros o farão por ti. Mais do que imaginas! Mas não vale a pena insistir. Nunca se sabe o que se ganha com uma cruz num quadrado.

Desconversemos! Por que motivo o anúncio se dirige a um grupo etário, os jovens? Mesmo que o abstencionismo seja maior entre os jovens, isso não justifica uma discriminação cívica, o dedo apontado à maneira do Tio Sam. Mas o que mais me incomoda no anúncio é a oposição entre jovens, que não votam, e velhos, que votam mal. Senso comum, tão comum quanto perverso. Como diria o cónego Remédios, não havia necessidade.

Anunciante: Acronym. Título: Dear young people, don’t vote. Agência: Nail Communications. Direcção: Lee Beckett. Estados Unidos, Setembro 2018.

Apeadeiro

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A vida é feita de travessias. Há quem assegure que o melhor das travessias são as encruzilhadas. Para mim são as paragens. Quando coloco o pé no apeadeiro, parece que faço uma rasteira à velocidade e dou um nó nos fios do destino.

Sharon Irving é uma cantora norte-americana. Pouco conhecida. Muitas das suas canções não atingem a dezena de milhar de visualizações. Gosto de outsiders. Rest, Get Here, do álbum Bennett Ave (2016), foi a música escolhida pela Purina para o anúncio April & Dixie. Talvez seja uma boa oportunidade para Sharon Irving. Por exemplo, o anúncio Release me (2007), da Saab, alavancou o grupo sueco Oh Laura (ver https://tendimag.com/2017/06/25/vitalismo/).

Sharon Irving. Rest, Get Here. Bennette Ave. 2006.

Marca: Purina. Título: April & Dixie. Agência: The Martin Agency (Richmond). Direcção: Terry Rayment. Estados Unidos, Maio 2018.

O discurso do morto

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A publicidade é omnívora: tudo serve desde que se preste. Nestes anúncios da AT&T, companhia americana de telecomunicações, os mortos são convocados para sensibilizar os vivos. Que os mortos falam é coisa em que se acredita. Comprovam-no as mesas falantes. Não dançam? Não comem? Não bebem? Não aparecem? Então por que não haviam de falar?

No anúncio The Face of Distracted Driving / It Can Wait, inteiramo-nos como Caleb e Forrest encaravam a sua vida e que aparência teriam caso não tivesse ocorrido o acidente, por uso indevido do telemóvel, que os vitimou.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Caleb. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Forrest. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Fisionomia e inteligência

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 1871

O carácter e a inteligência dependem da fisionomia e da pose? Assim o entende Franz Joseph Galo, fundador da frenologia (Gall, Franz Joseph & Spurzheim, Johann, 1809 (Untersuchungen ueber die Anatomie des Nervensystems ueberhaupt, und des Gehirns insbesondere, Paris e Strasburg, ed. Treuttel e Würtz, 1809).

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 2. 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 2. 1871

Há, precisamente, dois e sete anos, gracejei com a eventual relação entre, por um lado, a fisionomia e a postura corporal e, por outro, o desempenho intelectual. Revisitei, com agrado, estes dois textos. O humor revigora.

A cerveja e o astronauta

“E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro” (José Saramago, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, in Os Poemas Possíveis, Ed. Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição).

Depois da Coca-Cola, é a vez da Carlsberg. Uma galeria de pecados. Porque a Carlsberg também faz mal, faz com que a proeminência de uma pessoa desça da cabeça para a barriga. O que é grave. Eu professor que o diga. Há poucos anos, entrava na sala de aulas e os alunos lá apostavam: “este até é capaz de ter cabeça!”. Agora, o olhar nem sequer sobe até às palavras; fica hipnotizado no abdómen. O que é grave para a aprendizagem. A Carlsberg e um sem fim de bebidas são pedagogicamente nocivas. A avaliação dos docentes devia contemplar o seguinte índice: razão entre o perímetro da cabeça e o perímetro da barriga. Quanto maior, melhor. Entretanto, enquanto a coisa não encolhe, nada como promover acções de formação creditadas sobre o uso de corpetes e espartilhos. A venda de cerveja já foi proibida na academia. Santa sabedoria! Se quiseres ter mais cabeça do que barriga, faz como o astronauta: bebe com capacete.

Marca: Carlsberg. Título: Spaceman. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, Abril 2011.

Cabecinha pensadora

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984).

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Figura 01. Chiu I.

Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.

Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.

Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.

Galeria de imagens

 

 

Manuel Freire, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (1993). Poema de José Saramago.

 

 

Amor tranquilo

Land Rover The road

“Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon cœur d’une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l’heure, je me souviens des jours anciens et je pleure ; et je m’en vais au vent mauvais qui m’emporte deçà, delà, pareil à la feuille morte” (Paul Verlaine ; Poèmes saturniens, Chanson d’automne, 1866).

Gestos serenos em equilíbrio, uma beleza poética sem Adónis, nem Afrodite. Uma cumplicidade subcutânea. Como cabe tamanha delicadeza num anúncio a um carro? A harmonia e a lentidão são quebradas por um fluxo vertiginoso de memórias, numa câmera acelerada. Travessia, vertigem, aventura… Um anúncio dentro do anúncio. O Land Rover faz 75 anos. O casal ronda essa idade. No anúncio The road, o motor e o coração cruzam-se e pulsam a várias velocidades. “Uma vida juntos” num romance sobre rodas.

Marca: Land Rover. Título: The road. Produção: Kite Rock Pictures. Direcção: Fran Mendez. Estados Unidos, Março 2018.

Beleza audiovisual

Jackson Hole

Ver e ouvir com prazer. Pena não haver nem gosto, nem tacto nem cheiro digitais. O anúncio Stay Wind, da Jackson Hole Travel & Tourism Board, é uma delícia para os olhos. E para os ouvidos. A música é dos Fleet Foxes. Acrescento outra música do mesmo grupo: White Winter Hymnal (2008). E pronto! Acabo de falar em Ponte de Lima e esperam-me em Briteiros (Guimarães).

Marca: Jackson Hole Travel & Tourism Board. Título: Stay Wild. Agência: Colle McVoy. Estados Unidos, Março 2018.

Fleet Foxes. White Winter Hymnal. Fleet Foxes. 2008.