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Os cavalos também dançam

Lucky Luke, Jolly Jumper e Rantanplan

“O cavalo, como todos sabem, é a parte mais importante do cavaleiro” (Jean Giraudoux, Ondine, 1959, Paris, Flammarion, 2016, Scène Deuxième).

Um pingo de humor cai sempre bem, até na melancolia. O anúncio The Cool Ranch, da Doritos, é uma paródia dos westerns. Assistimos a um duelo de dança em duas mãos. Primeiro, os cowboys, em seguida, os cavalos. A música de Ennio Morricone sublinha a dramaticidade heroica do momento. Quem ganha o dorito? Um cow-boy vale o que vale o seu cavalo. O primeiro cavalo, tipo Jolly Jumper, capricha; o segundo, tipo Rantanplan, faz o que lhe apetece: nada.

Marca: Doritos. Título: Cool Ranch. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2020.
Rolling Stones. Wild Horses. Sticky Fingers. 1971.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

Três em um

  • A surpresa mora na Internet. Desesperado de encontrar um bom vídeo com a música Because The Night, de Patti Smith, percorri a lista do Google quase de fio a pavio. Deparei com este vídeo, cuja imagem consiste num extenso e desinibido cruzamento de duas citações: o soberbo anúncio Odyssey, da Levi’s (2002) e o perturbador filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders (2000).

Seguem o vídeo para a música Because The Night, de Patti Smith, o trailer do filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders, e o anúncio Odyssey, da Levi’s.

Patti Smith. Because The Night. Easter, 1978. Kegio, 2008.
Trailer de The Million Dollar Hotel, filme realizado por Wim Wenders. 2000.
Título: Odyssey. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido. Jan. 2002.

Os sentidos na interação social

Na Digressão sobre a sociologia dos sentidos (1927), Georg Simmel aborda o modo como os sentidos participam na interacção humana. É um texto notável, a ler e reler sem vontade de bocejar. Um desequilíbrio nos sentidos pode afectar a normalidade social. No anúncio Overheard, da Eargo, o excesso de audição do pai perturba a família, que se descobre exposta a uma intrusão descontrolada.

Marca: Eargo. Título: Overheard. Agência: Huge. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Gula e violência

A observação de anúncios ensina-nos o que se já sabe: 1) tudo pode servir para motivo de um anúncio; 2) entre o conteúdo do anúncio e a natureza do produto pode não existir relação; 3) há conteúdos que se prestam a tudo, por exemplo, o sexo e a violência. O anúncio Nacho Fight, da Taco Bell, convoca a violência (carnavalesca ou não). O anúncio sugere, porém, uma sentença digna da Arte da Guerra de Sun Tzo: o que faz a guerra também faz a paz; basta passar da carência à abundância.

A fibra do guerreiro

O filósofo grego Filóstrato (séculos II-III d.C) escreve no Tratado sobre a ginástica:

“Estes antigos atletas tomavam banho nos rios e nas fontes, dormiam no duro, uns sobre peles, outros sobre ervas que cortavam nas pradarias. Os seus alimentos consistiam em maza e em pão mal cozido e não fermentado; alimentavam-se ainda de carne de boi, de touro, de bode e de antílope. Untavam-se com óleo de azeitonas vulgares ou de outras espécies de azeitonas; permaneciam assim resguardados de doenças e retardavam a devastação da velhice. Alguns participaram nos confrontos durante oito olimpíadas, outros durante nove, e tornaram-se hábeis no manuseamento de armas pesadas. Batiam-se como se fossem donos de uma fortaleza, e não se mostravam inferiores nesta espécie de combates; eram julgados dignos do prémio da valentia e de troféus; faziam da guerra um exercício para a ginástica, e da ginástica um exercício para a guerra” (Philostrate, Traité sur la gymnastique, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie, 1858).

Norbert Elias fala em etos guerreiro (Elias Norbert. Sport et violence. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°6, décembre 1976, p. 8; pdf anexo). Mas, agora como dantes, nem todos os desportos pressupõem disposições guerreiras.

“Em suma, desta breve comparação entre as características dos desportos mais populares e dos desportos mais novo-burgueses ressalta uma oposição paradigmática entre ascese (áskësis) e estese (æsthësis). Enquanto que muitas das práticas mais típicas dos desportos populares parecem movidas por um éthos guerreiro as dos desportos novo-burgueses remetem mais para o éthos do mestre ou do artista (Gonçalves, Albertino, Imagens e Clivagens, Porto, Afrontamento, 1996, p. 114); pdf anexo).

O anúncio The only way is through, da Under Armour, é uma ilustração concisa do etos guerreiro: esforça-te, castiga-te, resiste, treina, concentra-te, supera-te, enfrenta e vence. Under armour. Mas, ao contrário das olimpíadas da antiguidade, não podes, em princípio, nem estropiar nem matar o adversário.

Marca: Under Armour. Título: The only way is through. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Arrepio

O terror não assombra o Tendências do Imaginário. Convoca bastante a morte, mas pouco o medo. Nunca se sabe o que é fonte de terror. Depende da pessoa e dos seus fantasmas. Projectei numa aula o filme A Festa de Babette. Para treinar uma micro-sociologia da cultura e ilustrar como uma forma social, o banquete, pode transfigurar as pessoas. Uma aluna horrorizou-se com as imagens da confecção dos alimentos. O filme Brahms: The Boy II é um filme de terror que estreia no dia 21 de Fevereiro de 2020. Alguns episódios lembram o Exorcista. Segue o trailer, um produto da QUAD.

Brahms: The Boy II. Trailer. Produção: QUAD. Direcção: William Brent Bell. Janeiro 2020.

Música, amor e harmonia

Tiffany & Co.

Não devemos esgotar o riso. Deforma os maxilares e cansa o diafragma. Pois, sejamos sisudos. Falemos a sério de coisas nem sempre sérias. A música consta das experiências que proporcionam um sentimento de harmonia. A harmonia, existe? Se se sente, existe. Existe na música e, com alguma intermitência, no amor. O amor existe? Se se sente, existe. O amor dá-nos uma sensação de plenitude beata. O amor é o prazer humano mais próximo do divino. A música e o amor costumam conjugar-se. Por exemplo, na barcarola de Offenbach (Belle nuit, ô nuit d’amour), mas também no anúncio da Tiffany (Love (in) New-York). Quando a música e o amor dão as mãos à estética, o prazer vai para além do pecado.

Jacques Offenbach. Barcarola (Belle nuit, ô nuit d’amour), da ópera Les Contes de Hoffmann. 1881. Interpretação de Montserrat Caballé e Marilyn Horne. Munique, 1990.
Marca: Tiffany & Co. Título: Love (in) New York. Agência: Ogilvy NY. Direcção: Bruno Aveillan. 2015.

O Pai Natal. Questões de género

Virgin Media. Now That’s Christmas. 2019.

Falta visionar dois dos dezasseis anúncios de Natal seleccionados. Ambos evidenciam a sensibilidade de género. No primeiro, da Macy’s, uma rapariga quer ser pai Natal e, no segundo, da Virgin Media, a protagonista é uma drag queen. Esta sensibilidade representa, porventura, a maior ameaça à figura do Pai Natal. Promove a desconsensualização de uma hegemonia.

Nos anos setenta, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, entre outros, vaticinaram um futuro auspicioso aos movimentos feministas, ecologistas e regionalistas, alternativos aos movimentos tradicionais, designadamente de classe. Não se enganaram. Estes “novos” movimentos conquistaram poder e influência. Censuram palavras, gestos e símbolos, entre os quais o Pai Natal. Numa crónica do Expresso, Nelson Marques ilustra claramente aquilo que me transcende. Segue um excerto.

“Querido Pai Natal, / Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro. / Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?” (Nelson Marques, #género Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?, Expresso, 16.12.2018, excerto; https://expresso.pt/sociedade/2018-12-16-genero.-Esta-na-hora-de-nos-despedirmos-do-Pai-Natal-).

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

E o diabo? É verdade que não faltam diabas. Tanto em Amarante (ver Crónica dos Diabos de Amarante; https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/ ), como no inferno (ver imagem do Museu Nacional de Arte Antiga). Em suma, somos pessoas, substantivo feminino neutro.

Isto corrói a imagem de um santo, quanto mais do Pai Natal. A influência da sensibilidade de género na comunicação social, mormente na publicidade, é indubitável. O Pai Natal está em apuros. E não há quem lhe acuda.

Marca: Macy’s. Título: Santa Girl. Agência: BBDO (New York). Direcção: Garth Davis. Estados Unidos, Novembro 2019,
Marca: Virgin Media. Título: Now That’s Christmas. Agência: Rapp. Direcção: Rock Hound. Reino Unido, Novembro 2019.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?