Archive | Dezembro 2015

Negro que te quero negro

Sempre que ouço os Aguaviva, convenço-me que são tetranetos do Francisco de Goya: um tom negro de sofrimento revoltado. Segue duas canções dos Aguaviva: Pon tu cuerpo a tierra (Poetas Andaluces de Ahora, 1975) e No nos dejan cantar (Apocalipsis (1971). Acresce uma selecção de gravuras da série Los Desastres de la Guerra (1810-1815), de Francisco de Goya.

Aguaviva. Pon tu cuerpo a tierra. Poetas Andaluces de Ahora. 1975.

Aguaviva. No nos dejan cantar. Apocalipsis. 1971.

Galeria: Francisco de Goya. Los Desastres de la Guerra. 1810-1815.

No meu país, canção diz-se song

No meu país, canção não se diz chanson, nem canción, nem canzone. No meu país, canção diz-se song. Conhece a cantora francesa Patricia Kaas?

Patricia KaasPatricia Kaas. Les hommes qui passent (1990).

Prazer

“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.

Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).

Pascal escreve sobre o prazer e o amor. A tapeçaria do Museu de Cluny exibe um breviário de prazeres: o banho, a nudez, a música, as jóias, as iguarias…  A iluminura do Codex Manesse versa sobre o prazer que Pascal mais enaltece: o amor. Jacques Brel canta um paradoxo: “Quando só nos restar o amor, teremos o mundo inteiro nas mãos”.
Gosto de Pascal, da arte medieval e de Jacques Brel. E tu?

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Jacques BrelJacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957).

A Menina Bexigosa

São raras as canções que abordam a discriminação estética. A Menina Bexigosa (1973), de Manuel Freire, consta entre as excepções. Nunca, como hoje, a fealdade foi tamanho fardo e a beleza tanto capital. Numa sociedade rendida à aparência, a beleza é a primeira e a mais eloquente carta de recomendação. No Discurso Sobre as Paixões do Amor (1652-1653), Blaise Pascal constata que “há um século para as loiras, outro para as morenas (…)  A própria moda e os países regulam aquilo que se chama beleza”.  A moda passa, mas permanece. A beleza justifica uma violência simbólica exacerbada. Os ismos e os pós ismos, tão cheios de razão, têm ignorado esta desigualdade. Não há nada a fazer? Talvez ver com outros olhos, o que não se resume aos óculos.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem (Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520-1525).

Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520.525
Manuel Freire. A Menina Bexigosa. 1973.

A Menina Bexigosa

A menina bexigosa viu-se ao espelho
soltou-se do vestido e viu-se nua
está agora vestida de vermelho,
inerte, no passeio da rua

Antes fora alegria e alvoroço
mas num baile ninguém a foi buscar
morreu o sonho no seu corpo moço
passou a noite a chorar

Tanto chorou que lhe chamaram louca
cada qual lhe levava o seu conselho
mas ninguém ninguém ninguém lhe beijou a boca
e a menina bexigosa viu-se ao espelho

Depois, fecharam a janela
vieram os vizinhos: ´Pobre mãe…´
vieram os amigos: ´Pobre dela…´
era tão boa e simples tão honesta,
… portava-se tão bem´
E dão-lhe beijos na testa
beijos correctos pois ninguém, ninguém
soube em vida matar a sua sede

´A menina bexigosa portava-se tão bem´
O espelho continua na parede.

Sidónio Muralha

Alegria e estupidez

O anúncio Sports Alphabet é um exercício ou, se se preferir, um divertimento. As letras iniciais dos versos do rap percorrem o alfabeto de A a Z. A canção menciona 50 desportos e o vídeo contempla 26 estilos de animação. Estes requisitos lembram os maneiristas do século XVI. Mas é, antes de mais, um anúncio que irradia alegria.

“A vida é cousa tão séria, os seus problemas são tão graves, que a ninguém assiste o direito de rir. Quem ri é estúpido – de momento, pelo menos. A alegria é a forma comunicativa da estupidez” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Pois se “a alegria é a forma comunicativa da estupidez”, ser estúpido é um estado abençoado. Sejamos estúpidos, enquanto pudermos! A inteligência que fique para os tristes e os circunspectos. Na adolescência, encarava a estupidez como o descanso da inteligência. Há, porém, quem não descanse. Ignoram que “a vida é muito importante para se falar dela a sério” (Oscar Wilde, O Leque de Lady Windermere,1892).

sports alphabet

Marca: Bleacher Report. Título: Sports Alphabet – Blackalicious. Agência: BarrettSF (San Francisco). Direcção: William Campbell & Will Johnson. USA, Dezembro 2015.

A sanita e a cocaína

O humor coalhado não ferve, nem gela, não é grosseiro, nem fino, não é pesado, nem leve, é um riso engasgado com uma fornada de absurdo lógico. É natural que um anúncio sobre sanitas decorra numa casa de banho, local escolhido por uma jovem (Milla Jovovich) para inalar cocaína. Para desespero, a cocaína é absorvida pelo dispositivo de autolimpeza da sanita. A sanita ficou pedrada? Qual é a moral da história? Será que, como conclui a Cristina, este anúncio “fala de limpeza e ensina sujidade”.

Uma simples palavra pode espicaçar a memória. A música Cocaíne (1976), de J.J. Cale, já foi contemplada neste blogue (https://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/). Existe, porém, outra música de J. J. Cale que não desmerece: Call me the Breeze (Naturally, 1971; ao vivo, em 2004, com a participação de Eric Clapton). Para suavizar o ritmo, Magnolia, do mesmo álbum.
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Marca: CWS (Complete Washroom Solution. Título: Say no to dirt. Agência: Jung Von Matt / Allster Werbeagentur GmbH. Alemanha, 2007.

JJ Cale Call me the Breeze

J.J. Cale. Call me the Breeze. Com Eric Clapton. Crossroads Guitar Festival. 2004.

JJ Cale. Magnolia. Naturally. 1971.

A chave da juventude. O efeito George Clooney

Mencionei, há dias, o mito da eterna juventude (https://tendimag.com/2015/12/13/dar-vida-a-morte/). Não demorou a cair na rede um anúncio a preceito: Forever Young, da Volskwagen. Uma mostra de jovens quarentões. Qual é o segredo? Um novo elixir da juventude? O Volskswagen Polo?

Dando asas à curiosidade, quais são, no anúncio, os sinais exteriores de juventude? A aparência: corpo à Leni Riefenstahl e roupa à Hugo Boss. Os próximos: mulher e filhos adoráveis. Raça desportiva, homem muito homem e um Volkswagen Polo.

Num site argentino, o vídeo aparece com a seguinte mensagem: “Publicidad discriminatoria”: “Una publicidad discriminatoria que propaga estereotipos estandarizados y promueve la valoración personal positiva sólo por la belleza exterior” (https://www.youtube.com/watch?v=WMhBFlEXehE). Mas a discriminação não fica por aí, vai muito além da beleza exterior.

“Forever is our today”. Vale a pena recordar os Queen.

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Marca: Volkswagen. Título: Forever Young. Agência: DDB (Argentina). Direcção: Lucian Podcaminsky. Argentina, Dezembro 2015.

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Queen. Who wants to live forever. A kind of Magic. 1986.

Só se morre uma vez

“Só se morre uma vez, e é por muito tempo” (Molière, Le Dépit Amoureux, 1656).

Sugeri, num artigo recente, que o Ocidente tem dificuldade em lidar com a morte. Pois não parece. Curiosamente, nesta quadra dedicada ao nascimento, multiplicam-se os anúncios que convocam a morte. É o caso do emocionante Dear Brother, da Johnnie Walker. Resistimos à morte cultivando a memória e a magia. O anúncio é recheado de recordações. Um toque de magia, ou, se se preferir, de religião, culmina o vídeo. Magia em torno de rituais, de símbolos, de gestos e de fetiches. Por exemplo, a partilha de uma garrafa de Whiskey. Nós sabemos que a morte nos espera. A informação de que dispomos é tão suficiente para confirmar a vida quanto para garantir a morte. E, no entanto, algum nó em algum dos nossos arquétipos nos faz viver como se fosse para sempre. Algo em nós nos ofusca. “Viver para a morte”, ou “viver com a morte”, não é nada confortável. E neste mundo da ciência e da técnica, o incómodo não esmoreceu. Por causa do “desencantamento do mundo” (Max Weber), mas sobretudo pela alteração histórica da representação do percurso de vida. Se é verdade que “mal um homem vem à vida, já é bastante velho para morrer” (Heidegger, Ser e Tempo, 1ª ed. 1927), também não é menos certo que, num passado recente, o envelhecimento significava amadurecimento, sabedoria e, eventualmente, aproximação ao divino. Na atualidade, o envelhecimento é encarado e vivido como degenerescência. Estamos perante um novo “triunfo da morte”: o triunfo da “morte social”. Entre o nascimento e a morte, navega-se, hoje, de cais em cais, com outro espírito.

Para uma análise mais detalhada do anúncio Dear Brother: http://www.adweek.com/adfreak/breathtaking-spec-ad-johnnie-walker-best-student-work-ever-168620.

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Johnnie Walker Dear Brother

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

Sushi

Este anúncio da Sushi Shop é invulgar. Ganha em ser saboreado várias vezes. Simples, dispensa qualquer espalhafato ou complicação. Sóbrio, economiza na cor e no enredo. A ação não se apressa: acontece quando acontecer, a um ritmo de percussão que dispensa orquestra. Este anúncio é subtil. Tem um humor destilado e furtivo, destinado a quem come sushi com pauzinhos para a mão esquerda. Um regalo!

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Marca: Sushi Shop. Título: Les baguettes pour gauchers. Agência: DDB Paris. Direcção: Elsa & Hippolyte. França, Dezembro 2015.

Muito com pouco

Não é, necessariamente, a profusão de palavras e de imagens que mais comunica. O essencial pode exprimir-se com quase nada. Como a rosa do Principezinho (ver vídeo do Gilbert Bécaud) ou este anúncio, da Innocence en danger, contido em meios e generoso em resultados. Com a colaboração dos Radiohead.

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Anunciante: Innocence en danger. Título: The Witness. Agência: Rosapark. Direcção: Josh Patrick Dowson. França, Dezembro 2015.

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Gilbert Bécaud. L’important c’est la rose. 1967.