Negro que te quero negro
Sempre que ouço os Aguaviva, convenço-me que são tetranetos do Francisco de Goya: um tom negro de sofrimento revoltado. Segue duas canções dos Aguaviva: Pon tu cuerpo a tierra (Poetas Andaluces de Ahora, 1975) e No nos dejan cantar (Apocalipsis (1971). Acresce uma selecção de gravuras da série Los Desastres de la Guerra (1810-1815), de Francisco de Goya.
Aguaviva. Pon tu cuerpo a tierra. Poetas Andaluces de Ahora. 1975.
Aguaviva. No nos dejan cantar. Apocalipsis. 1971.
Galeria: Francisco de Goya. Los Desastres de la Guerra. 1810-1815.
Prazer
“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.
Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).
Pascal escreve sobre o prazer e o amor. A tapeçaria do Museu de Cluny exibe um breviário de prazeres: o banho, a nudez, a música, as jóias, as iguarias… A iluminura do Codex Manesse versa sobre o prazer que Pascal mais enaltece: o amor. Jacques Brel canta um paradoxo: “Quando só nos restar o amor, teremos o mundo inteiro nas mãos”.
Gosto de Pascal, da arte medieval e de Jacques Brel. E tu?

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.
Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Jacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957).
A Menina Bexigosa
São raras as canções que abordam a discriminação estética. A Menina Bexigosa (1973), de Manuel Freire, consta entre as excepções. Nunca, como hoje, a fealdade foi tamanho fardo e a beleza tanto capital. Numa sociedade rendida à aparência, a beleza é a primeira e a mais eloquente carta de recomendação. No Discurso Sobre as Paixões do Amor (1652-1653), Blaise Pascal constata que “há um século para as loiras, outro para as morenas (…) A própria moda e os países regulam aquilo que se chama beleza”. A moda passa, mas permanece. A beleza justifica uma violência simbólica exacerbada. Os ismos e os pós ismos, tão cheios de razão, têm ignorado esta desigualdade. Não há nada a fazer? Talvez ver com outros olhos, o que não se resume aos óculos.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem (Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520-1525).

Manuel Freire. A Menina Bexigosa. 1973.
A Menina Bexigosa
A menina bexigosa viu-se ao espelho
soltou-se do vestido e viu-se nua
está agora vestida de vermelho,
inerte, no passeio da ruaAntes fora alegria e alvoroço
mas num baile ninguém a foi buscar
morreu o sonho no seu corpo moço
passou a noite a chorarTanto chorou que lhe chamaram louca
cada qual lhe levava o seu conselho
mas ninguém ninguém ninguém lhe beijou a boca
e a menina bexigosa viu-se ao espelhoDepois, fecharam a janela
vieram os vizinhos: ´Pobre mãe…´
vieram os amigos: ´Pobre dela…´
era tão boa e simples tão honesta,
… portava-se tão bem´
E dão-lhe beijos na testa
beijos correctos pois ninguém, ninguém
soube em vida matar a sua sede´A menina bexigosa portava-se tão bem´
O espelho continua na parede.Sidónio Muralha
Alegria e estupidez
O anúncio Sports Alphabet é um exercício ou, se se preferir, um divertimento. As letras iniciais dos versos do rap percorrem o alfabeto de A a Z. A canção menciona 50 desportos e o vídeo contempla 26 estilos de animação. Estes requisitos lembram os maneiristas do século XVI. Mas é, antes de mais, um anúncio que irradia alegria.
“A vida é cousa tão séria, os seus problemas são tão graves, que a ninguém assiste o direito de rir. Quem ri é estúpido – de momento, pelo menos. A alegria é a forma comunicativa da estupidez” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).
Pois se “a alegria é a forma comunicativa da estupidez”, ser estúpido é um estado abençoado. Sejamos estúpidos, enquanto pudermos! A inteligência que fique para os tristes e os circunspectos. Na adolescência, encarava a estupidez como o descanso da inteligência. Há, porém, quem não descanse. Ignoram que “a vida é muito importante para se falar dela a sério” (Oscar Wilde, O Leque de Lady Windermere,1892).
Marca: Bleacher Report. Título: Sports Alphabet – Blackalicious. Agência: BarrettSF (San Francisco). Direcção: William Campbell & Will Johnson. USA, Dezembro 2015.
A sanita e a cocaína
O humor coalhado não ferve, nem gela, não é grosseiro, nem fino, não é pesado, nem leve, é um riso engasgado com uma fornada de absurdo lógico. É natural que um anúncio sobre sanitas decorra numa casa de banho, local escolhido por uma jovem (Milla Jovovich) para inalar cocaína. Para desespero, a cocaína é absorvida pelo dispositivo de autolimpeza da sanita. A sanita ficou pedrada? Qual é a moral da história? Será que, como conclui a Cristina, este anúncio “fala de limpeza e ensina sujidade”.
Uma simples palavra pode espicaçar a memória. A música Cocaíne (1976), de J.J. Cale, já foi contemplada neste blogue (http://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/). Existe, porém, outra música de J. J. Cale que não desmerece: Call me the Breeze (Naturally, 1971; ao vivo, em 2004, com a participação de Eric Clapton). Para suavizar o ritmo, Magnolia, do mesmo álbum.
Para aceder ao vídeos, carregar nas imagens.
Marca: CWS (Complete Washroom Solution. Título: Say no to dirt. Agência: Jung Von Matt / Allster Werbeagentur GmbH. Alemanha, 2007.
J.J. Cale. Call me the Breeze. Com Eric Clapton. Crossroads Guitar Festival. 2004.
JJ Cale. Magnolia. Naturally. 1971.
A chave da juventude. O efeito George Clooney
Mencionei, há dias, o mito da eterna juventude (http://tendimag.com/2015/12/13/dar-vida-a-morte/). Não demorou a cair na rede um anúncio a preceito: Forever Young, da Volskwagen. Uma mostra de jovens quarentões. Qual é o segredo? Um novo elixir da juventude? O Volskswagen Polo?
Dando asas à curiosidade, quais são, no anúncio, os sinais exteriores de juventude? A aparência: corpo à Leni Riefenstahl e roupa à Hugo Boss. Os próximos: mulher e filhos adoráveis. Raça desportiva, homem muito homem e um Volkswagen Polo.
Num site argentino, o vídeo aparece com a seguinte mensagem: “Publicidad discriminatoria”: “Una publicidad discriminatoria que propaga estereotipos estandarizados y promueve la valoración personal positiva sólo por la belleza exterior” (https://www.youtube.com/watch?v=WMhBFlEXehE). Mas a discriminação não fica por aí, vai muito além da beleza exterior.
“Forever is our today”. Vale a pena recordar os Queen.
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Marca: Volkswagen. Título: Forever Young. Agência: DDB (Argentina). Direcção: Lucian Podcaminsky. Argentina, Dezembro 2015.
Queen. Who wants to live forever. A kind of Magic. 1986.
Só se morre uma vez
“Só se morre uma vez, e é por muito tempo” (Molière, Le Dépit Amoureux, 1656).
Sugeri, num artigo recente, que o Ocidente tem dificuldade em lidar com a morte. Pois não parece. Curiosamente, nesta quadra dedicada ao nascimento, multiplicam-se os anúncios que convocam a morte. É o caso do emocionante Dear Brother, da Johnnie Walker. Resistimos à morte cultivando a memória e a magia. O anúncio é recheado de recordações. Um toque de magia, ou, se se preferir, de religião, culmina o vídeo. Magia em torno de rituais, de símbolos, de gestos e de fetiches. Por exemplo, a partilha de uma garrafa de Whiskey. Nós sabemos que a morte nos espera. A informação de que dispomos é tão suficiente para confirmar a vida quanto para garantir a morte. E, no entanto, algum nó em algum dos nossos arquétipos nos faz viver como se fosse para sempre. Algo em nós nos ofusca. “Viver para a morte”, ou “viver com a morte”, não é nada confortável. E neste mundo da ciência e da técnica, o incómodo não esmoreceu. Por causa do “desencantamento do mundo” (Max Weber), mas sobretudo pela alteração histórica da representação do percurso de vida. Se é verdade que “mal um homem vem à vida, já é bastante velho para morrer” (Heidegger, Ser e Tempo, 1ª ed. 1927), também não é menos certo que, num passado recente, o envelhecimento significava amadurecimento, sabedoria e, eventualmente, aproximação ao divino. Na atualidade, o envelhecimento é encarado e vivido como degenerescência. Estamos perante um novo “triunfo da morte”: o triunfo da “morte social”. Entre o nascimento e a morte, navega-se, hoje, de cais em cais, com outro espírito.
Para uma análise mais detalhada do anúncio Dear Brother: http://www.adweek.com/adfreak/breathtaking-spec-ad-johnnie-walker-best-student-work-ever-168620.
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Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.
Sushi
Este anúncio da Sushi Shop é invulgar. Ganha em ser saboreado várias vezes. Simples, dispensa qualquer espalhafato ou complicação. Sóbrio, economiza na cor e no enredo. A ação não se apressa: acontece quando acontecer, a um ritmo de percussão que dispensa orquestra. Este anúncio é subtil. Tem um humor destilado e furtivo, destinado a quem come sushi com pauzinhos para a mão esquerda. Um regalo!
Marca: Sushi Shop. Título: Les baguettes pour gauchers. Agência: DDB Paris. Direcção: Elsa & Hippolyte. França, Dezembro 2015.
Muito com pouco
Não é, necessariamente, a profusão de palavras e de imagens que mais comunica. O essencial pode exprimir-se com quase nada. Como a rosa do Principezinho (ver vídeo do Gilbert Bécaud) ou este anúncio, da Innocence en danger, contido em meios e generoso em resultados. Com a colaboração dos Radiohead.
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Anunciante: Innocence en danger. Título: The Witness. Agência: Rosapark. Direcção: Josh Patrick Dowson. França, Dezembro 2015.
Gilbert Bécaud. L’important c’est la rose. 1967.










