Archive | Dezembro 2015

Dar vida à morte

Giotto. Ressurreição de Lázaro. 1320s

Giotto. Ressurreição de Lázaro. 1320s

Pois é impreterível que este corpo que perece se revista de incorruptibilidade, e o que é mortal, se revista de imortalidade. No momento em que este corpo perecível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, for revestido de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Devorada, pois, foi a morte pela vitória!” “Onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão?” (Coríntios 15).

O Ocidente teve sempre dificuldade em lidar com a morte. A crença na ressurreição e na fonte da juventude é um sintoma. O regresso e o adiamento. Os anúncios de Marcel Burgos, da Acciona e da PlayStation 3, convocam esta fé angustiada.

O anúncio Re alude ao renascimento e à ressurreição. Um Big Bang à escala humana. Menos Frankenstein, costurado com pedaços alheios, e mais Osíris, assassinado por Seth. Ísis, a esposa, recolhe o corpo despedaçado e devolve a vida a Osíris.

O anúncio Victor lembra o Oskar, o menino que recusa crescer, do filme O Tambor (1979), uma adaptação do livro homónimo de Gunter Grass (1959). Lembra, também, as pinturas da fonte da juventude, como a de Lucas Cranach O Velho (ver http://tendimag.com/2013/10/10/a-fonte-da-juventude/). Forçando um pouco, no Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, o envelhecimento é suspenso ou, melhor, deslocado.
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Acciona Re

Marca: Acciona. Título: Re. Agência: McCann Milan. Direcção: Marcel Burgos. Itália, 2009.

Playstation Viktor

Marca: PlayStation 3. Título: Viktor. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi (Buenos Aires). Direcção: Marcel Burgos. Argentina, 2011.

Fetichismo

Moledo presta-se à asneira. Sobra tempo. A asneira requer mais dedicação do que a conveniência.

Um grupo de alunos está a fazer um trabalho sobre a roupa interior na publicidade. Duvido que abordem o tema do fetichismo. O fetichismo sexual é abordado, desde Freud, pela psicanálise. O marxismo romântico também desenvolve, desde Georg Lukacs, um conceito próximo: a reificação. Em que consiste o fetichismo ou a reificação? Em sobrevalorizar a mediação face à entidade mediada, por exemplo, o soutien, ou o detalhe, por exemplo, o pé ou o cabelo, face ao todo que é o corpo. A lingerie é propícia a estes “desvios”.

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Marca: Nearly Naked. Título: Hold Up. Agência: Parmer Jarvis DDB. Canadá 2000.

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Marca: Agent provocateur. Título: La Vitrine. Agência: Bst/BDDP. Direcção: Eugene MC KING. Reino Unido, 1996.

A desorientação sexual das tartarugas

As tartarugas são dadas ao desvio sexual. O parceiro pode ser uma bota, um discman, um telemóvel ou um cão sem duas pernas (ver tendimag.com/2013/05/31/a-tartaruga-carochinha/). Retive dois anúncios, ambos de 1999, com tartarugas oportunistas: o primeiro a um discman da Sony; o segundo a um telemóvel da Motorola.
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Marca: Sony. Título: La tortue mélomane. 1999.

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Marca: Motorola. Título: La tortue. Agência: McCann Erickson. Reino Unido, 1999.

Apagamento

Este anúncio da MDN Australia parece um tributo ao passado: a música, “Don’t Dream It’s Over”, é um cover de Neil Finn (1991) e a “Fading Symphony” é uma adaptação da Sinfonia do Adeus de Joseph Haydn (ver http://tendimag.com/2012/11/21/despedida/). O objectivo justifica, porém, os meios: a luta contra a esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa que elimina, sucessivamente, diversas capacidades vitais, “aprisionando uma mente sã num corpo paralisado”. José Afonso foi vítima desta doença.
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https://www.youtube.com/watch?v=jr9f1pfib_8

Marca: MDN Australia. Título: The Fading Symphony With Tim Michin. Agência: The Works Sydney. Direcção: Husein Alicajic. Austrália, Dezembro 2015.

O caos e o código

“Isn’t it something that a single breath has the power to spawn an entire storm a thousand miles away? We cannot predict it. We can only bear witness to the wonder” (anúncio Chaos Theory).

Há anúncios invulgares, que convocam a desordem para albergar o improvável, a modos como o surf, o deslize em ondas que não voltam. Uma estética que concilia performance individual e comunhão tribal. Um anúncio excelente. Inspirador.
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Surf

Marca: World Surfing League. Título: Chaos Theory. Agência: Mistress. Direcção: Dan DiFelice. USA, Dezembro 2015.

Autodegradação

France 5. Invisible Women

Como sociólogo, aprecio a publicidade. Um anúncio pode revelar-se uma lição. Sociologia espontânea? Talvez criatividade com interesse. Há conferencistas que se alongam a não dizer nada. Retórica do mesmo. Há, em contrapartida, anúncios que avançam novidades rumo à alteridade.

O anúncio Invisible Women, da France5, está bem concebido e bem conseguido. É impactante e não se deixa adivinhar. Não vou ser spoiler. Acrescento apenas que merece figurar junto do clássico The Hobo: the Sociology of the Homeless Man (1923), de Nels Anderson, prefaciado por Robert E. Park. A autodesvalorização como estratégia de sobrevivência ou de convivência existe nos sem abrigo, mas também nos pedintes, nos emigrantes, nos soldados…

Marca: France5. Título: Invisible Women. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Wilfrid Brimo. França, Dezembro 2015.

Só a morte nos reúne

“Só a morte nos reúne” podia ser refrão de uma dança macabra medieval. Mas não! É atual. Só a morte nos reúne quando a vida nos separa. Com ou sem compressão do espaço e do tempo. Com ou sem comunicação multimédia. Com ou sem próteses. Com ou sem liquidez. Com ou sem hiper realidade. Com ou sem tribos. O mundo da vida, o mundo de cada um, não se encolheu, aumentou. E nós perdemo-nos nele! Neste tempo de laços, afectos, sentimentos e emoções, “só a morte nos reúne” é um aforismo do misto de desencontro e urgência que preside ao nosso modo de estar na vida.
Este anúncio veio do Dakar. Um abraço, Meco!
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Marca: Edeka. Título: HeimKommen. Agência: Jung von Matt (Hamburg). Direcção: Alex Feil. Alemanha, Novembro 2015.

Saudades de Paris

Tenho saudades de Paris. Por aqui, planta-se tristeza. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

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Marca: Cartier. Título: Game. Agência: 75 Wanted. Direcção: Christian Larson. França, Junho 2015.

Desfolhar imagens

Bruno Aveillan sobressai como um dos maiores realizadores de anúncios publicitários. Ano após ano, tem vindo a dirigir anúncios para a Cartier. Este “Shape your time” é o mais recente. Fantástico. Épico. Um modo muito peculiar de desfolhar imagens, a modos como quem doura um altar.
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Cartier. Shape your time. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direcção: Bruno Aveillan. França, Julho 2015.

Humor e respeito

“Pode-se rir dos erros sem lesar a decência” (Blaise Pascal, Les Provinciales, 1656-1657)

Para os franceses, Napoleão Bonaparte é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e motivo de riso. Escarnecem quem mais admiram. Esta postura é uma raridade. Em Portugal, sobram os governantes risíveis e escasseiam os prodigiosos: D. Afonso Henriques, D. João II, Marquês de Pombal… Nenhuma grande figura histórica lusitana combina veneração e gracejo. Os portugueses constam “entre os povos mais tristes da Europa”. Falta-lhes, porventura, a reverência burlesca, o cómico nas alturas, rir nas barbas do herói.

“Portugal é um dos países europeus onde os cidadãos menos confiam nos outros, revelam os resultados do Inquérito Social Europeu, um projecto que desde 2001 estuda e compara os valores e atitudes sociais na Europa. Os portugueses são ainda dos europeus mais tristes e descontentes com a política” (Público, 27/11/2008, baseando-se num estudo internacional, coordenado, em Portugal, por Jorge Vala).

Para aceder ao anúncio Napoleon, da Coca-cola Light, carregar na imagem.

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Marca: Coca-cola Light. Título: Napoleon. Agência: Santo Buenos Aires. Direcção: Marcelo Burgos. 2014.