Passado sem Presente
Recordo
Todos aqueles momentos
Perdidos no encantamento
Que jamais
Reencontraremos
Não existe hoje para nós
Nada mais
A partilhar
A não ser o passado
(Roxy Music. Tradução livre)

Há dias, escrevi que os testemunhos dos tempos áureos da cultura europeia acabam por proporcionar um sabor agridoce. Estou longe de ser o único, e ainda menos o primeiro, a incubar semelhante sentimento. Por exemplo, “A Song For Europe”, dos Roxy Music, aponta claramente no mesmo sentido. Há mais de meio século.
Cover & Recover
Habituei-me a ouvir a canção “A Change Is Gonna Come” pela voz do Billy Preston (The Way I Am, 1981), embora o original fosse de Sam Cooke (Ain’t That Good News, 1964). Em contrapartida, foi pela voz do Joe Cocker que conheci “You Are So Beautiful” (I Can Stand a Little Rain, 1974), original do Billy Preston (The Kids & Me, 1974). Seguem ambas, por Billy Preston.
Flor no deserto
Existem interpretações que são sucessos musicais isolados. Palpita-me ser o caso do cover pela italiana Vehlade da canção “Why Can’t We Live Together”, original de 1972 do norte-americano Timmy Thomas. Anda a soprar-me aos ouvidos há bastante tempo. Coloco-a, junto com o original, para a arquivar.
Moinhos do Coração. Regresso à Felicidade

Para o vídeo sobre a felicidade que a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário está empenhada em produzir, a Margarida Gomes propôs o videoclip, excelente, da canção “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand, interpretada por Anne Sofie Von Otter e Brad Mehldau. Para acompanhar, sugere a frase “Felicidade são os momentos vividos e retidos”.
O vídeo recorre às técnicas frozen action e bullet time para ilustrar o modo como os acontecimentos marcantes podem ficar recordados. Na verdade, os momentos da vida não ficam congelados na memória. Esta, viva, não cessa de os alterar e ressignificar.
Michel Legrand, falecido em 2019, com 86 anos, é um dos grandes compositores e pianistas franceses. Entre muitos prémios, recebeu o Oscar de melhor banda sonora pelos filmes Summer of ’42 e Yentl. Acresce o Oscar de melhor canção original por “The Windmills of Your Mind” do filme The Thomas Crown Affair.
Não deixo passar a oportunidade para colocar três músicas do Michel Legrand: “The Windmills Of Your Mind” (1969; “Les Moulins de Mon Coeur”, original 1955), interpretada por Sinne Eeg; “Je ne pourrai vivre sans toi”, com Maurane; e “Summer of ’42”.
Chuva, ruído e beleza

A chuva e as obras na casa ao lado não dão descanso. Marteladas, furos, charcos e pingos… Nem sequer a boa música os faz esquecer. Já encomendei uns headphones com cancelamento de ruído. Vale, entretanto, a beleza. Por sinal, com lentes novas!
Gosto bstante da cabtora irlandesa Imelda May. De tudo: rosto, penteado, corpo, apresentação, estilo, música, voz e interpretação.
Variações
Continuemos com a guitarra portuguesa, com as variações em La, por António Chainho, e em Ré Menor, por Carlos Paredes.
Marta e Companhia
Coloco pouca música portuguesa. Na verdade, neste domínio o meu contributo resulta mínimo. Mas, hoje, com a ajuda da tempestade, lembrei-me da guitarrista Marta Pereira da Costa.
De Estranheza em Beleza. SAXualidade

O Tendências do Imaginário reincide: de beleza em beleza. Será que em tempos de ideias turvas, senão ameaçadoras, e de acontecimentos estranhos, senão sinistros, a beleza se insinua como consolo? Já aconteceu noutras épocas.
Perguntei então à IA: “Existem períodos históricos marcados pela persistência de ameaças em que a beleza se insinua como consolo?”
Solícita, respondeu:
Sim — e isso acontece com uma frequência impressionante. Em muitos momentos da história, quando a vida ficou mais frágil e ameaçada, a beleza não desapareceu: ela mudou de função. Deixou de ser ornamento e passou a ser consolo, resistência e sentido.
Alguns exemplos marcantes:
Antiguidade tardia e Idade Média
Em períodos de guerras, fome e instabilidade, a beleza se insinuou sobretudo no sagrado. Igrejas, mosaicos, cânticos e manuscritos iluminados não eram luxo: eram uma promessa de ordem e transcendência num mundo caótico. A beleza apontava para algo que sobrevivia à morte.
Após a Peste Negra (século XIV)
Depois de uma devastação inimaginável, surgem obras cheias de intensidade emocional. A arte se torna mais expressiva, mais humana. O próprio impulso que desemboca no Renascimento nasce desse contato brutal com a finitude — a beleza como afirmação da vida diante da morte.
Barroco (séculos XVII–XVIII)
Em meio a guerras religiosas, absolutismo e insegurança, o Barroco exagera, emociona, deslumbra. A beleza aqui é dramática, quase excessiva, como se dissesse: o mundo é instável, mas ainda pode ser arrebatador.
Guerras Mundiais do século XX
Mesmo com destruição em escala industrial, surgem poesia, música e artes visuais que não negam o horror, mas convivem com ele. Pense em Paul Celan, em Shostakovich, em Picasso. A beleza não consola suavemente — ela testemunha, e isso já é uma forma de resistência.
Regimes autoritários e ditaduras
A beleza muitas vezes se esconde na palavra, na canção, no gesto mínimo. Poemas, metáforas, artes “menores” viram refúgio e linguagem cifrada para preservar a dignidade humana.
Em todos esses casos, a beleza não aparece como fuga ingênua, mas como algo profundamente humano:
um modo de dizer “nem tudo foi tomado pela ameaça”.
Talvez por isso, sempre que o mundo parece mais sombrio, a beleza encontre uma fresta — não para negar o perigo, mas para lembrar que ainda há algo que vale ser protegido. (ChatGPT, 06.02.2026)
Marés. Haroula Rose

Filha de imigrantes gregos,Haroula Rose é uma realizadora, compositora e cantora norte-americana natural de Chicago.
Com meia dúzia de cds editados, as suas músicas não alcançam muitas visualizações no seu canal do YouTube.
Gosto, em particular, de “Green Eyes”.
Imagem: Haroula Rose

