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Com o Filho no Colo – Convite

O Luís Pinto, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), acaba de produzir o convite para a conversa Com o Filho no Colo: As Esculturas da Humildade e da Piedade, que preparo há quase três anos, desde a conferência dedicada ao “Cristo Estrábico” (29/11/2022), no mesmo local, o auditório do Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa. Está previsto abrir com um momento musical pela Escola Arquidiocesana de Música Litúrgica – São Frutuoso; no fim, em jeito de compensação, um Alvarinho de Honra (da adega Quintas de Melgaço).

Josquin des Prez – Ave Maria, Virgo Serena, ca. 1485. Interpretação: Stile Antico, 2020

A Banheira Fantasma

O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).

O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.

Marca: Hornbach. Título: DIY Odyssey / The Square Meter. Agência: HeimatTBWA, Berlin. Direção: Lope Serrano. Alemanha, agosto 2025

Pietà colorida

Hoje, adquiri uma Pietà. Andava à procura de uma boa versão colorida há muito tempo.

Aliás, também estou a preparar há anos uma “aula poética” sobre as esculturas da Pietà desde inícios do século XIV até finais do seculo XV. O título principal será “Com o Filho no Colo”.

Acontecerá lá para outubro ou novembro, se entretanto não me estimar demasiado ignorante.

Os leilões online são um dos meus passatempos preferidos. Normalmente, sei o que pretendo e não descanso até encontrar a bom preço.

A proprietária teve a gentileza de me trazer a escultura a casa.

De pedra, com 40 cm de altura, é deveras pesada.

Conduzi a senhora, sempre com a escultura no seu colo, até à sala onde já estava um lugar vago reservado na lareira, um dos santuários domésticos.

Pedi-lhe para ser ela a colocá-la. Apaguei-me enquanto permaneceu um bom momento a contemplá-la como quem se despede:

“Sabe, já a tenho comigo há mais de 20 anos. Mas fica bem entregue!”

Philip Glass – Closing. Glassworks, 1982. From 2017 PCF Concert at Merkin Hall Jan 9

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

A Harpa, o Rouxinol e a Rosa

Para alguns, a vocação do ser humano é trabalhar; para outros, explorar ou dominar. No que me respeita, partilhar. De preferência, dar. Antes de mais, prazer. Mas para dar, não basta querer. É preciso alguém para receber. Acontece não conseguir… (AG).

O Tendências do Imaginário já dedicou um artigo a Deborah Henson-Conant, versátil e surpreendente harpista e compositora norte americana, célebre pela autoria da música “The Nightingale” (O Rouxinol). Segue o original instrumental, bem como a versão, com violoncelo, interpretada pelo duo romeno Cell’Arpa (Roxana Moisanu e Mladen Spasinovici, da orquestra da Ópera Nacional de Bucareste.

Para complementar a música, talvez se proporcione a leitura do conto, com subtis ressonâncias eróticas, “O Rouxinol e a Rosa”, do Oscar Wilde, que uma amiga virtuosa e oportunamente me sugeriu.

Pode também acompanhar a leitura com outras músicas. Por exemplo, as canções “The Nightingale” (1989), da série Twin Peaks, com interpretação de Julee Cruise, ou a “Cantilena” (1969), do Padre Francisco Fanhais.

Ilustração de P. J. Lynch, 1990

Deborah Henson-Conant – The Nightingale. Altered Ego [harpa e voz], 1998. Invention & Alchemy [instrumental], 2006
Deborah Henson-Conant – The Nightingale. Interpretação: Duo Cello’Arpa, programa Garantat 100% da TVR 1, maio 2011
Julee Cruise – The Nightingale. Soundtrack From Twin Peaks, 1989
Padre Fanhais – Cantilena. Single, 1969. 25 Abril 30 Anos – Canções de Luta e Liberdade, 2004

Balanço da Espada, da Cruz e do Cálice

Bem-disposta e algo intimista, a conversa sobre “a espada, a cruz e o cálice nas imagens de Cristo e da Virgem Maria” já pertence ao passado. Mobilizou uma vintena de pessoas. Data e hora pouco oportunas. De qualquer modo, a conversa teve a audiência merecida.  Por sinal, suficiente. Com fraco espírito missionário, não cuido de espalhar a palavra. Pouco importa o tamanho da audiência, o que conta é a qualidade da comunicação.

Durante 150 minutos, com um intervalo de 15, foram projetados 93 diapositivos e 160 imagens. As ideias propostas, algumas originais e sustentadas em anos de investigação pessoal, justificam prudente reserva.

A Sala das Cavalariças do Mosteiro de Tibães é um aconchego. Motivados, saímos exaustos, mas satisfeitos. Uma experiência única, que ganha em não ser repetida.

Segue uma galeria com uma seleção de 20 imagens (desordenadas). Um oitavo do conjunto.

A Espada, a Cruz e o Cálice

No próximo sábado, dia 26 de abril, às 15 horas, vou falar no mosteiro de Tibães sobre a relevância dos símbolos da espada, da cruz e do cálice na interpretação das imagens de Cristo e da Virgem Maria. A meio de um fim-de-semana prolongado e coincidente com a Festa do Alvarinho em Melgaço, a data não é a mais propícia. Desejava-a perto da Páscoa e no mosteiro de Tibães, espaço que me é particularmente grato. Nestas condições, foi a única disponível. Não me apoquenta. Interessa-me mais a relação com o público do que a sua dimensão. Como a generalidade das minhas conversas, será única. Projeto retomá-la apenas como aula na academia sénior de Melgaço.

Demasiado ampla, tive que a reduzir. Concentra-se, assim, nos seguintes episódios e figuras: Juízo Final, Menino Jesus com a cruz, Anunciação, Expetação e Virgem Entronizada. Principalmente na Baixa Idade Média e no início da Moderna. A Senhora da Misericórdia e a Pietà resultam adiadas para uma próxima conversa. A Natividade e a Virgem do Leite justificarão, porventura, uma terceira. Não obstante, prevê-se densa e extensa. Afortunadamente, bastante ilustrada e algo original.

Se se proporcionar, apareça. Caso contrário, não lhe sentirá a falta.

Morte Encalhada

Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).

Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.

A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.

Death Stranding 2: On the Beach – Pre-Order Trailer | PS5 Games. Colocado em 9 de março de 2025.

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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)

Prazer gutural

Amanhã, segunda 3, pelas 22 horas, vou animar uma tertúlia sobre o Carnaval, na Observalícia (Rua Nova de Santa Cruz, 369, lj18, Braga). Convocarei, principalmente, resultados de estudos que empreendi. Entretanto, enquanto preparo imagens, escuto música.

O canto é fonte de múltiplos prazeres, de ouvintes e intérpretes. Nos últimos, relevo o prazer que designo como gutural. Remete para a respiração, para a sensação do ar na garganta. A propósito da infância, Jean-Louis Tristani chega a avançar a noção de um  “estádio do respiro” (ver De cortar a respiração).

Afigura-se-me existirem cantores que apostam nesse efeito.

RY X – Howling. Single. 2016. Live from the Vibiana, 2022
RY X – Sweat. Dawn, 2016. Live from the Vibiana, 2022
RY X – Shortline. Dawn, 2016. Live at the Roundhouse with the London Philharmonic Orchestra, 2023

Não conhecia. Gostei e disfrutei. Ele usa a voz praticamente em modo de sussurro, com uma poderosa união ao instrumental, em que persiste uma batida de fundo, como o bater do coração. Na segunda, de modo ainda mais complexo, a orquestra eleva a cadência, juntando um instrumento de cada vez, até a uma linha curta mas contínua, como se fora o lugar do êxtase, para depois docemente voltar à batida do coração, sossegando. Apela a todos os sentidos, expirando toda uma sensualidade que, se não invoca, pelo menos roça o erótico. É perfeito para escutar com os olhos fechados numa união com os elementos. Howling, Uivando, se não à lua, para dentro do peito. Meu Deus, como me surgiu tudo isto. O melhor é mesmo sentir… (Almerinda Van Der Giezen)

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)

Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.

Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.

Carlos Hof – “Adore” (Julie Gautier Visualiser). Por Marriott Bonvoy, 2019
Narcisse (feat. Julie Gautier). Por Julie Gautier & Behind The Mask, abril 2022
NARCOSE by Julie Gautier with Guillaume Néry, janeiro 2023
Carte Blanche (Directed by Julie Gautier). Paris Haute Couture week, January 23rd, 2023
BAKELITE by Julie Gautier | #SickOfPlastic campaign. Produced by @imagine2050_ and Magali Payen. Directed by  @juliegautierofficial, 07/11/2023