Uma vida por viver

No final da Idade Média, acreditava-se que, na hora da morte, os moribundos reviviam os momentos mais marcantes de suas vidas. Esta crença não desapareceu. O anúncio Una vida por ver, da Movistar, operadora de telemóveis ibero-americana, é distinto. Não se trata de uma “revisão do passado” mas de uma “visão do futuro”, da vida que a morte amputou. Não é um rewind nem um forward, mas um retrocesso do futuro para o presente. (A família, um valor tradicional, 27.09.2018)
Extensões ou intrusões do humano?

As novas ferramentas — a teleconferência, os telemóveis, a IA — são extensões que nos capacitam, mas que também nos podem possuir, por vezes sem passar pelo filtro da consciência. Não esconjuradas, mas desejadas, relevam mais da maçã do que da serpente. Estreados este mês, os três anúncios que se seguem oferecem-se como pretexto para pensar essa ambivalência.
Imagem: Marshall McLuhan – Understanding Media The extensions of Man. 1ª ed 1964
Telemóvel e acidentes nas passadeiras
Entre 2018 e 2022, cerca de 25 000 peões foram atropelados em Portugal nesse período; dos quais aproximadamente 43 % aconteceram em passadeiras. Nesse mesmo período registaram-se 527 mortes de peões em atropelamentos (…) 3 578 atropelamentos de peões foram registados em 2025, um número 258 superior ao de 2024. Apesar desse aumento de atropelamentos totais, o número de feridos graves e de mortes diminuíram em comparação com 2024 (…) Estudos e reportagens baseados em dados da ANSR indicam que Portugal tem uma das mais altas taxas de atropelamentos de peões na Europa Ocidental, muitas vezes em passadeiras. (ChatGPT, 01.04.2026).
Anúncio português vintage 7: Sofá
“Sofá”, da Optimus, ilustra claramente quanto somos filhos do telemóvel. Somos a geração do sofá, das emoções confortáveis, mas pertencemos, em particular, à geração do telemóvel, no duplo sentido de época e progenitura. [Carregar na imagem para aceder ao anúncio].

Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
Comunicação e alienação
A crescente autonomia deste receptor lembra-nos que o mais difícil na comunicação não é a mensagem nem a técnica, mas o outro . O desafio da comunicação continua sendo a apreensão – e a gestão – da alteridade. (…) Esta omnipresença da alteridade revela a importância da incomunicação que se torna, de certa forma, o horizonte da comunicação. (Dominique Wolton, “Conclusão. Da informação às ciências da comunicação”, in HERMÈS, LA REVUE, 2007/2 (n° 48) , pp. 189-202)

Martin Scorsese, além de filmes, também realiza anúncios publicitários. Hello Down There, para a empresa norte-americana de hospedagem e criação de sites Squarespace, foi lançado durante o Super Bowl, o principal momento da publicidade a nível mundial. Aborda a dificuldade de comunicação entre os alienígenas do espaço e os alienados da Terra.
Horror de Verão

Onde não há imaginação não há horror (Arthur Conan Doyle)
Sorry for scaring you! Eis a escusa, uma cativante maldade, enunciada por alguns anúncios recentes. Encenam paródias de filmes, por sinal com muita conversa. Há poucos anos, a presença da palavra resultava escassa. Apostava-se mais na imagem. A palavra, escrita ou oral, tende a conquistar protagonismo. Fala-se bastante. Qual a razão? Reação pós-Covide? Efeito da facilitação técnica da comunicação interpessoal? Humanização, naturalização ou aproximação aos públicos? Não sei! Porventura outro motivo qualquer. Estes três anúncios proporcionam três tipos de terror: ”Maldição” (papel higiénico que transforma as sanitas em monstros); “Medusa” (telemóvel cuja visão é fatal); “Sobrenatural” (aparição de um avatar da Regan do filme O Exorcista).



