Uma moeda e três corações

Goethe

O anúncio chinês Change for good condiz com a tradição dos contos morais orientais. Dois rapazes irmãos amealham, com esforço, moedas com o objetivo de comprar um telemóvel para falar com a mãe distante. Prestes a conseguir, o mais novo perde o calçado. Gastam o dinheiro amealhado na compra de um par de sapatilhas. Desfaz-se o sonho do telemóvel. Mas o comerciante dá uma moeda de troco e altera o preço do telemóvel. O troco dá para comprar o telemóvel.

Nós, ocidentais, também temos lendas, com moedas, de elevado valor moral, por exemplo, a fábula com Jesus, São Pedro, uma ferradura, moedas e cerejas.

Carregue na imagem para aceder ao anúncio.

Anunciante: Tencent. Título: Change for good. Agência: Topic. China, Outubro 2020.

A Lenda da Ferradura

Quando ainda obscuro e desconhecido

Nosso Senhor andava na terra

Muitos discípulos o seguiam

– Que raras vezes o compreendiam,

Amava doutrinar as massas

Nas ruas amplas e nas praças,

Pois à face dos céus a gente

Fala melhor e mais livremente.

Ali, dos seus divinos lábios

Fluíam os ensinamentos mais sábios;

Pela parábola e pelo exemplo

Faziam de cada mercado um templo.

Certa vez quando, em paz e santidade,

Chegava com os seus a uma cidade,

Viu qualquer coisa luzir na estrada;

Era uma ferradura quebrada.

Disse a São Pedro com brandura:

– “Pedro, apanha essa ferradura!”

Porém São Pedro, no momento,

Tinha ocupado o pensamento

E absorto em êxtase profundo,

Sonhava-se o dominador do mundo,

Rei, papa, ou tal que se pareça.

Aquilo enchia-lhe a cabeça;

E havia de dobrar a espinha

Por uma coisa tão mesquinha?

Se fosse um cetro, uma coroa,

Mas uma ferradura à toa…

E foi seguindo, distraído,

Como se não tivesse ouvido.

Curvou-se Cristo, com doçura

Celeste, angélica, humilde,

E ergueu do chão a ferradura;

E quando entraram na cidade

Vendeu-a em casa de um ferreiro.

Comprou cerejas com o dinheiro.

Guardando-as, à sua maneira,

Na manga – em falta de algibeira.

Dali saíram por outra porta.

Fora a campanha estava morta;

Nem flor nem sombra; ao longe, ao perto

Era o silêncio, era o deserto,

Era a desolação; ardia,

Torrava, o sol do meio-dia.

Que não valia em tal secura

Um simples gole de água pura!

Nosso Senhor caminha à frente.

Deixa cair discretamente,

Furtivamente, uma cereja

Que Pedro apanha, salvo seja,

Com cabriolas de maluco.

A frutinha era mesmo o suco.

Outra cereja no caminho

Atira o Mestre de mansinho,

Que Pedro apanha vorazmente.

E assim por diante, não uma vez somente,

Fê-lo o Senhor dobrar a espinha

Tantas vezes quantas cerejas tinha.

Durou a cena um bom pedaço.

Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:

– “Pedro, se fosses mais ligeiro

Não tinhas tido este cansaço.

Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,

Tarde por muito menos se fadiga.”

(1797)

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

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Sociólogo.

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