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Porta do Céu

01. Porta do Céu. China.

Fica longe a Porta do Céu. Do outro lado do planeta. Na China, na montanha Tianmen. Uma cavidade natural por onde, a fazer fé nas fotografias, passam avionetas: 131,5 metros de altura; 57 de largura e 60 de comprimento. O escadório para a Porta do Céu comporta 999 degraus (o escadório do Bom Jesus, em Braga, tem 581). Mais de meia hora de ascensão. Um bom pretexto para recordar a música Stairway To Heaven, dos Led Zeppelin.

Galeria de imagens: A Porta do Céu. China.

Led Zeppelin. Stairway To Heaven. Led Zeppelin IV. 1971.

O máximo no mínimo

Apple. The Bucket. 2019,

Muitos anúncios do Extremo Oriente são longos, acima de cinco minutos, lentos, de escassa acção, e moralmente elevados, debruçam-se sobre valores essenciais da vida. A história, os actores e a moral bem podiam limitar-se a menos tempo e a menos imagens. Mas não seria a mesma coisa. Não há maneira alternativa de sentir “o sabor da casa e o sabor da terra”. Sem pressa. Há culturas que colocam o mínimo no máximo. O antropólogo Marshall Sahlins estuda esta sabedoria em vários povos e culturas (Stone Age Economics, Chicago, 1972). A sabedoria dos ocidentais é diferente. Consiste em colocar o máximo no mínimo. Somos os apóstolos da compressão e do exorcismo do vazio. Até a morte, que, segundo Epicuro, não é nada para nós, recheamos de rituais e fantasmas.

A morte não é nada para nós (Epicuro)
“Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente: ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal”  (Epicuro, Carta sobre a felicidade – a Meneceu, São Paulo, Editora UNESP, 2002, pp. 27-31).

Marca: Apple. Título: The Bucket. Agência: TBWA. Direcção: Jia Zhangke. China, Janeiro 2019.

Pauzinhos

Descarga de uma carraca portuguesa. Pannels attributed to Kano Naizen, 1570-1616 (detail)

Descarga de uma embarcação portuguesa. Biombos atribuídos a Kano Naizen, 1570-1616 (detail). Museu Nacional de Arte Antiga.

Na semana passada eclodiu um imbróglio internáutico. Um anúncio e um desfile da Dolce & Gabbana foram boicotados. Um excerto de uma notícia do Público Online narra os acontecimentos. Cinjo-me a acrescentar alguns apontamentos.

  • O sentido de humor parece não ser universal. Se quiser fazer humor, assegure-se que domina a arte. Existem cordas muito sensíveis em que convém não tocar, a não ser com luvas de seda estilizadas. Na actualidade, duas dessas cordas são o sexismo e o racismo.
  • A Internet é um espaço de poder, um lugar onde pontificam vontades hierarquizadas. Apesar de a Internet ser imaterial, há pessoas que pesam mais do que outras. Por exemplo, a indignação das celebridades Zhang Ziyi, Li Bingbing e Wang junkai surte tanto efeito que até é notícia mundial. A universalidade e a igualdade da Internet são um logro.
  • É possível retirar, de um momento para o outro e à escala global, conteúdos da Internet. Revela-se, deste modo, difícil aceder aos anúncios boicotados. Precise-se que o cidadão comum não tem quase nada de seu na Internet. Num ápice, podem desaparecer-lhe conteúdos, por exemplo, do seu blogue ou das suas páginas nas redes sociais.
  • Os responsáveis pela marca italiana pediram desculpa à China. Intrometeu-se uma mensagem polémica de Stefano Gabbana que este garante ser falsa. Alguém teria pirateado a sua conta de Instagram. Verdade ou mentira, que alguém aceda a uma conta e fale em nosso nome é um risco real. Esta situação é mais complexa do que o boato tradicional. Os procedimentos de partilha e adulteração do boato são conhecidos (ver Edgar Morin, La rumeur de Orléans, 1969). Contudo, neles não consta esta usurpação ou este aluguer da identidade alheia. Daqui se depreende que a Internet pode ser uma árvore de enganos e um jogo de máscaras.
  • As proibições e os boicotes a anúncios podem resultar numa espécie de maná para as marcas. No caso do anúncio da Dolce & Gabbana, duvido. Notoriedade, já a conquistou. Falta saber o que acontece à imagem.

Os anúncios boicotados da Dolce & Gabbana, com uma chinesa a comer comida italiana com pauzinhos, são difíceis de encontrar. Foram sistematicamente “apagados”. Encontrei uma cópia que passo a colocar. Não sei por quanto tempo.

Dolce & Gabbana. Anúncios a um desfile em Shangai. Novembro 2018.

Notícia no Público Online:

“Dolce & Gabbana cancela desfile em Shanghai por causa de um anúncio que envolve pauzinhos

A Dolce & Gabbana cancelou nesta quarta-feira um desfile de moda nem Shanghai, depois de uma polémica online em torno de um dos seus anúncios. Em causa está um anúncio onde uma mulher chinesa luta para conseguir comer pizza ou esparguete com pauzinhos. Os chineses não gostaram.

A controvérsia foi o tópico número um na plataforma Weibo, com mais de 120 milhões de leituras, já que celebridades, incluindo Zhang Ziyi, estrela de cinema de Memórias de uma Geisha, publicaram comentários críticos à marca. Celebridades, como a actriz Li Bingbing e a cantora Wang Junkai, disseram que boicotariam o desfile da marca italiana.

Alguns dos que viram os anúncios, ao todo são três, ficaram incomodados com o que consideram o tom paternalista do narrador, oferecendo lições sobre como comer com pauzinhos. Além disso, uma alegada troca de mensagens de Stefano Gabbana surgiu nas redes sociais que viriam a confirmar que o designer é racista. Este veio desmentir na sua conta de Instagram.

“Lamentamos o impacto e o prejuízo que essas observações falsas tiveram sobre a China e o povo chinês”, disse a marca de moda de luxo italiana, num pedido de desculpas online em chinês no Weibo, acrescentando que a conta do Instagram de Gabbana foi pirateada”.

(Público Online. https://www.publico.pt/2018/11/21/culto/noticia/dolce-gabbana-cancela-desfile-shanghai-criticas-anuncio-envolve-pauzinhos-1851859 (Reuters  21/11/2018). Acedido02/12/2018)

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Dádiva e contradádiva

Chinês Cão e Garça

Qual é a regra de direito e de interesse que (…) faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa dada que faz que o donatário a retribua? (Mauss, Marcel, 1923-1924, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série).

A dádiva e a contradádiva possuem os seus requisitos. O primeiro consiste na obrigatoriedade de receber. Quando alguém oferece uma prenda, espera que o destinatário a receba condignamente. Rejeitar uma dádiva é uma ofensa. Por outro lado, quem recebe uma oferta é suposto retribuí-la, mas de modo que não pareça um retorno da oferta inicial. A contradádiva  quer-se adiada e eufemizada. Se me ofereceram laranjas, não vou retribuir imediatamente com laranjas. A contradádiva não deve lembrar a dádiva, deve assumir-se como uma dádiva original. Por último, a contradádiva ganha em ascender a um valor ligeiramente superior ao da dádiva recebida. Este pormenor induziu os economistas a pensar, erradamente, numa espécie de juro “primitivo”.

O anúncio chinês A Joy Story: Joy and Heron é uma animação que celebra a proximidade do “ano do cão”. Baseia-se, precisamente, na relação entre dádiva e contradádiva: o cão dá as minhocas e a garça retribui com o peixe. No linguajar atual, configuram uma parceria. Mas, como o anúncio dura quatro minutos, não sobrou tempo para o diplomático adiamento.

Marca: JD.com. Título: A Joy Story: Joy and Heron. Agência: 180.ai. Direcção: Kyra & Constantin. China, Fevereiro 2018.

Go east!

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Estou orientado. Cara a oriente. O meu rapaz fotografou o pôr-do-sol por altura do eclipse do dia 21 de Agosto. Resultou uma série apreciável de fotografias do regresso crepuscular da luz.

Segundo Edward T. Hall, os ocidentais tendem a ser “monócronos”, fazem uma tarefa de cada vez. A fazer fé no anúncio chinês Piano, do Windows 8, os orientais são “polícronos”: conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, trabalhar e jogar.

Marca: Windows 8. Título: Piano. Agência: JWT Beijing. Direcção: Jon Jing Zhu. China, 2013.

Um português na China

Sprite China

Deve ser isto a globalização mágica! “Uma noite no museu” e o português Paco Cruz a dirigir um anúncio chinês. Paco Cruz, com uma carreira notável, formou-se na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.

Marca: Sprite. Título: Giveaway. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. Direcção: Paco Cruz. China, Maio 2017.

O charme da disforia

Xbox. Birth of a spartan. 2010.

O anúncio Birth Of A Spartan, para o Halo: Reach, da Xbox, mergulha-nos no mundo da ficção científica. Pouco agradável, provoca emoções fortes. Familiariza-nos com o estranho, com a hibridez. Familiariza-nos com nós próprios, cada vez mais híbridos, cada vez mais estranhos.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi'an na China. Séc. III aC.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi’an na China. Séc. III aC.

O anúncio lembra os guerreiros de terracota desenterrados na China em 1974: um exército, datado do século III aC, com 8.000 soldados, 130 carruagens com cavalos e 150 cavalos de cavalaria. O espartano do anúncio tem um corpo humano mas comporta-se como um robot. Cada um dos 8 000 soldados de Xi’an tem cara própria. Não parece, no entanto, ter vontade própria. Este anúncio é de 2010, onde nos pretendia levar Noam Murro, o realizador? Aos nossos recalcamentos? Aos nossos fantasmas?

Marca: Halo: Reach / Xbox. Título: Birth of a Spartan. Agência: TwofifteenMcann San Francisco. Direcção: Noam Murro. USA, 2010.

Beleza real

dove-logoPara a Dove, o belo não é um ser modelado, belos somos nós. As sucessivas campanhas da Dove giram em torno da noção de “beleza real”. O anúncio “Beauty on your own terms” (Reino Unido, 2016) inscreve-se nessa tendência. O mesmo parece não suceder com o anúncio, recente, “It has to be my way” (China, 2017). Mostra como a China acolheu a sociedade de consumo. Resulta menos óbvio o conceito de beleza que celebrizou a Dove.

Marca: Dove. Título: Beauty on your own terms. Agência: Havas Helia London. Reino Unido; Outubro 2016.

Marca: Dove. Título: My Hair: It has to be my way. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Janeiro 2017.

Acrescentar um novo elemento de informação é sempre recomendável. Um terceiro anúncio da Dove revela que a “beleza real” chegou, afinal, há alguns anos à China, embora de um modo algo indirecto e complicado, menos assertivo.

Marca: Dove. Título: Flat nose. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Dezembro 2012.

O período

kotex

A assunção da menstruação anda no vento. No anúncio Blood, da Libress, o lema é No blood shoud hold us back (https://tendimag.com/2016/10/05/sangue/). O anúncio brasileiro da Kotex insta as mulheres a não se inibir por causa da menstruação. Sustenta que o período não é um obstáculo. Os exemplos escolhidos têm impacto: uma chefe de cozinha, uma surfista, uma repórter… “Tratemos al período como lo que es. Algo natural, saludable. No un problema. Si, el período existe. No te detengas”.

Menos recente, o anúncio chinês da Kotex é bem humorado. Convoca gatos, porque “os gatos são sensíveis” e “as mulheres são tão sensíveis como os gatos”. Traçado o desenho, falta o teste. A evidência empírica não engana: os gatos só se sentem confortáveis com pensos higiénicos Kotex. Caso contrário, andam de lado, curvados ou de rastos.

Marca: Kotex. Título: No te detengas. Agência: Ogilvy & Mather Rio de Janeiro. Direcção: BABYS. Brasil, Setembro 2016.

Marca: Kotex. Título: Kotex’s Cat Video. Agência: Ogilvy & Mather Asia. China, 2014.