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A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Dádiva e contradádiva

Chinês Cão e Garça

Qual é a regra de direito e de interesse que (…) faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa dada que faz que o donatário a retribua? (Mauss, Marcel, 1923-1924, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série).

A dádiva e a contradádiva possuem os seus requisitos. O primeiro consiste na obrigatoriedade de receber. Quando alguém oferece uma prenda, espera que o destinatário a receba condignamente. Rejeitar uma dádiva é uma ofensa. Por outro lado, quem recebe uma oferta é suposto retribuí-la, mas de modo que não pareça um retorno da oferta inicial. A contradádiva  quer-se adiada e eufemizada. Se me ofereceram laranjas, não vou retribuir imediatamente com laranjas. A contradádiva não deve lembrar a dádiva, deve assumir-se como uma dádiva original. Por último, a contradádiva ganha em ascender a um valor ligeiramente superior ao da dádiva recebida. Este pormenor induziu os economistas a pensar, erradamente, numa espécie de juro “primitivo”.

O anúncio chinês A Joy Story: Joy and Heron é uma animação que celebra a proximidade do “ano do cão”. Baseia-se, precisamente, na relação entre dádiva e contradádiva: o cão dá as minhocas e a garça retribui com o peixe. No linguajar atual, configuram uma parceria. Mas, como o anúncio dura quatro minutos, não sobrou tempo para o diplomático adiamento.

Marca: JD.com. Título: A Joy Story: Joy and Heron. Agência: 180.ai. Direcção: Kyra & Constantin. China, Fevereiro 2018.

Go east!

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Estou orientado. Cara a oriente. O meu rapaz fotografou o pôr-do-sol por altura do eclipse do dia 21 de Agosto. Resultou uma série apreciável de fotografias do regresso crepuscular da luz.

Segundo Edward T. Hall, os ocidentais tendem a ser “monócronos”, fazem uma tarefa de cada vez. A fazer fé no anúncio chinês Piano, do Windows 8, os orientais são “polícronos”: conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, trabalhar e jogar.

Marca: Windows 8. Título: Piano. Agência: JWT Beijing. Direcção: Jon Jing Zhu. China, 2013.

Um português na China

Sprite China

Deve ser isto a globalização mágica! “Uma noite no museu” e o português Paco Cruz a dirigir um anúncio chinês. Paco Cruz, com uma carreira notável, formou-se na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.

Marca: Sprite. Título: Giveaway. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. Direcção: Paco Cruz. China, Maio 2017.

O charme da disforia

Xbox. Birth of a spartan. 2010.

O anúncio Birth Of A Spartan, para o Halo: Reach, da Xbox, mergulha-nos no mundo da ficção científica. Pouco agradável, provoca emoções fortes. Familiariza-nos com o estranho, com a hibridez. Familiariza-nos com nós próprios, cada vez mais híbridos, cada vez mais estranhos.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi'an na China. Séc. III aC.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi’an na China. Séc. III aC.

O anúncio lembra os guerreiros de terracota desenterrados na China em 1974: um exército, datado do século III aC, com 8.000 soldados, 130 carruagens com cavalos e 150 cavalos de cavalaria. O espartano do anúncio tem um corpo humano mas comporta-se como um robot. Cada um dos 8 000 soldados de Xi’an tem cara própria. Não parece, no entanto, ter vontade própria. Este anúncio é de 2010, onde nos pretendia levar Noam Murro, o realizador? Aos nossos recalcamentos? Aos nossos fantasmas?

Marca: Halo: Reach / Xbox. Título: Birth of a Spartan. Agência: TwofifteenMcann San Francisco. Direcção: Noam Murro. USA, 2010.

Beleza real

dove-logoPara a Dove, o belo não é um ser modelado, belos somos nós. As sucessivas campanhas da Dove giram em torno da noção de “beleza real”. O anúncio “Beauty on your own terms” (Reino Unido, 2016) inscreve-se nessa tendência. O mesmo parece não suceder com o anúncio, recente, “It has to be my way” (China, 2017). Mostra como a China acolheu a sociedade de consumo. Resulta menos óbvio o conceito de beleza que celebrizou a Dove.

Marca: Dove. Título: Beauty on your own terms. Agência: Havas Helia London. Reino Unido; Outubro 2016.

Marca: Dove. Título: My Hair: It has to be my way. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Janeiro 2017.

Acrescentar um novo elemento de informação é sempre recomendável. Um terceiro anúncio da Dove revela que a “beleza real” chegou, afinal, há alguns anos à China, embora de um modo algo indirecto e complicado, menos assertivo.

Marca: Dove. Título: Flat nose. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Dezembro 2012.

O período

kotex

A assunção da menstruação anda no vento. No anúncio Blood, da Libress, o lema é No blood shoud hold us back (https://tendimag.com/2016/10/05/sangue/). O anúncio brasileiro da Kotex insta as mulheres a não se inibir por causa da menstruação. Sustenta que o período não é um obstáculo. Os exemplos escolhidos têm impacto: uma chefe de cozinha, uma surfista, uma repórter… “Tratemos al período como lo que es. Algo natural, saludable. No un problema. Si, el período existe. No te detengas”.

Menos recente, o anúncio chinês da Kotex é bem humorado. Convoca gatos, porque “os gatos são sensíveis” e “as mulheres são tão sensíveis como os gatos”. Traçado o desenho, falta o teste. A evidência empírica não engana: os gatos só se sentem confortáveis com pensos higiénicos Kotex. Caso contrário, andam de lado, curvados ou de rastos.

Marca: Kotex. Título: No te detengas. Agência: Ogilvy & Mather Rio de Janeiro. Direcção: BABYS. Brasil, Setembro 2016.

Marca: Kotex. Título: Kotex’s Cat Video. Agência: Ogilvy & Mather Asia. China, 2014.

A Besta Humana

“Mais les bêtes sauvages restent des bêtes sauvages, et on aura beau inventer des mécaniques meilleures encore, il y aura quand même des bêtes sauvages dessous” (Emile Zola, La Bête Humaine, 1980).

A PeTA (People for Ethical Treatment of Animals) não é nada meiga com quem moleste os animais. Em termos de publicidade de consciencialização, as suas campanhas destacam-se como o protótipo da contundência. Introduzindo a voz de Sia, este vídeo retoma o anúncio de 2013 (Runway Reversal: https://tendimag.com/2013/02/13/humor-negro-e-humor-colorido/), mantendo o procedimento de inversão de papéis entre humanos e animais: por uma vez, é o corpo humano que veste os animais. A estilização é tão fantástica e surrealista, para não dizer maneirista, que temo que alguma informação se perca por entre ruídos e efeitos.
Carregar na imagem par aceder ao anúncio.

Peta sia

Anunciante: PeTA. Título: Sia Wants to “Free the Animal. Agência: Ogilvy & Mather China. Direcção: Rain Yu. China, Novembro 2015.

Banho a dois

SakuraTantos anúncios publicitários vejo todos os dias e, no entanto, um ou outro acaba por me surpreender. Por exemplo, este anúncio chinês a uma caldeira deixa-me sem palavras.

Marca: Sakura. Título: Sakura Water Heater. Agência: JWT Shangai. Direcção: She Tiejun. China, 2015.

Duelo de línguas

MentosHá iniciativas de humor simples, criativo e contagioso, como o anúncio Tongue Twister. Em 30 segundos de boa expressão corporal, coloca o excesso, um impossível visualizado, na ponta da língua. É, também, um caso em que a criatividade constrangida, com metas e comercial, rivaliza, em arte e originalidade, com a criatividade sem amarras, livre e independente. Por último, uma falsa pergunta: será que os gestos, e respectiva interpretação, variam consoante as culturas? O anúncio Tongue Twister pode provir, com igual probabilidade, de qualquer parte do mundo? Num texto intitulado “Les techniques du corps” (Journal de Psychologie, XXXII, nº 3-4, 1936), Marcel Mauss aborda “a forma como os homens, sociedade a sociedade, de um modo tradicional, sabem servir-se dos seus corpos”. Aponta o exemplo dos soldados britânicos e franceses. A marchar juntos, não acertam passo. Separados, mas com música alheia, também não.

Marca: Mentos. Título: Tongue Twister. Agência: BBH Shangai. Direcção: Simon Pang. China, 2008.