Tag Archive | família

Vida à distância

Samsung. The Awesome Product Adventure, abril 2022.

Cúmulo de grotesco, fantasia e magia, o anúncio The Awesome Product Adventure, da Samsung é, parafraseando Luc Boltanski (La souffrance à distance, 1994), uma paródia criativa e desenfreada de uma vida à distância refastelada num sofá ubíquo. A instalação Emoções Confortáveis da exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007, já convocava o fenómeno: chamava-se Emoções confortáveis. Esta género de paródia tem precedentes na própria publicidade, por exemplo, o anúncio chileno Digital Tv, da VTR CABEL TV (2008). Mas existe quem aprecie abandonar o sofá para desfrutar de outras vidas.

Marca: Samsung. Título: The Awesome Product Adventure. Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Direção: Keith Schofield. Reino Unido, abril 2022.
Marca: VTR CABEL TV. Título: Digital Tv. Agência: Lowe Porta Santiago. Direção: Cucho Olivares. Chile. 2008.

Vítima do seguro de vida

Romances policiais

O homicídio motivado pelo resgate do seguro de vida da vítima é tema recorrente nos romances policiais. Com ou sem inspiração, o humor do anúncio Crocodile, da Ladder, é cinzento, brutesco e gratuito.

Marca: Ladder. Título: Crocodile. Agência: Fred & Farid Los Angeles. Direção: Casey Storm. Estados-Unidos, abril 2022.

Geração e criação

Fernando – O Grove

Um filho gera-se, não se cria (inspirado em C.S. Lewis: “uma pessoa gera um filho, mas cria uma estátua” – Cristianismo puro e simples, Vida Melhor Editores, 2017, p. 211)

Sociólogo da arte, da cultura e dos estilos de vida, interesso-me pelos gostos partilhados pelas pelos indivíduos, na senda de autores tais como Norbert Elias, Erwin Panofsky, Howard S. Becker, Paul-Henry Chombart de Lauwe, Roland Barthes, Jean Duvignaud, Umberto Eco, Jean Baudrillard, Pierre Bourdieu e Bernard Cathelat.

Ensaiar acertar no gosto desta ou daquela pessoa é um dos meus desportos favoritos. Mas nem sempre é óbvio. Existem, porém, aves especiais. Oferecer-lhes algo que apreciem é um desafio. Dedico estas duas músicas, da compositora inglesa Imogen Holst (1907-1984) e do compositor japonês Tôru Takemitsu (1930-1996), a uma dessas raras aves do paraíso.

Tōru Takemitsu – November Steps for Biwa. 1967. Charles Dutoit & NHK Symphony Orchestra Salzburg Festival 2013. Biwa: Kakujo Nakamura; Shakuhachi: Kaoru Kakizakai.
Imogen Holst – The fall of the leaf. 1963. Intérprete: Steven Isserlis. A fly on the wall. 2016.

A um filho emigrante

João e Fernando no rio Minho.

“O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1878).

“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” (C.S. Lewis, Mere Christianity, 1952).

Passaram trinta e um anos, toda e metade de uma vida. A primavera e o outono. Revejo-me como num espelho maior e melhor, com invulgar determinação em crer, querer, arriscar e criar. Quem tem a bênção de um filho não precisa renascer, simplesmente congratular-se e agradecer.

Como lembrança, acrescento, sem surpresa, quatro músicas. É o bem mais disponível, pessoal e rápido para enviar para a Holanda. Podem não entusiasmar de imediato, mas estou convencido que pertencem àquelas que se prestam a que as interrompamos a meio para voltar a escutá-las com outros ouvidos. Possuem a virtude de nos sintonizar à distância. Formam dois pares: um, “primaveril”, que abre com um bailado de Pina Bausch, o outro, “outonal”. Duas músicas para adormecer a Sara, outras tantas para a acordar.

João e Sara

Ígor Stravinski. A Sagração da Primavera. Parte 2 – O Sacrifício (Introdução). Estreia: 1913 (versão de 1947). Coreografia Pina Bausch. Artista: Pierre Boulez. Das TantzTheater Wuppertal. The Cleveland Orchestra.
Edvard Grieg. To Spring. Lyric Pieces Book III, Op. 43, nº 6. Wonderland.1886. Intérprete: Alice Sara Ott.
Scott Joplin. Maple Leaf Rag. 1899. Piano: Dario Ronch.
Fanny Mendelssohn (1799 – 1847; irmã de Felix Mendelssohn). “November”, The Year, cycle for piano (H. 385), 1841. Intérprete: Jae Hee Min.

A riqueza humana

Os tios Celina e João Luís em Paris

Prima irmã (beneficiei do cuidado e do afeto de quatro “mães”: a mãe Ilda e as tias Celina, Leonor e Edite), a Salomé enviou-me, discretamente, esta “muy hermosa y sencilla canción”, The Haves, do Eddie Vedder. Mais do que qualquer outra realidade, a partilha da música é uma entrega pessoal, uma dádiva de si. Como é bom receber! Embora esteja em crer que é mais grato dar.

O avô Amadeu e as gémeas Rute e a Salomé

Bem hajas, pelo gesto e pelo exemplo! Não hesites em repeti-lo. Na autoestrada entre Viana de Castelo e Braga, destaca-se, num dos suportes para publicidade, o seguinte provérbio: “O que não é visto não é lembrado”. É uma meia verdade. Pelo sim, pelo não, junto três fotografias para regalar o olhar e a memória.

Com a Salomé

Dou-me bastante bem com o isolamento. Não convivo mal a sós comigo próprio. Aflige-me, no entanto, a clara consciência de que o outro é que é a minha maior riqueza.

Eddie Vedder. The Haves. Earthling. 2022.

A sentinela do espírito

Ao primo

 “A memória é a sentinela do espírito” (William Shakespeare. Macbeth. 1605)

O meu avô e o meu padrinho costumavam trautear a canção Só a Noitinha (Saudades de ti), da Amália Rodrigues, quando jogavam as cartas, mormente à lerpa, nas traseiras do café. Repisavam os versos “bendita a hora em que o esqueci por ser ingrato e deitei fora as cinzas do seu retrato”, em modo de disco riscado. Fazia parte do jogo psicológico. Era uma cartada. “A cantiga é uma arma de pontaria”, já repetia José Mário Branco (ver Maçã electrónica. A publicidade é uma arma). O que não obstava que o avô, mais hábil na arte de cantar do que de enganar, perdesse quase sempre.

Amália Rodrigues. Só a Noitinha (Saudades de ti). 1966.

Recuperação

A um primo irmão

Saio pouco de casa. Mas tento abraçar o mundo. Como posso e se propicia. O Tendências do Imaginário ajuda, como meio de comungar com o silêncio da rede.

O concerto em Dó Maior, RV 443, para flautim, de Antonio Vivaldi, consta entre as minhas músicas prediletas. Uma bênção, um sopro único de ternura alegre e esperança tranquila. Boa recuperação!

Antonio Vivaldi, Concerto em Dó Maior, RV 443, para flautim (largo). Intérprete: Lucie Horsch.

Dia do pai

Jean-François Millet. First steps.1859–66.

Para o dia do pai, um anúncio sensível e uma canção sensual.

Anunciante: Instituto Nacional del Cáncer. Título: GRAFFITESTI. Agência: McCann (Santiago). Chile, março 2022.
Heather Nova. All I Need. Álbum: Storm. 2003. Live At The Union Chapel, 2003.

Diálogo entre gerações

Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas (frase atribuída a Nietzsche)

Quanto mais os sistemas de ensino se aproximam de máquinas de empacotar saber mais as máquinas de entretenimento ousam funcionar como fontes de sabedoria? Este anúncio com um diálogo possível entre o saber dos pais e a sabedoria da filha é uma delícia. Uma amostra da comunicação entre gerações. Sem compromissos nem ressentimentos.

Marca: Hooked on Phonics. Título: When you’re hooked on Phonics… Agência: Little Big Engine. Estados-Unidos, fevereiro 2022.

O Anjo da Conexão e o Velho do Restelo

Acredita em anjos? Então este artigo é para si.

Edward Hopper. Office in a small city. 1953.

Não é por um comportamento se manifestar “ferido de interesse” que está fadado a prejudicar o bem comum (Bernard Mandeville, A Fábula das Abelhas: ou, Vícios privados, benefícios públicos, 1714). Inspirando-me em Pierre Ansart (Idéologies, Conflits et Pouvoir, 1977), também não é por uma ideia ser interessada que resulta necessariamente falsa. Como corolário, por muito estranho que pareça, não é a generosidade de um gesto ou de uma ideia que garantem a sua verdade ou bondade. Pode não ser um erro confiar em quem é movido por interesses, nem tão pouco duvidar de quem nos quer bem. Vem este arrazoado a propósito da publicidade, domínio que os missionários da beatitude tendem a associar à quintessência do mal, à perversão ideológica no purgatório da mercadoria. Acresce que não existe instância que detenha o monopólio do acesso à sabedoria. Nem sequer a ciência ou a religião. Aprende-se como e com quem se aprende, independentemente da forma e do conteúdo, da embalagem e do miolo. Daqui a afirmar que tenho vindo a adquirir mais conhecimento com a publicidade do que com a ciência quase vai um passo. Confesso, porém, que, nos últimos tempos, tenho consumido mais anúncios publicitários do que artigos científicos com impacto. Em termos de conhecimento, um anúncio publicitário costuma valer menos pelo que comporta e mais pelo que suscita, pelo que induz a sentir e a pensar. Trata-se, sobretudo, de uma interpelação que nos cumpre assimilar, no sentido piagetiano do termo. Um anúncio não se limita a alcançar-nos, desafia-nos, mobiliza o nosso “acervo de conhecimentos disponíveis” (Alfred Schütz, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, 1962). Munido com estas barbaridades, afigura-se-me que o anúncio indiano Joy of Homecoming, da Vivo, constitui uma excelente ilustração das potencialidades da publicidade.

Um idoso vive, just him and his loneliness, numa mansão, em aparente desafogo económico. Os seus três filhos residem longe, onde têm o seu trabalho e os seus compromissos. Falta-lhes meios e tempo, até para prolongar os breves momentos de videoconferência. Para mitigar a solidão, o pai optou por alugar um quarto. Apenas um, o reservado aos hóspedes. Nos outros, intactos, dorme a memória dos filhos, sua energia vital. A ação inicia com a chegada de um novo inquilino. A música, fundamental, canta o destino; e o jovem inquilino veste o papel de um anjo, que recorda As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. O jovem faz companhia ao “tio adotivo”, anima-o e tira-lhe fotografias, que envia aos filhos. Inesperadamente, o “sobrinho” parte antes do termo: sente saudades da mãe. Ouve-se a campainha. Será, de novo, a solidão? Não, a solidão não bate assim. São s três filhos que, dispersos pelo mundo, se juntam, como por milagre, para o Diwali, festividade indiana, homóloga do Natal, que celebra a reunião e a vitória do bem sobre o mal: “invoca o retorno da deusa Rama para a cidade de Ayodhya, após um longo período de ausência” e “festeja a vitória do Deus Krishna sobre as forças do mal”. O anúncio termina sem se saber se o “anjo da conexão” foi enviado por Deus ou pela Vivo. Talvez o milagre, um pouco mais prosaico, reverta para o “poder das imagens” em que a Vivo acredita.

José Malhoa. O emigrante. 1918.

O anúncio indiano Joy of Homecoming, apesar da distância geográfica e cultural, assenta-nos como um espelho. Sucede o mesmo em Portugal, País que se tornou tão pequenino num mundo tão vasto. O princípio dos vasos comunicantes funciona na sociedade ao contrário: os fluxos passam do mais pequeno para o maior até ao desequilíbrio final. As migrações já não são o que eram: para além das famílias mais pobres, recrutam entre as mais abastadas e as mais diplomadas. Distinguem-se, contudo, das antigas deslocações dos nobres e dos burgueses. Não as move o luxo, mas a necessidade. A figura do pai remediado separado dos filhos expande-se e multiplica-se com um vírus. Nestes tempos em que o distante se aproxima e o movimento se acelera, a alienação, a separação, pode ser brutal. Não por falta de amor ou de desejo, mas por falta de… disponibilidade! As nossas sociedades estão entre as que mais comunicam e menos comungam. São as mais ricas da História, mas também as mais pobres da humanidade. Sociedades obcecadas pelo crescimento, criam mais necessidades do que possibilidades. É essa a riqueza, é essa a penúria. Como escreve o antropólogo Marshall Sahlins: “idade de pedra é a idade da abundância”; “a sociedade moderna é a sociedade da insatisfação” (Stone Age Economics, 1974). Os pigmeus perfilhavam uma sabedoria que nos é estranha: recusavam as ofertas dos colonos que introduziam.  novas necessidades, logo mais esforço. Mendigamos existência. Antes da pandemia, uma criança pergunta à professora de história: “e nós, o que vamos contar aos netos?”. Preocupação sem fundamento, mas sentida. Mendigamos afetos. Pais sem filhos, mães sem pais, avós sem netos e amigos sem abraços, desencontramo-nos.

Ars moriendi, 1470 ca.

Somos a primeira civilização que promove o morrer em solidão (Norbert Elias, La solitude des mourants, 1982). É verdade que em algumas sociedades os moribundos se afastavam dos vivos, respeitavam, no entanto, a norma, configurava um afastamento ritual que fazia sentido na respetiva condição e cultura. Agora, os moribundos não se isolam normativamente, mas na prática e pela prática, por fatalidade, como uma espécie de excrescência. À volta do leito, máquinas e peritos. Nem sombra de familiares, amigos, anjos ou demónios (ver O Galo e a morte: https://tendimag.com/2017/10/13/o-galo-e-a-morte-revisto/). Andamos descompensados, problema que apenas se agravou e evidenciou com os sucessivos confinamentos pandémicos. Entretanto, já andávamos à deriva. E não há vacina, nem anjo, nem imagem que nos acuda! Talvez nós, aliviando a carga que tanto ambicionamos e tanto nos esmaga. Talvez se deixássemos de nos armar em sísifos que só saber subir e subir, empurrar projetos encosta acima, até lhe faltar o ar. A vontade de superação é o nosso emblema. É também o nosso problema.

Sísifo empurrando uma pedra vigiado por Perséfone. Ânfora grega. Cerca de 560 a.c.

Não fui eu quem escreveu este texto. Foi o meu avatar reacionário e romântico, o Velho do Restelo. Um exercício, uma maneira como outra qualquer de fechar o ano.

Marca: Vivo. Título: Celebrate the #JoyOfHomecoming this Diwali. Agência: Dentsu Impact. Direção: Viveck Dasschaudhary. Índia, outubro de 2021.
Robbie Williams. Angels. Álbum: Life thru a Lens. 1997.
Manuel Freire – “Fala do Velho do Restelo ao astrónauta” poema de José Saramago. Álbum: Pedra Filosofal. 1973.