Quando o negócio se oferece generoso
A vida e a morte aproximam-se, dão, aliás, frequentemente as mãos. Uma pressupõe a outra. No ciclo anual, esta proximidade é particularmente pronunciada no outono. “Salta-se” de uma comemoração da morte, dos que partiram, para uma celebração da vida, dos que nascem. A publicidade acusa esta viragem. Passa a aludir mais à vida e à esperança e menos à morte e à memória. A campanha natalícia começa na primeira metade de novembro, quase a seguir ao Dia dos Mortos. Os “anúncios de Natal” circulam, portanto, há já alguns dias.
A cadeia de lojas britânica John Lewis & Partners faz questão de publicar todos os anos anúncios de rara qualidade e criatividade. Extensos, convocam um universo mágico em que crianças desenvolvem uma relação inesperada e generosa com figuras fantásticas mais ou menos associadas ao espírito do Natal.
Segue o anúncio Snapper: The Perfect Tree, estreado no dia 9 de novembro. Aproveita-se o ensejo para recordar os anúncios de Natal da John Lewis dos anos 2019 e 2021.
A magia dos legos
Após um dia cheio de dissabores e angústias, uma jovem recompõe-se e desforra-se em casa graças à magia dos legos. Um anúncio dinamarquês que é uma “história sem palavras”.
A magia do design e a quadratura do círculo

What if? é um anúncio a todos os títulos brilhante da Swatch BIOCERAMIC que manifesta a magia do design: consegue a quadratura do círculo e transforma a esfera em cubo. Big ad!
Magia: A Fisioterapia e a Vida

O anúncio “Caring Makes Magic”, do Centro Médico Montefiore, de Nova Iorque, sensibiliza. Convoca duas histórias, que acabam por se cruzar no final de uma forma desconcertante mas eloquente, com protagonistas que vivem em dois mundos, sem se saber qual o mais real e o mais fantástico.
Physical therapy is often a slow process, but the rewards are powerful. In this year’s holiday spot, Montefiore Einstein shows the recovery of a toy store owner, how it impacts his life and many others – real and imagined.
Dual plotlines depict the sleepless nights and pain that a store owner has to endure, juxtaposed against characters atrophying in a holiday display within the man’s toy shop window. One boy complains: “My skates don’t work.” A vendor says there are “No cookies. No nothing.” Without the store owner, they are lost.
After pushing himself to recover and bonding with his physical therapist, we see our hero running up the stairs and, soon, back at his store. There, he brings the village back to life. Soon skates and sleds work. The fire at the roasted chestnuts stand ignites. Even the chestnut vendor’s hair grows back (…)
We see the store owner happily driving the train through his toy village and find the boy who had lived in the display suddenly outside the store window. Sound confusing? It kind of is, but it certainly gives us something to think about and a reason to watch again.
In the end, the key message – that “caring makes magic” – is driven home quite poetically (Kenneth Hein. Nearly three minutes of holiday delight offer dual story lines and one important message. The Drum: https://www.thedrum.com/news/2022/12/05/us-ad-the-day-montefiore-einstein-shows-the-power-healing-and-the-holidays).
O arquiteto da ternura e as bolas de cristal
Francisco de Assis, o “segundo Cristo”, abençoado com as cinco chagas, santo que abraçou a divindade na figura de um leproso e foi abraçado pela divindade despregada da cruz, reformador da devoção cristão, sobressai, não só pela ênfase na Paixão, mas também como o grande arquiteto da ternura: inventou o presépio. Vivemos tempos em que é particularmente oportuno evocar o franciscanismo. Faço votos que cada um possa abraçar, desta vez, o próximo na figura do menino Jesus.
Os anúncios Vive la magie des fêtes, da Air Canada, e The Biggest Gift, da Deutsche Telekom, convocam a figura da bola de cristal, uma variante do presépio. Encenam outros encantos que nos aguardam, do tamanho do nosso olhar e à escala das nossas mãos.
Distinguem-se, porém, num aspeto: no presépio, os nossos dedos podem percorrer os caminhos de serrim, molhar-se no lago e afagar as personagens de barro; nas bolas, o cristal materializa uma fronteira que impede a tangibilidade, os dedos embatem numa porta que não se abre. O presépio é marcado pelo toque e pela aproximação, a bola de cristal, pela visão e pelo confinamento. Trata-se de uma separação involuntária que cada anúncio, a seu modo, se propõe ultrapassar. Quer-me parecer que o motivo da bola de cristal se vai multiplicar nesta quadra natalícia como uma alegoria ou uma metáfora da nossa condição atual. Existe, todavia, um mundo em que as bolas de cristais, tantas e de tantos feitios, já não cabem. O mundo é o da comunicação social, e as bolas assumem, até à saturação, outra virtude: a previsão fantástica do futuro.
A maestrina encantada

Tantas vacinas! Não chegam? Por este andar, vão sobrar. Tanto espantalho. A vacina é tóxica? As palavras é que são tóxicas. O problema não repousa na ignorância mas no excesso de sabedoria. O voo e a aterragem coprológica das moscas. No burburinho quotidiano, na televisão, na Internet e nas redes sociais. “Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Toxicidade por toxicidade, a minha última vontade: quero fumar no caixão, sem acender o cigarro em discursos iluminados. Prefiro o cigarro e a estupidez. O silêncio é o contratempo da comunicação pós-moderna.
O anúncio 5G: Reimagina Tudo, da Vodafone Portugal, é notável. Ritmo, imagens e música, num encadeamento mágico. Lembra o anúncio Opera de Bruno Aveillan para a Nintendo: maestrina, condução, música, público e fantasia. O título deste artigo inspira-se na Flauta Mágica, a última ópera de Mozart. Acrescenta-se um excerto.
O gnomo, a gula e a ira

O anúncio tailandês The Box, da marca Voiz Cracker, é um presente criativo cheio de boa disposição. Duração longa, pouca história, repetida com variantes, interpretada por “gnomos” sósias, numa espécie de paródia da magia. Receita apropriada para a destilação de um humor insólito, que namora o pecado. Neste caso, dois pecados capitais, a gula e a ira, tudo por causa de uma bolacha.
Turismo mágico e radical
O anúncio 5 places, do Ministério do Turismo da Argentina, mostra-nos as férias que provavelmente não tivemos. De desejo em desejo, um casal salta de ambiente em ambiente: mar, montanha, estuário, deserto, lagoa. Com paixão, risco, aventura e contacto com a natureza. Este anúncio combina componentes que anúncios congéneres tendem a negligenciar: narrativa, magia, humor, amor e sintonia com o público- alvo (jovens adultos radicais, presume-se). Falha, talvez, a música. Onde está a magnífica música argentina? Pense-se, por exemplo, em Astor Piazzolla ou Mercedes Sosa.
Marca: Argentina Ministry of Tourism. Título: 5 places. Agência: La Comunidad Buenos Aires. Direcção: Luisa Kracht. Argentina, Fevereiro 2017.
Astor Piazzola. Oblivion. 1982.
Mercedes Sosa. Sólo le pido a Dios. Live in Argentinien. 1982.
Religiosidade Popular: resistência e adaptação à mudança
“Se o meu sangue não me engana, havemos de ir a Viana” (Pedro Homem de Mello).
Para uma informação mais detalhada, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://bloguedominho.blogs.sapo.pt/centro-de-estudos-regionais-de-viana-do-10001522.



