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Jovens para sempre

A representação social das “idades da vida” muda substantivamente consoante os períodos históricos. A imagem da velhice conheceu, assim, altos e baixos. Desde há poucas décadas, assiste-se, por vários motivos, à sua “revalorização” e “revitalização, senão “rejuvenescimento”.

Observa-se o fenómeno em vários domínios, nomeadamente a publicidade, por exemplo nos anúncios “Unlimited Youth”, de 2016, no artigo A Juventude não tem idade, e “Years of Magic”, de 2018, no artigo A segunda juventude: os super avós. Em alguns casos, frisa-se a hipérbole, quase o delírio, como no anúncio “Aidez-nous à sauver des vies”, de 2017, no artigo A Super Avó, que lembra, precisamente, a série Super Gran, dos anos oitenta.

A juventude não tem idade. Tendências do Imaginário, 19.08.2016
A segunda juventude: os super avós. Tendências do Imaginário, 13.05.2018
A Super Avó. Tendências do Imaginário, 12.06.2017

Por uma Sociologia da Beleza

William Blake – A Noite da Alegria de Enitharmon, 1795. Tate Britain, London

Por que motivo não existe uma sociologia da beleza? A sociologia engloba tantas especialidades: o corpo, a moda, o lazer, o desporto, o quotidiano, a família, o género, a educação, a arte, a cultura, o poder, as desigualdades, o envelhecimento, a comunicação, as minorias… E não sobra um lugar para uma sociologia da beleza.
Sinto a falta de uma sociologia da beleza. Ajudaria a perceber, por exemplo, o anúncio “Encontro”, da empresa brasileira Marisa (…) Tanta beleza! Só beleza. Com preguiça mental, deduzo que aquela roupa exibida pelos modelos se destina a mulheres igualmente belas. Será que a beleza das modelos influencia a escolha das pessoas? Por toque de beleza? Um “não-sei-quê” que faz a diferença? Por magia? A beleza é dúctil como o ouro.

Um toque de beleza. Tendências do Imaginário, 16.08.2019

O Rei dos Parvos

Nunca subestimem o poder da estupidez humana (Robert Heilein).
São inúmeros os nomes atribuídos à sociedade contemporânea. Sociedade parva também cabe na lista. Somos uma SARL: Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. O anúncio brasileiro Be an asshole, da Sociedade dos amigos da Amazónia, é uma boa introdução à estupidez, à inércia e à dissipação humanas. (Estúpidos, 21.08.2017).

imagem: George Grosz – The Grey Man Dances, 1949

Estupidez global. Tendências do Imaginário, 14.08.2019
Georges Brassens – Le Roi (des Cons). Fernande, 1972

Desilusão a conta gotas / Carta de Pierre Bourdieu

Abóboras. Por altura do regresso a Braga em 1982. Fotógrafo: Álvaro Domingues

Há dias, submetive-me a uma plataforma “administrativa”. Foi complicado provar quem era e de onde vinha. Não o fazia há décadas. Não encontrei nem diploma de doutoramento nem certidão de agregação. A maior parte dos papéis dormiam em caixotes por motivo de obras em casa e não me dispus a acordá-os.  Encontrei um certificado do doutoramento e desisti de ser agregado.

Há males que vêm por bem! Tive a fortuna de deparar com uma carta tresmalhada do Pierre Bourdieu, que anexo. Compensou, mas também ensimesmou. Não consegui evitar uma pergunta recorrente:

O que me motivou, em 1982, a regressar a Braga para marinar profissionalmente durante 39 anos numa desilusão a conta gotas?

Calhaus e areia. Aposentado. Fotógrafo: Miguel Bandeira

Convidado em 1981, resisti. Em Paris, tinha emprego, estava a fazer doutoramento e acalentava boas perspetivas.

Em 1982, acabei por seguir as pegadas de centenas de milhares de compatriotas. Mas esta resposta genérica não me satisfaz. Cada um é um caso e existem nadas que fazem grandes diferenças: os tais “efeitos borboleta”. Por exemplo, desamores lá e amizades cá.

Carta de Pierre Bourdieu a Albertino Gonçalves. 27.02.1986

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Manuel Freire – Pedro Só. Da banda sonora da longa-metragem de Alfredo Tropa, “Pedro Só, de 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco e música de Manuel Jorge Veloso

Pai afasta de mim esse cálice

À Eliane

Chique Buarque

Creio que estou prestes a terminar um malogrado procedimento burocrático. “Pai afasta de mim esse cálice”! Por algum tempo, porque desta merdificação pátria ninguém se pode estimar definitivamente livre.

Chico Buarque e Milton Nascimento – Cálice. Original: 1973. “Chico Buarque Especial”, pela Rede Bandeirantes, em 25 de dezembro de 1978
Chico Buarque – Construção. Construção, 1971. Vídeo oficial
Milton Nascimento e Chico Buarque – O que será. Meus caros amigos, 1976. Programa Chico & Caetano, série especial da Rede Globo exibido em 14/03/87

Brincar com coisas sérias

Andy Cap. Em Portugal, Zé do Boné. Figura criada pelo inglês Reggie Smyth nos anos 1950

Aqui jaz o Zé Fumega. Uma morte, milhentas causas! Um desperdício de pregos para um único caixão. Cruzes, canhoto!

Calma e Tranquilidade

Há vários dias que me encontro atolado num cúmulo de burocracia com abuso do cidadão. Para quê? Para pedir alguma regalia? Nem por isso, apenas para colaborar generosamente com uma instituição pública. Em suma, a crónica salvaguarda do aparelho e das aparências face a eventuais “escrutínios”.

Quanto se menospreza o cidadão, que, aliás, insatisfeito, pede mais! Papagueamos a democracia que descuidamos. Não se pede a um membro de um governo que, como político, decida bem e promova boas iniciativas, mas, em contrapartida, que não tenha ponta por onde se lhe pegue, a qualquer pretexto. Desde sempre, nem sombra de “ilegalidade”, “informalidade”, “irregularidade” ou ” suspeita”. Só falta exigir “santidade”, aos governantes e aos governados. Às declarações de registo criminal e de compromisso, anexe-se o upload com uma declaração de fé. Portugal e os Portugueses não precisam de vangloriar-se de tamanho zelo burocrático. Já é sobejamente reconhecido no estrangeiro.

Importa temperar este estado de alma com música apropriada. Talvez alguns mantras hipnóticos, em pequenas doses. Aprecio o trio Deva Premal (alemã; voz e teclas), Miten (indiano, voz e guitarra) e Manose (Nepalês, flauta). O que é preciso é “calma e tranquilidade”, nome da canção, com letra em português, que coloco em primeiro lugar. Acrescento “Aad Guray” e “Gayatri Mantra”.

Deva Premal (Nuremberga, Alemanha; 1970) é uma cantora reputada pela sua música espiritual e meditativa do tipo New Age, que envolve mantras ancestrais numa atmosfera contemporânea. / Deva é parceira de vida e de música de Miten, que conheceu no Ashram de Osho em Pune, na Índia, em 1990. Juntos, compõem músicas e realizam concertos à volta do mundo./ Deva recebeu formação musical clássica, mas cresceu cantando mantras em sua casa na Alemanha — um lar imerso na espiritualidade oriental. Seus álbuns têm liderado as paradas de New Age em todo o mundo desde o lançamento de The Essence, que inclui o Mantra Gayatri. A sua gravadora, Prabhu Music, já vendeu mais de 900.000 cópias. (Wikipedia, em espanhol, 03.08.2026).

Deva Premal & Miten (com Manose) – Calma e Tranquilidade. Soul in Wonder. 2007. Do CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Aad Guray.  CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Gayatri Mantra. Satsang: A Meditation. 2002. Do CD/DVD “In Concert”, 2009

Coração e cabeça

Sejam quais forem as cores com que pintemos o mundo, assim como os estômagos com que o digerimos, convém não esqucer de aconchegar o coração (artigo É sempre dia de ser filho, 02.08.2017) e exercitar as células cinzentas (artigo Modernidades, 02.08.2018).

Descorar

Edvard Munch – Melancolia. Presumivelmente 1892. Museu Nacional de Arte. Oslo

La Mélancolie

C’est un’ rue barrée
C’est c’qu’on peut pas dire
C’est dix ans d’purée
Dans un souvenir
C’est ce qu’on voudrait
Sans devoir choisir
La mélancolie

C’est un chat perdu
Qu’on croit retrouvé
C’est un chien de plus
Dans le mond’ qu’on sait
C’est un nom de rue
Où l’on va jamais
La mélancolie
(Léo Ferré)

A Melancolia

É uma rua bloqueada
É aquilo que não pode ser dito
São dez anos de massagem
Envoltos numa recordação
É aquilo que desejaríamos
Sem ter de escolher
A melancolia

É um gato perdido
Que se acredita ter reencontrado
É mais um cachorro
No mundo que se sabe
É um nome de rua
Onde nunca se vai
A Melancolia
(Tradução livre)

Ilusionismo e controlo

Ilustração: Joelle L., in The Camera Panopticon (https://ar.al/notes/the-camera-panopticon/, acedido em 25.07.2026)

Os artigos Jogo viciado e Pós-modernidade vitoriana abordam temas recorrentes no Tendências do Imaginário: o ilusionismo social e a vigilância disciplinar.

O primeiro, algo extenso e denso, incide sobre a eufemização da dominação e das desigualdades sociais. O segundo, mais leve e breve, ilustra a censura pública. Viral, conhecido ou ignorado, o anúncio “Alexandria Morgan run strapless”, da Tom Tom, foi proibido de aparecer na TV. Por uma qualquer conveniência. Não interessa aqui qual. Todas as censuras se justificam para quem as promove e visam poupar danos aos vulneáveis, que nem sequer se dão conta de semelhante zelo. Não recordo, na história da humanidade, de tamanha abrangência, concentração e eficiência de meios de controlo e censura. Tão pouco, tanta exposição e acomodação por parte dos visados. Talvez nos tempos de maior obsessão com o diabo e suas extensões.