A Nova Arca de Noé
A nova Arca, com asas, ou o novo Noé, do Extremo Oriente?
Preguiças, flamingos, alpacas, pinguins e outras criaturas adoráveis são as estrelas da mais recente campanha da Cathay Cargo, que realça a atenção e a zelo meticulosos que cada animal desfruta ao viajar com os serviços de Animais Vivos da Cathay Cargo. Concebida com a ajuda da agência criativa Leo Hong Kong, a campanha reinventa uma “arca” moderna – só que com asas, sem velas – para mostrar a espetacular diversidade de animais que podem viajar com a companhia aérea, bem como o cuidado personalizado que recebem em cada voo. (https://www.bestadsontv.com/ad/179410/Cathay-Live-Animal-We-Carry-Them-All-Big-And-Small).
Morte Social e Sorte Grande
A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).
A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.
Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay
No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.
Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”! Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!
Prenda do Dia do Pai. Um anúncio japonês
No Dia do Pai, recibi uma prenda que não podia ser mais acertada: um anúncio japonês comentado.

“Numa ambiciosa campanha publicitária, o McDonald’s Japão uniu forças com três gigantes do J-Pop: as cantoras Ado e Hoshimachi Suisei e a dupla YOASOBI. O resultado é um videoclipe vibrante que combina as músicas Yoru No Pierrot, Into The Night e BIBBIDIBA, com uma animação original para criar uma harmonia explosiva.
O vídeo descreve a jornada de três personagens que, inspiradas por um concerto ao vivo, embarcam no mundo da música. Depois de vários altos e baixos, o clímax ocorre num palco vazio, o pesadelo de qualquer artista. No entanto, descobre-se que o McDonald’s, simbolizado pelas suas batatas fritas icônicas, acompanhou e partilhou os momentos da banda nas redes sociais. A genuinidade dessa jornada conquistou milhares de fãs. Embora não haja uma plateia física, todos estão unidos, assistindo à performance online.
Entre as reações do público, a animação inclui representações das próprias Hoshimachi Suisei, Ado e YOASOBI. A narrativa reflete a trajetória de Ado e Suisei, cujos rostos são desconhecidos pelo público e cujas carreiras foram exclusivamente impulsionadas por plataformas digitais, até atingirem o sucesso global. A campanha sublinha como a presença online se tornou um pilar essencial para o sucesso na indústria musical contemporânea, onde a conexão digital frequentemente substitui a interação física.” (Fernando Gonçalves).



O resto pode ficar para depois
Pare, veja e oiça! Só isso. O resto pode ficar para depois. Estas coisas desaparecem depressa do radar.
O Regresso de E.T.
O E.T. regressa 37 anos depois, em 2019, para visitar Elliot, não num filme do ainda ativo, e colaborador, Steven Spielberg, mas num anúncio natalício da Sky.
O delírio da dádiva

“Accepter quelque chose de quelqu’un, c’est accepter quelque chose de son essence spirituelle, de son âme / Aceitar alguma coisa de alguém é aceitar qualquer coisa da sua essência espiritual, da sua alma” (Marcel Mauss, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série, 1923-1924).
Imagem: Marcel Mauss
Os anúncios de Natal da John Lewis, maravilhosos, mágicos, sentimentais e, eventualmente, nostálgicos, marcam a abertura da publicidade da época. Este ano, a estreia aconteceu anteontem, 14 de novembro.
Desta vez, sinto que exagerei a expectativa. The Gifting Hour resulta perfeito, belo e mágico, mas quanto ao resto… Falta, sobretudo, a lentidão propícia ao desenrolar vagaroso do encantamento. Assevera-se, porventura, mais realista, mais ajustado ao afogadilho atual. Os sentimentos aparecem como flashes de uma pulsação taquicardíaca. Como se já não houvesse tempo para, como diria Marcel Mauss, a alma se sedimentar na prenda!
Dominado pelo hábito, prefiro o anúncio do ano passado, The Perfect Tree, que, na linha do estilo tradicional da marca, logra aproveitar, in crescendo, compassadamente, os quatro minutos da praxe. Mas em casa há quem, com um olhar mais fresco, seja de outra opinião.
R5volution

Há muito que não me surpreendia um novo anúncio do Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade predileto. Um artista total, com cerca de 40 anúncios no Tendências do Imaginário. Domina a arte de fazer e a arte de criar, em particular ao nível do intertextual e do subliminar. Nem a icónica baguette falta! Quanto ao resto, em equipa que ganha não se mexe: agência Publicis Conseil e produtora Quad.
Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos
Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.
Comunicação e alienação
A crescente autonomia deste receptor lembra-nos que o mais difícil na comunicação não é a mensagem nem a técnica, mas o outro . O desafio da comunicação continua sendo a apreensão – e a gestão – da alteridade. (…) Esta omnipresença da alteridade revela a importância da incomunicação que se torna, de certa forma, o horizonte da comunicação. (Dominique Wolton, “Conclusão. Da informação às ciências da comunicação”, in HERMÈS, LA REVUE, 2007/2 (n° 48) , pp. 189-202)

Martin Scorsese, além de filmes, também realiza anúncios publicitários. Hello Down There, para a empresa norte-americana de hospedagem e criação de sites Squarespace, foi lançado durante o Super Bowl, o principal momento da publicidade a nível mundial. Aborda a dificuldade de comunicação entre os alienígenas do espaço e os alienados da Terra.

