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Acima das possibilidades

Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.

Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.

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bank-pekao-express-cash-loanMarca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

bank_pekao_PAPMarca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

O diabo e os homens

O anúncio Le diable pleure, da marca Quick, é absurdo e minimalista: um rosto, mãos e um hamburger. Nem por isso deixa de ter impacto. No anúncio do artigo anterior, o diabo foi enganado (https://tendimag.com/2015/12/26/enganar-o-diabo/). Neste, tentado, o diabo chora. Mostra-se mais humano.

Por que motivo o diabo tende a ser, na publicidade, masculino, aproximando o homem do lado sinistro do mundo? Na verdade, há diabas. Nunca ouvi falar em “demónias” ou em “satanazas”, mas em diabas, sim. Há uma diaba, bem roliça, em Amarante (https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/). Nas pinturas e nas gravuras do inferno também surgem diabas a atormentar os condenados. No famoso Inferno (c. 1510-1520), da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, distinguem-se duas diabas, ambas com peitos fartos: uma, do lado direito, a importunar uma mulher; a outra, do lado esquerdo, a atestar um homem. Ao endiabrar, de forma tão discriminatória, os homens, a publicidade manifesta-se perversa.

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Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Na publicidade abunda a figura do homem ao volante de um caixão com rodas. Até parece a maior fonte libidinal masculina. Não sabem encontrar outras formas de prazer? Se fosse Freud, diria que parece uma regressão em massa. BMW, Volkswagen, Honda, Toyota, Ford, Audi, Renault, Volvo, Citroen, Fiat, Seat, todos carregam na mesma tecla: o homem e o seu brinquedo favorito.

O desporto, mormente o futebol, rivaliza com o automóvel. O homem a pontapear o “esférico”. Viril, forte, rápido e ágil. O herói sob o olhar da multidão suspensa. O bambino de oro. Os estádios assumem-se como passerelles agonísticas de machos em adolescência activa. Creio que a maioria dos homens não joga à bola, nem anda atrás dela, nem encara a vida como um desporto. Mas a bola tem algo de demoníaco: peca-se por amor à camisola da bola. De qualquer modo, a associação o homem ao futebol é um entorse na identidade masculina que urge corrigir.

Os homens são uns animais. Sem dúvida! Não seduzem como outrora. Antigamente seduzir uma mulher era uma “conquista” demorada e incerta. Na publicidade, a sedução tornou-se mágica e tonta. Basta pegar numa chávena de café, num chapéu ou num guarda-chuva. E já está! Sedução instantânea. Mas os romeus e as vedetas não são os homens, mas os perfumes e os desodorizantes: Axe, Old Spice, Acqua di Gio… O homem regressou à natureza artificial: seduz pelo cheiro. Um soupçon aromático e ei-las nos braços. Tamanha idiotice degrada a imagem dos homens.

Estas linhas constituem um exercício meramente gratuito, próprio de quem está em férias. Não têm princípio nem fim. Um divertimento. Deu-me para ensaiar como seria glosar sobre a publicidade em sentido inverso ao habitual. Em suma, uma paródia.

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quick-demoniak-burgers-le-diable-pleureMarca: Quick. Título: Le diable pleure. Agência: Leo Burnett. França, 2008.

 

A sanita e a cocaína

O humor coalhado não ferve, nem gela, não é grosseiro, nem fino, não é pesado, nem leve, é um riso engasgado com uma fornada de absurdo lógico. É natural que um anúncio sobre sanitas decorra numa casa de banho, local escolhido por uma jovem (Milla Jovovich) para inalar cocaína. Para desespero, a cocaína é absorvida pelo dispositivo de autolimpeza da sanita. A sanita ficou pedrada? Qual é a moral da história? Será que, como conclui a Cristina, este anúncio “fala de limpeza e ensina sujidade”.

Uma simples palavra pode espicaçar a memória. A música Cocaíne (1976), de J.J. Cale, já foi contemplada neste blogue (https://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/). Existe, porém, outra música de J. J. Cale que não desmerece: Call me the Breeze (Naturally, 1971; ao vivo, em 2004, com a participação de Eric Clapton). Para suavizar o ritmo, Magnolia, do mesmo álbum.
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Marca: CWS (Complete Washroom Solution. Título: Say no to dirt. Agência: Jung Von Matt / Allster Werbeagentur GmbH. Alemanha, 2007.

JJ Cale Call me the Breeze

J.J. Cale. Call me the Breeze. Com Eric Clapton. Crossroads Guitar Festival. 2004.

JJ Cale. Magnolia. Naturally. 1971.

Aceleração

“Ce que le vulgaire appelle du temps perdu est bien souvent du temps gagné” (Alexis de Tocqueville, La Démocracie en Amérique, 1835-1840).

O tempo tem muito a dizer ao tempo. Por exemplo, que é menos elástico do que se acredita, não obstante a compressão do espaço e do tempo, que, mais do que diminuir, gera outro espaço e outro tempo. O tempo não é geometria sem centro nem circunferência. O trabalho pede tempo, o cuidado de si, também. Actividade sobre actividade, a disponibilidade pessoal enrola-se numa bola  de sabão prestes a aterrar. A compressão e a policronia têm limites. Qualquer actividade é aviada num despacho qualquer. Despacham-se aulas, textos, júris, consultas, clientes… A curiosidade turística definha numa fotografia apressada. Até a caridade se despacha. E as ideias atropelam-se. Vivemos numa sociedade do presente, simultaneamente, efémera e acelerada. Nesta correria, do gato, biológico, ao telemóvel, digital, vamos despachando tarefas, emoções e sentimentos. O tempo é uma das principais matrizes da vida humana. Na era da compressão, precisamos da sabedoria que a míngua de tempo impede. Neste tempo sem tempo, a qualidade virtualiza-se, fantasiada em índices abstractos e fórmulas matemáticas. O triunfo da urgência acena-nos com o delírio do agir sem tempo, oportunista, órfão do cronómetro, do calendário e da razão. A nossa tragédia destemperada.
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vodafone 2

Marca: Vodafone. Título: Power to you. Agência: Jung von Matt. Internacional, 2013.

Com o universo na mão

iPad

“Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, Astronomia Nova… De Motibus Stellae Martis, 1609).

Creio ter percebido, enfim, a mensagem de um anúncio: o iPad Pro é uma estrela, com o universo infinito como limite. Com um iPad Pro, temos o universo na mão: “There’s a great big universe in the new iPad Pro. It’s the largest iPad ever and takes your creativity and productivity to an epic scale”. Uma escala épica… Um vídeo de belo efeito. As imagens do universo fascinam-nos de um modo quase religioso.

Marca: iPad. Título: A Great Big Universe. Estados Unidos, Dezembro 2015.

Chá dançante

Quando cismo com uma ideia, sou maçador. Será que o chá também pode inspirar anúncios marcados pela leveza e pela turbulência? Repare-se na máquina de chá Lipton, com a participação do Cirque du Soleil! E o chá Kusmi! Nada, porém, que a Água das Pedras ou a Expo 98 não tenham borbulhado…

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T.O Lipton

Marca: T.O Lipton. Título: Cirque du Soleil / Revolution des saveurs. Agência: Adam&Eve DDB London. Direcção: Saam Farahmand. Reino Unido, Novembro 2015.

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Marca: Kusmi Tea. Título: La Beauté des Mélanges. Agência : Quai des Orfèvres. Direcção: Robert Cohen. Janeiro 2014.

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Marca: Água das Pedras. Título: Mergulha. Agência: Euro RSCG. Direcção: Augusto Fraga. Portugal, 2012.

Somos bestiais

E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
“Há mais fé e há mais verdade,
 Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!…”
(Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno. Poema: O Melro)

Mais um vídeo focado, com humor, nas semelhanças entre os seres humanos e os animais. Assenta no lema: não basta empenhar-se  em criar a vida, importa protegê-la! Aprender a “ouvir a natureza” (Victor Hugo).
Para visionar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=Q8GtYrf9Sz0.

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Marca: WWF. Título: Une planète pour tous. Agência: John St. Canadá, Novembro 2015.

Falsidades

01. Mirror, 2012 - Tigran Tsitoghdzyan - Millenium Series

01. Mirror, 2012 – Tigran Tsitoghdzyan – Millenium Series

02. Tigran Tsitoghdzyan.

02. Tigran Tsitoghdzyan.

Ontem, Tendências do Imaginário encarou a hipótese de o anúncio Selfie Shoes ser falso. Na realidade, a marca existe, mas o produto, não! It’s a fake.Vai-se tornando um jogo diagnosticar anúncios falsos. Há um ano, Tendências do Imaginário esteve entre as três primeiras páginas a conjecturar a falsidade do anúncio Set Yourself Free.

Deve-se ao treino de visualização de anúncios publicitários? Talvez. Mas outro treino maior se alevanta. Um treino invertido. Há países onde tanta coisa parece falsa e, afinal, é verdade! Artes da câmara escura. Para acompanhar estas (in)falsidades, três pinturas a óleo do artista hiper-realista arménio Tigran Tsitoghdzyan.

03. Tigran Tsitoghdzyan. White Mirror. 2013.

03. Tigran Tsitoghdzyan. White Mirror. 2013.