A corrida dos mortos vivos

Brooks

“Sou um morto / Ainda vivo.” (Jacques Brel. La Chanson de Van Horst. J’Arrive. 1968).

A fronteira entre a vida e a morte é tão certa quanto incerta. Há quem visite o mundo dos mortos (Dante), há quem ressuscite (Lázaro) e há quem, como os zombies e as almas penadas, viva com um pé em cada lado. Nem todos temem o triunfo da morte: decapitado e ressuscitado, Epistémão não se importava de voltar para o inferno (François Rabelais, Pantagruel). Comunicamos com a morte nos cemitérios, com recurso à feitiçaria e nas mesas girantes. As almas errantes desassossegam em busca de sossego. A morte é sinistra para quem a teme. A morte é silêncio e alvoroço, ceifeira e espantalho, fatalidade e caos. No imaginário grotesco, a morte é, simultaneamente, medonha e risonha. Esta ambivalência percorre os videojogos, os vídeos musicais, o cinema e a publicidade.

No anúncio The Rundead, da Brooks, a morte descai para o lado espantalho. A ameaça inicial é o prelúdio de um delírio burlesco. À medida que correm com as sapatilhas Brooks, os zombies sofrem uma metamorfose: os corpos revitalizam-se e a relação com os vivos melhora. Este é o primeiro anúncio da marca. Bons auspícios! Os egípcios colocavam uma diversidade de objectos nos túmulos para os acompanhar na última travessia. Quando eu morrer, quero um par de sapatilhas no caixão, de preferência Brooks.

Marca: Brooks. Título: The Undead. Agência: Leo Burnett. Direcção: Björn Rühmann. USA, Fevereiro 2016.

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