Abanar o esqueleto

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.
O burro e a violência doméstica (aumentado)
| Estou a adquirir o mau hábito de revisitar os artigos entretanto esquecidos que constam entre os 10 mais vistos no dia anterior. Não estranha que não os recorde: são perto de 4500 artigos dispersos por 15 anos. Os títulos, eventualmente apelativos, mas não descritivos, também não ajudam. Ontem, o Tendências do Imaginário somou 462 visualizações. O artigo “O burro e a violência doméstica” surgiu em quinto lugar. Escrito há 10 anos, manifesta demasiada ousadia, senão atrevimento. Não tinha ainda consciência de algumas limitações e futuras vulnerabilidades. Recupero-o, acrescentando uma citação e duas gravuras. |
O burro e a violência doméstica (março 29, 2015)

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.
Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.
Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.
Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Como Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.
Adenda

O GENERAL
Está tranquilo, meu rapaz; não diremos nada. Mas afundas-te em mau caminho, meu amigo; um marido que tem medo da sua mulher, é risível, palavra de honra.
MOUTONET
Não é que tenha medo, senhor conde, é porque gosto muito dela e não a quero molestar.
O GENERAL
Ta! Ta! Ta! Eu conheço isso; já vi mais que um; quando a mulher resmunga, o marido dobra as costas, e a mulher bate em cima. E tu sabes o que acontece a um homem batido pela sua mulher?
LAURENT
Então, o quê, meu tio? O que acontece?
O GENERAL
A população da freguesia junta-se, coloca o marido de bom grado ou à força sobre o dorso de um burro, com a cara virada para o lado do rabo, e passeia-o por todas as aldeias da freguesia.
LAURENT
Mas isso é muito divertido; a mim, isso divertir-me-ia imenso.
O GENERAL RINDO
Pois bem! quando te casares, poderás proporcionar-te esse prazer.
(Contesse de Ségur. Diloy le chemineau, 1868, 2e édition, Paris, Librairie Hachette, 1887. p. 114)

“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço
Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.
Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Traseiro arrojado
O grotesco está a pegar de estaca. Na publicidade como na política. Que significa a coexistência de uma censura omnívora cada vez mais zelosa, a que nem sequer escapa a sombra de um seio de uma escultura clássica, com uma permissividade desbragada, em que as nádegas podem falar mais alto? Dualismo ou forma de gerir valores e emoções?
O anúncio norueguês “Start your own”, da DNB, apostado no desafio de uma nova vida, proporciona uma oportunidade para abraçar o dia bem-disposto e irreverente.
Ver a cara a Deus

Ainda é domingo. Deixo o comentário do anúncio argentino “Verle la cara a Dios”, da Tulipán, para outros, mais entendidos.
“Tulipán insiste en recordar que el placer importa, merece un lugar central y debe vivirse con respeto y cuidado. Debido a que el lanzamiento llega en un momento donde conviven la hipersexualización, la sobreexposición y el acceso ilimitado a porno con poca educación sexual. Paradójicamente, el deseo parece a la baja: menos ganas, más apatía.
Victoria Kopelowicz, directora de la marca, expresó: “‘Verle la cara a Dios’ es la forma más argentina de describir el máximo placer, y es exactamente eso lo que queremos transmitir con nuestra nueva línea de productos.” (Adlatina: Preestreno: Zurda y Tulipán anuncian una nueva colección de juguetes sexuales para “Verle la cara a Dios” )
Goyesco

O Uber Eats estreou na Espanha sua nova campanha de marca, intitulada “Peça Quase Tudo”, em parceria com a agência Ogilvy e estrelada pelo ator Antonio Banderas. Natural de Málaga, o artista interpreta a si mesmo em uma narrativa divertida e caótica, na qual um pedido aparentemente simples acaba resultando em um “Goya inesperado (…)
A nova campanha do Uber Eats também aposta na irreverência ao incorporar elementos da cultura popular e da história da arte espanhola. Com toques de humor, o filme faz referência a obras icônicas de Francisco de Goya — como O Três de Maio de 1808, O Cão Meio Afundado e A Maja Vestida. A campanha ainda inclui uma citação divertida ao célebre “Ecce Homo” restaurado de forma desastrosa, agora reinterpretado como uma intervenção artística surreal.” (Acontecendo Aqui: https://acontecendoaqui.com.br/propaganda/quando-o-goya-chega-no-delivery-antonio-banderas-vive-momento-surreal-com-uber-eats/).
O jardim das verduras inadiáveis

A Marta Carvalho enviou-me o anúncio “Bok Choy/Garden of Doom”, da Thai Health Promotion. Agradeço sobremaneira porque resulta difícil encontrar uma curta-metragem mais delirante, ousada e polissémica. Já a tinha colocado no Tendências do Imaginário em 2019 (Verdura fora de época). Não obstante, continua digna de ser (re)revista.
Imagem: Bok choy ou acelga chinesa
Anúncio português vintage 6. Entrevista a Tintim

“Tintim é o meu único rival internacional” (Charles de Gaulle, in André Malraux, Les chênes qu’on abat, 1971).
Num anúncio de 2004, o Jornal Público entrevista o Tintim, uma das figuras mais interventivas e viajadas da banda desenhada.
Há quase meio século, dei aulas no curso de Relações Internacionais. Por essa altura, lia bastante. um pouco de tudo. Imagino-me a lembrar, vagamente, duas obras.
Na primeira, uma entidade envolve-se recorrentemente em guerras no exterior, um pouco por toda a parte. Acontece perdê-las ou retirar-se, sobrando para os outros (protegidos, defendidos ou aliados) as consequências.
Na segunda, várias entidades temem pela sua democracia, ameaçada por eventuais invasores. Preparam-se para a defender com a espada, com armas, quando estão em vias de a perder pela cruz, com os votos.

Disparates! Não se me afigura que fossem livros do Tintim ou do Asterix. Provavelmente, histórias de cordel, como as Aventuras do Capitão Morgan, que enchiam os cantos da casa de infância.

A memória prega partidas! Se não me engano, um dos títulos seria parecido com “O Super-polícia”, mas não pertencia à coleção Vampiro, nem do Rato Mickey; o outro, algo como “A volta ao mundo em oitenta anos”, mas não era do Jules Verne. Ainda menos uma canção do Tony de Matos. [Carregar na imagem seguinte para aceder ao anúncio do Público]

Anúncio português vintage 1: Crânio / capacete
“Crânio”, da Segurança Rodoviária, estreou há mais de 30 anos. Pretende sensibilizar, de um modo impactante, os motoristas para o uso [obrigatório] do capacete de proteção. [carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo]




