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Luxúria

Morpheus. Kia. The Truth. 2014.

Conduzir é uma tentação. Conduzir um Kia é pecado, o pecado da luxúria. Morpheus, o guia omnisciente, introduz-nos ao delírio dos sentidos e à música paranormal. Tudo no maior luxo.

The Truth – Official Kia K900 Morpheus Big Game Commercial 2014. HalfTime SuperBowl.

Filas de espera

Monoprix. La première file de l’humanité. 2019.

As filas de espera constituem um fenómeno social ao mesmo tempo simples e complexo. Inspirando-se em Georg Simmel, Raymond Boudon recorre à fila de espera para ilustrar algumas noções básicas do individualismo metodológico, designadamente a interacção, a emergência e os efeitos perversos (Raymond Boudon, La logique du social, Paris, Hachette, 1979). Perverso é, certamente, o protagonista pré-histórico do anúncio La première file de l’humanité, do Monoprix. Um egoísta sem regras e sem respeito pelos outros. Uma espécie de Mr. Bean de outra era. Carapaus de corrida.

Marca: Monoprix. Título: La première file de l’humanité. Agência : Rosapark. Direcção : Antoine Bardou-Jacquet. França, Maio 2019.
Mr. Bean. Goodnight Mister Bean. 1995. Partes 1 e 2 de 5. Direcção: John Birkin.

Pelo sim, pelo não

Dollar Shave Club. Manifique. 2019

Homens objectos dançantes. Coreografados a preceito. Muito se tem escrito sobre a representação da mulher na publicidade. Recordo o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976). Pelo sim, pelo não, chegou o momento de estudar a representação do homem na publicidade. Com ou sem humor. Com ou sem pelos.

Marca: Dollar Shave Club. Título: Manifique, A Father’s Day Gift. Produção: Biscuit Filmworks, Revolver, Will. Direcção: The Glue Society. Estados Unidos, Junho 2019.

O insulto nas caixas de comentários dos jornais

Público. Bartoon. 04 de Junho de 2019

No Público de ontem, 03/06/2019, vem uma entrevista, de duas páginas inteiras, com o meu rapaz mais velho acerca das caixas de comentários dos jornais. A entrevista inspira o bartoon da edição do Público de hoje (ver imagem). Há um tempo, o meu rapaz mais velho tinha uma iniciativa e eu pensava com os meus botões: tal e qual o pai. Hoje, o meu rapaz mais velho continua a tomar iniciativas e eu penso com os meus botões: nunca serei como ele. Com o mesmo orgulho.

Obrigado mãe por não seres pai

Picasso. Les Fumeurs de Pipe. 1903.

Dividir a humanidade em fatias é um vício divino. Assim se criou o homem e, da sua costela, a mulher. Encarar o diferente como diferente é sensato. Não aceitar a diferença é questionável. Hierarquizar faz parte do jogo político. Na publicidade, tornou-se hábito inferiorizar os homens, mais os seus privilégios, preconceitos e defeitos.

Educar uma criança é uma responsabilidade complexa, por acréscimo imprevisível como o caminho marítimo para a Índia, nos Lusíadas de Camões. É fácil cometer erros.

O anúncio alemão “Danke, dass du nicht Papa bist”, da EDEKA, é, em abstracto, parvo. Não há cúmulos de leviandade e infortúnio. O anúncio é uma procissão de disparates. Convém desvalorizar uns para valorizar outros? Diminuir os pais para festejar as mães? Logicamente, não.

No fim de Maio, volvidas três semanas, a EDEKA publica, agora, para a festa do pai, o anúncio Danke Papa. Não há reparação, mas ironia: Obrigado, Papá, por não seres mãe.

Os anúncios publicitários são produzidos em função dos objectivos por profissionais experientes. Um anúncio polémico, e cómico, pode comportar dividendos de notoriedade à marca. Este não é nem o primeiro nem o último caso.

Supermarket giant Edeka is facing a wave of social media indignation over a Mother’s Day online video clip ridiculing fathers’ parenting skills, with both men and women calling the film “sexist” (…)Since it was posted on YouTube on Sunday, the ad has exceeded a million views, with thumbs-down “dislikes” fastly outnumbering likes (https://www.thelocal.de/20190508/german-supermarket-chain-edeka-slammed-over-sexist-mothers-day-video).

Marca: Edeka. Título: Danke Mama. Agência: Jung von matt / Next Alster. Alemanha, Maio 2019.
Marca: Edeka. Título: Danke Papa. Agência: Jung von matt / Next Alster. Alemanha, Maio 2019.

Um par de cabeças

Postal humorístico antigo. Kirou Ado. L’âge d’or de la carte postale, Paris, Éditions André Balland. 1966.

Venez danser
Copain copain copain copain copain copain
Venez danser
Ça danse les yeux dans les seins

Jacques Brel

Segundo Bergson, o riso está associado à observação desprendida de situações e comportamentos desajeitados (Charlot), inexpressivos (Buster Keaton), desviados (Don Quixote), desastrados (Mr. Hulot) ou desregrados (Mr. Bean). Mas quando o humor é criativo, quem fica sem jeito, desconcertado, é o próprio observador, que se sente deslocado para jogos que ultrapassam a razão desprendida. Tem cócegas no cérebro.

Jacques Brel. Les paumés du petit matin. Les bourgeois. 1962.

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.

O primeiro passo

Bianco. The Lift. 2019.

O anúncio dinamarquês The Lift, da Bianco, revela-se inteligente, criativo, original, minimalista, lento e convincente. A interacção no elevador peca por incomunicação verbal e não verbal. Desejo sem iniciativa, sentimento sem risco, corpos sem contacto. “Amor que arde sem se ver”. Convenha-se que a interpelação do outro, seja qual for a orientação sexual, é cada vez mais problemática. E, no entanto, a menina até perdeu o emprego por excesso de utilização do elevador. Feitos um para o outro e faltou-lhes uma acendalha. Aperta-nos este nosso cerco interior, sem janela nem tranca, que nos separa de quem nos atrai!

Marca: Bianco. Título: The Lift. Agência: & Co. Direcção: Daniel Kragh-Jacobsen. Dinamarca, Março 2019.

Estou em crer que se o elevador tivesse música, o desfecho seria diferente. O primeiro passo culminaria num passo de dança. A música reduz a censura dos afectos. Para ajudar, acrescento duas músicas do compositor irlandês Phil Coulter: In Loving Memory (1998) e Tranquility (1984).

Phil Coulter. In Loving Memory. Serenity. 1998.
Phil Coulter. Tranquility. Sea of Tranquility. 1984.

Peixinhos pós-modernos

Gansos

A publicidade é descaradamente intrusiva. Ubíqua e omnívora, ninguém lhe escapa. Interpela sem pedir licença. Até a consciência dispensa. E expande-se! Apoderou-se, num ápice, da Internet. Intromete-se. Chegamos ao cúmulo de pagar para a evitar. O YouTube é um exemplo. Ao abrir um vídeo, somos agraciados com um mínimo de cinco segundos publicitários. Até em casa, o “último reduto”, a publicidade se insinua. A publicidade é o nosso molho quotidiano. Com a agravante de nos conhecer bem, demasiado bem. Somos uns “peixinhos pós-modernos” (ver vídeo 1). Gansos e tansos. Os anúncios Les Oies e Le Tombeau, da France Televisions Publicité, ilustram, breves como cartoons, a omnipresença absurda da publicidade (ver vídeos 2 e 3).

Marca: Renault Clio. Título : Le Pêcheur. Agência: Publicis Conseil (Paris). Direcção: Eben Mears. França, 2007.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Les Oies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Le Tombeau. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.