Arquivo | Humor RSS for this section

Androides

RC Cola. Band. Filipinas. 2021.

L’homme qui veut dominer ses semblables suscite la machine androïde. Il abdique alors devant elle et lui délègue son humanité. Il cherche à construire la machine à penser, rêvant de pouvoir construire la machine à vouloir, la machine à vivre pour rester derrière elle sans angoisse, libéré de tout danger, exempt de tout sentiment de faiblesse, et triomphant médiatement par ce qu’il a inventé. Or, dans ce cas, la machine devenue selon l’imagination ce double de l’homme qu’est le robot, dépourvu d’intériorité, représente de façon bien évidente et inévitable un être purement mythique imaginaire. » (Simondon, Gilbert. 1958. Du mode d’existence des objets techniques. Paris, Éditions Aubier-Montaigne, p. 10).

O Extremo-Oriente habituou-nos a anúncios absurdos e hilariantes. Pela imagem e pela narrativa. O anúncio filipino Band, da RC Cola, é um bom exemplo deste género de grotesco. Os androides, fruto de uma imaginação desinibida, asseveram-se, simultaneamente, desconcertantes, ávidos e cordiais.

Marca: RC Cola. Título: Band. Agência: GIGIL. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2021.

Canto paralelo

Digital Artists. Mona Lisa.

Altiva ou rasteira, nada escapa à paródia (etimologicamente, “canto paralelo”). Nem sequer as circunspectas campanhas de prevenção rodoviária. O anúncio Drive Safely esmera-se na paródia: imita as técnicas do slow-motion e do rewind; ridiculariza o preciosismo científico (menos exatamente tantas milhas de velocidade e a travagem seria a tempo); e inverte a moral banal (em vez da salvação do bom, salva-se o mau, por sinal, uma caricatura de Hitler). Em suma, conduza à vontade, nem todos os peões são boas pessoas”. Qual a autoria e a intenção deste anúncio? Provavelmente, um vídeo viral. Não obstante, um bom exemplo de paródia.

Fernando e Albertino

Drive Safely

Se o meu carro fosse um cavalo

Lucky Luke e Jolly Jumper

O anúncio australiano Sleeper, da companhia de seguros NRMA, é inteligente, estranho e subtil. Somos convidados a acompanhar a viagem, noturna, de duas crianças e da respetiva mãe, ao volante. Adormecem, mas o carro prossegue caminho. Ficamos tensos à espera do pior. Alimentada pelas imagens, a tensão não abranda. A perturbação avoluma-se com a sensação de não perceber o que se passa, ou seja, porque nada se passa! Naquela noite, os carros conduzem sozinhos. “Enquanto os nossos carros não conduzirem sozinhos, conduza com segurança”. Como Jolly Jumper, o cavalo de Lucky Luke. As campanhas de prevenção rodoviária multiplicam-se na época natalícia..

Marca: NMRA. Título: Sleeper. Agência: BBDO. Direção: Juan Cabral / MJZ. Austrália, dezembro 2020.

A nova normalidade

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Aprecio o estilo de comunicação da Fundação Tailandesa para a Promoção da Saúde (Thai Health Promotion Foundation). Uma pedagogia franca, impactante e grotesca, adversa aos comportamentos de risco, estúpidos e perigosos, contrários à “nova normalidade”.

A propósito do Covid-19, foi publicado, no dia 27 de novembro, o primeiro volume, Reflexões, da obra coletiva A Universidade do Minho em tempos de pandemia, editada por Manuela Martins e Eloy Rodrigues (pdf acessível no seguinte endereço:  https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23). Participo com um pequeno texto (“COVID-19: o mensageiro da nova morte”, acessível em: https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23.5).  

Anunciante: Thai health promotion Foundation. Título: New Normality. Agência: Leo Burnett Group Thailand. Tailândia, julho 2020.

A bateria fantástica

Boliden. 2020.

Um anúncio tailandês grotesco, variante brutesca. Humor de Hollywood, do circo e do imaginário popular. Nada bate certo e tudo se encaixa, nesta procissão de disparates.

Marca: Boliden. Título : Whatever happened… Search Boliden. Agência: CJ WORX Co., Ltd.// Bangkok. Direcção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, Novembro 2020.

O inverno do Coronavírus e os heróis do sofá

Achille Talon. Por Greg. Banda desenhada franco-belga.

O anúncio Corona Winter, do governo da Alemanha (zusammen gegen corona) sublinha que, em tempos de pandemia, para ser herói basta não sair de casa. Só os parvos não são heróis. No anúncio, falado em alemão, uma pessoa de idade recorda os tempos da pandemia. Não descobri legendas em inglês. Segue a tradução do discurso do protagonista:

“Penso que foi no inverno 2020 que todos os olhos do país se fixaram em nós. Acabava de fazer 22 anos e prosseguia estudos de engenharia em Chemnitz quando a segunda vaga começou. 22 anos…Com essa idade, quer-se festejar, estudar, encontrar pessoas, isso tudo… Sair para beber uns copos. Mas o destino tinha outros projectos para nós. Um perigo invisível ameaçava tudo em que acreditávamos. De um momento para outro, o destino do país estava nas nossas mãos. Então, agarrámos a coragem com as duas mãos e fizemos o que era esperado de nós. A única coisa a fazer. Não fizemos nada. Absolutamente nada. Tão preguiçosos como guaxinins. Dias e noites, mantínhamos os nossos rabos em casa e combatíamos a propagação do Coronavírus. O sofá era o nosso campo de batalha. A paciência, a melhor arma. Confesso que me apetece rir sozinho ao pensar neste período. Era o nosso destino. Foi assim que nos tornámos heróis. No período do Coronavírus durante o Inverno de 2020”.

Anunciante: Zusammen gegen corona. Título: Corona Winter. Alemanha, novembro 2020.

Encontrei, entretanto, no Twittter, uma versão com legendas em inglês:

Reincidência

As crianças são adoráveis! Às vezes correm riscos, às vezes, teimosos. Por imprevidência? Para chamar a atenção? Apesar do infortúnio, repetem a experiência. Os adultos não são diferentes. A atração pelo risco não tem idade. Nestes dois anúncios neozelandeses da Calci Yum, a criança atreve-se, sofre os danos e recomeça. Sem emenda. A reincidência da asneira é proverbial. Impera, por exemplo, na banda desenhada e no cinema mudo. Não resisto a desencovar uma anedota estúpida e inconveniente.

No chão da sala de aula da escola primária, um pequeno charco aparentemente de xixi. A professora pergunta, em vão, quem foi o autor. Decide recorrer à psicologia pedagógica: “Vou apagar a luz e, no escuro, o autor vai escrever o nome no quadro”. A luz apaga-se, ouvem-se passos, um líquido a cair, passos, riscos no quadro e regresso à carteira. A professora acende a luz. O pequeno charco transformou-se num charco maior. No quadro, lê-se: “mijão fantasma ataca de noite”. A tentação do desvio e da reincidência.

Nos anúncios Bars e Cats, a animação é da autoria de Daniel Greaves:

Daniel Greaves is a director and animator. His enthusiasm and curiosity has enabled him to explore and experiment in a variety of contrasting animation techniques.

With many years of experience including running his own production company, Tandem Films, from June 1986 – 2014 as Co-founder and Creative Director, he has won around 100 international awards for short films and commercials. These include an Oscar, 2 Bafta nominations and the European Cartoon D’Or.

Advertising key campaigns under Tandem includes Ribena, Marmite, British Airways, Expedia.co.uk, Tesco and Schweppes (https://www.daniel-greaves.com/bio).

Marca: Calci Yum. Título: Bars. Agência: Colenso BBDO (Auckland). Direcção: Daniel Greaves. Nova Zelândia, 2009.
Marca: Calci Yum. Título: Cat. Agência: Colenso BBDO (Auckland). Direcção: Daniel Greaves. Nova Zelândia, 2009.

O nariz da discórdia

Cleópatra de Berlim, busto romano de Cleópatra, c. século I a.C. Museu Antigo, na Alemanha.

A gaffe é o centro do anúncio Plastic Surgery, da Scotch Brite. Uma gaffe abismal, maior do que o nariz de Cleópatra. A lançar foguetes e a apanhar as canas, a gente espeta-se. Desmancha-se. Desliza a cara para o fundo das costas.

Marca: Scotch-Brite. Título: Plastic Surgery. Agência: Grey (Argentina). Argentina, 2007.

Cuvídeo

Channel 4.

Não estranhe! Pode-se ter razão por linhas travessas. Quantas campanhas não mobilizaram a retaguarda! Contra a Covid, o Cuvídeo. Dê prazer ao rabo. Sente-se no sofá, e salve o próximo. O Channel 4, uma rede de televisão britânica vocacionada para a utilidade pública, apelava, em Abril de 2020, a uma nova modalidade voluntária de confinamento. O grotesco e o sério de mãos dadas.

This is an important public safety announcement, for your arse. If you have buttocks, put them on the sofa. The longer they stay there, the quicker we’ll get through this (Channel 4).

Anunciante: Channel 4. Título: Important Safety Announcement for Your Arse #StayAtHome. Reino Unido, Abril 2020.

Morrer de riso

‘The Dawnce of Makabre’ from Carthusian miscellany, Yorkshire or Lincolnshire ca. 1460-1500. BL, Add 37049, fol. 32r

Na Idade Média, a morte ri: nos triunfos da morte, nas danças macabras ou no assédio às donzelas. Morre-se de riso? Consta que existe uma hilaridade fatal: as vítimas morrem, literalmente, de excesso de riso. O filósofo grego Crisipo de Solis morreu a ver o seu cavalo comer figos; no século XV, o rei Martim I de Aragão morreu com um ataque de riso; mais recentemente, em 2003, Damnoen Saen-um, um vendedor de sorvetes tailandês, morreu de riso enquanto dormia (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hilaridade_fatal).

No palco, só, Bourvil recorda uma anedota fatal que um amigo lhe contou. Quem ouvir a anedota morre. Oito minutos quase sem palavras, mas sempre a comunicar. É obra e talento.

André Bourvil. C’est l’histoire du jockey qui… / Une histoire à mourir de rire. 1962.