Literatura deitada

Desliga o telemóvel e vai para a cama com Shakespeare, Cervantes, Camões ou, eventualmente, Dante, Poe, Tolstói, Rilke…
Acompanha ou intervala com boa música. Por exemplo, a Dança Macabra (1874) de Camille Saint-Saëns bem interpretada pela Kamerton Orchestra from Koszalin Music School, da Polónia.
Eros ou Thanatos sobre ou sob os lençóis.
Imagem: Edvard Munch. Dança da Morte (Autorretrato). 1915
O Fio de Ariadne e o Portal de Perséfone


“Este impactante filme da MullenLowe London ilustra (…)como, desde cedo em sua educação, as crianças já definem as oportunidades de carreira como masculinas e femininas. Quando solicitadas a desenhar um bombeiro, um cirurgião e um piloto de caça, 61 desenhos retratam homens e apenas 5 mulheres.”
“Os estereótipos de géneros são definidos entre os 5 e os 7 anos de idade”. Muitos outros, também!
Imagem: Estátua Perséfone. Mármore. Séc. II
Existirá um fio de Ariadne ou um portal de Perséfone que permita aceder a uma nova visão?
Ariadne e Perséfone recordam-me Lisa Gerrard, em particular as canções “Ariadne” e “Persephone (The Gathering of Flowers). O Tendências do Imaginário já contempla 13 canções de Lisa Gerrard. Segue mais meia dúzia.
Invasões, revoluções e involuções
Invasões. Disse invasões? Bizarro, como é bizarro! Revoluções ou involuções. Disse revoluções ou involuções? Confuso, muito confuso, senão trágico! Coisas próprias de novos Tyrannosaurus Rex.
Trágico foi o fim de Marc Bolan. Fundador da banda T. Rex e pioneiro do glam rock, morreu em setembro de 1977 num acidente de automóvel um dia antes de fazer 30 anos. Mais um caso da extensa lista de artistas precocemente falecidos nos anos setenta. Compôs a canção “Children of Revolution” adotada no anúncio “Italian Invasion” da Fiat. Será que a escutamos hoje como filhos “deslizantes” da involução?
Em memória de Marc Bolan, acrescem três música ainda não colocadas no Tendências do Imaginário: “Hot Love”; “The Slider” e “Buick Mackane”.
Entre Babel e Toronto

Desde que não se castre a curiosidade, uma diferença costuma entreabrir outra. Os franceses Orange Blossom conduzem aos Light in Babylon de origem turca. Nesta perdição, reencontramo-nos, algures, sem surpresas absolutas nem estranhamentos excessivos. Raízes, vísceras ou outra coisa qualquer… Um namoro do mesmo com o outro numa folia sem princípio nem fim. A Terra é redonda, mas imensa. Com ou sem nomes em inglês, não existe mainstream que a resuma.
À semelhança dos Orange Blossom, os membros dos Light in Babylon, fundados em Istambul em 2010, têm nacionalidades diversas: Michal Elia Kamal (voz e djembe) é israelita de pais iranianos; Julien Demarque (guitarra), francês; Metehan Çiftçi (santur), turco; Jack Butler (baixo), britânico; e Stuart Dikson (percussão), escocês. “Além do árabe, turco e farsi (persa), Michal canta também em hebraico antigo (…) As composições são originais e misturam estilos balcânicos e flamencos. A sua música étnica está catalogada como World Fusion, entrelaçando as culturas do Médio Oriente com a música europeia” (Wikipedia, 18.04.2026).
Ouvidos vadios

Continuemos a (a)variar. A banda francesa Orange Blossom presta-se. Fundada em Nantes em 1993, combina trip hop e rock, progressivo e eletrónico, com música oriental. Os membros principais são o francês PJ Chabot, violino, o mexicano Carlos Robles Arenas, percussão, e a egípcia Hend Ahmed, voz. Os demais têm origem argelina, marfinense e turca. “Multiculturais”, cantam em árabe, francês, inglês, turco, espanhol e português (Meu amor se foi).
Anónimo, ca. 1500. Univ. de Liège
A Diversidade Humana

A Imaginação Sociológica (1959), do Charles Wright Mills, é um dos poucos livros da minha cabeceira. O capítulo 7 intitula-se “A Variedade Humana”. A diversidade é um dos meus principais valores: intelectuais e práticos. Importa respeitá-la, abraçá-la e promovê-la, em todos os domínios, incluindo a música. Neste momento, a bússola desnorteada aponta para a Idade Média.
Refeições frescas e canções processadas
Existem comidas de que gostamos a dobrar: associámo-las a entes queridos. Costumam centrar-se em alimentos “naturais”. Assim sucede no anúncio “C’est Magnifique”, do Intermarché. No meu caso, nesta época, destaca-se menos a lampreia à bordalesa e mais o guisado de vitela com ervilhas de quebrar, ambos produtos da estação.
Por seu turno, a música do anúncio do Intermarché lembra-me a “canção francesa”. Seguem três exemplos, mas interpretados por uma voz processada, gerada artificialmente [um autêntico desafio para os intérpretes reais]: “Éva Lenoir é uma cantora virtual gerada por inteligência artificial, recriando a emoção e a profundidade das grandes vozes do jazz francês” (https://www.youtube.com/playlist?list=PLo11Vql_XCKzb152duWRMEia7Tu_1nkNs).
Dezembro em Abril
December é o último álbum de estúdio dos Moody Blues, lançado em 2003, quase 40 anos após a formação da banda (1964). Ouvi-lo no rescaldo da Páscoa, é reverberar o alfa, a Natividade, no ómega, a Paixão, juntar o princípio e o fim da Encarnação de Cristo. Numa entrevista à revista Goldmine, datada de 31 de maio de 2021, John Lodge, falecido em 10 de outubro de 2025, com 82 anos de idade, menciona como surgiu a canção “The Spirit Of Christmas”:
Estava no meu escritório com a televisão ligada e vi todas as notícias sobre os combates no Médio Oriente. Pensei: que mundo estranho em que vivemos. Desliguei a televisão e peguei na guitarra. O Natal estava à porta e as primeiras palavras que saíram da minha boca foram: “Para onde foi o espírito do Natal?”. Em quinze minutos, emergiu a totalidade da música. (Fabulous Flip Sides – The Moody Blues’ John Lodge. Goldmine The Music Collector Magazine, May 31, 2021).
O Tempo do Amor

Hoje fui a Melgaço assistir à missa e à procissão de Nossa Senhora da Cabeça em Penso. Aproveitei para visitar a casa de infância. Espevitei memórias díspares. Por exemplo, a música, a voz, a figura e o estilo de Françoise Hardy.
Já coloquei duas canções: Mon amie la rose e L’Amitié . Acrescento 5+1. “Le Large”, a última, representa um regresso com 74 anos de idade.

