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Abensonhar

Ministerio de la Educación de Colombia. El Balígrafo. 2016

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.

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Anunciante: Ministerio de Educación de Colombia. Título: El Balígrafo. Agência: McCann Colombia. Colômbia, 2016
Anunciante: AB INBEV/Corona. Título: Campeonato de Pesca de Plástico. Agência: We Believers. México, 2022

A Harpa, o Rouxinol e a Rosa

Para alguns, a vocação do ser humano é trabalhar; para outros, explorar ou dominar. No que me respeita, partilhar. De preferência, dar. Antes de mais, prazer. Mas para dar, não basta querer. É preciso alguém para receber. Acontece não conseguir… (AG).

O Tendências do Imaginário já dedicou um artigo a Deborah Henson-Conant, versátil e surpreendente harpista e compositora norte americana, célebre pela autoria da música “The Nightingale” (O Rouxinol). Segue o original instrumental, bem como a versão, com violoncelo, interpretada pelo duo romeno Cell’Arpa (Roxana Moisanu e Mladen Spasinovici, da orquestra da Ópera Nacional de Bucareste.

Para complementar a música, talvez se proporcione a leitura do conto, com subtis ressonâncias eróticas, “O Rouxinol e a Rosa”, do Oscar Wilde, que uma amiga virtuosa e oportunamente me sugeriu.

Pode também acompanhar a leitura com outras músicas. Por exemplo, as canções “The Nightingale” (1989), da série Twin Peaks, com interpretação de Julee Cruise, ou a “Cantilena” (1969), do Padre Francisco Fanhais.

Ilustração de P. J. Lynch, 1990

Deborah Henson-Conant – The Nightingale. Altered Ego [harpa e voz], 1998. Invention & Alchemy [instrumental], 2006
Deborah Henson-Conant – The Nightingale. Interpretação: Duo Cello’Arpa, programa Garantat 100% da TVR 1, maio 2011
Julee Cruise – The Nightingale. Soundtrack From Twin Peaks, 1989
Padre Fanhais – Cantilena. Single, 1969. 25 Abril 30 Anos – Canções de Luta e Liberdade, 2004

Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025

Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

António Joaquim Costa. Poesia da Vida e da Morte. Companhia das Ilhas. 2024

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)

Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.

Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.

Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.

Adriano Correia de Oliveira – Menina dos olhos tristes. EP Fado de Coimbra. 1964
José Afonso – Canta camarada. Single. 1969
José Afonso – Cantar alentejano. Cantigas de Maio. 1971. Ao vivo com Rui Pato, no Teatro Avenida em Coimbra.
Brigada Victor Jara – Manolo Mio. Eito Fora. 1977

Baforada sombria. Não nos deixes, valor!

Les hommes et les femmes, ou bien se dévorent rapidement dans ce qu’on appelle l’acte d’amour, ou bien s’engagent dans une longue habitude à deux. Entre ces extrêmes, il n’y a pas souvent de milieu. Cela non plus n’est pas original. À Oran comme ailleurs, faute de temps et de réflexion, on est bien obligé de s’aimer sans le savoir (Camus. La Peste. Impressão de 1955, p. 15).

On eût dit que la terre même où étaient plantées nos maisons se purgeait de son chargement d’humeurs, qu’elle laissait monter à la surface des furoncles et des sanies qui, jusqu’ici, la travaillaient intérieurement. Qu’on envisage seulement la stupéfaction de notre petite ville, si tranquille jusque-là, et bouleversée en quelques jours, comme un homme bien portant dont le sang épais se mettrait tout d’un coup en révolution! (Camus. La Peste, p. 26).

Às vezes, cobre-me o negrume de escritos que não visito há quase meio século. E releio. Por exemplo, o primeiro capítulo do romance A Peste (1947), de Albert Camus. Aqueles ratos! Tantos ratos… Um prenúncio mais que somático. E ressoam as palavras e os acordes tétricos dos Aguaviva. Alegorias? Metonímias?

Aguaviva. Apocalipsis. 1971. Últimas quatro faixas

Purgatório eterno

Eis o homem! Põe a culpa no sapato quando o culpado é o pé (Samuel Beckett. À espera de Godot. 1953).

Vou dedicar os próximos dias ao compositor polaco Zbigniew Preisner. Comecemos pelo céu (Ciel, Opéra Egyptien) para passar em seguida ao inferno (Enfer, La Double Vie de Véronique). Para assistir a um “purgatório eterno”, aconselho À Espera de Godot, de Samuel Beckett, em cena no Theatro Circo, quinta 15 e sexta 16, às 21:30. Entre as peças de teatro que mais me marcaram.

À Espera de Godot – um título que se tornou proverbial em todo o mundo. Talvez nenhuma outra peça do séc. XX tenha conhecido um alcance tão expressivo, tão global. É legítimo afirmar que, na noite em que estreou esta “tragicomédia em dois atos”, Samuel Beckett alterou por completo não apenas a literatura dramática, mas a própria condição teatral. Numa estrada, junto a uma árvore, duas criaturas sem eira nem beira, saídas de um vaudeville ou do cinema mudo, entretêm-se com jogos e picardias, rindo e chorando, discutindo tudo: um par de botas, os Evangelhos, o suicídio… Aguardam por alguém que não chega, que nunca chega: Godot, personagem-mistério que Beckett sempre se recusou a identificar com Deus, porque, mais do que aquilo que esperamos, lhe interessava realçar o que acontece enquanto esperamos (https://www.theatrocirco.com/pt/agendaebilheteira/programacultural/1332).

Zbigniew Preisner. Ciel Opéra Égyptien. Preisner’s Music. 1995
Zbigniew Preisner. Enfer (La Double Vie de Véronique, 1991). Preisner’s Music. 1995

Humor Batráquio. Estupidez e Esperteza

Por Pawell Kuczynski

“Nunca atribuas à malícia o que pode ser explicado pela estupidez humana” (Robert A. Heinlein)

“Nunca subestimes o poder da estupidez” (Robert A. Heinlein)

O perigo espreita, o turista inventa e a seguradora promete. O anúncio Frog, da companhia de seguros argentina Turismocity, confronta-nos, mediante um discurso simples com final inesperado, com uma interrogação: a esperteza enxerta-se na estupidez?

Marca: Turismocity. Título: Frog. Agência: Dhélet VMLY&R. Direção: Andrés Sehinkman & Jonathan Barg. Argentina, 2021.

Há muito que ando tentado a partilhar o ensaio satírico As Leis Fundamentais da Estupidez Humana de Carlo M. Cipolla (1988). Nunca é tarde.

O Homem-Serra

Chainsaw Man. Episódio 3. Tema Final. Outubro 2022

O mal está em começar. Não tarda o apetite. Sucede com os anime. Induzem-me a regressar a um imaginário a que dediquei especial atenção: o grotesco. A este título, o tema final do Episódio 3 do “Chainsaw Man” excede-se.

“Chainsaw Man”. Episódio 3. Tema final sem créditos. Música: Maximum The Hormone. Blade Length 200 Million Centimeters. Outubro 2022

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.