A melodia do repouso
Nos últimos quatro dias, tive que escrever dois textos: um sobre a street food, outro sobre a fotografia. Como diria La Palice: quem não é especialista de nada acaba especialista de tudo. Para descansar das letras, costumo ouvir música. Nem livros, nem vídeos. Procurar músicas dá trabalho, mas é um trabalho que descansa. Gosto do violinista Joshua Bell. Tem um toque humano. Um dia foi tocar para o metro. Ninguém lhe prestou a mínima atenção. O Tendências do Imaginário já contempla uma ou outra música interpretada por Joshua Bell. Acrescento duas: uma de Dvorak, outra de Rachmaninov.
Joshua Bell. Dvořák. Zigeunerlieder. Gypsy Songs, opus 55.
Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.
Noves fora, cinco
A página de Culturepub, dedicada à publicidade, costuma publicar, todos os dias, uma amostra com nove anúncios, os mais recentes e os mais relevantes. Ontem, dia 17 de Maio, dos nove anúncios seleccionados, cinco incidem sobre as relações de género. Retenho dois.
O anúncio britânico Our Time: Supporting Future Leaders, do Mayors Office London, recorre à metáfora gasta, mas sempre eficiente, das escadas.
O anúncio brasileiro The Dress for Respect, da Schweppes, engendra um dispositivo tecnológico que regista os toques masculinos a que as mulheres são sujeitas nas discotecas.
Anunciante: Mayors Office London. Título: Our Time: Supporting Future Leaders. Reino Unido, Maio 2018.
Marca: Scweppes. Título: The Dress for Respect. Agência: Ogilvy & Matter (Brasil). Direcção: Giancarlo Barone. Brasil, Maio 2018.
É quase amanhã
A música pode ajudar a desburocratizar os neurónios. Ninguém me demove da crença que a música é um estimulante da inteligência. O escocês Craig Armstrong compôs a banda sonora de vários filmes, tais como The Bone Colector (1999), Moulin Rouge! (2001), Ray (2004), Elisabeth: The Golden Age (2007) e The Incredible Hulk (2008).
Craig Armstrong. It’s Not Alrigh. It’s Nearly Tomorrowt. 2014
Craig Armstrong. Strange Kind of Love. It’s Nearly Tomorrow. 2014.
Craig Armstrong. This is Love. The Space Between Us. 1997.
A herança de Sísifo
No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.
Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.
Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.
Os nós da globalização
Global, local, glocal? Comprimido, estável, expandido? Líquido, mole, firme? Próximo, distante? Rápido, lento? Grande, pequeno? O mundo depende das nossas pegadas, das nossas relações, das nossas escalas e dos nossos mapas mentais. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (Protágoras). “O que conta está no interior”, a fazer fé no anúncio da Delsey Paris. Simon, após dar a volta ao mundo, encontra o que persegue, a mala, no ponto de partida. Durante a travessia, cresce-lhe a barba, entrega-se à aventura, restaura a identidade e abraça o amor paterno. Vê-se ao espelho do pai. A passagem de testemunho entre gerações é, frequentemente, pautada pela reincidência: fecha-se um ciclo, abre-se outro. E o mundo continua a girar em torno de si mesmo. Ao jeito do Quino.
Marca: Delsey Paris. Título: What Matters is Inside. Agência: Buzzman. Direcção: Against all odds. França, Abril 2018.
Mundo Quino
A segunda juventude: os super avós

Rembrandt. Um homem de idade em traje militar. (detalhe). C. 1630-1631. Rembrandt pintou dezenas de retratos com pessoas de idade.
A publicidade acrescentou às idades da vida os super avós. São fantásticos! São incríveis! São super jovens. “A idade é apenas um número. Uma pessoa é tão velha quanto velha se sinta.”
Durante séculos, os velhos eram simplesmente velhos. Entretanto, alguém se inteirou que “velhos são os trapos”. Em poucas décadas, os velhos tornaram-se pessoas de idade, idosos, terceira idade, quarta idade, seniores, elders em inglês, aînés no Québec e personas mayores em Espanha. Aqui e além, aflora o termo segunda juventude. Livrai-nos, senhor, se não estiveres muito ocupado, da burocracia baptismal.
Lembro-me dos anciãos com respeito, carinho e alguma poesia. Quando as nuvens brilham, penso: lá está ele a fazer fogueiras no céu. Fazia fogueiras com tudo e em qualquer sítio. Era a sua perdição e a sua penitência. Dava-nos, generoso, o prazer de as apagar. À pressa ou devagar. Foi um super avô. Resistente e inquieto. Até à última chama. Cresci com ele. Ensinou-me o sonho e o modo de o trazer no bolso.
Marca: Tivoli. Título: 175 Years of Magic. Agência: &Co (Dinamarca). Direcção: Casper Balslev. Dinamarca, Maio 2018.
Electrocussão
Gosto de saber não só o que consumo mas também quem é o produtor. Na literatura, na música, em todos os domínios. Se algo me agrada, informo-mo sobre o autor. Conheço, porventura, mais histórias acerca dos sociólogos do que as respectivas teorias. Sem toque humano, a fonte seca. E “a força da água provém da fonte” (provérbio persa). Cativado pelo álbum lançado pelos Armaggedon em 1975, interessei-me por Keith Relf, vocalista e mentor da banda. Ingressou, em 1963, nos The Yardbirds, banda por onde passaram Jeff Beck; Jimmy Page e Eric Clapton. Funda, com Jim McCarty, em 1969, os Renaissance, com a irmã Jane Relf como vocalista. Em Maio de 1976, sofre um “acidente de trabalho”: morreu electrocutado enquanto tocava numa guitarra com deficiente ligação à terra. Estava em curso a criação de uma nova banda: Now. But Now is gone. Tempo para recordar os The Yardbirds, os Renaissance e os Armaggedon. Carregar nas imagens seguintes para aceder aos vídeos correspondentes.
The Yardbirds. Dazed and Confused. Do programa “Bouton Rouge”, da Televisão Francesa, no dia 9 de Março de1968.
Renaissance. Face of Yesterday. Illusion. 1971.
Armaggedon. Buzzard. Argammedon. 1975.
Fobias
O canal de televisão argentino TyC Sports destaca-se pelos anúncios politicamente ousados. Em 2016, visou, por ocasião da Copa América, a xenofobia de Donald Trump. Nas vésperas do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, no próximo Junho, lança um anúncio que visa, agora, a homofobia de Vladimir Putin. Os anúncios assumem a paixão do futebol como uma paixão de homens entre homens, paixão que ronda uma espécie de erotismo tribal masculino. Ser homem é partilhar, paroxisticamente, emoções com carga corporal. As objecções ao anúncio Putin contribuíram, entretanto, para a sua retirada da Internet.
Marca: TyC Sports. Título: Putin. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2018.
Marca: TyC Sports. Título: Trump. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2016.
A Academia

Fig 1. Quino. Gente en su sítio.
Gulliver convidou-me a visitar à Academia de Lagado. Os sábios são competentes em tudo. Todos sabem demais, todos são capazes de colocar o ovo em qualquer lugar. Investigam muito, ensinam pouco e aprendem menos. Nesta orgia da inteligência, proliferam concursos e escasseiam obras. Na primeira visita de Gulliver à Academia de Lagado, nem todas as aberrações se manifestam inconsequentes. Visionárias e pioneiras, esperam, por vezes, séculos para atingir os resultados. Um exemplo:
“O primeiro mecânico que avistei pareceu-me um homem magríssimo: tinha a cara e as mãos cheias de gordura, a barba e o cabelo crescidos, com uma roupa e uma camisa cor da pele; entregava-se, havia oito anos, a um curioso projecto, que consistia, segundo ele, em recolher os raios do sol, a fim de os encerrar em frascos hermeticamente fechados, os quais podiam servir para aquecer o ar quando os estios fossem pouco quentes; declarou-me que outros oito anos seriam suficientes para fornecer aos jardins dos ricos proprietários raios de sol por preço módico” (Jonathan Swift, Gulliver, 1726).
Reconhecemos nestes “frascos hermeticamente fechados” cheios de raios de sol os painéis e as baterias solares. Assim os concebeu, antes do tempo, o académico Jonathan Swift, doutorado pela Universidade de Oxford.
Quino visitou, possivelmente, a Academia de Lagado. Atestam-no as seguintes gravuras:
- Fig 2. Quino
- Fig 3. Quino. El saber no ocupa lugar.
A Cruz, a Paixão, o Transi e a Boca do Inferno
A família não trouxe, da viagem à Escócia, apenas a fotografia do quadro Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine, de Willem van Haecht (https://tendimag.com/2018/05/01/a-nobreza-da-arte/). Trouxe, entre outras, uma fotografia do quadro Crucifixion (c. 1490) do pintor holandês Geertgen tot Sint Jans. Não conhecia o quadro, mas já tinha reparado em duas obras do autor (ver figuras 3 e 4). O quadro intriga-me, e cativa-me, pelas suas peculiaridades.
A cena da crucificação inclui os episódios da Paixão (o Calvário), desde a apresentação a Herodes até ao sepultamento e à ressurreição. Não é vulgar.
Junto à cruz, não nos deparamos com o crânio habitual, a “morte seca”, mas com um transi, um cadáver em decomposição. Não recordo ter visto um transi numa pintura da crucificação.

Fig 2. Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490.
Ainda menos me lembro, desculpem o non sense, de um quadro com a crucificação em que a cruz está assente no abismo, na boca do inferno. Será uma alusão ao Limbo (https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/)? Será um atalho para o Juízo Final (https://tendimag.com/2017/09/19/a-ressurreicao-da-imagem-marten-de-vos/)? Honestamente, desconheço.












