Discriminar ou não discriminar, eis a questão

Detail of the Romanesque tympanum of the main portal of the Abbey Church of Saint Foy in Conques, Aveyron, France. Sec. XII

Detalhe do tímpano românico da porta principal da Abadia de Sainte-Foy des Conques, em Aveyron, França. Séc. XII. O Juízo Final, última e definitiva selecção.

Um livro escolar dos anos sessenta conta a história de dois candidatos a um emprego. Um vinha recomendado, mas não foi escolhido: Tinha as unhas sujas.

Em editais de concurso para bolseiros e investigadores, lê-se o seguinte:

“Política de não discriminação e de igualdade de acesso

A Universidade do Minho, promove uma política de não discriminação e de igualdade de acesso, pelo que nenhum candidato pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado ou privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical”.

A Constituição da República opõe-se a estas formas de discriminação. Mas repetir nunca é demais. A lista das discriminações é extensa, mas não é, naturalmente, exaustiva. Falta, por exemplo, o capital social (relações e conhecimentos) do candidato, fator que, algumas vezes, se apresenta decisivo.

Há mar e mar, há discriminar e discriminar. O maior escudo contra a discriminação pode coabitar com a mais gigantesca e injusta das discriminações. Mal um estudante ingressa num curso universitário, o seu valor pode variar comparativamente do simples para o quádruplo. A portaria nº 231/2006 (2ª série) estipula que o rácio alunos/docente ETI é de 20 alunos por docente nas Ciências Sociais ou nas Letras; 12 alunos nas Ciências da Comunicação ou na Arquitetura, cinco alunos na Medicina ou na Música. A desigualdade entre alunos reproduz-se entre os professores. Um docente em Sociologia pesa quase metade de um docente em Ciências da Comunicação e um quarto de um colega da Música. Estas aritméticas, obra de espíritos mais geniais do que o Albert Einstein, acabam por ter consequências enormes na orgânica e no desempenho das instituições e dos seus membros. São Adamastores mas parece que ninguém se apercebe. Importa combater as discriminações nos concursos. Mas importa atender também à realidade interna. A discriminação sem contrição, para além de prejudicar, degrada. Em termos de aritmética, diminui os autores e as vítimas.

Tanto nos habituamos a uma falsidade que acabamos por acreditar que é verdade.

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