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Oásis

Salvador Dalí. Oásis.1946

Ousei queixar-me do vento que, teimoso, levava os meus artigos para o deserto. Nem sombra de reação! Valeu a pena perseverar uma dezena de anos. Surgiram, entretanto, alguns oásis. Na verdade, algum feedback consola.

Por inércia própria, ou alheia, continuo isolado. As saídas resumem-se a afazeres mais ou menos exigentes. A geografia biográfica resulta acanhada: frente ao computador, descubro, crio e escrevo; na varanda, fumo e francisco com a natureza; na cozinha, restauro-me, engulo comprimidos e insisto em fumar, junto ao exaustor; no quarto, escuto música e vejo documentários. Na sala, tento ler, mas à segunda página bocejo e à quinta sonho. Se jardinasse e não pecasse a fumar, não estaria longe da regra de S. Bento. Não sei o que aconteceu, mas o social e o semelhante motivam-me pouco. Neste quadro, a amizade das mensagens eletróncias amigas manifesta-se bem-vinda!

A Lígia Fernandes enviou-me, a semana passada, o anúncio “The Desk Break”, da ASICS. Já o tinha publicado no Tendências do Imaginário logo a seguir à estreia, no primeiro de outubro (ver Movimento e Poder) . Mas, como diria McLuhan, mais do que o conteúdo, o que conta é o gesto. Tanto assim que recoloco o anúncio. Já somos dois a apreciá-lo! Acresce que, graças à iniciativa da Lígia, acabei por resgatar o anúncio “Aidez-nous à sauver des vies!”, da Croix-Rouge Française, esquecido, como muitos outros, na lista de marcadores.

Marca: Asics, Título: Desk Break. Agência: Golin London. Direção: Peter Banks. 23 de setembro 2024. Tem legendas em português.
Anunciante: Croix-Rouge française (Indre et Loire). Título: Aidez-nous à sauver des vies / Journées Nationales 2019. França, 2017 / 2019

Apesar de comercial, considero “The Desk Break” um anúncio de consciencialização; “Aidez-nous à sauver des vies”, de sensibilização. Consciencialização / sensibilização, quem é capaz de enxergar a diferença?

Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.

Anunciante: Noémi. Título: Les yeux d’un enfant. Agência: Leo Burnett. Direção: Thomas Rhazi. França, 2014

Movimento e Poder

Eis uma campanha oportuna para o Dia Internacional da Saúde Mental. Há quem passe horas sentado face a um ecrã. Mexemo-nos pouco, por lazer, trabalho ou inércia. Erguer-se é uma ação com conotação geralmente positiva; mover-se, quase. Associamo-los a capacitação e vitalidade. Mas querer nem sempre é poder!

Este “lapso”, que poucos vislumbrarão, insinua-se como uma gralha no anúncio da ASICS, empresa japonesa de calçado e artigos desportivos. Como o próprio nome indica, dirige-se preferencialmente a pessoas que se identificam com uma anima sana in corpore sano (asics).

A inconsistência normativa é uma situação normal. Passei quase 4 anos dependente de uma cadeira de rodas. Deslocava-me à varanda para fumar uma vintena de vezes por dia; era a minha principal quebra (pausa). Fumar faz mal à saúde e mover-se, bem; que dizer, então, de mover-se para fumar?

Marca: Asics, Título: Desk Break. Agência: Golin London. Direção: Peter Banks. Setembro 2024. Com legendas em português.

Inteligência artificial e (des)igualdade de género

Ao João

Marca: Dante Robino. Título: Grand Dante Cabernet Franc – Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNiña. Argentina, Setembro 2024

Ao permitir o resgate do protagonismo feminino historicamente invisibilizado, o recurso à Inteligência Artificial pode revelar-se uma aposta de marketing e publicidade oportuna. A inserção do retrato da astrónoma Amélie Le Français de La Lande no rótulo de uma nova proposta de vinho da Adega Dante Robino, o Grand Dante Cabernet Franc, leva a agência argentina TombrasNiña a socorrer-se não só da pesquisa histórica mas também da Inteligência Artificial Generativa.

Marca: Gran Dante. Título: Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNIña. Argentina, setembro 2024

Todas las etiquetas de Gran Dante habían sido diseñadas con cuadros de reconocidos astrónomos como elemento principal. Durante el proceso de trabajo, se descubrió que, a lo largo de la historia, se había invisibilizado el trabajo de las astrónomas y su enorme aporte al entendimiento del universo y el cosmos. Tanto es así, que incluso habían escrito libros que fueron firmados por hombres para que pudieran ser publicados y salir a la luz.
“Decidimos tomar cartas en el asunto y, luego de un extenso trabajo de estudio e investigación en conjunto con la agencia, elegimos a Amélie Le Français de La Lande como protagonista. Entre sus numerosos aportes, calculó las tablas de horarios navales que permitían a los marinos determinar su posición en el mar, calculando la altura del Sol y las estrellas”, comentó Inés Mastrogiacomo, de Bodega Dante Robino.
Martín Bernasconi y Artur Monteiro Ziguratt, head of art y headof IA de TombrasNiña respectivamente, comentaron: “La utilización de IA Generativa fue fundamental, pero también tuvimos que llevar a cabo un profundo análisis de la época para lograr una representación fidedigna de Amélie y su entorno en términos arquitectónicos, de vestimenta, peinados y otros detalles. Una vez más, vemos el potencial de las nuevas tecnologías combinadas con la estrategia y la creatividad”. (Adlatina, Preestreno: TombrasNiña y Dante Robino visibilizan a las mujeres en la ciencia: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-tombrasnina-y-dante-robino-visibilizan-a-las-mujeres-en-la-ciencia).

Jardinar a conjugalidade

Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.

O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Marca: Hornbach. Título: Garden. Agência: Stemtag. Alemanha, 2001
Marca: Hornbach. Título: Obey Your Hands. Agência: HeimatTBWA Berlin. Direção: Steve Rogers. Alemanha, agosto 2024

Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Introdução

00. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

A convite da Câmara de Melgaço, participei na organização do Cortejo Histórico de 2024. O anterior, de 2023, cumpriu e prometeu. Importava prosseguir, introduzindo alguma distinção e inovação. Um desafio aliciante, tanto mais que as colaborações com o município de Melgaço resultaram geralmente compensadoras e reconhecidas. Regra na minha terra, exceção fora.

O trabalho de conceção do modelo do cortejo foi compartilhado com o pessoal da área da cultura do município, nomeadamente o Abel Marques, a Diva Amaral e a Patrícia Domingues. Uma equipa habituada a trabalhar em conjunto. Tem acontecido com os Serões dos Medos, está a acontecer com o próximo Boletim Cultural.

“Na primeira edição do Cortejo Histórico, em 2023, foi apresentada uma visão macro, com uma viagem no tempo de milhares de anos (Recorde-se que o Cortejo Histórico retratou uma espécie de friso cronológico, uma linha temporal da ocupação humana do território, sendo selecionadas cinco épocas que deixaram marcas históricas e que representam as raízes culturais do concelho – O Paleolítico, a Idade do Bronze, a Antiguidade Clássica – Romanização, a Idade Medieval e a Idade Contemporânea.)”

Vídeo: Cortejo histórico de Melgaço [de 2023] percorre as ruas da vila. Altominho TV. Colocado no YouTube em13/08/2023

Na primeira edição do Cortejo histórico, o objetivo consistiu, portanto, em encenar épocas da história humana com um rico património local. Proporcionou uma experiência deveras útil para o seguinte.

A primeira e principal inovação assentou numa mudança de perspetiva e numa deslocação de foco: menos História em Melgaço e mais História de Melgaço. Não apostar tanto em ilustrar ou exemplificar realidades gerais à escala local, mas recuperar e divulgar histórias e lendas caraterísticas do próprio concelho, pertencentes à sua memória coletiva, algumas vividas e ou transmitidas pelas gerações precedentes. Em suma, motivos e assuntos em que os melgacenses se reconhecem e com os quais se identificam. Por exemplo, em vez da “Idade Média”, tão marcante em Melgaço, as lendas da Senhora da Orada ou da Inês Negra, ambas exclusivas do concelho. Esta nova fórmula apresentava-se como mais propícia ao envolvimento e à criatividade dos participantes.

03. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

Encontrado o conceito e o modelo, impunham-se dois pré-requisitos: cada tema devia comportar uma ligação com uma ou várias freguesias; todas as freguesias deviam ser contempladas. Nestas condições, foram retidos sete temas, distribuídos da seguinte forma pelas juntas de freguesia:

  • Visita da Rainha D. Filipa de Lencastre ao Convento de Fiães em 1837; tema proposto e realizado pela própria freguesia de Fiães;
  • Lenda da Senhora da Orada; pelas União das Freguesias da Vila e Roussas. pela União das Freguesias de Chaviães e Paços e pela freguesia de Cristóval;
  • Tomás das Quingostas; pela freguesia de São Paio;
  • A Revolução da Maria da Fonte; pelas freguesias de Penso e Alvaredo;
  • Termas do Peso no início do século XX; pela freguesia de Paderne e pela União de Freguesias de Prado e Remoães;
  • Castrejas com mulas de carga; pela União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro;
  • Casamento nos anos setenta; pela União de Freguesias de Parada do Monte e Cubalhão e pelas freguesias de Cousso e Gave.
04. Revolução da Maria da Fonte. Fotografia: Município

A realização dos temas coube às juntas de freguesia. Na prática, foram elas que, em pouco tempo, fizeram o cortejo, eventualmente em parceria com instituições, associações ou grupos locais. Acrescentaram ideias, exploraram soluções, mobilizaram recursos humanos e materiais. Com entrega e mestria, sempre com o acompanhamento e o apoio da Câmara Municipal. A festa é, antes de mais, de quem a faz!

A composição e a dinâmica do Cortejo impressionam pela proximidade e pelo convívio entre os participantes de todas as idades, pela interação, genuína e cordial, entre gerações. Sobressai, contudo, o protagonismo dos mais velhos.

Na atualidade, os mais velhos, com ou sem a bênção dos governantes centrais e regionais, oferecem-se como uma das riquezas do concelho de Melgaço.

Pode-se saltar o parágrafo a itálico. Trata-se apenas de um desabafo.

Prestes a terminar esta prosa sisuda, não resisto a desconversar. Melgaço consta entre os concelhos mais envelhecidos do País. Há apenas três décadas, as estruturas e organizações de apoio eram poucas e com reduzida cobertura territorial.  A situação inverteu-se graças a uma política local avisada e sustentada que assumiu como prioridade a qualidade de vida dos mais velhos. Em poucos anos, os serviços dedicados aos idosos passaram de deficitários a excedentários. Hoje, as instituições, públicas, sociais ou privadas, acolhem muitos utentes proveniente de outros concelhos. Apraz-me ter participado, no início dos anos 2000, na implementação da rede social concelhia e na elaboração do primeiro diagnóstico social e sequente plano de desenvolvimento social que elegeram a população idosa como prioridade da ação social local. Mas nem tudo depende da vontade local. A decisão remonta frequentemente a outros patamres. Atente-se, por exemplo, na rede viária e nos cuidados de saúde. Sem atender ao desempenho do Centro de Saúde local, recordo que o hospital de Viana do Castelo está a 100 Km e a 90 minutos de distância. Sucede que a necessidade de cuidados de saúde aumenta com a idade.

Por seu turno, a autoestrada A28 termina em Cerveira e a A3 em Valença. O caminho de ferro rematou em Monção. Parece que os investimentos decisivos têm a sina de abortar antes de chegar a Melgaço. A notoriedade do Tomás das Quingostas, bandido social que se opôs ao governo de outrora, talvez não seja mero acaso.

07. Tomás das Quingostas. Fotografia: Ana Macedo

Mas deixemo-nos de lamentações que sabemos inconsequentes.

Dez dias antes do cortejo, admitia estar ansioso em relação ao Cortejo Histórico. Inquietava-me o resultado e a receção (https://tendimag.com/2024/07/30/metamorfoses-em-berco-de-pedra/). Confesso-me duplamente satisfeito. Com a entrega e o brio das freguesias e dos participantes e com a afluência e o entusiasmo do público, na tarde mais tórrida do ano.

Propomo-nos dedicar sete artigos ao Cortejo Histórico de 2024. Um por tema. Serão publicados à medida que a respetiva documentação for considerada suficiente, sem seguir necessariamente a ordem cronológica do Cortejo.

As fontes resumem-se principalmente a duas: os arquivos do Município e as imagens captadas por um casal amigo, a Ana Macedo e o Miguel Bandeira. O apelo a partilhas não resultou.

Enfim, que tenha conhecimento, a comunicação social, a dita cobertura mediática, não correspondeu, salvo duas exceções: o jornal Voz de Melgaço, com um excelente vídeo dedicado ao baile do casamento (https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT), e a Rádio Vale do Minho, com uma trintena de fotografias tiradas antes do desfile iniciar (https://www.radiovaledominho.com/lendas-e-momentos-historicos-desfilaram-pelas-ruas-de-melgaco-veja-as-fotos/). Como nunca percebi quais eram os critérios dos órgãos de informação, não me pronuncio sobre este desinteresse.

Acesso ao vídeo Cousso, Gave e Parada do Monte fecharam com notas de Valsa ‘casamenteira’ o Cortejo Histórico de Melgaco, pela Voz de Melgaço, colocado no Facebook em 10 de agosto de 2024

Em algumas pesquisas e na redação de um ou outro texto, beneficiámos da colaboração do Válter Alves e do Américo Rodrigues.

A Ana Macedo, historiadora, é investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade / UM e, aposentada, professora na Academia Sénior de Braga. Tive a honra de orientar a sua tese de doutoramento em Estudos Culturais.

O Miguel Bandeira, geógrafo, é professor no Instituto de Educação da Universidade do Minho, investigador no Centro de Estudos Comunicação e Sociedade / UM e, atualmente, pró-reitor da Universidade do Minho.

Já faltou mais!

Má sorte a daqueles que lhes censuram o nome! Velhos não são os trapos, velhos somos nós! Como as crianças são crianças, os jovens, jovens e os adultos, adultos. Cada qual com a sua dignidade e distinção. De eufemismo em eufemismo, a sociedade disfarça realidades e coteja fantasmas.

Rembrandt, Bust of an Old Bearded Man, Looking Down,1631

Segue uma mão, aprazivelmente enrugada, de canções vintage francesas ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.Todas com letras notáveis. Cantar a velhice faz bem aos pulmões, ao coração e à cabeça. Uma maneira, como qualquer outra, de partilhar e agradecer. Obrigado!

Herbert-Félix Thiéfaine – La ruelle des morts. Suppléments de mensonge. 2011
Bénabar – La Coquette. Les risque du métier. 2003
Zas – Si je perds. Recto verso. 2013
George Brassens – Marquise. Les Trompettes de la renommée. 1962. No programa “Cinq colonnes à la une”, da RTF, do7 de dezembro de 1962.
Georges Moustaki – La vieillesse. Ballades en Ballade: Racines et Errances. 1975

Jejum guloso

Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.

Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530

O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…

E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!

José Peixoto & Sofia Vitória – Belo Manto. Belo Manto — Música para Poesia Luso-Árabe e Poesia Medieval Portuguesa. 2017
Amália Rodrigues – Hortelã Mourisca. 1977
Madredeus – O Pastor. Existir. 1990. Ao vivo, O Pastor, seguido de A Vaca de Fogo e Os Senhores da Guerra, no Palais des Beaux-Arts, Bruxelas, Bélgica, 24 de abril de 1995

Versão publicitária do teorema de Thomas

William I. Thomas (1863-1947), sociólogo norte-americano pioneiro do estudo das migrações, do “método biográfico” e da célebre Escola de Chicago, é um dos clássicos a quem devoto particular estima. Com Dorothy S. Thomas, que viria a ser sua esposa, publicou, em 1928, The child in America: Behavior problems and programs, onde se avança uma interpretação que se tornaria, doravante, conhecida como “Teorema de Thomas”.

Imagem: William I. Thomas

Sustentando a importância objetiva e subjetiva da “definição das situações”, os autores propõem a seguinte fórmula: “If men define situations as real, they are real in their consequences” New York: Alfred A. Knopf, p. 572). Em termos simples: se os professores estão convencidos que determinado aluno é bom, há sérias probabilidades que, embora não o sendo à partida, ele se torne efetivamente um bom aluno. Noções como “profecia autorrealizadora”, “predição criadora” ou “efeito Pigmaleão” estão, de algum modo, associadas a este teorema. Em livro precedente, The Unadjusted Girl, With Cases and Standpoint for Behavior Analysis, publicado em 1923 (Boston: Little, Brown, and Company, Thomas sustentava já que o modo como as pessoas encaram e se comportam com outras contribui para forjar as respetivas personalidades, podendo estas acabar por as assumir. Estava assim traçado o esboço de uma teoria que viria a ser cunhada como teoria da “rotulagem” (e.g. Howard S. Becker, Outsiders, New York: Free Press, 1963), abordagem particularmente influente na área da criminologia. Este princípio desdobra-se no seguinte corolário: o crime e o criminoso são, pelo menos em parte, definidos e fabricados pela sociedade envolvente.

A que propósito vem esta resenha académica intragável?

Resulta inspirada pelo anúncio recente “Assume that I can”, da organização italiana sem fins lucrativos CoorDown para o World Down Syndrome Day 2024. Trata-se de uma inequívoca concretização das teorias de Thomas e da rotulagem.

Anunciante: CoorDown / World Down Syndrome Day 2024. Título: Assume that I can. Agência: SMALL New York. USA, março 2024

Recordar o que não se viveu

O INE (Instituto Nacional de Estatística) estima que, em Portugal, a população residente com menos de 50 anos ascendia, em 2022, a cerca de 5 713 000 pessoas (54,7% do total). Mais de metade dos “portugueses” nasceu, portanto, após o 25 de Abril de 1974. O documentário Como era Portugal antes da Democracia? aborda o período anterior à Revolução.

O documentário consiste numa “montagem para utilização didáctica em aulas de História realizada a partir de extractos da série Portugal, um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes”. Bastante abrangente, dedica poucas palavras e imagens à emigração e ao contrabando, estimados, porventura, menos relevantes para o propósito geral.

Rodrigo Leão. Portugal, Um Retrato Social. 2007

No canal do YouTube de João Cardoso, o documentário soma, desde 2015, mais de1 089 138 consultas. Convido a espreitar, sobretudo, quem nasceu após o 25 de abril de 1974. Recordar o que não se viveu talvez resulte uma experiência interessante.

Como era Portugal antes da Democracia? – Montagem a partir de extratos da série Portugal, um Retrato Social de António Barreto e Joana Pontes, estreada na RTP1 em 2007. Duração: 39:22