Santo Cão

Santo Estevão e São Cristóvão. Séc. XVIII.

Santo Estevão e São Cristóvão. Séc. XVIII.

Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão. “Plus je vois les hommes, plus j’aime mon chien” (pensamento atribuído a Blaise Pascal). Este é o lema do anúncio Unloved, da Mayhew Animal Hole.

Anunciante:  Mayhew Animal Home. Título: Unloved. Agência: Direct. Direcção: Dominic Goldman. UK, Março 2014.

Saint Christopher. The icon from Assumption Church from Bogorodskoe village (Lyubimov uyezd of Yaroslav province). First half of XVII century.

Saint Christopher. The icon from Assumption Church from Bogorodskoe village (Lyubimov uyezd of Yaroslav province). First half of XVII century.

São Cristóvão com cabeça de cão, ca 1600.1700.

São Cristóvão com cabeça de cão, ca 1600.1700.

É uma tentação irresistível associar temas que nada aproxima, a não ser uma ponte perversa pendurada num pensamento vadio. Em séculos passados, havia quem acreditasse em santos cinocéfalos (com cabeça de cão), nomeadamente São Cristóvão e São Guinefort. Segue a lenda de São Guinefort tal com foi escrita por Etienne de Bourbon no século XIII.

Sobre a Adoração do Cachorro Guinefort

Em sexto lugar, devo falar de superstições ofensivas, algumas das quais ofensivas a Deus, outras a nossos semelhantes. Ofensivos a Deus são aqueles que honram demónios ou outras criaturas como se fossem divinos: é o que faz a idolatria, e é o que fazem as mulheres miseráveis que lançam sortes, que buscam a salvação adorando árvores de sabugueiro ou fazendo-lhes oferendas; desprezando igrejas e relíquias sagradas, levam seus filhos a essas árvores mais velhas, ou a formigueiros, ou a outras coisas, a fim de que a cura seja efetuada.

Isso aconteceu recentemente na diocese de Lyon, onde, quando eu pregava contra a consulta dos oráculos e ouvia confissões, muitas mulheres confessaram que haviam levado seus filhos para Saint Guinefort. Como pensei que se tratava de uma pessoa sagrada, continuei a  minha investigação e finalmente descobri que se tratava de um galgo, que havia sido morto da seguinte maneira.

Na diocese de Lyon, perto do vilarejo das freiras chamado Villeneuve, na propriedade do Senhor de Villars-en-Dombe, havia um castelo, cujo senhor teve um bebé de sua esposa. Mas um dia, quando o senhor e a senhora, bem como a ama, saíram de casa, deixando o bebê sozinho no berço, uma enorme serpente entrou na casa e aproximou-se do berço do bebê. Vendo isso, o galgo, que tinha permanecido no local, perseguiu a serpente e, atacando-a por baixo do berço, desequilibrou o berço e mordeu a serpente toda, que se defendeu, mordendo o cão com igual severidade. Por fim, o cachorro matou-a e atirou-a para longe do berço. O berço, o chão, o cachorro, a sua boca e a sua cabeça, estavam todas encharcadas com o sangue da serpente. Apesar de gravemente ferido pela serpente, o cão permaneceu de guarda ao lado do berço. Quando a ama voltou e viu a situação, pensou que o cão tinha devorado a criança e soltou um grito de aflição. Ao ouvi-lo, a mãe da criança também acorreu, olhou, pensou o mesmo e também gritou. O cavaleiro, ao chegar, pensou a mesma coisa, desembainhou a espada e matou o cão. Só depois se aproximaram e encontraram o bebé são e salvo, dormindo pacificamente. Prosseguindo a investigação, descobriram a serpente, despedaçada pelas mordidas, jazendo morta. Percebendo, deste modo, a verdade dos factos, embaraçados por terem morto um cão tão dedicado, enterraram-no nu poço em frente à porta do castelo, e cobrindo-o com uma grande pilha de pedras, plantaram árvores ao lado, em memória do sucedido.

O castelo foi, contudo, destruído por vontade divina e a propriedade, reduzida a um deserto, foi abandonada pelos seus habitantes. Os camponeses, sabendo da nobre conduta do cachorro e da sua morte inocente, embora inocente, começaram a visitar o local, a venerar o cachorro como um mártir, rezando-lhe a pedir ajuda quando estavam doentes ou necessitados. Seduzidos e tentados pelo diabo, que costuma conduzir deste modo os homens ao erro. Foram principalmente as mulheres quem, com filhos doentes ou fracos, os levava para este lugar. Iam à procura de uma velha numa cidade fortificada a uma légua de distância que lhes ensinava os rituais que deviam cumprir para fazer oferendas aos demônios e para invocá-los e atraí-los ao local. Quando chegassem, fariam oferendas de sal e outras coisas; pendurariam as roupas das criancinhas nos arbustos circundantes fixando-as nos espinhos. Passavam, então, os bebés nus entre os troncos de duas árvores. A mãe segurava, de um lado, o bebé e atirava-o nove vezes para a velha, do outro lado, invocando, ao mesmo tempo, s demônios para conjurar os faunos da floresta de “Rimite” a levar a criança doente e fraca a quem acreditam pertencer e lhes devolver o seu próprio filho grande, gordo, vivo e saudável. Feito isso, as mães infanticidas pegaram seus filhos e colocaram-nos nus aos no chão ao pé da árvore sobre a palha de um berço; acenderam em cada lado da cabeça da criança duas velas com um polegar de espessura com o fogo que trouxeram com eles e fixaram-nas no tronco por cima dela. Em seguida, enquanto as velas se consumiam, afastaram-se o suficiente para não ver a criança nem a ouvir chorar. Várias pessoas nos contaram que enquanto as velas estavam acesas, queimaram e mataram vários bebés.  

Uma mulher também me disse que depois de ter invocado os faunos, e já se estava a retirar, viu um lobo (ou o diabo em forma de lobo, segundo ela) a sair da floresta em direção ao bebê. Tê-lo-ia devorado, caso, movida pelos seus sentimentos maternais, não o tivesse recuperado. Por outro lado, quando uma mãe voltou para seu filho e o encontrou ainda vivo, pegou nele, o levou para as águas de um rio próximo, chamado Chalaronne [um afluente do Saône], e o mergulhou nove vezes; se ele resistir sem morrer no local. ou logo depois, é sinal de que tinha uma constituição muito forte.

Fomos ao lugar e reunimos as pessoas e pregamos a prática. Em seguida, desenterramos o cachorro morto e cortámos e queimámos o bosque de árvores, junto com os ossos do cachorro. E eu obtive um édito promulgado pelos senhores da terra, ameaçando espoliação e multas de qualquer pessoa que, no futuro, ali se reunisse para tal fim.

Etienne de Bourbon (falecido por volta de 1262): De Supersticione. Fordham University: https://sourcebooks.fordham.edu/source/guinefort.asp).

São Cristóvão. Ícone Russo. Séc. XVIII.

São Cristóvão. Ícone Russo. Séc. XVIII.

Se alguém, porventura, te disser que tens cabeça de cão, pensa duas vezes. Pode ser um elogio ou não.

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2 responses to “Santo Cão”

  1. Rasgos Artes Beatriz Martins says :

    Como o Homem ajusta as lendas a seus interesses!Excelente retrospetiva!

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  1. Pokémon GO e São Cristóvão | Tendências do imaginário - Julho 30, 2016

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