Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.
A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.
Ver com o coração

“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração” (Pascal, Pensamentos, artigo XXII)
“O coração tem razões que a própria razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas” (Pascal, Pensamentos, artigo XVI)
“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, cap. XVII)
Abra, concentre-se e sinta! O anúncio “The boy at the window”, da Thai Life Insurance, consegue comover um calhau. Ora, nós somos mais moles.
Salvem as crianças!
Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!… (Augusto Gil. Balada da Neve. Luar de Janeiro, 1909)

“Há mais de 100 anos, em 1919, uma mulher chamada Eglantyne Jebb [1876-1928] fundou a Save the Children em resposta ao sofrimento que as crianças enfrentavam como resultado da Primeira Guerra Mundial. / Eglantyne Jebb mudou o curso da história quando declarou que todas as meninas e meninos deveriam ter direitos. Esta ideia, avançada para o seu tempo, desencadeou um movimento global para tornar o mundo um lugar melhor para as crianças. Eglantyne apresentou a primeira Declaração Universal dos Direitos da Criança na Liga das Nações, documento que serviu de base para a criação da Convenção sobre os Direitos da Criança.”
Despertei com o anúncio “Fer” da Saven the Children, do México. Extenso e lento (dura mais de 6 minutos), algo enigmático (desconhece-se, até ao final, o motivo), nem sempre lógico (por que se deixa crescer tanto o cabelo?), faz todo o sentido: ” Desde el embarazo infantil hasta el feminicidio, las niñas viven con miedo en lugar de tener la libertad para crecer y desarrollarse plenamente”.
A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.
Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.
Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim
As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).
Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.
Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!
Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

















Tenros e ternos


Tenros e ternos, eis um anagrama adequado a estes dois anúncios franceses da McDonald’s, o venerável Le Vélo e o recente Les Amis. Uma ternura comercial, sobre rodas e em conserva.
Cabeçadas de rena

Que as renas voam toda a gente sabe. Que seria do Pai Natal? Que o céu tem limites também todos sabemos. Demonstra-o o efeito de estufa. Quem voa incauto arrisca umas boas cabeçadas. Importa “capacetar-se”!
Se sobrar tempo após os anúncios El Pequeño Reno, do El Corte Inglés, e Share The Magic, do SuperValu, convido-o a consultar o artigo paisagens transgénicas, com texto e fotografias de Álvaro Domingues: https://margens.blog/2023/01/01/paisagens-transgenicas/
Diga-o com robots!

Parece-me que estou a ficar senil, mas não resisto a repetir: manifesta-se impressionante como o ser humano tem de recorrer à mediação do não-humano (animais, animações, objetos) para expressar, significar, o humano.
Singaporean charity TOUCH Community Services has released a heart-warming film about the power of the human touch, produced by BBH Singapore. / The ‘touching’ film is set in the future and tells the story of Alfie, a robot assistant, who learns about the human touch from the family and community it interacts with. / Accompanied by an acoustic arrangement of the classic hit, Human, written by The Killers, the campaign film embodies TOUCH’s commitment to inspire hope and transform lives through the power of human connection, both in the present and the future (Ads of the World, The Human Touch: https://www.adsoftheworld.com/campaigns/the-human-touch, acedido em 11.10.2022).
Estigma capilar

Proveniente da Alemanha, país que tendemos a associar alguma contenção e ponderação, o anúncio “Hans”, da empresa de cabeleireiros Headhunter, excede-se. Propõe uma paródia ousada, senão atrevida, de uma realidade sensível: as campanhas de consciencialização para a inclusão de crianças com deficiência. Num aspeto o anúncio não deixa de estar certo: os cabelos podem funcionar como estigma, contagiando e desvalorizando a pessoa no seu todo. Recorde-se que, no final da Segunda Grande Guerra, nos dias imediatos à libertação da França, a população rapou o cabelo aos “colaboracionistas” com o regime nazi, expondo-os em cortejos degradantes (ver Violência e Humilhação: https://tendimag.com/2016/01/14/violencia-e-humilhacao/).
As crianças na escola

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.


Uma criança no balde do lixo
Às vezes, uma simples ideia vale, por si só, quase tudo. Com o risco, aliás, de ofuscar o resto. A figura de uma criança entrincheirada num balde do lixo para defender a reciclagem dos resíduos é quase um ovo de Colombo em termos de sensibilização publicitária. Por um tempo, quando pensar em reciclagem, acudirá esta imagem que, inspirada, dispensa grande elaboração.
