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Não vale a pena uivar à lua

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Creio que devíamos salivar menos perante os símbolos. A distância e o tempo ajudam o entendimento. Convém reflectir em vez de sobre-reagir. Não vale a pena uivar à lua (Albertino Gonçalves).

Realizador: John Bashyan. Título: The night the moon fell. Produção: Tom Leach. 2016.

Jejuemos de anúncios. É a vez de uma curta-metragem e de três vídeos musicais. Tudo lunar. O vídeo é amoroso, como costumam ser as animações com crianças, mas a lua entendeu ser desmancha-prazeres. Moral: não faças cócegas à lua a não ser que estejas por cima. As três canções são tesourinhos de vinil. Na canção do Zeca Afonso, 400 bruxas esperam a lua cheia. Em Portugal, Angelo Branduardi sempre foi o meu segredo isolado. Bob Dylan publicou o álbum Self Portrait em 1970. Um insucesso muito criticado. A maioria das canções são covers e Bob Dylan canta de um modo inesperado. É esse modo inesperado que me cativa no cover Blue Moon.

José Afonso. A Ronda das Mafarricas. Cantigas de Maio. 1971.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.

Bob Dylan. Blue Moon. Self Portrait. 1970.

Antes que seja tarde

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Yemen. Foto Unicef.

Hoje é o dia do Senhor. E não fui à missa. Mas não sou má pessoa. Não sei como reparar? Talvez um artigo integralmente lusófono, com um anúncio da Unicef Brasil, uma canção dos Titãs e um poema de Miguel Torga. Hoje não é o dia do Senhor; hoje é o dia do Menino.

Anunciante: Unicef Brasil. Título: Antes que seja tarde. Agência: Isobar. Brasil, Janeiro 2017.

Titãs. Epitáfio. Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana. 2001.

AVISO

Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.

Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos…

Miguel Torga, Diário VI, 1952.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

Amizade animal

DuckPor que motivo a amizade com um animal nos fica cravada na memória? Recordo dois cães, uma pega, um mandarim e duas gatas. Também me lembro de Skippy, o canguru, Rin Tin Tin, o cão, Lassie, a cadela, Flipper, o golfinho, e Kiki, a cacatua. Com uma paleta de expressões porventura limitada, o que é que os animais têm que nós não temos? Parar de crescer talvez ajude. É o que sugere este anúncio para uma revista da Walt Disney. Uma história simples, muito simples, bem compassada,em que o protagonista é um pato (Donald).

Marca: Aku Ankka magazine. Título: The Duck & the Boy. Agência: Bob the Robot. Direcção: Juho Konstig. Finlândia, Março 2016.

 

Sujar faz bem

Free the kids

“As crianças passam menos tempo ao ar livre do que os prisioneiros”

Free the Kids – Dirt is Good, da Persil, é um anúncio bem construído, tecnicamente primoroso, com um enredo surpreendente. À partida, os horários dos reclusos pouco têm a ver com o produto: um detergente. O filme cativa a atenção numa trama de tensão crescente, que a música acentua. Suspenso, o espectador assume a postura de um arqueiro que aponta a flecha e estica a corda sem alvo à vista. Tudo se decripta nos últimos segundos, com a introdução de um lema (Free the Kids – Dirt is Good: as crianças têm direito a estar fora de casa pelo menos tanto tempo quanto os reclusos fora da cela. Acresce um nome, Persil, o reparador da sujidade infantil. Sem esquecer, o emblema, o logótipo da marca. Estão, assim, reunidos os componentes de uma alegoria (Gilles Deleuze, Le Pli: Leibniz et le baroque, 1988).

A alegoria na publicidade, com focagem em temas alheios ao produto, não é recente, mas persiste e alastra-se (ver “Dobras e fragmentos”, in Gonçalves, Albertino, Vertigens, 2009). Dirt is Good apresenta uma especificidade. Propõe uma heterotopia disfórica: a prisão e a falta de liberdade / sujidade. O conceito e o propósito lembram as campanhas da Benetton no tempo do fotógrafo Oliviero Toscani.  Temas tais como a sexualidade, a discriminação, o racismo, a sida, a pena de morte, a fome, o crime e o poder ficaram associados à Benetton. “Dizer Chique com Choque” (Coelho, Maria Zara & Gonçalves, Maria Helena, “Quando chique se diz com choque, Cadernos do Noroeste, 4: 6-7, 1991, pp. 270-282 ) define uma opção num quadro de mediatização do mediatizável. À partida, não se vislumbra uma ligação razoável entre esses temas e as lojas da Benetton. Tão pouco existe uma ligação entre os intervalos ao ar livre dos reclusos e um detergente. Desencantemos! A semiose social é complexa e a publicidade, a alquimia da nova comunicação. Estes anúncios convocam as marcas. Criam imagens de marca. Alegóricos e performativos, estes anúncios logram efeitos extraordinários. Enxertam-se, por exemplo, na memória. Volvidas algumas décadas, recordo o padre a beijar a freira, o moribundo vítima da sida ou a mulher negra a amamentar um bebé branco. Associo-os à Benetton, mas não aos cachecóis, às camisolas e à equipa de Fórmula 1. Recordo muitos anúncios como, por exemplo, os anúncios da Ford com embriões de animais ou da Orange com a população a recuar para reparar o passado. Em contrapartida, confesso não me lembrar da maior parte dos anúncios colocados, nos últimos meses, no Tendências do Imaginário. Pela magia é que vamos! Pelo esquecimento, também.

Marca: Persil: Título: Free the Kids – Dirt is Good. Agência: Mullen Lowe London. Reino Unido, Março 2016.

 

Rituais

A falsidade de uma crença não lhe retira eficácia. Como diria Vilfredo Pareto, uma coisa é a acção, orientada para a utilidade, outra, a ciência, orientada para a verdade.

Seguem dois anúncios da Lifebuoy, empresa de sabonetes antibacterianos. No primeiro, um homem percorre apoiado apenas nas mãos o caminho entre a casa e o templo. Agradece aos deuses o quinto aniversário do filho. No segundo, uma mulher cuida “maternalmente” de uma árvore. É tradição local plantar uma árvore quando um filho nasce. A árvore tem cinco anos; o filho, não!
Carregar nas imagens para aceder aos respectivos anúncios.

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Marca: Lifebuoy. Título: Help a child reach 5. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Direcção: Amit Charma. Índia, 2013.

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Marca: Lifebuoy. Título: Tree of Life. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Índia, 2014.

De cabeça para baixo

Unicef

Este anúncio da Unicef, World Upside Down, propõe um diálogo dramático entre a segurança e o risco. O próximo, protegido, é catapultado para o lugar, exposto, do outro. Embalado pela voz de Antony (Soft Black Stars), o anúncio convoca realidades que, apesar de tudo, não nos são completamente estranhas. As cenas da linha de caminho-de-ferro lembram um print da Prada com uma criança sentada numa linha férrea desactivada (Prada, 2011). Foi censurado, no Reino Unido, devido a imagens eventualmente perigosas, “in a potentially hazardous situation”  (https://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/). É certo que o teor do anúncio da Unicef é diferente: versa sobre riscos, que importa revelar. Não obstante, a “censura democrática” talvez não perdesse em ser menos categórica e mais ponderada. A censura não risca apenas uma obra, hipoteca o futuro, porventura a liberdade e a criatividade. Um anúncio censurado, como o print da Prada, aloja-se nos bastidores da memória, à espera de repisar o palco.

Anunciante: Unicef. Título: World Upside Down. Agência: Don’t Panic London. Direcção: Karen Kunningham. Reino Unido, Novembro 2015.

O Homem na Lua

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Todos os anos, a John Lewis estreia um anúncio na quadra natalícia. É uma tradição. Fantásticos e ternurentos, os anúncios da John Lewis são contos infantis. Neste anúncio, uma menina, na terra, e um idoso, na lua, têm dificuldade em comunicar. Mas tudo se resolve… Um anúncio polémico, sobretudo, para quem gosta de interpretações literais. Por exemplo, como chegou o idoso à lua?

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

Quotidiano de risco

fia_twitter_cover_image“O silêncio é quando ninguém ouve” (Réjean Ducharme, L’Océantume, Gallimard, 1961). Não obstante, importa falar com os surdos funcionais. Este anúncio dá a ver, ouvir e sentir. Sem desconsiderar o pensamento de Blaise Pascal, há vozes que não ensurdecem.

O anúncio é admirável. Sem pontas soltas. A inserção da música é milimétrica. A imersão na sequência da autoestrada, com destaque para o som, é eficaz. O anúncio termina com um acidente no local menos expectável. Trata-se de um caso específico de definição da situação: o anúncio desconstrói em poucos segundos a evidência que construiu em perto de três minutos.

Luc Besson, que assume a direcção do anúncio, é um nome consagrado do cinema. Foi produtor de mais de cinquenta filmes e realizou perto de um vintena, entre os quais Nikita (1990), O Profissional (1994), O Quinto Elemento (1997), Joana d’Arc (1999) e Artur e os Minimeus (2006).

A FIA Foundation, registada no Reino Unido, intervém, sobretudo, no âmbito da segurança rodoviária, da mobilidade sustentável e da defesa do meio ambiente.

Enquanto escrevia este artigo, passou-me várias vezes pelo tecto a canção Sounds of Silence dos Simon & Garfunkel. Não é pecado, pois não?

Anunciante: FIA Foundation. Título: Save Kids Lives. Agência: L.M.Consulting&Creativity |L.M.C.C. Direcção: Luc Besson. Internacional, Outubro 2015.

Nas mãos de uma criança

Um bebé afasta-se, a contraluz, rumo à janela. De fraldas em riste, rasga horizontes. Go and see just how kind this world can be. Um anúncio da  Airbnb, com imagem, texto, voz e música encantadores.

Marca: Airbnb. Título: Is Mankind? Agência: BWA/Chiat/Day, San Francisco. Direcção: Lance Acord. USA, Julho 2015.

Manuel FreireA propósito ou a despropósito, vale sempre a pena ouvir a Pedra Filosofal, de Manuel Freire, com letra de António Gedeão, estreada em 1969.

Naquele tempo, não éramos bons alunos em nada. Estava para vir a arte da sicofância (ver Sicofância: a arte dos lambe cús).

Manuel Freire. Pedra Filosofal. Letra de António Gedeão. 1969.