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Papão

John. Moz the Monster. 2017

Quantas vezes não me cantaram, quantas vezes não cantei, esta canção de embalar:

“Dorme menino
Que aí vem o papão
Comer meninos
Que não dormem não.”

O meu menino chama-se
Fernando Meco João
É muito lindo e brincalhão.

“O meu menino está chorando
Com medo do papão,
Sossega, meu menino,
Que não te come, não.”

Segue o anúncio Moz the Monster, com a assinatura de Michel Gondry.

Marca: John Lewis. Título: Moz the Monster. Agência: Adam&eveDDB. Produção: Partizan. Direcção: Michel Gondry. Reino Unido, Novembro 2017.

O trenó dos hipermercados

Trenó Dinamarca

Imaginação, muita imaginação; vontade, muita vontade; e o sonho acontece. Voar num carrinho de compras que faz inveja ao trenó do Pai Natal. Os hipermercados têm a faculdade de transformar os desejos em realidades e as realidades em desejos (ver Albertino Gonçalves, 2002. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado, Comunicação e Sociedade, Vol. 4, pp. 315-319).

Marca: Fotex. Título: Rollo the reindeer. Produção: Nobody Cph. Direcção: Rune Milton. Dinamarca, Novembro 2017.

 

Fora de pista

Sherpa-cinemas-imagination

Há algo em nós de boneco de neve. Quando nos dá para a estoicidade, derretemos firmes e hirtos (AG).

Está frio! Mas podia estar mais. Partir para a neve. Para uma estância. Daquelas onde bronzeamos de dia e convivemos de noite. Nada como calçar aquelas botas que nos prendem os tornozelos e partir à aventura em cima de duas tábuas. Fora de pista, que a neve pisada é pasmada. O esqui quer-se mais voado do que deslizado. A modos como o protagonista do anúncio Imagination, da The North Face: um esqui Parkour, surf, nos limites, saltado e voado, à medida da imaginação de uma criança.

JP Auclair, a professional freeskier who passed away in an avalanche in 2014, developed the original concept. If you feel a pinch of melancholy, it’s not just your lonely search for lost time; “Imagination” is also an emotional tribute to Auclair from friends and collaborators (Produção).

Marca: The North Face. Título: Imagination. Agência: In House. Estados Unidos. Novembro 2017.

Uma história batida

Wind bee

O anúncio The Bee, da Wind Mobile, conta uma história batida: uma criança socorre um animal, afeiçoam-se, mas o animal acaba por libertado para junto dos seus. Neste caso, a escolha do animal faz diferença. A abelha é caracterizada por um processo de comunicação particularmente desenvolvido: chegadas à colmeia são capazes de transmitir às outras, com exactidão, o local onde existe comida. Muito aquém, porém, da linguagem humana. Emil Benveniste (1952, “Communication animale et langage humain”, in Problèmes de linguistique générale T1, Paris, Gallimard) conclui que a comunicação das abelhas, embora notável, está longe das potencialidades da linguagem humana. Falta, por exemplo, a “dupla articulação” (Martinet, André, 1965. Linguistique synchronique, Paris, PUF). Moral da história: o discurso académico nem sempre ajuda a comunicação.

Marca: Wind Mobile. Título: The Bee. Agência: Ogilvy & Mather Milan. Direcção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2017.

Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

Não vale a pena uivar à lua

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Creio que devíamos salivar menos perante os símbolos. A distância e o tempo ajudam o entendimento. Convém reflectir em vez de sobre-reagir. Não vale a pena uivar à lua (Albertino Gonçalves).

Realizador: John Bashyan. Título: The night the moon fell. Produção: Tom Leach. 2016.

Jejuemos de anúncios. É a vez de uma curta-metragem e de três vídeos musicais. Tudo lunar. O vídeo é amoroso, como costumam ser as animações com crianças, mas a lua entendeu ser desmancha-prazeres. Moral: não faças cócegas à lua a não ser que estejas por cima. As três canções são tesourinhos de vinil. Na canção do Zeca Afonso, 400 bruxas esperam a lua cheia. Em Portugal, Angelo Branduardi sempre foi o meu segredo isolado. Bob Dylan publicou o álbum Self Portrait em 1970. Um insucesso muito criticado. A maioria das canções são covers e Bob Dylan canta de um modo inesperado. É esse modo inesperado que me cativa no cover Blue Moon.

José Afonso. A Ronda das Mafarricas. Cantigas de Maio. 1971.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.

Bob Dylan. Blue Moon. Self Portrait. 1970.

Antes que seja tarde

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Yemen. Foto Unicef.

Hoje é o dia do Senhor. E não fui à missa. Mas não sou má pessoa. Não sei como reparar? Talvez um artigo integralmente lusófono, com um anúncio da Unicef Brasil, uma canção dos Titãs e um poema de Miguel Torga. Hoje não é o dia do Senhor; hoje é o dia do Menino.

Anunciante: Unicef Brasil. Título: Antes que seja tarde. Agência: Isobar. Brasil, Janeiro 2017.

Titãs. Epitáfio. Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana. 2001.

AVISO

Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.

Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos…

Miguel Torga, Diário VI, 1952.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

Amizade animal

DuckPor que motivo a amizade com um animal nos fica cravada na memória? Recordo dois cães, uma pega, um mandarim e duas gatas. Também me lembro de Skippy, o canguru, Rin Tin Tin, o cão, Lassie, a cadela, Flipper, o golfinho, e Kiki, a cacatua. Com uma paleta de expressões porventura limitada, o que é que os animais têm que nós não temos? Parar de crescer talvez ajude. É o que sugere este anúncio para uma revista da Walt Disney. Uma história simples, muito simples, bem compassada,em que o protagonista é um pato (Donald).

Marca: Aku Ankka magazine. Título: The Duck & the Boy. Agência: Bob the Robot. Direcção: Juho Konstig. Finlândia, Março 2016.

 

Sujar faz bem

Free the kids

“As crianças passam menos tempo ao ar livre do que os prisioneiros”

Free the Kids – Dirt is Good, da Persil, é um anúncio bem construído, tecnicamente primoroso, com um enredo surpreendente. À partida, os horários dos reclusos pouco têm a ver com o produto: um detergente. O filme cativa a atenção numa trama de tensão crescente, que a música acentua. Suspenso, o espectador assume a postura de um arqueiro que aponta a flecha e estica a corda sem alvo à vista. Tudo se decripta nos últimos segundos, com a introdução de um lema (Free the Kids – Dirt is Good: as crianças têm direito a estar fora de casa pelo menos tanto tempo quanto os reclusos fora da cela. Acresce um nome, Persil, o reparador da sujidade infantil. Sem esquecer, o emblema, o logótipo da marca. Estão, assim, reunidos os componentes de uma alegoria (Gilles Deleuze, Le Pli: Leibniz et le baroque, 1988).

A alegoria na publicidade, com focagem em temas alheios ao produto, não é recente, mas persiste e alastra-se (ver “Dobras e fragmentos”, in Gonçalves, Albertino, Vertigens, 2009). Dirt is Good apresenta uma especificidade. Propõe uma heterotopia disfórica: a prisão e a falta de liberdade / sujidade. O conceito e o propósito lembram as campanhas da Benetton no tempo do fotógrafo Oliviero Toscani.  Temas tais como a sexualidade, a discriminação, o racismo, a sida, a pena de morte, a fome, o crime e o poder ficaram associados à Benetton. “Dizer Chique com Choque” (Coelho, Maria Zara & Gonçalves, Maria Helena, “Quando chique se diz com choque, Cadernos do Noroeste, 4: 6-7, 1991, pp. 270-282 ) define uma opção num quadro de mediatização do mediatizável. À partida, não se vislumbra uma ligação razoável entre esses temas e as lojas da Benetton. Tão pouco existe uma ligação entre os intervalos ao ar livre dos reclusos e um detergente. Desencantemos! A semiose social é complexa e a publicidade, a alquimia da nova comunicação. Estes anúncios convocam as marcas. Criam imagens de marca. Alegóricos e performativos, estes anúncios logram efeitos extraordinários. Enxertam-se, por exemplo, na memória. Volvidas algumas décadas, recordo o padre a beijar a freira, o moribundo vítima da sida ou a mulher negra a amamentar um bebé branco. Associo-os à Benetton, mas não aos cachecóis, às camisolas e à equipa de Fórmula 1. Recordo muitos anúncios como, por exemplo, os anúncios da Ford com embriões de animais ou da Orange com a população a recuar para reparar o passado. Em contrapartida, confesso não me lembrar da maior parte dos anúncios colocados, nos últimos meses, no Tendências do Imaginário. Pela magia é que vamos! Pelo esquecimento, também.

Marca: Persil: Título: Free the Kids – Dirt is Good. Agência: Mullen Lowe London. Reino Unido, Março 2016.