O mistério da galinha e a extensão farmacóide

Se me perguntarem o que faço, qual é a minha principal função atual, não preciso de muito tempo para responder: engolir comprimidos, sobretudo agora que estou a antibiótico (às 02:00, 4; às 10:00, 2; às 11:00, 3; às 13:30, 1; às 18:00, 1; às 21:00, 3). Às segundas, dedico 45 minutos a preparar a medicação para a semana. Lembra uma extensão “farmacóide”. Nesta qualidade de recetáculo de remédios, enquadro-me no regime noturno do imaginário (sobre os regimes diurno e noturno do imaginário, ver Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno). Comprimido a comprimido, enche a galinha o papo!
O anúncio All Hail Gravy, da KFC, também parece remeter para o regime noturno: ambiente fosco, floresta, coletivo tribal, passividade do protagonista, descida, dança ritualística, mistério, fertilidade, ovo, transporte, molho, imersão (batismo?), regeneração… Bom proveito!
Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.
Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.
Apresentação de dois livros: Festas de São João de Sobrado / Mosteiro de Tibães
Sexta, dia 15 de março de 2024, pelas 21H00 no Centro de Documentação da Bugiada e Mouriscada, em Sobrado, Valongo, decorrerá a apresentação do livro “São João De Sobrado: A Festa da Bugiada e Mouriscada”, da autoria de Rita Ribeiro, Manuel Pinto, Albertino Gonçalves, Alberto Fernandes, Luís Cunha e Luís António Santos. Os promotores são a Comissão de Festas do São João de Sobrado 2017 e a Associação São João de Sobrado.

Sábado, dia 16 de março de 2024, às 15 h, na Sala do Capítulo do Mosteiro de Tibães, decorrerá, promovida pelo Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães, GAMT, a apresentação do livro “Para uma interpretação do mosteiro: Tibães do espaço à vivência, da materialidade à simbólica”. A publicação será apresentada pelo Professor José Carlos Miranda, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (UCP – Braga).

Memórias de um subvivente

Já se respira o espírito do Natal! Sempre caloroso. Amor para dar e defeitos para corrigir. Como nos livros de Charles Dickens ou nos anúncios da Lotaria Espanhola.
Quem tem uma vida meio vazia, com a memória folgada, consegue lembrar-se de minudências. Há meio século, a lotaria de Natal animava as pessoas. Comprar o bilhete inteiro e repartir as cautelas era um ritual. Cada um podia adquirir várias cautelas e pertencer a vários grupos. Na aldeia, junto à fronteira, tínhamos lotaria a dobrar. A lotaria espanhola, mormente a dos Reis, congregava tantos devotos quanto a nacional. Na Páscoa, repartiam-se os trabalhos da lavoura, no Natal reparte-se a sorte, em pequenas doses, palpáveis, de esperança. Por um tempo, o milagre anda à solta.
A espreguiçadeira
C
om 1915 artigos publicados no Tendências do Imaginário, apetece-me ensaiar um tipo de artigo enfadonho. Gosto de arte e de literatura. Abordam os fenómenos sociais com um olhar próprio. Constroem mundos verosímeis onde a sociologia ganha em se inspirar. Associa-se, assim, Mikhail Bakhtin a Fiódor Dostoiévski, Pierre Bourdieu a Gustave Flaubert, Marcel Proust à micro-sociologia, Thomas Mann a Erving Goffman…A Montanha Mágica (1924), da autoria de Thomas Mann, prémio Nobel da Literatura em 1929, é uma obra-prima do século XX. Hans Castorp, o protagonista, visita o primo, Joachim, internado num sanatório em Davos, na Suíça. Acaba ele próprio por ser internado com tuberculose. A escrita de Thomas Mann atarda-se sobre os meandros da “adaptação” de Hans Castorp ao sanatório, uma “instituição total” (Erving Goffman): usos dos objectos, a hexis corporal, os gestos, o espaço, o tempo, as rotinas, a comunicação, os afectos, os outros, o pessoal… Página a página, Hans Castorp ajusta-se à instituição, melhor, a instituição absorve-o, retomando uma expressão de Erving Goffman (Os momentos e os seus homens, 1988; Asilos, 1961). Retive dois excertos do romance. No primeiro, inicial, Hans Castorp “adapta-se”, com a ajuda do primo, ao sanatório; no segundo, já na parte final do livro, é a vez de Hans Castor, já veterano do sanatório, ajudar o tio cônsul, Tienapple, a “aclimatar-se” à orgânica e ao espírito da instituição.
Vislumbram-se, nestes dois excertos de A Montanha Mágica, algumas pontes entre Thomas Mann e Erving Goffman: a ideia de “espírito do lugar”, “a desarticulada monotonia da existência rotineira”, os rituais, o staff, a demarcação entre os mundos interior e exterior. No segundo excerto, o tio de Hans Castorp revela-se, hesitante e confuso, um caso de início de “mortificação do eu” (Asilos, 1961). O valor atribuído aos objectos é particularmente sedutor. O termómetro e o retrato, por exemplo. Mas, sobretudo, a espreguiçadeira, fonte de prazer, cuidado de si e entorpecimento. A espreguiçadeira ergue-se como um símbolo da instituição: introduz e ancora as pessoas na orgânica, no ritmo e no espírito do sanatório (sobre a importância dos objectos na interacção social, ver Erving Goffman, Relações em Público, 1971).
Para aceder aos dois excertos de A Montanha Mágica, carregar na imagem ou no seguinte endereço: A Espreguiçadeira.
Sociologia sem palavras 23. Rituais.
Os rituais são fenómenos sociais de extrema importância. Objectiva e subjectivamente (cf., por exemplo, James George Frazer, The Golden Bough, 1911-1915: Marcel Mauss, Oeuvres, 1968-1969; Mary Douglas, Pure and Danger, 1966; Victor Turner, The Forest of Symbols, 1967; ou Jean Cazeneuve, Sociologie du Rite, 1971). Uma mão cheia de referências, sem valor acrescentado… Lamentavelmente, no que respeita às referências, quantas mais, menos! Esqueci Van Gennep, Evans-Pritchard, Malinowski, Ruth Benedict, Margareth Mead, Gregory Bateson, Edward T. Hall, Georges Condominas, Erving Goffman, Pierre Bourdieu… Esqueci, no mínimo, dezenas de bibliotecas. Paradoxalmente, quantas menos refiro, menos esqueço. Como é belo e tentador não referir. A “vertigem das listas” bibliográficas é um risco. Confessionário e penitências à parte, quem não quero esquecer é o tão esquecido Claude Lévi-Strauss.
Ritos e Mitos. A opinião de Claude Lévi-Stauss. Terre Humaine. RTBF. 07.03.1969. Excerto.
A parte final do filme Nostalgia (1983), de Andrei Tarkovski, alonga-se sobre um ritual. Promessa sacrificial, incerteza e purificação. A travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa na mão. Apagada a vela, recomeça o percurso, solitário, de devoção e purificação. A missão, a fé e a entrega não são meramente individuais. A prova está carregada de símbolos. O simbólico religa. O ritual está ancorado no colectivo, mobiliza o colectivo e destina-se ao colectivo. A purificação e a redenção relevam da comunhão, eventualmente uma solidão comunitária (ver https://wordpress.com/stats/day/tendimag.com). Cada passo na piscina é uma incógnita. Tanto pode aproximar do fim como do início. Cada passo representa um nada necessário ao todo. A vela é uma chama, um chamamento. Sem chama, não há destino, nem caminho. Como diria Lucien Goldmann (Dieu Caché, 1955), os deuses permanecem mudos. Não falam, e nós não os sabemos ouvir. Uma tragédia em sentido duplo.
O protagonista do filme avança com uma vela acesa numa piscina vazia. Pisa charcos de água. A piscina vazia forma um recipiente, uma cavidade. Quanto à água, sobressai como um dos principais símbolos da humanidade. Apenas um apontamento alheio: “As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações mais variadas, ao mesmo tempo que as mais coerentes” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969). Em termos simbólicos, a vela e a água interligam-se. A piscina forma uma cavidade. Três lugares e elementos de fecundidade e regeneração… Acode-me uma súbita e passageira alergia à semiótica. A vela, a água e a piscina ainda acabam por me levar para além da Índia, e não quero. Não querem tomar conta do leme e prosseguir a navegação? Alguns autores podem soprar nas velas: Gaston Bachelard, L’Eau et les Rêves, 1941; Gilbert Durand, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960; e Georges Vigarello, Le Propre et le Sale, 1987. Os filmes de Tarkovski são autênticos “bancos de símbolos”. Mas, por hoje, basta de escavação semiótica.
Andrei Tarkovski. Nostalgia. 1983. Excerto. Versão original.
Oxalá e Nanã
“Por conta das velhas de terracota e da morte grávida: Imagem de Oxalá e de Nanã”
Gosto do comentário de Ana Rita Ferraz ao artigo O riso da velha Grávida. Ana Rita é professora na Universidade Federal de Feira de Santana – UEFS, actriz e dramaturga. Trocamos ideias em torno do grotesco.
Ana Rita Ferraz chama a atenção para uma crença corporizada em rituais afro-brasileiros:
“Conta-se que Olorum, o criador, chamou Oxalá e lhe deu uma tarefa: deveria criar a humanidade. Oxalá coçou a cabeça pois não sabia como fazer. Então, pegou o vento e começou a trabalhar nele tentando uma forma; em vão. Com o fogo também não teve sucesso. Tão pouco com as águas. Já estava desanimado quando Icu, também conhecida como Nanã, a morte, senhora que vive nas águas lamacentas, perguntou-lhe porque não fazia os seres encomendados de lama. Oxalá aceitou. Nanã desceu lá no fundo das águas e lhe trouxe um punhado de lama. Sentaram-se e começaram a esculpir criaturas. Assim foi que Oxalá, o que é pai, e Nanã deram por cumprida a tarefa dada por Olorum.
Este é um mito africano. Nanã, ou Icu, é representada com gravetos no colo, que simbolizam seus filhos. Acho lindo pensar que temos como mãe a morte.
Veja a canção CORDEIRO DE NANÃ , quase um acalanto” (Ana Rita Ferraz).
Mateus Aleluia e Thalma de Freitas – Cordeiro de Nanã | Compacto Petrobras.
“Como oxalá é pai, aqui em Salvador, não apenas o povo das religiões de matriz africana, costuma vestir roupas brancas, especialmente às sextas-feiras” (Ana Rita Ferraz). Segue um vídeo sobre o culto a Oxalá. Para terminar, a música Meu Pai Oxalá, interpretada pela banda Moinho, da autoria de Vinicius de Moraes e Toquinho, mas inspirada no candomblé.
Só se morre uma vez
“Só se morre uma vez, e é por muito tempo” (Molière, Le Dépit Amoureux, 1656).
Sugeri, num artigo recente, que o Ocidente tem dificuldade em lidar com a morte. Pois não parece. Curiosamente, nesta quadra dedicada ao nascimento, multiplicam-se os anúncios que convocam a morte. É o caso do emocionante Dear Brother, da Johnnie Walker. Resistimos à morte cultivando a memória e a magia. O anúncio é recheado de recordações. Um toque de magia, ou, se se preferir, de religião, culmina o vídeo. Magia em torno de rituais, de símbolos, de gestos e de fetiches. Por exemplo, a partilha de uma garrafa de Whiskey. Nós sabemos que a morte nos espera. A informação de que dispomos é tão suficiente para confirmar a vida quanto para garantir a morte. E, no entanto, algum nó em algum dos nossos arquétipos nos faz viver como se fosse para sempre. Algo em nós nos ofusca. “Viver para a morte”, ou “viver com a morte”, não é nada confortável. E neste mundo da ciência e da técnica, o incómodo não esmoreceu. Por causa do “desencantamento do mundo” (Max Weber), mas sobretudo pela alteração histórica da representação do percurso de vida. Se é verdade que “mal um homem vem à vida, já é bastante velho para morrer” (Heidegger, Ser e Tempo, 1ª ed. 1927), também não é menos certo que, num passado recente, o envelhecimento significava amadurecimento, sabedoria e, eventualmente, aproximação ao divino. Na atualidade, o envelhecimento é encarado e vivido como degenerescência. Estamos perante um novo “triunfo da morte”: o triunfo da “morte social”. Entre o nascimento e a morte, navega-se, hoje, de cais em cais, com outro espírito.
Para uma análise mais detalhada do anúncio Dear Brother: http://www.adweek.com/adfreak/breathtaking-spec-ad-johnnie-walker-best-student-work-ever-168620.
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.
Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.
Rituais
A falsidade de uma crença não lhe retira eficácia. Como diria Vilfredo Pareto, uma coisa é a acção, orientada para a utilidade, outra, a ciência, orientada para a verdade.
Seguem dois anúncios da Lifebuoy, empresa de sabonetes antibacterianos. No primeiro, um homem percorre apoiado apenas nas mãos o caminho entre a casa e o templo. Agradece aos deuses o quinto aniversário do filho. No segundo, uma mulher cuida “maternalmente” de uma árvore. É tradição local plantar uma árvore quando um filho nasce. A árvore tem cinco anos; o filho, não!
Carregar nas imagens para aceder aos respectivos anúncios.
Marca: Lifebuoy. Título: Help a child reach 5. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Direcção: Amit Charma. Índia, 2013.
Marca: Lifebuoy. Título: Tree of Life. Agência: Lowe, Lintas & Partners (Bombay). Índia, 2014.
Sociologia sem palavras 15: A encenação do poder

George Balandier
Tive o privilégio de ter conhecido Georges Balandier como professor. Publicou, em 1980, o livro Pouvoir sur Scènes, dedicado às diversas formas de encenação do poder (edição portuguesa: O Poder em Cena, Coimbra, Minerva, 2009).
O filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, é composto por episódios de encenação do poder. Encomendado para divulgar o Congresso do Partido Nazi, realizado em 1934, em Nuremberga, o próprio filme é uma encenação do poder. O presente excerto é, a diversos títulos, exemplar e arrasador: pela assunção do protagonista político como ator; pela moldagem da multidão, como corpo coletivo, interlocutor, cenário e público; pela invisibilidade dos bastidores. Em suma, a arte do espectáculo político no seu cúmulo.
Sociologia sem palavras 15. A encenação do poder. Leni Riefenstahl, O Triunfo da Vontade, 1935. Excerto.
A encenação do poder não é exclusiva dos regimes totalitários. Está omnipresente nas sociedades democráticas. De um modo concentrado e de um modo difuso (Debor, Guy, La Société du Spectacle, Paris, Buchet/Chastel, 1967). Recordo um episódio pautado por uma enorme carga emocional e simbólica. Em Maio de 1981, François Mitterrand vence as eleições presidenciais francesas. O momento mais mediático da cerimónia de investidura teve como palco o Panthéon. A meio da rua Soufflot, Mitterrand desprende-se da multidão e dirige-se para o Panthéon, só, apenas acompanhado pela nona sinfonia de Beethoven, interpretada ao vivo pela Orquestra de Paris. No interior do Panthéon, sempre rigorosamente só (acompanhado pelas câmaras de televisão em directo), coloca uma rosa sobre os túmulos de Jean Moulin, herói da resistência, e de Jean Jaurès, figura histórica do socialismo. De regresso à rua, sempre só, é aclamado pela multidão. Pode-se aceder a uma reportagem televisiva do próprio dia [o episódio do Panthéon inicia no minuto 3:10] no seguinte endereço: http://www.ina.fr/video/DVC8108256301. Sobre o modo como foi concebido e conduzido este evento resulta deveras esclarecedor o make-of, publicado dez anos depois.
Marc Van Dessel. Les roses du Panthéon. 1991
Hitler e Mitterrand pouco têm em comum. Mitterrand lutou, aliás, na resistência contra a ocupação nazi. Não obstante, salvaguardados os enquadramentos, as proporções e as motivações, estes dois episódios partilham alguns atributos. Ambos os leaders se destacam da multidão. Fazem um longo percurso solitário a pé (Hitler acompanhado, sempre à frente, por Himmler e Lutze). Prestam homenagem aos mortos gloriosos. Regressam à multidão que lhes expressa lealdade. Ambos os rituais simulam uma prova e promovem uma figura: o leader (quase) solitário herdeiro de uma nação.





