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A jangada feliz

Jules Verne. Superbe Orénoque. 1898.

Criança, agarrava-me aos lençóis com receio que a cama levantasse voo. Também lutei com o travesseiro porque a cama era o meu faroeste. Não admira que no anúncio Books, do McDonald’s, a cama seja uma jangada. As camas prestam-se a fantasias. Boa parte das leituras aconchegam-se nos cobertores até as letras adormecerem. Pois a cama, aventureira em rio mágico, ancora-se num cais de leitura. Lembra o rio Orenoco de Jules Verne (1898). A cama e a leitura rivalizam em prazer. E o McDonald’s? O McDonald’s oferece livros! Jovem, aproximava-me de uma rapariga e dizia: “A flor é bonita”, e ela compreendia que bonita era ela. A cama, a paisagem e o livro são gostosos, como o hamburger do happy meal. Que felizes somos!

Lateralizando, como os caranguejos, uma vez que convocámos o rio Orenoco do Jules Verne, cumpre não esquecer o Orinoco Flow, da Enya.

Marca: McDonald’s. Título: Books. Agência: TBWA Paris. França, Outubro 2020.
Enya. Orinoco Flow. Themes From Calmi Cuori Appassionati. 2001.

Menina estranha

Walt Disney em 1956.
Walt Disney. Alice no País das Maravilhas. 1951. Excerto. Dobrado em português.

Alice, desenhada por Walt Disney, parece sair do papel. Uma ilusão! No filme de animação, Alice está sempre em apuros. Uma fantasia! É uma menina estranha, “a strange little girl”. Uma história bizarra. Talvez seja o sol, “always the sun”. Fusíveis queimados. Aproveito para colocar duas músicas dos Stranglers.

The Stranglers. Strange little girl. La Folie. 1981
The Stranglers. Always de sun. Always the sun. 1990.

Filosofias do Grilo Sinistro

O Pinóquio tem o Grilo Falante. Eu tenho o Grilo Sinistro. A cada um o que merece. O Grilo Falante é um companheiro sensato e divertido; o Grilo Sinistro é mórbido e cínico. Só diz disparates. Bate as asas, e filosofa:

– Há momentos tão fatais como a morte. Por exemplo, quando sentimos que estamos a mais.

O Grilo Sinistro é irritante. Perverte a realidade. Mas não a inventa. O sentimento de estar a mais merecia estudo apurado. Pede o Grilo Sinistro para recolocar dois anúncios que ilustram a sua tese: no primeiro, Come Home, da Edeka, um idoso solitário simula a morte para ter alguma vida, com a visita dos filhos; no segundo, Dream Rangers, do TC Bank, um grupo de idosos resgata o passado para ressuscitar o presente. Dois anúncios de estimação.

Marca: Edeka. Título: Come Home. Agência: Jung von Matt (Hamburg). Direcção: Alex Feil. Alemanha, Novembro 2015.
Marca: TC Bank. Título: Dream Rangers. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.

As cordas do coração

Sainsburys. Nicholas the Sweep. 2019.

O coração humano tem cordas que é melhor não tocar (Charles Dickens).

Nicholas the Sweep, da Sainsbury’s , é um anúncio de Natal, de 2019. Não o contemplei a devido tempo. Propõe um regresso às ruas vitorianas de Charles Dickens. Miséria e milagre, distopia e magia, inferno e paraíso, preto e branco. Felizes os tristes porque deles será o reino dos céus.

Marca: Sainsbury’s. Título: Nicholas the Sweep. Agência: Wieden + Kennedy. Direcção: Ninian Doff. Reino Unido, Novembro 2019.

Conto de Natal

Este é o meu artigo de Natal. Uma curta-metragem superpremiada. Creio que ainda vai a tempo. Boas festas!

“The Present” is a thesis short from the Institute of Animation, Visual Effects and Digital Postproduction at the Filmakademie Baden-Wuerttemberg in Ludwigsburg, Germany. 2014.

Comboios e caveiras

Hans Holbein. The Ambassadors. Vanitas. Anamorfose. 1533.

No cais nº 12, um comboio ultra-moderno: queixo para a frente, testa para trás. Dá jornais, auscultadores e não se sabe que mais. Só lhe falta “andar no ar” como os Maglev japoneses. Na via 13, um comboio ultrapassado que por pouco não deita fumo. Qual escolher? Venho de onde venho, vou para onde vou, na carruagem que me levar. Nos comboios antigos aconteceram-me coisas extraordinárias. Nos comboios avançados, não tenho história para contar.

Comboio maglev japonês

Hoje, dei a última aula de sociologia da cultura, da licenciatura em Sociologia. Conversámos sobre o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, e desembocámos, fatalmente, na anamorfose com a vanitas (ver o artigo Objectos que falam: https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Tudo me lembra alguma coisa. Tenho, por isso, a memória gasta. Lembrei-me de um anúncio romeno com comboios e caveiras. Uma anamorfose original.

Antes do vídeo, não resisto a contar uma das minhas histórias de comboios. Estudava em Paris e vim de comboio para Portugal. Na fronteira franco-espanhola, os passageiros para Portugal eram separados daqueles que iam para Vigo (o meu caso). Os dois comboios percorriam a mesma via até, creio, Burgos. Estacionado na gare de Irún, o comboio tardava a arrancar. Perguntei ao revisor, com o meu bom espanhol, o que acontecia. Confidenciou: “Um alerta de bomba na linha”. Para não dizer a ninguém. Passado algum tempo, o comboio começa a andar. Voltei a abordar o revisor:

– Encontraram a bomba?

– Não! Mas não te preocupes. O comboio dos portugueses vai à frente.

Anunciante: Anim’Est. Título: Train. Agência: Ogilvy Romana. Roménia, 2010.

Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

As potencialidades sonoras dos sapos

Os sapos comem a lua durante o eclipse e são animais de estimação das bruxas. São o lado feio da beleza. As rainhas malvadas são tranformadas em sapos e os sapos, em príncipes. No escuro e na água, os sapos coaxam alto e bom som, com efeitos sonoros especiais. Os anúncios que valorizam o som são, normalmente, criativos, envolventes e, por vezes, aterradores. Graças ao anúncio Can You Solve The Mystery?, do Australian Museum, sempre que ouvir um carro ou uma motorizada a passar na estrada, fico na dúvida se não será um sapo.

Marca: Australian Museum. Título: Can You Solve The Mystery? Agência: 303 MullenLowe. Austrália, Novembro 2019.
O coachar do sapo cururu (Rhinella jimi). Mais de 2 milhões de visualizações.

Bem-estar animal

« Na produção de ovos, as galinhas poedeiras são sistematicamente abatidas por volta dos 18 meses, idade a partir da qual se tornam menos produtivas, logo menos rentáveis, quando podem viver, em média, 6 anos (…) A start-up compromete-se a alimentá-las, alojá-las, cuidar delas, durante toda a sua vida graças à venda dos ovos Poulehouse” (Poulehouse).

O anúncio L’Oeuf qui ne tue pas la poule, da Poulehouse, é uma iniciativa ética e estética notável. Um belo gesto, uma bela história e uma bela animação. Confesso não conhecer nenhum criador de galinhas que espere pela sua morte natural. Aguarda-se pelo direito à vida e à reforma dos frangos.

Há animais felizes. “A Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA” (Alto Minho TV). Têm música ambiente, massagens, espaços diversificados… Cabras descontraídas dão mais e melhor leite.

“As cerca de 400 cabras são massajadas e ouvem música relaxante, num autêntico ‘parque anti- stress’. O agradecimento é uma média diária de 250 litros de leite de qualidade, que originam seis variedades de queijo” (Alto Minho TV).

Alto Minho TV. Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA. Maio 2017.

Um toque de beleza

Gisele Bündchen.

Por que motivo não existe uma sociologia da beleza? A sociologia engloba tantas especialidades: o corpo, a moda, o lazer, o desporto, o quotidiano, a família, o género, a educação, a arte, a cultura, o poder, as desigualdades, o envelhecimento, a comunicação, as minorias… E não sobra um lugar para uma sociologia da beleza. É verdade que se deram alguns passos. Por exemplo, a “estética do feio” (Rosenkranz, Karl, 1853, Aesthetik des Hässlichen, Koenigsberg,  Gebrüder Bornträger) ou as histórias da beleza e do feio de Umberto Eco (Eco Umberto, 2004, História da Beleza, Lisboa, Difel; Eco, Umberto, 2007, História do Feio, Lisboa, Difel). Existem, naturalmente, mais autores a abordar o tema da beleza. No entanto, nem Rosenkranz nem Eco são sociólogos. Mas podiam sê-lo! É este “podiam sê-lo” que faz da sociologia uma das ciências mais abertas e abrangentes. Não obstante, a fundação de uma especialidade requer alguma institucionalização e massa crítica.

Marca: Marisa. Título: Encontro. Agência: Africa. Direcção: Ivan Abujamra. Brasil, Agosto 2019.

Sinto a falta de uma sociologia da beleza. Ajudaria a perceber, por exemplo, o anúncio Encontro, da empresa brasileira Marisa, estreado há três dias (dia 12 de Agosto). Tanta beleza! Só beleza. Com preguiça mental, deduzo que aquela roupa exibida pelos modelos se destina a mulheres igualmente belas. Será que a beleza das modelos influencia a escolha das pessoas? Por toque de beleza? Um “não-sei-quê” que faz a diferença? Por magia? A beleza é dúctil como o ouro.

Existem anúncios com pessoas normais, sem beleza estereotipada; e marcas dedicadas a clientes avantajados. Somos, contudo, a época histórica mais intolerante à obesidade. Uma sociedade particularmente propensa a intolerâncias quotidianas mesquinhas.

Sinto mesmo a falta de uma sociologia da beleza. Para compreender este ilusionismo social. A beleza distingue e rende. Como os capitais económico, social, cultural e simbólico, o “capital estético” discrimina e compensa. A beleza produz efeitos insuspeitos.

Os contos dos Charles Perrault e dos Irmãos Grimm são, por vezes, grotescos e assustadores. Como os quadros do artista contemporâneo Johann Heinrich Füssli. Por exemplo, O pesadelo (1802).

Uma sociologia da beleza permitiria não só ler a realidade, como a mascarar e transformar. Fazer, aproximadamente, o que se conseguiu com a velhice. Antes havia velhos, agora não. São seniores, pessoas de idade, menos jovens… Podia congeminar-se o mesmo com a fealdade. Acabar com a categoria dos feios. Não há feios, apenas menos bonitos. E os bonitos passam a ser menos menos bonitos. Segundo as leis de Morgan, está correcto: menos menos bonitos dá mais bonitos.

Anne Anderson (1874-1931). A bela e o monstro.

Sonho com uma nova “viragem”. A viragem estético-linguístico-cultural. Esta desdiferenciação simbólica já foi anunciada pelos Irmãos Grimm, no conto O Príncipe Sapo (1810), e por Gabrielle-Suzanne Barbot, no conto A Bela e o Monstro (1740). No primeiro conto, o sapo, atirado contra a parede, transforma-se num príncipe belo; no segundo conto, graças ao amor, o monstro transforma-se num belo príncipe. Em suma, por amor ou por nojo, o monstro e o sapo, respectivamente, transformaram-se numa espécie de modelos da Hugo Boss. Com modelos começou o artigo, com modelos termina. Os modelos das agências, os modelos das marcas, os nossos modelos.