Archive | Dezembro 2018

Amor sobre rodas

O anúncio espanhol Electric Love, da Smart, dá-se ao luxo de tomar o seu tempo (2:39). É repetitivo e atarda-se em cada sequência. Respira jovialidade, confiança e sedução. Adivinha-se o público-alvo. Trata-se de um anúncio meticuloso: cada imagem, cada som, no seu momento oportuno.
Para constratar, passemos da publicidade para a música. Clássica ou moderna, a Espanha sempre foi um país de boa música. Héroes del Silêncio consta entre os melhores grupos rock espanhóis. A revista Rolling Stone, de 22 de novembro de 2012, atribui-lhe o segundo lugar num conjunto de cinquenta grupos rock “mais representativos de Espanha” (http://rollingstone.es/noticias/especial-rs-los-50-mejores-grupos-de-rock-espanol/). Retenho duas cançõe: El Estanque, do álbum El Mar No Cesa (1988) e La Chispa Adecuada, do álbum Avalancha (1995).

Marca: Smart. Título: Electric Love. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Victor Carrey. Espanha, Março 2017.
Héroes del Silencio. El Estanque. El Mar No Cesa. 1988. Versão acústica ao vivo, 30 de Abril de 1996. Miami.
Héroes del Silencio. La Chispa Adecuada. Avalancha. 1995.

Doçura

“A natureza fez o comer para o viver, & a gula fez o comer muito para o viver pouco” (Padre António Vieira, Sermão da quarta Dominga depois da Páscoa, Sermoens do P. Antonio Vieira, 1692).

Dez segundos bastam para um anúncio ter história, humor e impacto. A campanha indiana da marca Pulse Candy acomoda três anúncios na duração de um anúncio normal. As doçuras Pulse Candy são uma tentação perigosa…
Estes pequenos anúncios da Pulse Candy lembram um anúncio indiano fantástico, Palace, às pastilhas elásticas Happydent. Pode aceder no seguinte artigo: https://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/.

Marca: Pulse Candy. Título: Astronaut. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Swing. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Bedroom. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.

Folk dinamarquês

Haugaard & Høirup.

“Ninguém escreve ao coronel” (Gabriel Garcia Márquez). Tão pouco, ressalvando duas ou três pessoas. A Sónia enviou-me a música Gaestebud, do duo dinamarquês Haugaard & Høirup. Lembra o filme, também dinamarquês, Babettes Gaestebud (A Festa de Babette; 1987). Um banquete extraordinário transforma as atitudes e os comportamentos dos convidados. No fim, os aldeões, protestantes puritanos, dão as mãos numa roda nocturna. Graças ao banquete, “tudo é possível”: imagino a música Gaestebud a descer da lua para empolgar os vizinhos entretanto regenerados e reconciliados.

Haugaard & Høirup. Gaestebud. Gaestebud. 2005.

À música que a Sónia enviou, Gaestebud, do álbum homónimo (2005), acrescento Rejsedage, do álbum homónimo (2008), e Som Stjernerne på Himlens Blå, do álbum Om Sommeren (2003). Desta vez é uma canção, o que não é frequente.
Descentrar-se, vaguear pelo mundo sem calcorrear os mesmos caminhos faz bem ao espírito. É uma arte de não ficar fechado lá fora. Como muita boa gente!

Haugaard & Høirup. Rejsedage. Regjsedage. 2008.

Haugaard & Høirup. Som Stjernerne på Himlens Blå. Om Sommeren. 2003.

A imaginação ao poder

01. Horae ad usum Parisiensem (Grandes Heures de Jean de Berry), c. 1400-1410.

Encontrar conteúdos italianos nem sempre é fácil. Quando se sabe o que procura, a Internet transforma-se, às vezes, numa mulher caprichosa. Conheço o anúncio Vineyard, da Sky. Não o encontrei no YouTube. Tropecei com ele numa página remota. Com a gravura (Figura 1) de uma mulher a brotar de uma flor, o resultado foi semelhante. Tenho a imagem nos labirintos do computador, dar com ela era tarefa ingrata. A busca na Internet foi precisa: encontrei três entradas, todas do Tendências do Imaginário.

02. Andrea Mantegna – Grotesque Self-Portrait, between 1465 and 1474.

O anúncio Vineyard, da Sky, é um prodígio. Os heróis do futebol nascem numa vinha algures em Itália. São vindimados, transportados, seleccionados, prensados e armazenados. Obviamente, com un bel pezzo di ragazza a acompanhar o processo. A ideia de que os futebolistas nascem de plantas (videiras) é espantosa mas não é original. Os livros de horas medievais e os grotescos renascentistas apresentam seres humanos que irrompem de ramos, flores e frutos (ver figuras 1 e 2).

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou no link https://www.behance.net/gallery/17620551/SKY-Vineyard-(TVC)

Marca: Sky. Título: Vineyard. Agência: 1861 United (Milan). Direcção: Guy Manwaring. Itália, 2007.

Feliz Natal!

Recebo poucos anúncios italianos. Não há como procurar. Encontram-se relíquias como este anúncio ao queijo “parmigiano”. Uma dança da alegria, com música original. Aproveito para desejar um feliz e generoso Natal.

Marca: Parmigiano Reggiano. Agência: Max International. Agência de produção: DIAVIVA. Direcção: Sebastian Grousset. Itália.

Espelhos deformadores

Flat distorting mirrors

Atardo-me por terras de Islândia. Emiliana Torrini é islandesa. Tornou-se conhecida pela sua participação no Senhor dos Anéis (Gollum’s Song; As Duas Torres, 2002) e pela canção Jungle Drum (Me And Armini, 2008). Gosto do álbum Love In The Time Of Science (1999), especialmente da canção Baby Blue. Uma canção bem cantada encanta a dobrar.
O pai de Emiliana Torrini é italiano. Tenho um apreço enorme pela Itália. O que é um desconsolo. Tenho várias portas abertas para o mundo e a Itália quase nunca aparece. Aliás, a Espanha, a Grécia, Portugal e, em menor grau, a França parece que deram sumiço. Cinco países com um lastro histórico e cultural ímpar, que num par de décadas caíram do sétimo andar até às catacumbas. Não acredito que a produção cultural tenha entrado em colapso, mesmo com a “crise do petróleo” e as “novas tecnologias”. Na verdade, o mundo é uma feira popular com espelhos deformadores. E a Internet é uma enorme galeria de espelhos. Uma parte vale pelo todo e as outras partes carecem de uma lupa. O nosso mundo pode ser global, líquido, pós-moderno, pós-materialista, pós-humano, pós-urbano, pós-industrial, pós-colonial, pós-pipoca, não deixa de ser, como no romance de Camilo José Cela (A Colmeia, 1951), uma colmeia com vários enxames num cortiço político-financeiro. Talvez as abelhas humanas sejam menos propensas ao equilíbrio do aquilo que Bernard de Mandeville vaticinava (Fábula das Abelhas, 1705). Mas, sublinhe-se, todos contribuimos para as hegemonias culturais. Não fossem hegemonias…

Emiliana Torrini. Baby Blue. Love In The Time Of Science. 1999.

Tortura e prazer

Rat Torture. Bruges Torture Museum.

Selecciono normalmente anúncios de que gosto. Mas nem sempre. A ideia do anúncio Police é original e surpreendente: a polícia espreme o prisioneiro a modos como o detergente El Kef lava a roupa. Esta ideia é bem explorada. Valorativamente, a polícia, ao contrário do prisioneiro, resulta humilhada e depreciada. É frequente a polícia ser ridicularizada nos media. Acontece também o prisioneiro ser enaltecido. Mas este tipo de cenas de inversão costuma fazer parte de um todo. O anúncio Police, ressalvando o final fugaz dedicado à marca, resume-se a uma caricatura burlesca da polícia contrabalançada por uma imagem de resistência do prisioneiro. Em termos de marketing, o brutesco funciona como (pet)isco.

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou utilizar o seguinte link: http://www.culturepub.fr/videos/el-kef-police/.

Marca: El Kef. Título: Police. Agência: Shem’s Publicité. Direcção: El Zayat Mohamed. Marrocos, Dezembro 2018.

Há domínios em que o homem se esmera. Supera o próprio diabo. A tortura é um desses domínios. Atente-se, por exemplo, na tortura “medieval” com ratos.


Rat Torture. “In this slow-death method, a victim is restrained to the ground without a possibility of moving. A rat would then be placed on the victim’s stomach enclosed in an iron cage. The cage would then be heated, causing the rat to panic and to dig a hole through the victim’s stomach. The rat would take hours to find its way out, resulting in hours of torture to the victim” (http://worldpackingcanuck.com/bruges-torture-museum/).


Este tipo de tortura, que conjuga sofrimento físico e fobia aos ratos, ainda foi utilizado no século XX por vários regimes políticos, nomeadamente sul-americanos.
A série Game of Thrones inclui um episódio com a tortura do rato.

Tapumes à prova de coletes amarelos

Admiro os investigadores e os artistas que conseguem captar o efeito de um fenómeno através de um desvio do olhar. É o caso das fotografias de Baptiste César dos tapumes colocados nas montras de Paris a pensar nos “coletes amarelos”. Agradeço à Adélia ter-me dado a conhecer estas fotografias. Para aceder a uma notícia mais detalhada, bem como a uma galeria de fotografias, carregar na seguinte imagem.

Tapume na Yves Saint-Laurent após os incidentes com os coletes amarelos.

Orelhas grandes

Ice Goðafoss Waterfall. Iceland.

Ando a pensar demasiado com as orelhas, que não crescem com a idade segundo os cientistas (a cartilagem permanece) mas crescem segundo a realidade (pelos vistos, tornam-se mais moles cedendo à gravidade). Não obstante a Ciência, as minhas orelhas têm crescido. Deve ser algum cruzamento hereditário animal. Mas as orelhas grandes têm algum préstimo: ouvir para além do habitat cultural. O meu habitat cultural quer que conheça a Ariana Grande, que não conheço, e desconheça quem desejo conhecer. Ironia à parte, para ouvir longe basta ouvir os próximos. O mundo está aqui. Seguem duas músicas do finlandês Ólafur Arnalds: Particles, do álbum Island Songs (2016) e Only the Winds, do álbum For Now I Am Winter (2013).

Ólafur Arnalds. Particles. Island Songs. 2016.
Ólafur Arnalds. Only the Winds. For Now I Am Winter. 2013.

Cavalo cansado

Bretanha

Gosto de ligar o que não tem ligação ou está solto. Em todos os domínios menos um: o mundo académico e científico. Fazem-no por mim. Em França, a Bretanha, como o Minho, tem uma ascendência celta, o que se presta a simbolismos profundos. Em 1975, Pierre-Jakez Helias escreveu um livro chamado Cheval d’Orgueil dedicado à cultura bretã. Teve um enorme sucesso. Em 1977, volvidos dois anos, Xavier Grall publica o livro Le Cheval Couché a criticar o passadismo de Pierre-Jakez Helias. Ambos são bretões. Yann Tiersen e Didier Squiban também são bretões, compositores e pianistas. Yann Tiersen é sobejamente conhecido, Didier Squiban nem por isso. Para comparação, junto as músicas Porz Gwenn e Ar Baradoz, de Didier Squiban, e a música Porz Goret, de YannTiersen.

DidierSquiban. Porz Ween. Porz Ween. 1999.
Didier Squiban. Ar Baradoz. Molene. 1997.
Yann Tiersen. Porz Goret. EUSA. 2016.