Archive | Junho 2018

A sobrevivência da paz

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Acabado de sair, este anúncio é impressionante. Uma obra de arte.

Con dirección del ganador del Oscar Armando Bo, escrita por Carlos Bayala y Richard Flintham, de New London Agency, y con música de Brian Eno, Strange Animal es una metáfora de los últimos 50 años de la historia colombiana.

En el cortometraje se ve a una paloma luchar por la vida. La representación más simple de la lucha de Colombia en su búsqueda de la paz. Sola y desesperadamente tratando de respirar, en medio de la jungla colombiana, la paloma está limitada, parece casi muerta. Lo que sigue es su viaje, doloroso pero edificante (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cstrange-animal%E2%80%9D-lo-nuevo-de-armando-bo-y-new)

Título: Stange Animal. Agência: Rebolucion, Anonymous Content e New London. Direcção: Armando Bo. Junho 2018.

Chuva dissolvente

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Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

Funcionários do espírito

O mais avisado é não escrever nada. Acrescentar apenas uma ilustração.

Quino. Monotonia

Quino. Monotonia.

O festim dos macacos

Ver a realidade através de frases é ser intelectual? Prefiro vê-la pelos teus olhos.

Jan Brueghel o Velho. O festim dos macacos. 1621. Foto Fernando

01. Jan Brueghel o Velho. Festim dos macacos. 1621. Foto Fernando.

O meu rapaz mais novo está de visita ao meu rapaz mais velho. Na Casa de Rubens, em Antuérpia, descobriu o Festim dos Macacos, de Jan Brueghel o Velho (c. 1621). Enviou-mo. É uma alegoria da vaidade humana.

Jan Brueghel the Elder. Festim de Macacos. 1620's

02. Jan Brueghel o Velho. Alegoria da vaidade. Festim de Macacos. C. 1621.

Os macacos estavam em voga nos séculos XVI e XVII. Na pintura (Figura 3) e nas festas. Nas procissões do Corpo de Deus, a espécie mais prezada era o bugio (não confundir com os bugíos do São João de Sobrado).

David_Teniers_(II)_-_Smoking_and_drinking_monkeys.C. 1660

03. David Terniers (II). Macacos a beber e a fumar. C. 1660.

Há imagens que me apetece ouvir. A singerie de Jan Brueghel o Velho lembra-me algumas composições dedicadas a animais:

La Fête de l’Ane. Música medieval. Clemencic Consort.
Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728.
Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735.
Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900.
Camille Saint-Saens. O Carnaval dos Animais. 1887…

Mas decidi-me por Dimitri Shostakovich, menos pelos macacos e mais pelo festim.

Dimitri Shostakovich.  Taiti Trot (Tahiti Trot), Op. 16. 1927.

Dimitri Shostakovich. Jazz Suite No. 2- VI. Waltz 2.opus. 1938.

A arte de limpar o rabo

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006.

Escatologia: “utilização ou gosto por expressões ou assuntos relacionados a fezes ou obscenidades” (Dicionário Priberam).

Volta e meia, a escatologia vem ao de cima (ver Política e Escatologia). O anúncio Le Papier, da revista francesa So Foot, é minimalista e escatológico. No domínio da escatologia, a França tem os seus pergaminhos. Nas páginas de François Rabelais, Gargantua escreve ao pai como logrou inventar o melhor modo de limpar o rabo. Pelo meio, elimina dezenas de soluções (ver Obscenidade). Em França, a palavra merde é de uso corrente e, em determinadas circunstâncias, dá sorte. Enfim, se existe palavra gaulesa que percorreu o mundo foi toilettes. A moral do anúncio Le Papier ofusca La Fontaine: na falta de papel higiénico, mais vale rasgar uma fotografia de família do que uma folha da revista So Foot.

Marca: So Foot. Título: Le Papier. Agência: BETC. Direcção: Hafid f. Benamar. França, Junho 2018.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal

Pac-Man, o Papa Pontos

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Georges Seurat. Un Dimanche à La Grande Jatte. 1884.

Tenho pesadelos. Deve ser de pensar de mais. Escorregam as margens para o subconsciente. Sonho, por exemplo, que a minha proeminência abdominal é tão grande que preciso de estacas para a segurar. Outras vezes, sonho que faço parte de um processo: o processo de Kafka. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Logo, nada vale a pena. Nem a obra, nem a “governança”, nem a tripulação, nem o farol. Trata-se de um jogo de croquete à maneira da Rainha de Copas. A sabedoria exibe-se coxa, como o Perna de Pau: hipertrofia da investigação; hipotrofia do ensino. Investe-se na ciência como quem aposta no totoloto. Resultados? Encontros, papers, citações, corredores, rácios, concursos e pontos. Muitos pontos! Parece um quadro de Georges Seurat. Melhor, um Tetris, para encaixe, associado a um Pac-Man, para comer pontos. O pesadelo torna-se insuportável. Faço força para acordar. Estremunhado, oiço: “faltam pontos, faltam pontos, faltam pontos, para mudar de nível”. Esqueci-me de desligar a consola. É um alívio acordar para a realidade deste “admirável mundo novo”: Ciência Portugal 2018 – Star Trek.

Para conciliar realidades (hoje, costuma dizer-se plataformas) nada como a música. Clássica, tocada por dois virtuosos de outra época: Narciso Yepes e Andrés Segovia.

Fantasía para un Gentilhombre de J.Rodrigo. Homenaje de Narciso Yepes a Andrés Segovia. Madrid, 1987.

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Andrés Segovia at El Prado , Albéniz’s “Asturias-Leyenda”. 1967.

Incerteza

 

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Janus tem duas faces. Cristo, três. Hoje, os jovens parecem ter dezenas. Têm resmas de identidades e fronteiras. E cabe tudo na cabeça. No anúncio Clones, do DNB Bank, as faces são muitas e conflituosas. Todos nos comprazemos a receitar incerteza, uma palavra para uns, um desafio corrosivo para outros.

Marca: DNB Bank. Título: Clones. Agência: try. Direcção: Joe vanhoutteghem. Noruega, Maio 2018.

Apeadeiro

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A vida é feita de travessias. Há quem assegure que o melhor das travessias são as encruzilhadas. Para mim são as paragens. Quando coloco o pé no apeadeiro, parece que faço uma rasteira à velocidade e dou um nó nos fios do destino.

Sharon Irving é uma cantora norte-americana. Pouco conhecida. Muitas das suas canções não atingem a dezena de milhar de visualizações. Gosto de outsiders. Rest, Get Here, do álbum Bennett Ave (2016), foi a música escolhida pela Purina para o anúncio April & Dixie. Talvez seja uma boa oportunidade para Sharon Irving. Por exemplo, o anúncio Release me (2007), da Saab, alavancou o grupo sueco Oh Laura (ver https://tendimag.com/2017/06/25/vitalismo/).

Sharon Irving. Rest, Get Here. Bennette Ave. 2006.

Marca: Purina. Título: April & Dixie. Agência: The Martin Agency (Richmond). Direcção: Terry Rayment. Estados Unidos, Maio 2018.

Odisseia no espaço

Era uma vez um astronauta que evacuou uma estrela cadente, a qual, segundo a norueguesa Flax Instant Lotttery, dá sorte ao jogo. Trata-se de uma bênção sideral. A crença nas virtudes propiciadoras dos excrementos remonta aos primórdios da humanidade. “The world is full of lucky signs”. Felizes aqueles a quem o adubo cai do céu!

Flax

Marca: Flax Instant Lottery. Título: Lucky Signs. Agência: TRY, Oslo. Direcção: Matias & Mathias. Noruega, Junho 2018.