Acima das possibilidades

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

“Os Portugueses viviam acima das suas possibilidades”. Eis um mote que tresanda. Que portugueses viviam acima das suas possibilidades? Os meus colegas, os meus vizinhos e os meus amigos, não! Quem continua, afinal, a viver em Portugal acima das possibilidades? Os portugueses? Tal como na Quinta dos Animais, a amnésia é amiga dos porcos. Tudo indica que em 2008 eclodiu uma das maiores crises do sector financeiro de que há memória. Consta que as empresas financeiras viviam acima das suas possibilidades. Inventavam riqueza! Mas, para cá do Marão mandam os que cá estão. Deste lado marítimo, dessa crise só espuma! BPN, BES, empréstimos de milhares de milhões para consolidar bancos, tudo isto são ciscos em olhos mal-intencionados, a proteger com a banha de cobra dos timoneiros nacionais. Quem presta ouvidos até parece que Nossa Senhora volta a cantar o fado. No estrangeiro, viveu-se uma crise financeira colossal; pelos vistos, em Portugal, viveu-se e continua a viver-se uma crise de sobre consumo! Milton Friedman deve dar voltas no caixão!

“Os portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro”. Outro mote que tresanda. Ainda ontem o ouvi na televisão. Que portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro? Os meus colegas, os meus amigos e os meus vizinhos, não! De um lado, vive uma modesta reformada; do outro, um casal com uma única reforma. Será que deliram com o maná estrangeiro? Era, aliás, necessária uma boa dose de cegueira para não sentir que a economia portuguesa patinava desde o início do milénio. Quem pensava que ia viver à custa do estrangeiro? Eventualmente, aqueles que açambarcaram os fundos provenientes da União Europeia. São portugueses mas não são os portugueses. A ortografia, a gramática e a sintaxe dão jeito e fazem alguma diferença.

Os portugueses não viviam acima das suas possibilidades. Os portugueses não pensavam viver à custa do estrangeiro. Neste momento, os portugueses vivem abaixo das suas possibilidades. Para viver segundo as suas possibilidades, emigram! E não vão viver à custa do estrangeiro. Peço aos timoneiros da causa pública que resistam a este tipo de chavões. Para salvar, não é preciso ofender.

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One response to “Acima das possibilidades”

  1. Beatriz Martins says :

    E, justifica-se a precariedade, com rótulos invisíveis!

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