Mais do mesmo
O meu país tem uma sensibilidade estética crónica. Gosta do mesmo. Não é propenso a vanguardas, margens ou subterrâneos. O mesmo clube de futebol, na vitória e na derrota. O mesmo partido político, seja vinagre, seja vinho. Em quarenta anos de democracia, os resultados eleitorais pouco mudaram, exceptuando as legislativas de 1985, marcadas pela estreia do PRD, bolha de pouca dura. Há famílias que peregrinam todos os anos a Fátima. Cumprem o destino, a promessa e a penitência. O bolo-rei mudou de nome, mas manteve, desde o Império Romano, a fava. Ciclicamente, calha-nos a fava e emigramos em massa. Até a caricatura do povo permanece, há mais de um século, intacta: homem, rude, sofrido, com a albarda pronta para qualquer traseiro de elite. Em abono da verdade, pertenço a um povo de que os estrangeiros gostam muito.
Acima das possibilidades
“Os Portugueses viviam acima das suas possibilidades”. Eis um mote que tresanda. Que portugueses viviam acima das suas possibilidades? Os meus colegas, os meus vizinhos e os meus amigos, não! Quem continua, afinal, a viver em Portugal acima das possibilidades? Os portugueses? Tal como na Quinta dos Animais, a amnésia é amiga dos porcos. Tudo indica que em 2008 eclodiu uma das maiores crises do sector financeiro de que há memória. Consta que as empresas financeiras viviam acima das suas possibilidades. Inventavam riqueza! Mas, para cá do Marão mandam os que cá estão. Deste lado marítimo, dessa crise só espuma! BPN, BES, empréstimos de milhares de milhões para consolidar bancos, tudo isto são ciscos em olhos mal-intencionados, a proteger com a banha de cobra dos timoneiros nacionais. Quem presta ouvidos até parece que Nossa Senhora volta a cantar o fado. No estrangeiro, viveu-se uma crise financeira colossal; pelos vistos, em Portugal, viveu-se e continua a viver-se uma crise de sobre consumo! Milton Friedman deve dar voltas no caixão!
“Os portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro”. Outro mote que tresanda. Ainda ontem o ouvi na televisão. Que portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro? Os meus colegas, os meus amigos e os meus vizinhos, não! De um lado, vive uma modesta reformada; do outro, um casal com uma única reforma. Será que deliram com o maná estrangeiro? Era, aliás, necessária uma boa dose de cegueira para não sentir que a economia portuguesa patinava desde o início do milénio. Quem pensava que ia viver à custa do estrangeiro? Eventualmente, aqueles que açambarcaram os fundos provenientes da União Europeia. São portugueses mas não são os portugueses. A ortografia, a gramática e a sintaxe dão jeito e fazem alguma diferença.
Os portugueses não viviam acima das suas possibilidades. Os portugueses não pensavam viver à custa do estrangeiro. Neste momento, os portugueses vivem abaixo das suas possibilidades. Para viver segundo as suas possibilidades, emigram! E não vão viver à custa do estrangeiro. Peço aos timoneiros da causa pública que resistam a este tipo de chavões. Para salvar, não é preciso ofender.
Hoje sou grego!
Este desenho de Leal da Câmara, de 1916, garante que os homens não se medem aos palmos. Se calhar, medem-se aos euros. Volvido um século, o gigante não precisa de se expor. Basta adestrar uns tantos lusitanos para dar cabo do Zé Povinho. Estou doente há vários dias. Daí esta disposição daninha. Quando adoeço fico sem unto para as botas dos maiorais. Acresce não tolerar aos políticos que me façam sentir vergonha por ser português. Hoje, sou grego!
Oratória
Sempre que um político fala, inquieta-me uma pergunta: será o povo assim tão estúpido? Rafael Bordalo Pinheiro desenhou, a seu tempo, uma resposta. Mas foi há mais de um século!

Rafael Bordalo Pinheiro (Fundação Mário Soares).
Os fumadores que paguem a crise
“Patrões querem subir imposto do tabaco para manter corte na TSU: CIP quer manter o corte de 5,75% da TSU paga pelas empresas e, para o compensar, propõe subida de 30% do imposto sobre o tabaco.” Eis uma notícia de primeira página do jornal Público de 24 de Setembro. Na página 6, fica-se a saber que “a CIP pretende manter a redução de 5,75%, “mas encontrando outras formas de compensação que não passem pelo rendimento dos trabalhadores.” Eis uma proposta. E quantificada! Num país tão carente de propostas, é um acontecimento. Descontando as do governo, a última proposta de que me lembro provinha também da área patronal: o despedimento de 100 000 trabalhadores da função pública. Uma proposta que traz a marca das nossas elites, desde o Zé Tostões até ao Zé Votos. Com aquele requinte predador e parasita que tão bem lhes fica. Chuta-se para o lado, tal como o Zé Povinho, e suga-se à maneira. Tudo isto é triste, tudo isto é fado e está há muito caricaturado: enquanto o Zé Povinho fuma (apita), alguém lhe esvazia as algibeiras. Tudo isto é triste, tudo isto existe. E por que não? Os fumadores são gente, mas não são gente como a outra. O pecado entra-lhes pela boca e aloja-se nos pulmões. Têm que pagar uma sobretaxa pelo direito ao fumo. Os judeus na Idade Média também tinham que pagar impostos escorchantes pelo direito à liberdade.
O fumador é gente, naturalmente. Quem sustentaria o contrário? Mas é gente de outra espécie. Por isso se pode argumentar que uma subida de 30% do imposto sobre o tabaco é uma “forma de compensação que não passa pelo rendimento dos trabalhadores”. Só lhes passa pelos brônquios… Segundo um inquérito promovido pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, administrado nos anos 2005 e 2006 e publicado em 2009, em cada 100 fumadores, 52 são trabalhadores ativos, 5 desempregados, 23 reformados, 8 estudantes, 10 domésticos, 2 incapacitados permanentes. Cerca de metade (49,1%) tinha menos de 5 anos de escolaridade; três quartos (75,2%) têm até 9 anos de escolaridade. Eis a mina proposta para encher o poço das empresas portuguesas! E nada “passa pelos rendimentos dos trabalhadores”. Como nada sai da algibeira do Zé Povinho distraído com o apito. É esta a população sobre a qual se pretende fazer incidir uma sobretaxa especial, ou seja, os mais desfavorecidos e os mais fustigados pela crise. Os fumadores que paguem a crise! Escrever estas letras de nada serve. A questão do tabaco foi de tal modo envenenada que, nestes dias, onde há fumo não há juízo.









