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Jogar às cartas com o Diabo 5. Deus anda a fumar haxixe

Hieronymus Hess. Dança Macabra, c. 1845. Cópia da Dança da Morte, datada da primeira metade do séc. XV (c. 1435-1441), numa igreja de Basileia

A capacidade de resistência é espantosa, mas não evita traumas, nem desarma golpes.

Espécie de diário, o Tendências do Imaginário raramente passa uma semana sem novos artigos. Entre o 15 de Julho e o 17 de Agosto de 2021, passei quatro semanas de internamento hospitalar, com um intervalo em casa entre o 3 e o 9 de agosto.  Representa bastante tempo!

O artigo Sofrimento (09.08.2021) lembra a única recordação dos cuidados intensivos: “visões do outro mundo”, pasmadas e recorrentes, “colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício”.

Dois episódios ocorridos durante os catorze dias de cuidados continuados ficaram-me especialmente gravados na memória.

Com oito internamentos, possuo um currículo hospitalar apreciável. Algumas situações beliscaram a dignidade. Um tratamento noturno, descrito no artigo Anjo da Guarda (17.08.2021), afetou-me em particular. A motivação foi, certamente, para me proteger, sobretudo de mim mesmo, mas talvez concretizada com excesso de zelo. As circunstâncias proporcionavam-se. Em plena pandemia de COVID 19, o pessoal estava esgotado. Para complicar, fui o primeiro caso com semelhante diagnóstico no Hospital: desconhecimento gera insegurança; e insegurança, agressividade. De qualquer modo, foi traumático. O anjo que estava de guarda naquela noite bem podia inspirar um quadro da Paula Rego, com moldura de enxofre. Senti-me embarcado numa Arca de Noé.

Simon de Myle. A Arca de Noé no Monte Ararat, c, 1570

Apesar de efémeras, as relações entre doentes, visitantes, médicos, enfermeiros e auxiliares, nas enfermarias e nos quartos dos hospitais, mereciam um estudo.

Partilhei espaços e momentos com vários tipos de companheiros. Alguns diálogos resultam dignos de registo. Por exemplo, quando disse ao parceiro de quarto que “Deus andava a fumar haxixe”. Duvidava, realmente, da sageza e da clarividência divinas (artigo Raiva, 18.08.2021).

Os três próximos artigos culminam a série Jogar às cartas com o Diabo, uma revisitação ao Tendências do Imaginário entre o 3 e o 18 de agosto de 2021. Uma oportunidade para dançar com esqueletos, mas também para “arrumar sombras”. Um jeito de se limpar mergulhando no lodo.

Anónimo. As idades do homem ou a escala da vida, uma representação das diferentes etapas da vida de um casal burguês, do nascimento à morte, Final do séc. XIX

O verão de 2021 foi uma fase de inversão. Antes, sempre a piorar, depois, sempre a melhorar. Da cama para a cadeira de rodas, o andarilho, o tripé e a bengala, que quase dispenso. Endireitei e “cresci”! Como se, após ter descido intempestivamente a escada do lado direito da gravura das idades da vida, a voltasse a subir com paulatinamente. Sobram, contudo, danos irreparáveis em determinados órgãos e funções, por exemplo, ao nível dos rins. Mudaram, inclusivamente, a atitude e a personalidade, mas essa é outra história, difícil de abordar resumidamente.

Sofrimento (09.08.2021)

Colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício. No vórtice, um corpo aberto.

Francis Bacon. Head VI. 1949.

Assombra-me a capacidade de sofrimento do ser humano. Perturba. parece não ter limites. Tão pouco o sadismo.

Alexander Borodin (1833-1187). String Quartet № 2—III. Notturno.

Anjo da guarda (17.08.2021)

Paula Rego. Anjo da Guarda. 1998.

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.

Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).

Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Valentin de Boulogne. O Martírio de São Bartolomeu. ca. 1613–15.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.

A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.

Antes do ben-u-ron:

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975

Após o ben-uron_

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14

Raiva (18.08.2021)

“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).

Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.

Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.

Armaggedon. Buzzard. Armaggedon. 1975
Serge Gainsbourg. Dieu est un fumeur de havane. Com Catherine Deneuve. 1980

Jogar às cartas com o Diabo 1. Purgatório

Não se consegue pentear um diabo que não tem cabelos (Provérbio belga)

O Tendências do Imaginário é, desde a criação em agosto de 2011, uma espécie de oxímetro que afere a minha atividade vital, os seus altos, baixos, derivas e vazios. Também se oferece como um memorando ou diário regular. Por sinal, útil, porque não quero esquecer. As memórias dão alento e sentido à vida. São veio e vento!

Imagem: Com João Gigante e Álvaro Domingues. Alvaredo, agosto 2025

Faz, precisamente, quatro anos, que tive alta de um internamento hospitalar complicado que durou três semana. Não posso dizer que conheci a morte [creio que ninguém o pode], mas passei a saber, aliás como muitos, o que significa [estar a] morrer.

Joguei às cartas [em vez de xadrez] com o diabo [ou a morte]. Por trapaça ou desembaralho, vinguei. E choveu no inferno! Como Dante ou Epistémon, regressei, embora chamuscado.

Os artigos de agosto de 2021 foram redigidos durante este “renascimento”. Para proveito próprio, retomo-os. Retenho os onze publicados entre os dias 3 e 18. Arrumo-os em quatro grupos.

Imagem: Albertus Pictor, Death playing chess. Mural. 1480

  • Resgate: “regresso” e “alívio, dias 3 e 4;
  • Regeneração: “Sara”, “reincidência” e “aleijados, dias 5, 6 e 7;
  • Apelo: “abrigo”, “embarcados” e “a tua mão”, dias 6 e 8;
  • Trauma: ”sofrimento”, “anjo da guarda” e “raiva”, dias 9, 17 e 18.
Frederich August Moritz Retzsch. Checkmate. 1831

Nos meses de julho e agosto, a vida tendeu a mudar e o mundo a virar do avesso.

  • O discurso torna-se esquelético, esfíngico e estético. Palavras, apenas as suficientes para partilhar ideias e sentimentos;
  • Primazia à subjetividade, menos pretensão “científica” e mais poesia, música e artes;
  • Nada de hierarquias temáticas. Sem assuntos maiores ou menores, todas as sementes podem dar flores e nada escapa ao humor;
  • Aceitação dos outros, sem ilusões;
  • Enfim, depois de dez anos sempre a piorar, os últimos quatro a melhorar.
Mouth of Hell. From “Apocalypse with commentary,” 1250, London

Existe, pelo menos, uma porta do inferno no purgatório. Publiquei só dois artigos em julho, antes do internamento (dias 4 e 6). Acamado, com escassa motricidade, os principais estímulos resumiam-se à incontinência da televisão, ao refúgio do portátil e ao desconforto físico. Corpo, imagens, poesia e música compunham o mundo vital. Não surpreende, portanto, o destaque que lhes é reconhecido. Ironicamente, convoco, ainda, os pés, tão prestáveis, mas agora entorpecidos. Um dia após o último artigo, dei entrada nas urgências do Hospital. Concederam-me expeditamente alta [talvez para morrer em casa]. Volvida uma semana, a 15 de julho, retornei moribundo. Afortunadamente, além do Diabo, tinha um Anjo à minha espera.

PURGATÓRIO

Recoloco, portanto, os artigos Ideologia a domicílio e Da excelência dos pés, os únicos publicados no mês de julho de 2021. O texto propriamente dito quase desaparece. Predominam os conteúdos: a música (In Loving Memory), o anúncio (Les Pieds) e um excerto do poema Dans ma maison, de Jacques Prévert. Estava saturado dos ecrãs e, pelos vistos, os pés tinham potencialidades fantásticas, ironicamente, fora do alcance dos meus. Pouco convivia. Apenas com a esposa, o filho e a empregada, progressivamente conformados com a presença de um quase cadáver. Acreditavam no inevitável. A despedida resultou extremamente longa e o luto quase antecipado. Todos menos a vítima! Mal diagnosticado e medicado, estava a morrer há tanto tempo que não lhe via o fim. Só nos últimos momentos, rodeado por médicos impotentes e uma enfermeira, ex-aluna chorosa como Madalena, resigmado, se dispôs a entregar a alma ao Diabo. Inesperadamente, antes da última badalada, um anjo interveio surgiu. Afinal, existem na terra.

[Carregar nas imagens seguinteses para aceder artigos.]

Artigo Ideologia a domicílio – 4 de julho de 2021

Ideologia a domicílio. Tendências do Imaginário. Julho 4, 2021

Artigo Da excelência dos pés – 6 de julho de 2021

Da excelência dos pés. Tendências do Imaginário. Julho 7, 2021

Descaminho

O poker é um jogo apaixonante que nos permite perder dinheiro, tempo e amigos (Philippe Bouvard, a partir de um adágio inglês do séc. XIX: “O jogo rouba-vos três bens: o tempo, o dinheiro e a consciência”).

À boleia da publicidade, façamos um desvio pelo Chile para um anúncio de consciencialização generosamente longo (4 minutos).

La adicción tiene una nueva cara / “El Camino” es un cortometraje que expone los riesgos que suponen las casas de apuestas online, y nos invita a reflexionar, a estar atentos, tomar conciencia y actuar.

Anunciante: Fundación Contradicción. Título: El Camino. Agência: Wolf BCPP. Direção: Roddy Dextre. Chile, abril 2025

Crescer em ambiente hostil

A indústria musical australiana atravessa um momento difícil: festivais cancelados e salas de espetáculo encerradas. Segundo a Australian Recording Industry Association (ARIA), a Austrália é o décimo mercado musical do mundo, mas apenas quatro álbuns e três singles de artistas australianos alcançaram o top 100 em 2023.

Imagem: Briggs

Para contrariar esta situação, a Sprout, marca de acessórios musicais, concebeu a plataforma criativa Homegrown Sound, cuja campanha de lançamento estreia “Munarra”, o novo single de Briggs, artista indígena que funde hip-hop e heavy metal. Inspirado no seu próprio percurso de vida, Briggs pretende “ultrapassar os limites (…) contar uma história sobre o que significa crescer em ambiente hostil e emergir disso com força”. O resultado é brutal, insólito e visceral. Um dos vídeos musicais mais impressionantes de que guardo memória.

Marca: Sprout. Artista: Briggs. Título: Munarra. Agência: +61 / Bear Meets Eagle On Fire. Direção: Tom Noakes. Austrália, novembro 2024

Uma tristeza!

Aimee Mann

Um é o número mais solitário
Que você poderá conhecer
Muito muito pior que dois
Um é um número divisível por dois
(Magnolia. One. 1998).

Quem divaga sempre acaba por encontrar. A dedilhar os CD, cruzei-me com a banda sonora do filme Magnólia (1999), quase toda interpretada por Aimee Mann; e a folhear o Público, cruzei-me com o artigo de opinião, “Sinto-me triste”, de Eduardo Marçal Grilo, com o qual me identifico, salvo esquecer-se de enfatizar o enorme contributo para o alívio da tristeza nacional que poderia dar a justiça e o aparelho jurídico. Enfim, Tristezas. Partilho três músicas do filme Magnólia, bem como o início do artigo de Malçal Grilo.

Aimee Mann. One. Magnolia. 1999
Aimee Mann. You Do. Magnolia. 1999
Aimee Mann. Wise Up. Magnolia. 1999

https://www.publico.pt/2023/01/31/opiniao/opiniao/sintome-triste-2036953

Eduardo Marçal Grilo. Sinto-me Triste. Público. 31 de Janeiro de 2023, 0:27

Inflação, poder de compra e desigualdades sociais

Evolução do poder de Compra. França, 2015 a 2022. Fonte: Xerfi Canal, 19.01.2023

O Xerfi Canal (https://www.xerficanal.com/) é uma “revista online sobre o mundo da economia, a estratégia e a gestão das empresas”. Publica diariamente um comentário temático conciso e claro, hoje, 19.01.2023, dedicado à evolução recente da relação entre a inflação, o poder de compra e os rendimentos. O foco é a França, mas estou em crer que a análise é extensível aos demais países da União Europeia, incluindo Portugal. Partilho o vídeo, em francês, seguido por uma tradução livre e algo apressada.

Alexandre Mirlicourtois. Un pouvoir d’achat en chute libre? La réalité des chiffres. Xerfi Canal. 19.01.2023

“Sondagem após sondagem, o poder de compra ocupa o primeiro lugar nas preocupações dos franceses. Isso não tem nada de surpreendente uma vez que há meses que os agregados domésticos evidenciam uma degradação clara da sua situação financeira e não aguardam nenhuma melhoria a curto prazo. Os dados do INSEE [equivalente francês do INE] comprovam-no. É verdade que o rendimento real dos franceses embora ameaçado não sofre uma quebra expressiva. Convém equacioná-lo por unidade de consumo de modo a contemplar o fato de, por um lado, se repartir por um número crescente de habitantes e, por outro, de a vida em comum permitir, graças a economias de escala, reduzir determinadas despesas tais como as do alojamento. A evolução da dimensão dos agregados domésticos possui também alguma importância.

Sob esta luz, a tendência resulta menos favorável: o poder de compra baixou 0,6% no ano passado, o que não é muito. Recuando um pouco no tempo, o poder de compra por unidade de consumo mantém-se acima do nível anterior à crise e, recuando ainda mais, o refluxo de 2022 não tem comparação com o registado entre 2011 e 2013. A estatística é, mais uma vez, posta à prova pela experiência da vida quotidiana e surge desfasada da realidade vivida por muitos cidadãos.

Para explicar este hiato, importa reconsiderar o fator atual que mais pesa sobre o rendimento: a descolagem dos preços no consumo. Trata-se de uma inflação geradora de desigualdades profundas. A progressão dos preços não é homogénea e incide, nos dois últimos anos, num núcleo principal, a energia, e num núcleo secundário, a alimentação. Por seu turno, os aumentos dos preços dos produtos manufaturados e dos serviços têm revelado maior contenção. Acontece que a exposição dos agregados domésticos, bastante elevada e muito concentrada, varia significativamente consoante o respetivo nível de vida, devido à estrutura do consumo acentuadamente diferenciada.

A fatura energética é um dos elementos inerentes ao alojamento. Para os mais desfavorecidos representa acima de 6% das suas despesas totais contra menos de 4% no topo da escala. O mesmo sucede no que respeita à despesa alimentar cujo peso diminui à medida que o nível de vida aumenta. A situação pode resumir-se da seguinte forma: a baixo nível de vida, preços altos; a nível de vida alto, preços baixos. Acresce uma amplificação conforme se seja rural ou urbano, por causa da progressão dos preços dos carburantes. Não existe, portanto, apenas um mas vários poderes de compra consoante o grau de exposição ao lote dos consumos mais inflacionistas.

Mas este não é o único fator de desigualdade. Subsiste outro mais importante associado à parte do rendimento consagrada ao consumo, logo diretamente impactada pela subida dos preços: 20% dos agregados domésticos mais modestos gastam mais de 97% dos seus rendimentos contra menos de 72% dos mais favorecidos, uma diferença de 26 pontos. Dito de outro modo, a quase integralidade do rendimento dos mais pobres é alocada às despesas quotidianas; em contrapartida, os mais favorecidos conseguem poupar cerca de 30%. O impacto é duplo. Primeiro, os franceses do topo conseguem manter o seu nível de despesas modificando a sua dosagem entre consumo e poupança; segundo, uma proporção dos seus rendimentos é parcialmente preservada pela evolução da remuneração das suas poupanças. Ocorre o contrário quando nos posicionamos no baixo da escala: quando os rendimentos não acompanham até à vírgula, ou quase, a evolução dos preços do respetivo cabaz, torna-se então necessário efetuar cortes claros nas despesas quotidianas porque não existe, ou existe muito pouca, gordura para ajustamento. Apenas um euro em cada três de despesas comprimíveis para estes; um euro em dois para os outros.

Em suma, para uma parte crescente da população rematar o fim do mês acaba por ser impossível sem recurso ao crédito renovável, também chamado crédito permanente ou revolving, modalidade de pagamento, uma espécie de reserva, geralmente associada a um cartão de crédito, cada vez mais mobilizada pelos agrupamentos domésticos para as suas compras correntes, cujas pendências estão em forte crescimento, embora partam de uma base baixa. A outra solução consiste no recurso às contas a descoberto, tendência manifesta no aumento explosivo da curva das contas correntes de débitos que já ultrapassam os 10 bilhões de euros e representam mais de 5% do conjunto dos créditos ao consumo, alcançando o nível mais alto dos últimos 20 anos. Constituem, porém, práticas onerosas que comportam um peso acrescido no orçamento dos agregados domésticos mais modestos. O sobre endividamento, que não parou de recuar desde meados dos anos 2010, corre seriamente o risco, neste contexto, de regressar em força nos próximos meses, apesar de um poder de compra, em aparência, em estado de Resistência.” (Alexandre Mirlicourtois. Un pouvoir d’achat en chute libre? La réalité des chiffres. Xerfi Canal. 19.01.2023: https://wordpress.com/post/tendimag.com/55467. Consultado em 19.01.2023.

Comprar nada como investimento

McDonald’s Spain. The burger that could be. 2022

O anúncio The burger that could be, da McDonald ‘s Spain é um bom exemplo de um elevado sentido de oportunidade e da boa arte de a saber aproveitar. Trata-se de uma campanha que adota um estratagema que está a abrir caminho: convocar, ao mesmo tempo, o ecrã e a vida, interpelar tanto o espetador como o ator, numa mobilização em torno de uma causa emotiva emocionante e inclusiva emergente. Mais um caso de uma iniciativa de consciencialização interessada.

Marca: McDonald’s Spain. Título: The burger that could be. Agência: TBWA Spain. Espanha, agosto 2022.

Alterações climáticas e crise na Idade Média

Da Biblia Pauperum, iluminada em Erfurt por altura da Grande Fome de 1315-1317. A Morte surge como um leão cuja longa calda termina em bola de fogo – o Inferno. A boca aberta, destacada a vermelho, representa a Fome.

“A Grande fome de 1315-1317 na Europa (também datada entre 1315-1322) foi a primeira de uma série de crises sociais em larga escala que atingiram a Europa no início do século XIV, causando milhões de mortes por um grande número de anos, marcando assim o fim de um período anterior de prosperidade no continente durante o século XIII. Iniciando com um tempo ruim na primavera de 1315, a alteração climatológica acabou por provocar quebras universais das colheitas entre a primavera de 1315, que se acentuaram no verão de 1316 até ao verão de 1317. A Europa não se recuperou totalmente até 1322. Foi um período marcado por níveis extremos de crimes, doenças, mortes em massa e infanticídio. Houve consequências para a Igreja Católica, os Estados nacionais, a demografia do continente a sociedade europeia como um todo. A grande fome de 1315 contribuiu para potencializar as futuras calamidades do século XIV. (…) Para a maioria das pessoas não havia o suficiente para comer e a vida era relativamente curta. Atendendo aos registos respeitantes à Família Real Britânica, a melhor e mais abonada da sociedade, a expectativa de vida média em 1276 era de 35,28 anos. Entre 1301 e 1325, durante a Grande Fome, reduziu-se para 29,84 anos. Durante a peste negra, caiu para 17,33 anos (…) Na primavera de 1315, chuvas caíram chuvas acima do normal na maior parte da Europa. Na primavera e no verão, continuou chovendo e a temperatura manteve-se fria. Nestas condições, os grãos não germinavam. (…) As taxas de produção de trigo (o número de sementes que uma pessoa poderia consumir por semente plantada) estavam em queda desde 1280 (…) Numa situação de bom tempo, a taxa era de 7:1, enquanto nos anos ruins descia até 2:1, isto é, para cada semente plantada, duas sementes eram colhidas, uma para o ano que vem, e uma para alimentação. Por comparação, a agricultura moderna possui taxas de 200:1 ou mais (..,) Os alimentos para os animais não podiam ser curados, deixando de existir ração para o gado. Os preços dos alimentos começaram a subir. Os preços na Inglaterra dobraram entre a primavera e o meio do verão. O sal, a única maneira de curar e preservar a carne, era difícil de obter, porque a água não evaporava com o tempo húmido: subiu de 30 para 40 xelins. Na província da Lorena, o trigo subiu 340% e os camponeses não tinham com que pagar o pão. As reservas de grãos para emergências de longo prazo estavam confinadas aos nobres e lordes. (,,,) Na primavera de 1316, continuava chovendo sobre uma população europeia desprovida de energias e reservas para se sustentar. Todos os segmentos da sociedade, dos nobres aos camponeses, foram afetados, especialmente os camponeses, que representavam 95% da população, e não possuíam suporte social. Para prover algum alívio, o futuro foi sacrificado, matando animais de reprodução, consumindo sementes de plantação, abandonando as crianças (…)  e negando alimentos aos idosos para dar hipóteses de sobrevivência às gerações jovens. As crónicas da época descrevem muitos incidentes de canibalismo. (…) O pico da fome foi atingido em 1317 quando o tempo húmido terminou. Finalmente, no verão, o tempo regressou ao padrão normal. As pessoas estavam tão enfraquecidas por doenças como pneumonia, bronquite e tuberculose, e muitas das reservas de sementes haviam sido consumidas, que apenas em 1325 os níveis de alimentos voltaram para condições relativamente normais anteriores à fome. (…) É estimado que entre 10%-25% da população de muitas cidades e vilas pereceram. Enquanto a Peste Negra (1338-1375) mataria mais em números reais, para muitos, a Grande Fome foi pior como calamidade social: a peste aniquilava uma área em alguns meses, a Grande Fome castigou durante anos, arrastando o sofrimento das pessoas que morriam lentamente de fome, enfrentavam canibalismo, infanticídio e crime descontrolado.” (A partir de Wikipedia, Grande Fome de 1315–1317: https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Fome_de_1315%E2%80%931317. Acedido em 19/07/2022).

When God saw that the world was so over proud,
He sent a dearth on earth, and made it full hard.
A bushel of wheat was at four shillings or more,
Of which men might have had a quarter before….
And then they turned pale who had laughed so loud,
And they became all docile who before were so proud.
A man’s heart might bleed for to hear the cry
Of poor men who called out, “Alas! For hunger I die …!” (Poema de Eduardo II, c. 1321).

Imagem: Grandes Heures de Jean de Bérry. Séc. XIV-XV.

O naufrágio da modernidade

BBK. Bihar. 2022

Nada como uma boa ideia, de preferência simples e com impacto. Muito impacto. Mesmo que seja num ventre mole. Muito mole. A iniciativa Bihar, uma escultura hiper-realista de uma menina a afundar-se na ria de Bilbao, promovida pela instituição financeira BBK (Bilbao Bizkaia Kutxa), conseguiu uma gigantesca notoriedade gratuita no horário nobre da comunicação social ao nível planetário. Antecipando o futuro, em particular a ameaça das alterações climáticas, a campanha nos media, Leão de Prata em Cannes, desdobra-se num anúncio (2:15) e numa curta-metragem (17:01).

Anúncio – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.
Curta-metragem – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.