Tag Archive | crise

Comprar nada como investimento

McDonald’s Spain. The burger that could be. 2022

O anúncio The burger that could be, da McDonald ‘s Spain é um bom exemplo de um elevado sentido de oportunidade e da boa arte de a saber aproveitar. Trata-se de uma campanha que adota um estratagema que está a abrir caminho: convocar, ao mesmo tempo, o ecrã e a vida, interpelar tanto o espetador como o ator, numa mobilização em torno de uma causa emotiva emocionante e inclusiva emergente. Mais um caso de uma iniciativa de consciencialização interessada.

Marca: McDonald’s Spain. Título: The burger that could be. Agência: TBWA Spain. Espanha, agosto 2022.

Alterações climáticas e crise na Idade Média

Da Biblia Pauperum, iluminada em Erfurt por altura da Grande Fome de 1315-1317. A Morte surge como um leão cuja longa calda termina em bola de fogo – o Inferno. A boca aberta, destacada a vermelho, representa a Fome.

“A Grande fome de 1315-1317 na Europa (também datada entre 1315-1322) foi a primeira de uma série de crises sociais em larga escala que atingiram a Europa no início do século XIV, causando milhões de mortes por um grande número de anos, marcando assim o fim de um período anterior de prosperidade no continente durante o século XIII. Iniciando com um tempo ruim na primavera de 1315, a alteração climatológica acabou por provocar quebras universais das colheitas entre a primavera de 1315, que se acentuaram no verão de 1316 até ao verão de 1317. A Europa não se recuperou totalmente até 1322. Foi um período marcado por níveis extremos de crimes, doenças, mortes em massa e infanticídio. Houve consequências para a Igreja Católica, os Estados nacionais, a demografia do continente a sociedade europeia como um todo. A grande fome de 1315 contribuiu para potencializar as futuras calamidades do século XIV. (…) Para a maioria das pessoas não havia o suficiente para comer e a vida era relativamente curta. Atendendo aos registos respeitantes à Família Real Britânica, a melhor e mais abonada da sociedade, a expectativa de vida média em 1276 era de 35,28 anos. Entre 1301 e 1325, durante a Grande Fome, reduziu-se para 29,84 anos. Durante a peste negra, caiu para 17,33 anos (…) Na primavera de 1315, chuvas caíram chuvas acima do normal na maior parte da Europa. Na primavera e no verão, continuou chovendo e a temperatura manteve-se fria. Nestas condições, os grãos não germinavam. (…) As taxas de produção de trigo (o número de sementes que uma pessoa poderia consumir por semente plantada) estavam em queda desde 1280 (…) Numa situação de bom tempo, a taxa era de 7:1, enquanto nos anos ruins descia até 2:1, isto é, para cada semente plantada, duas sementes eram colhidas, uma para o ano que vem, e uma para alimentação. Por comparação, a agricultura moderna possui taxas de 200:1 ou mais (..,) Os alimentos para os animais não podiam ser curados, deixando de existir ração para o gado. Os preços dos alimentos começaram a subir. Os preços na Inglaterra dobraram entre a primavera e o meio do verão. O sal, a única maneira de curar e preservar a carne, era difícil de obter, porque a água não evaporava com o tempo húmido: subiu de 30 para 40 xelins. Na província da Lorena, o trigo subiu 340% e os camponeses não tinham com que pagar o pão. As reservas de grãos para emergências de longo prazo estavam confinadas aos nobres e lordes. (,,,) Na primavera de 1316, continuava chovendo sobre uma população europeia desprovida de energias e reservas para se sustentar. Todos os segmentos da sociedade, dos nobres aos camponeses, foram afetados, especialmente os camponeses, que representavam 95% da população, e não possuíam suporte social. Para prover algum alívio, o futuro foi sacrificado, matando animais de reprodução, consumindo sementes de plantação, abandonando as crianças (…)  e negando alimentos aos idosos para dar hipóteses de sobrevivência às gerações jovens. As crónicas da época descrevem muitos incidentes de canibalismo. (…) O pico da fome foi atingido em 1317 quando o tempo húmido terminou. Finalmente, no verão, o tempo regressou ao padrão normal. As pessoas estavam tão enfraquecidas por doenças como pneumonia, bronquite e tuberculose, e muitas das reservas de sementes haviam sido consumidas, que apenas em 1325 os níveis de alimentos voltaram para condições relativamente normais anteriores à fome. (…) É estimado que entre 10%-25% da população de muitas cidades e vilas pereceram. Enquanto a Peste Negra (1338-1375) mataria mais em números reais, para muitos, a Grande Fome foi pior como calamidade social: a peste aniquilava uma área em alguns meses, a Grande Fome castigou durante anos, arrastando o sofrimento das pessoas que morriam lentamente de fome, enfrentavam canibalismo, infanticídio e crime descontrolado.” (A partir de Wikipedia, Grande Fome de 1315–1317: https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Fome_de_1315%E2%80%931317. Acedido em 19/07/2022).

When God saw that the world was so over proud,
He sent a dearth on earth, and made it full hard.
A bushel of wheat was at four shillings or more,
Of which men might have had a quarter before….
And then they turned pale who had laughed so loud,
And they became all docile who before were so proud.
A man’s heart might bleed for to hear the cry
Of poor men who called out, “Alas! For hunger I die …!” (Poema de Eduardo II, c. 1321).

Imagem: Grandes Heures de Jean de Bérry. Séc. XIV-XV.

O naufrágio da modernidade

BBK. Bihar. 2022

Nada como uma boa ideia, de preferência simples e com impacto. Muito impacto. Mesmo que seja num ventre mole. Muito mole. A iniciativa Bihar, uma escultura hiper-realista de uma menina a afundar-se na ria de Bilbao, promovida pela instituição financeira BBK (Bilbao Bizkaia Kutxa), conseguiu uma gigantesca notoriedade gratuita no horário nobre da comunicação social ao nível planetário. Antecipando o futuro, em particular a ameaça das alterações climáticas, a campanha nos media, Leão de Prata em Cannes, desdobra-se num anúncio (2:15) e numa curta-metragem (17:01).

Anúncio – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.
Curta-metragem – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.

Memória e presença

René Magritte. The Fickleness of the Heart.1950.

“É a memória que faz toda a profundidade do homem” (Charles Péguy. Clio. Dialogue sur l’histoire et l’âme païenne. La Pléiade. Œuvres en prose complètes, III, p. 1175. Paris, Gallimard, 1987-1992).

Memória não é passado. É comunhão e presente. Raízes do tronco da vida. Subviver durante muito tempo não é apenas um modo de estar, torna-se um modo de ser, em que a memória adquire um papel decisivo. Afirma-se como uma garantia de sobrevivência. Um esteio e uma alavanca, cujo potencial de resgate do ser diminuído se revela inestimável. Uma contra identificação pela crise: a biografia contra a ruina.

Sobreviver obriga a erguer-se e a superar-se, mas também a resistir aos demais, aos “outros significativos”, que acabam por incorporar, assimilando, o nosso novo modo de ser num seu novo modo de viver, vetor de maior proteção mas também fonte de maior protagonismo. O cuidado ambiente pode atingir um ponto de inflexão em que o resguardo reverte em escolho, o abraço em aperto e a dedicação em duplo vínculo. Para ressurgir, “renamorar” a existência, talvez importe arejar os agasalhos virtuosos, mas amortecedores, e ousar pisar os riscos que, a seu tempo, foram de salvação. Com a ajuda da memória.

(Quando comecei este artigo esperava escrever algo de jeito e não um fraseado obtuso e intragável. O sol deve ter inflamado as celulazinhas cinzentas. Acontece!)

Andrew Lloyd Webber. Cats. Musical. 1981. Elaine Page performs from the 1998 production of Cats.
Barbara Streisand. Memory. Memories. 1981. Vídeo oficial.
Maroon 5. Memories. Emote Pa More. 2020. Vídeo oficial.

Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.

Marca: Facebook. Título: Survive – Coogan’s. Agência: Droga 5, New York. Direção: Miles Jay. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Intro song to the tv show Cheers ( 1983-1992); Where everybody knows your name, by Gary Portnoy (1982).

O laço e a trela

edvard-munch-norwegian-1863-1944-melancholy-ii-1898-woodcut

Edvard Munch. Melancholy II. 1898.

É costume associar a separação a uma experiência negativa. Depois do adeus, a solidão, o luto e a saudade. Trauma insuperável? Quem se afasta, aproxima-se. De uns e de outros. Custa? Apegamo-nos às pessoas e às coisas, tóxicas ou não. Criar novas relações também custa? São necessárias pontes. Melancolia à parte, aguentar uma situação é, muitas vezes, pior do que a abandonar. Quem se despede não deixa de existir. Um grupo não é uma caravana no deserto. A separação é uma crise, um momento de fractura e abertura. Em latim, crisis significa “momento de decisão”, e o verbo grego Krino significa “separar, decidir, julgar”. Entretanto, Julio Iglesias canta Y la vida sigue igual (1968).

Julio Iglesias. Y la vida sigue igual. 1968.

Y la vida sigue igual. Julio Iglesias.1968.

Unos que nacen, otros morirán;
Unos que ríen, otros llorarán.
Aguas sin cauce, ríos sin mar,
Penas y glorias, guerras y paz.

Siempre hay
Por que vivir,
Por que luchar.

Siempre hay
Por quien sufrir
Y a quien amar.

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

Pocos amigos que son de verdad;
Cuantos te alagan si triunfando estas;
Y si fracasas, bien comprenderás:
Los buenos quedan, los demás se van.

Siempre hay
Por que vivir,
Por que luchar.

Siempre hay
Por quien sufrir
Y a quien amar.

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

Vim para te dizer que vou embora!

Vincent Van Gogh. A Pair of Shoes, Paris, 1886.

Vincent Van Gogh. A Pair of Shoes, Paris, 1886.

Gosto de Serge Gainsbourg, uma espécie de sósia: torto, cavernoso e molesto. Gosto do Paul Verlaine, compositor de palavras, convocado em Je suis venu pour te dire que je m’en vais (1971). Gosto de Jacques Prévert, das “folhas mortas”, e da Chanson de Prévert (1961), de Serge Gainsbourg. Gostava de ir embora, mas o governo decretou um limbo profissional: entre a idade a que teria reforma e aquela que não sei se terei. Em tempo de crise, o envelhecimento também tem limites. Responsabilidades? Os governos já se pronunciaram: Portugal tem funcionários e os portugueses fazem compras. “Vou pedir contas ao mundo além naquele coreto”. Lá vai um! Lá vão dois! Três bancos a voar. Um pago eu, o outro pagas tu, o outro paga quem puder (paráfrase de José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970).

Serge Gainsbourg. Je suis venu te dire que je m’en vais. Vu de l’extérieur. 1971.

Serge Gainsbourg. La Chanson de Prévert. L’étonnant Serge Gainsbourg. 1961.

30 anos: apontamentos datados

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

1983. Última grande crise económica antes da adesão à União Europeia. Recorreu-se à austeridade não diferenciada: não se tirou a estes para dar àqueles.
1986. Adesão à União Europeia. Nunca os fundos foram tão altos, nem os investimentos tamanhos.
2002. Adesão ao euro. Principal preocupação pública: como proceder à troca dos escudos por euros? O futuro? Entrar no “pelotão da frente” europeu, um barco, maior que o Titanic, já inclinado para um dos lados.
2007. Anúncio da crise do subprime, associada ao sector financeiro. Nalguns países a reacção chegou de avião, noutros de comboio. O desnorte espelhou-se na disparidade das políticas adoptadas.
2011. Assinatura do Memorando (de entendimento sobre as condicionalidades de política económica), consubstanciado na intervenção de resgate da Troika, apostada numa austeridade severa e diferenciada. Uma parte da população, a mais pobre, é castigada; a outra, dá sugestões! Um velho chavão político torna-se, enfim, realidade ostensiva: os pobres pagam a crise dos ricos. Nem as pragmáticas régias ousaram ir tão longe.

Anunciante: Ministerio de Economía.Título: Euro. Campña “Los García” / “La pregunta fatídica”. Agência: TBWA. Espanha, 2001.

Acima das possibilidades

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

“Os Portugueses viviam acima das suas possibilidades”. Eis um mote que tresanda. Que portugueses viviam acima das suas possibilidades? Os meus colegas, os meus vizinhos e os meus amigos, não! Quem continua, afinal, a viver em Portugal acima das possibilidades? Os portugueses? Tal como na Quinta dos Animais, a amnésia é amiga dos porcos. Tudo indica que em 2008 eclodiu uma das maiores crises do sector financeiro de que há memória. Consta que as empresas financeiras viviam acima das suas possibilidades. Inventavam riqueza! Mas, para cá do Marão mandam os que cá estão. Deste lado marítimo, dessa crise só espuma! BPN, BES, empréstimos de milhares de milhões para consolidar bancos, tudo isto são ciscos em olhos mal-intencionados, a proteger com a banha de cobra dos timoneiros nacionais. Quem presta ouvidos até parece que Nossa Senhora volta a cantar o fado. No estrangeiro, viveu-se uma crise financeira colossal; pelos vistos, em Portugal, viveu-se e continua a viver-se uma crise de sobre consumo! Milton Friedman deve dar voltas no caixão!

“Os portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro”. Outro mote que tresanda. Ainda ontem o ouvi na televisão. Que portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro? Os meus colegas, os meus amigos e os meus vizinhos, não! De um lado, vive uma modesta reformada; do outro, um casal com uma única reforma. Será que deliram com o maná estrangeiro? Era, aliás, necessária uma boa dose de cegueira para não sentir que a economia portuguesa patinava desde o início do milénio. Quem pensava que ia viver à custa do estrangeiro? Eventualmente, aqueles que açambarcaram os fundos provenientes da União Europeia. São portugueses mas não são os portugueses. A ortografia, a gramática e a sintaxe dão jeito e fazem alguma diferença.

Os portugueses não viviam acima das suas possibilidades. Os portugueses não pensavam viver à custa do estrangeiro. Neste momento, os portugueses vivem abaixo das suas possibilidades. Para viver segundo as suas possibilidades, emigram! E não vão viver à custa do estrangeiro. Peço aos timoneiros da causa pública que resistam a este tipo de chavões. Para salvar, não é preciso ofender.

O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.