Cristo ensimesmado. Recaída no vício das imagens

Imagem 1. Auguste Rodin. O Pensador.1880.Foto: Yuliia Fesyk

Como os castrejos, os emigrantes e os esquimós (ver Variações sazonais), também sou instável. Durante o longo e sombrio período do outono e do inverno, prevalece o meu lado acústico. Abandono-me aos prazeres da música. Com o despontar da luminosidade primaveril, torno-me mais vagabundo e visual. Tenta-me a gula das imagens, que procuro e devoro com deleite.

Imagem 2. Cristo pensativo. C. 1502. Wrocław. Madeira policromada. Museu Nacional de Varsóvia. Fonte: Radoslaw Mleczko

Com a Páscoa à porta, concentro-me nas imagens da Paixão de Cristo, em particular no episódio da via sacra em que, depois de ter carregado a cruz e enquanto os soldados romanos erguem a cruz, Cristo se senta a descansar. Consoante as regiões, assim é designado como Cristo “preocupado”, “pensativo”, “a descansar” ou “doloroso”.

Imagem 3. Cristo a descansar. Dreifaltigkeitskirche Görlitz. C. 1500

Estas imagens, sobretudo esculturas, distinguem-se pelo modo como evidenciam a vertente humana de Cristo. Mais frequentes na Europa do Norte, datam quase todas por volta do ano 1500.

Quando observo uma série de imagens, logo me acodem outras, associadas a outros contextos, por vezes, distantes. Neste caso, desafia-me a semelhança com o Pensador, de Auguste Rodin. Permaneci bastante tempo absorto pela comparação, mas sem ousar retirar qualquer conclusão.

Convém admitir que se trata de uma postura e de uma representação deveras humanas, profundamente humanas. A figura de Job (imagem 6 e 7) precede, na Bíblia, a de Cristo e o Pensador de Cernavoda (imagem 8), na história, a de Job.

Imagem 8. TheThinker of Cernavoda.Cc. 5000 B.C. Bucharest

O primeiro nome atribuído ao Pensador, de Auguste Rodin, foi O Poeta. Integra um conjunto escultórico de teor religioso, A Porta do Inferno (imagem 9), alusivo à Divina Comédia, de Dante (o dito poeta).

Convém convocar ainda mais três representações: por um lado, o Cristo em repouso, pintura de finais do século XV de Hans Holbein, o Velho (imagem 10); por outro, a estátua de Lourenço de Médici no seu túmulo (imagem 11) e a personagem na parte superior do inferno do Juízo Final, ambas obras de Michelangelo de meados do século XVI (imagens 11 e 12).

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  1. Pensadoras | Tendências do imaginário - Abril 12, 2024

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