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French Kiss: A minha língua, a tua língua

Auguste Rodin. O Beijo. 1882.

Num texto português de meia dúzia de linhas, surgem as palavras: smart city, start up, ranking, call e paper. Todas as gerações têm direito às suas palavras-chave. Smart city, start up, ranking, call e paper são chavões apreciativos. Parece que o português não tem palavras para os fenómenos do presente com futuro reluzente. Caem bem palavras de outros horizontes, outras peritagens e outros poderes.
Smart city. Não é o mesmo que “cidade inteligente”. É reduzir o valor (no sentido de Saussure) da expressão inglesa que significa, também, esperteza, requinte, capacidade… Cidade esperta? O melhor é seguir viagem.
Start up. Por que não “empresa emergente”? Perdia-se a ligação à bolha tecnológica. E start up vibra com ressonâncias ascendentes: wake up; make up; pin up
Ranking? Ordenação, classificação, hierarquia, posição, nível… O português tem demasiadas palavras para dizer uma operação tão simples. Se antes pecava por defeito, agora peca por excesso.
Call. A palavra inglesa possui uma aura religiosa mais ampla e acentuada do que a palavra portuguesa “chamada”. Convoca a vocação e o chamamento, ambos pressupostos nos encontros científicos. Por sua vez, convite é, porventura, demasiado cortês.
Paper. Nada a dizer. Apenas a dissonância introduzida pelos papers electrónicos. Abençoadas as palavras que têm a sina de dizer mais do que aquilo que dizem.

Gustav Klimt. O Beijo. Detalhe. 1907-1908.

Traduzir palavras do inglês para o português é tarefa difícil. O inverso, também. Talvez o French Kiss possa ajudar.

Smart city, start up, ranking, call e paper são palavras que assumem o sentido que lhes vamos concedendo. São smart words. Smart, mesmo Smart, é o carro. Very Smart!

Assim como o Smart tem mais lugares onde estacionar, a tua língua é melhor que a minha. O mesmo texto escrito em duas línguas diferentes não tem o mesmo alcance, melhor, o mesmo impacto. A língua é poder, bem como enpowerment. Palavra de blogger.

Ocasionalmente, apetece pintar meias verdades: o fraco tende a agarrar-se ao forte.

Marca: Smart. Título : Perfect City. Agência : Contrapunto. Direcção: Hugo Menduiña. Espanha, 2016.

Na mão de Deus

Gustav Vigeland (1869-1943) - Man and woman (1905)

Gustav Vigeland (1869-1943) – Man and woman (1905).

Não resisto a acrescentar uma escultura de Gustave Vigeland (https://tendimag.com/2018/09/22/ate-que-a-morte-nos-separe-2/). Lembra Auguste Rodin, de quem era admirador, principalmente a escultura A Mão de Deus. Lembra, também, o soneto A Mão de Deus, de Antero de Quental (segue o original e a tradução em inglês). Para quem acredita em mãos, a mão de Deus promete um alívio infinito.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.

IN GOD’S HAND

In the right hand of God, in his right hand
My heart has found a resting-place at last.
Adown the narrow stairway I have passed
That leads us from Illusion’s magic land.

Like to the mortal flowers with which a band
Of children vainly deck them, I have cast
Away the transitory figment, and the vast
Deceit that Passion and the Ideal demand.

As a small child, upon a gloomy day.
Whose mother lifts him, smiling distantly,
And bears him, at her breast, upon her way.

Past woods and seas, o’er desert sand and sod.
Sleep thy deep sleep, O heart of mine now free.
Sleep thou forever in the hand of God!

Antero de Quental. Sonnets and poems of Anthero de Quental. University of California Press. Berkeley, California, 1922.

Sombra que trago comigo

Sinto-me inclinado para lado nenhum.

auguste-rodin-la-danaide-1889

Auguste Rodin. La Danaïde. 1889.

Na sina que me foi lida,
Este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
E sombra dentro de mim.

Miguel Torga, Desgarrada, 1965.

Adónis e o “Pensador de Cernavoda”

Monumento funerário. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Monumento funerário. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Afrodite apaixona-se por Adónis ainda este era criança. Guarda-o num cofre que entrega a Perséfone, que também se apaixona pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. Há seis mil anos, o “pensador de Cernavoda” já devia reflectir sobre as facetas do tempo cíclico. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.

O Pensador de Cernavoda, 5000-4500 ac. Balcãs

O Pensador de Cernavoda, 5000-4500 ac. Balcãs.

Auguste Rodin. O Pensador.  1902.

Auguste Rodin. O Pensador. 1902.

Aflição

Pink Floyd. The Wall.

Pink Floyd. The Wall.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Mais um vídeo dos Dvein, desta vez um vídeo musical. Dos Dvein para os The Vein. Uma erupção de rostos perturbadores. Lembram outros rostos, por exemplo, o Grito, de Edvard Munch, a Tempestade, de Auguste Rodin ou a animação do filme The Wall, dos Pink Floyd. Mas lembram, sobretudo, os rostos de Francis Bacon (ver galeria de imagens). Convém, no entanto, precisar que mais do que pelos rostos, o vídeo dos Dvein sobressai pelo movimento, o fluxo magmático, em que estes se movem, se debatem, se desfiguram e se transformam. Um trabalho técnico e criativo notável.

Dvein. Magma. 2013.

Francis Bacon: galeria de imagens

 

Mãos

DÜRER, Albrecht. Cristo entre os Doutores (Pormenor). 1506.

Figura 1. DÜRER, Albrecht. Cristo entre os Doutores (Pormenor). 1506.

Figura 2. Auguste Rodin. Mãos de Amantes. 1904.

Figura 2. Auguste Rodin. Mãos de Amantes. 1904.

As mãos são a carne da comunicação.

Com as mãos, nos tocamos (Figura 1), nos damos (Figura 2), guardamos segredos (Figura 3) e rezamos (Figura 4).

Com as mãos, nos desenhamos (Figura 5).

Com as mãos, criamos figuras fantásticas (ver O Carnaval das mãos).

Com as mãos, também simulamos uma garrafa de Coca-Cola!

Marca: Coca-Cola. Título: Together. Direcção: David LaChapelle. USA, Fevereiro 2015.

 

Vitral

Auguste Rodin. La Cathédrale. 1909.

Auguste Rodin. La Cathédrale. 1909.

Há dias sombrios em que a lua pasma dentro de nós. Mas há sons que são raios de sol. Esgueiram-se pelos poros da pele convertida em vitral. Iluminam-nos com lágrimas coloridas num colar de esperança.

Camille Saint Saens. Introduction et Rondo capriccioso en la mineur. Op. 28. 1863. Excerto.

O Beijo

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Já se sentia a falta de um anúncio argentino.
O beijo consiste numa junção de orifícios com troca de saliva. Um risco de transmissão de doenças. Uma libertação de energia por fricção que não contribui para o PIB, nem paga impostos. Inscreve-se a contracorrente de tudo quanto é regra civilizacional de bem ser, de bem estar e de bem fazer. Prazeroso, mas arriscado e inútil. Nem sequer garante a ignição da reprodução da espécie. O beijo que se cuide, a depuração espreita. Depois dos apitos de fumo, das ingestões espirituosas, dos músculos moles e da vigília do ecrã, a vez do beijo está a chegar. A dupla ventosa humana vai ser, política, científica e tecnicamente, ajustada, graças a uma chuva de medidas: o beijo só é permitido a um mínimo de 20 cm de distância entre entidades beijadoras; o beijo é proibido nos locais frequentados… E cartazes com o lema: “Fumar aumenta a saliva”. E nos guardanapos: “Se é beijador compulsivo, o seu médico pode ajudar”.
Ainda bem que, a fazer fé neste anúncio, o beijo resiste a tudo!

Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: GUARNA. Argentina, 2009.