Na mão de Deus
Não resisto a acrescentar uma escultura de Gustave Vigeland (https://tendimag.com/2018/09/22/ate-que-a-morte-nos-separe-2/). Lembra Auguste Rodin, de quem era admirador, principalmente a escultura A Mão de Deus. Lembra, também, o soneto A Mão de Deus, de Antero de Quental (segue o original e a tradução em inglês). Para quem acredita em mãos, a mão de Deus promete um alívio infinito.
NA MÃO DE DEUS
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.
IN GOD’S HAND
In the right hand of God, in his right hand
My heart has found a resting-place at last.
Adown the narrow stairway I have passed
That leads us from Illusion’s magic land.
Like to the mortal flowers with which a band
Of children vainly deck them, I have cast
Away the transitory figment, and the vast
Deceit that Passion and the Ideal demand.
As a small child, upon a gloomy day.
Whose mother lifts him, smiling distantly,
And bears him, at her breast, upon her way.
Past woods and seas, o’er desert sand and sod.
Sleep thy deep sleep, O heart of mine now free.
Sleep thou forever in the hand of God!
Antero de Quental. Sonnets and poems of Anthero de Quental. University of California Press. Berkeley, California, 1922.
Adónis e o “Pensador de Cernavoda”
Afrodite apaixona-se por Adónis ainda este era criança. Guarda-o num cofre que entrega a Perséfone, que também se apaixona pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. Há seis mil anos, o “pensador de Cernavoda” já devia reflectir sobre as facetas do tempo cíclico. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.
Aflição
Mais um vídeo dos Dvein, desta vez um vídeo musical. Dos Dvein para os The Vein. Uma erupção de rostos perturbadores. Lembram outros rostos, por exemplo, o Grito, de Edvard Munch, a Tempestade, de Auguste Rodin ou a animação do filme The Wall, dos Pink Floyd. Mas lembram, sobretudo, os rostos de Francis Bacon (ver galeria de imagens). Convém, no entanto, precisar que mais do que pelos rostos, o vídeo dos Dvein sobressai pelo movimento, o fluxo magmático, em que estes se movem, se debatem, se desfiguram e se transformam. Um trabalho técnico e criativo notável.
Dvein. Magma. 2013.
Francis Bacon: galeria de imagens
Mãos
As mãos são a carne da comunicação.
Com as mãos, nos tocamos (Figura 1), nos damos (Figura 2), guardamos segredos (Figura 3) e rezamos (Figura 4).
Com as mãos, nos desenhamos (Figura 5).
Com as mãos, criamos figuras fantásticas (ver O Carnaval das mãos).
Com as mãos, também simulamos uma garrafa de Coca-Cola!
Marca: Coca-Cola. Título: Together. Direcção: David LaChapelle. USA, Fevereiro 2015.
- Figura 3. Auguste Rodin. O Segredo. 1895
- Figura 4. Auguste Rodin. Catedral. 1908.
- Figura 5. M.C. ESCHER, Drawing Hands, 1948
Vitral
Há dias sombrios em que a lua pasma dentro de nós. Mas há sons que são raios de sol. Esgueiram-se pelos poros da pele convertida em vitral. Iluminam-nos com lágrimas coloridas num colar de esperança.
Camille Saint Saens. Introduction et Rondo capriccioso en la mineur. Op. 28. 1863. Excerto.
O Beijo
Já se sentia a falta de um anúncio argentino.
O beijo consiste numa junção de orifícios com troca de saliva. Um risco de transmissão de doenças. Uma libertação de energia por fricção que não contribui para o PIB, nem paga impostos. Inscreve-se a contracorrente de tudo quanto é regra civilizacional de bem ser, de bem estar e de bem fazer. Prazeroso, mas arriscado e inútil. Nem sequer garante a ignição da reprodução da espécie. O beijo que se cuide, a depuração espreita. Depois dos apitos de fumo, das ingestões espirituosas, dos músculos moles e da vigília do ecrã, a vez do beijo está a chegar. A dupla ventosa humana vai ser, política, científica e tecnicamente, ajustada, graças a uma chuva de medidas: o beijo só é permitido a um mínimo de 20 cm de distância entre entidades beijadoras; o beijo é proibido nos locais frequentados… E cartazes com o lema: “Fumar aumenta a saliva”. E nos guardanapos: “Se é beijador compulsivo, o seu médico pode ajudar”.
Ainda bem que, a fazer fé neste anúncio, o beijo resiste a tudo!
Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: GUARNA. Argentina, 2009.















