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Procissão erótica

A academia é bipolar: Excitante para quem adere ao jogo, depressiva para quem o dispensa.

Figura 1. Trois phallus portant une vulve couronnée en procession. Enseigne en plomb, fin du XIVe siècle, Paris, Musée National du Moyen Âge.

Deus existe? A morte existe? E o sexo existe? Três nós cegos do nosso entendimento dados a recalcamentos e sublimações. Existem véus que não cobrem a realidade mas toldam o olhar, como cataratas no cristalino. Por conveniência, hipocrisia, pudor. No entanto, o sexo existe! Faz parte do triângulo da nossa obsessão quotidiana: Deus, morte e sexo. Com duas faces tensas: sol e lua, diurno e nocturno, taça e gládio, carne e espírito. Como redimir a alma quando a verdade é pecadora?

O Museu de Cluny, perto da Sorbonne, possui uma peça rara e ousada: uma insígnia erótica, do século XIV ou XV, composta por três falos antropomórficos que conduzem, em procissão solene, numa espécie de andor, uma vulva coroada (Figura  1). Presa no chapéu ou na capa, presume-se que esta insígnia, ou amuleto, era utilizada em espaços e situações especiais, tais como os prostíbulos e os rituais de fertilidade. Esta escultura em chumbo é minúscula. Mas a arte e o imaginário não se medem aos palmos. Segue uma pequena reportagem.

Les incroyables trésors de l’Histoire : Les pin’s érotiques du moyen-âge. Musée de Cluny. Le Point. França, Outubro 2013.

A viúva de mármore

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

Em 1981, o escultor Peter Schipperheyn foi contactado por Laurie Matheson para fazer uma escultura em tamanho natural de sua mulher, Christine. Em 1986, Laurie morre. A viúva, Christine, contacta Peter Schipperheyn para encomendar uma nova escultura, desta vez tumular, chamada Asleep: um nu que demonstra o seu apego ao marido. Asleep encontra-se no cemitério do Mte Macedon, em Victoria, na Austrália.

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

Sensualidade tumular

Halloween, Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos formam um interlúdio em que as fronteiras do além se esbatem. Os vivos visitam os mortos e os mortos visitam os vivos. Uma comunidade de vivos e de mortos. Convido-o a um passeio pelos cemitérios da Europa ao encontro de quatro belas esculturas mortuárias que revelam alguma sensualidade e algum erotismo.

 

 

Os anjos também sofrem

Escultura. Cemitério de Varsóvia

Escultura. Cemitério de Varsóvia.

Os anjos estão entre as raras figuras do nosso imaginário que tanto vivem nas trevas como na luz. Aprendi com o filme As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, que os anjos amam e sofrem. Os cemitérios, entrepostos da vida e da morte, abrigam muitos anjos inconsoláveis.

Acrescento o vídeo musical My Immortal, dos Evanescence. Porque sim!

Evanescence. My Immortal. Origin. 2000.

Na mão de Deus

Gustav Vigeland (1869-1943) - Man and woman (1905)

Gustav Vigeland (1869-1943) – Man and woman (1905).

Não resisto a acrescentar uma escultura de Gustave Vigeland (https://tendimag.com/2018/09/22/ate-que-a-morte-nos-separe-2/). Lembra Auguste Rodin, de quem era admirador, principalmente a escultura A Mão de Deus. Lembra, também, o soneto A Mão de Deus, de Antero de Quental (segue o original e a tradução em inglês). Para quem acredita em mãos, a mão de Deus promete um alívio infinito.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.

IN GOD’S HAND

In the right hand of God, in his right hand
My heart has found a resting-place at last.
Adown the narrow stairway I have passed
That leads us from Illusion’s magic land.

Like to the mortal flowers with which a band
Of children vainly deck them, I have cast
Away the transitory figment, and the vast
Deceit that Passion and the Ideal demand.

As a small child, upon a gloomy day.
Whose mother lifts him, smiling distantly,
And bears him, at her breast, upon her way.

Past woods and seas, o’er desert sand and sod.
Sleep thy deep sleep, O heart of mine now free.
Sleep thou forever in the hand of God!

Antero de Quental. Sonnets and poems of Anthero de Quental. University of California Press. Berkeley, California, 1922.

Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

Até que a morte nos separe

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway.

Na Internet, esta escultura de Gustav Vigeland aparece quase sempre intitulada: “Até que a morte nos separe” (Till Death Do Us Part). A designação original é: “Death Parting Man and Woman (“A Morte Separando um Homem e uma Mulher”). O sentido é praticamente o mesmo: a separação pela morte.

Apetece-me desconversar. Renovemos o olhar. A escultura apresenta um homem e uma mulher abraçados e a Morte a interpor-se. Lembra as danças macabras. Mas o casal não está separado nem a morte está em pose de triunfo. O casal continua abraçado e a morte concentrada no seu trabalho. Será que o Amor pode resistir à Morte?

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

“Falava Camões daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Todos resistimos à mortalidade, uns valerosamente, outros nem tanto” (Rita Ribeiro). Camões sabe que não é apenas “por obras valerosas que nos vamos da lei da morte libertando”, pelo amor, também. No Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel o Velho, ninguém escapa à fúria de Morte. Ninguém excepto um par de namorados, alheados da tragédia envolvente (ver no canto inferior direito do quadro da Fig. 11). Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Pedro e Inês, “da lei da morte se libertaram”.

11. Pieter Bruegel the Elder - The Triumph of Death (1562).

11. Pieter Bruegel the Elder – The Triumph of Death (1562).

As obras de arte permitem várias interpretações, por vezes, opostas. São polissémicas. Quem vence? O Amor ou a Morte? Depende da perspectiva. Como num poema de Clarice Lispector, se o olhar desce, surpreende a morte a separar o casal; se o olhar sobe, vislumbra o casal a resistir à Morte. As obras de arte ganham em ser ambivalentes.

Qual é a opinião do escultor? Ignoro. Mas, por importante que seja, não é a única nem, porventura, a mais decisiva. Esta é uma questão polémica no seio da sociologia da arte. A interpretação alternativa resume-se a um enxerto de sentido, neste caso, apressado e atrevido? Naturalmente. É um mero exercício de pensamento, que convoca um provérbio distinto: “nem a morte nos separa”. Mas a sina das obras de arte reside, precisamente, em incorporar as interpretações que suscita, incluindo as mais bárbaras. Esta é outra questão polémica na sociologia da arte.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

Gustave Vigeland (1869-1943) é um reputado escultor norueguês. Em 1921, a cidade de Oslo disponibilizou-lhe um estúdio em Frogner, nos arredores de Oslo. É o início de uma obra monumental que culmina no actual parque Vigeland. Desenha o parque, ao mesmo tempo, que introduz as esculturas. Começa com o Monólito (Fig 3) e a Fonte (Fig 6 ). No conjunto, são mais de 200 esculturas da sua autoria. O Parque Frogner/Vigeland, o maior da cidade de Oslo, destaca-se como uma maravilha mundial.

Esculturas de Gustav Vigeland. Vigeland Park. Oslo. Noruega.

Passar pela Noruega sem ouvir Edward Grieg não me parece bem. Edvard Munch pode esperar. Opto pela famosa Solveig’s Song. A canção termina com os seguintes versos:

“If you are in heaven now waiting for me
In heaven for me
And we shall meet again love and never parted be
And never parted be!”

(Edward Grieg. Solveig’s Song).

No céu, ninguém nos separará! Nem sequer as asas dos anjos.

Edward Grieg. Solveig’s Song. Peer Gynt. Intérprete: Marita Solberg. Direcção de Neemi Jarvi.

Selfies

Estou a converter-me às selfies. Ouso publicar três. Na primeira, a preferida, levanto-me com um sorriso. É para as candidaturas a artista. A segunda selfie é mais realista: tapo os olhos para não ver o que está à vista de todos. É para os concursos profissionais. Na terceira selfie, estou em pose de contra-ataque; simulo um coice. É para os debates científicos.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro que cobre os olhos, na Collégiale Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro que cobre os olhos, na Colegiada Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

O amor da arte

Lexus-NX-The-Art-Of-Standing-Out-Advert

“A arte é o caminho mais curto do homem ao homem” (André Malraux, 1949, Psychologie de art: La création artistique, Genève, Editions Albert Skira)

Um anúncio com arte assinado pela Lexus. É raro surpreender obras de arte tão bem incorporadas num vídeo. Uma pequena galeria com quadros de Vermeer, Mondrian, Van Gogh, Seurat, Hopper e escultura de Koons. Nada como o bom gosto. Diga-o com flores? Diga-o com arte. A Lexus deixa-se afagar pela aura da arte.

Marca: Lexus. Título: The art of standing out. Agência: Chi & Partners. Direcção: NE-O. Europa, Novembro 2017.

O triunfo da teratologia

meet-graham-hed-2017

O anúncio Meet Graham, da Transport Accidente Commission (Victoria, Austrália), não é um anúncio qualquer. Acaba de ganhar o Grande Prémio do Júri, do Festival de Cannes, de 2017. É, todo ele, impatante. A sobrevivência aos acidentes de trânsito requer um corpo adaptado, um corpo monstruoso como o de Meet Graham. O futuro não se escreve com linhas esbeltas mas com  massas e dobras adiposas. Especialistas em colisões e uma artista, Patricia Picinnini, deram corpo a esta criatura à prova de choque, por sinal, peça de museu. A opção é simples: ou monstros, ou mortos. Ressalve-se, no entanto, que esta “antecipação do futuro” vale para as estradas. Nos corredores do Homo Academicus, é diferente; só um hiper-monstro consegue resistir aos encontros entre pares. Neste caso, a língua deve medir, no mínimo, metro e meio, para lamber as botas; as costas muito largas e moles, para amortecer os golpes; o cérebro ínfimo, para não se afundar nas areias movediças do pensamento. Para um comentário mais completo a este anúncio: http://edition.cnn.com/2016/07/25/health/graham-human-body-sculpture-car-accident/index.html.

Anunciante: Transport Accident Commission – TAC Victoria. Título: Meet Graham. Agência: Clemenger BBDO Melbourn. Austrália 2016.