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A ave e os nus

Ando muito entretido a tentar interpretar duas esculturas estranhas que acolhem os crentes no portal da fachada principal da igreja de São João Baptista em Lamas de Mouro, Melgaço. Quando tal acontece, nada mais existe!

A abertura do documentário de Ricardo Costa dedicado a Castro Laboreiro, publicado pela RTP em 1979, (https://tendimag.com/2022/05/12/castro-laboreiro-o-fantasma-de-tarkovsky/) teve a arte de me lembrar um dos meus discos de eleição, e menos conhecido, do Vangelis, Heaven and Hell, lançado em 1975. Segue a parte I (lado A: 22:06). A parte II, minha preferida, já a coloquei mais do que uma vez (ver https://tendimag.com/2019/05/31/divertimento/). Não desistam a meio que não merece!

Vangelis. Heaven and Hell. Parte I. 1975.

Televisita. Roy Orbison a preto e branco

Olhar para todos os lados, cuidar de todos. Cristo de La Llagonne. França. Escola Catalã. Séc. XII.

“Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida’ (Lucas 15).

Roy Orbison and Friends: A Black and White Night decorre de um programa de televisão, emitido em janeiro de 1988, com várias prestações de concertos ao vivo de Roy Orbison, acompanhado por celebridades tais como Bruce Springsteen, Elvis Costello, Tom Waits, K. D. Lang ou a TCB Band, a última banda de Elvis Presley. O filme, a preto e branco, foi publicado em vários formatos. Os vídeos seguintes são extraídos da versão em Blu-ray. Demasiadas canções? O repertório de Roy Orbison justifica-o. Existe, por acréscimo, quem disponha de tempo para as apreciar. Uma pessoa será, aliás, o suficiente. Este post apresenta-se como um arremedo de companhia, companhia que a música e as novas tecnologias possibilitam. Uma televisita.

Roy Orbison. Only the Lonely. A Black & White Night Live. Ao vivo em 1987. Blu-ray, 2017.
Roy Orbison. Pretty woman. A Black & White Night Live. Ao vivo em 1987. Blu-ray, 2017.
Roy Orbison. Blue Bayou. A Black & White Night Live. Ao vivo em 1987. Blu-ray, 2017.
Roy Orbison. Running Scared. A Black & White Night Live. Ao vivo em 1987. Blu-ray, 2017.

Convite à viagem

Quando escuto música francesa, espanhola, italiana, portuguesa ou brasileira, acontece entusiasmar-me. Anuncia-se difícil desligar. Neste mundo, com esta globalização, os Doors, os Pink Floyd, os Rolling Stones ou os Moody Blues fazem parte da minha identidade, não fazem, contudo, parte da minha identificação específica, mais ancorada em outros compositores e cantores, tais como Jacques Brel, Angelo Branduardi, José Afonso ou Maria Bethânia. Convocam outras raízes e provocam outros sentimentos. São “cânticos da alma”, que se destacam não tanto pela qualidade, mas, como diriam os galegos, pelas afinidades do fado e de fala.

  • No artigo precedente, Perto do Céu, Antony canta com Franco Battiato, compositor, cantor, pintor e escritor italiano, “un símbolo de la cultura europea moderna: iconoclasta, misterioso, místico, único” (El Mundo, Martes, 18 mayo 2021 – 17:20). Com cerca de 40 álbuns editados, Franco Bettiato faleceu em maio do ano passado com 76 anos de idade, vítima de “uma doença que lhe devorou lentamente o cérebro prodigioso”.

Não é fácil selecionar três músicas de uma discografia tão extensa e diversificada. Seguem Invito al viaggio, La cura e La stagione dell’amore. O videoclip oficial de La Cura foi filmado em Lisboa e a presente versão de Invito al viaggio é transmitida pela televisão espanhola, dois indícios de alguma cumplicidade.

Franco Battiato. Invito al viaggio. Tve1, 2015.
Franco Battiato. La cura. Com Royal Philharmonic Concert Orchestra. 2016.
Franco Battiato. La stagione dell’amore. Orizzonti perduti. 1983. Music video, 2013.

Mãos exiladas

Auguste Rodin. A Catedral. 1908.

Há mais de um ano que não dava um passeio. Hoje, visitei o Museu D. Diogo de Sousa, atraído pela valiosa Coleção Bühler-Brockhaus. Vale a pena! Creio que também vale a pena espreitar, pelo prazer visual, o vídeo Mãos Exiladas e a respetiva galeria de imagens, com desenhos de Albrecht Dürer e esculturas de Auguste Rodin.

Albertino Gonçalves. Mãos Exiladas: Dürer & Rodin. Dezembro 2021.

Galeria de imagens: Mãos Exiladas – Dürer & Rodin

Gárgula exibicionista

Um comentário, bem-vindo, no Tendências do Imaginário alerta para uma falha no artigo Gárgulas impúdicas (https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/): nada menos do que a gárgula mais que impúdica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. No artigo “Gárgulas em Guimarães”, no blogue PROSIMETRON (http://prosimetron.blogspot.com/2012/05/gargulas-em-guimaraes.html), figura a respetiva fotografia, acompanhada pelo seguinte texto:

Esta gárgula da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira tem uma história. Mas a imagem vista do solo não se pode mostrar dado que as gárgulas só servem para escoar água… o resto é paisagem.

Gárgula. Igrej_ de Nossa Senhora da Oliveira. Guimarães.

O artigo Gárgulas Impúdicas (https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/) contempla apenas uma pequena parte das gárgulas existentes. Demonstra-o o artigo “Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval”, de Joana Antunes ( Universidade de Coimbra | FLUC |CEAACP | MNMC: https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1). Acrescentando uma magnífica fotografia da gárgula da Colegiada, escreve:

“Em Portugal, prestam-lhes as devidas honras as já aludidas gárgulas, como o famoso “Cu da Guarda” e os seus congéneres da Sé de Braga, da Matriz de Caminha e da Matriz de Escalhão (…), do Castelo de Pinhel ou, ainda, da quimera da torre do relógio de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (…), muitas delas ainda hoje popularmente aclamadas enquanto expressão de um certo sentimento nacional historicamente ressentido dos acometimentos dos reinos vizinhos. Voltados para Espanha – de onde não virão, afinal, nem bons ventos nem bons casamentos, mas de onde terá vindo uma boa parte da mão-de-obra que as criou – estes exibicionistas (termo importado da historiografia anglo-saxónica para este tipo preciso de figuras, tal como clarificado por Linquist, 2012: 325) seriam então uma provocação além-fronteira”.

Quimera exibicionista. Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. Fonte: Joana Antunes, Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval (https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1).

O que foi descoberto deu, a seu tempo, prazer, o que, entretanto, se descobrir não dará, certamente, menos.

Loucura por conveniência

Retrato de Camille Claudel. Pormenor. Cerca de 1883.

“La familia la declaró loca y la metió en un manicomio.
Camille Claudel pasó allí, prisionera, los últimos treinta años de su vida.
Fue por su bien, dijeron.
En el manicomio, cárcel helada, se negó a dibujar y a esculpir.
La madre y la hermana jamás la visitaron.
Alguna que otra vez se dejó ver su hermano Paul, el virtuoso.
Cuando Camille, la pecadora, murió, nadie reclamó su cuerpo.
Años demoró el mundo en descubrir que Camille no sólo había sido la humillada amante de Auguste Rodin.
Casi medio siglo después de su muerte, sus obras renacieron y viajaron y asombraron: bronce que baila, mármol que llora, piedra que ama. En Tokio, los ciegos pidieron permiso para palpar las esculturas. Pudieron tocarlas. Dijeron que las esculturas respiraban.” (Eduardo Galeano. Resurrección de Camille. Espejos. 2008).

Galeria com esculturas de Camille Claudel.

A loucura de Camille Claudel.

“Claudel’s father approved of her career choice, and he tried to help and support her financially. But when he died on 2 March 1913, Claudel was not informed of his death. Instead, eight days later, on 10 March 1913, at the request of her younger brother Paul, she was admitted to the psychiatric hospital of Ville-Évrard in Neuilly-sur-Marne. (…)
Doctors tried to convince Paul and their mother that Claudel did not need to be in the institution, but they still kept her there. According to Cécile Bertran, a curator from the Musée Camille Claudel, the situation was not easy to judge, because modern experts who have looked at her records say she was indeed ill.(…)
For a while, the press accused her family of committing a sculptor of genius. Her mother forbade her to receive mail from anyone other than her brother. The hospital staff regularly proposed to her family that Claudel be released, but her mother adamantly refused each time.[50] On 1 June 1920, physician Dr. Brunet sent a letter advising her mother to try to reintegrate her daughter into the family environment. Nothing came of this.
Paul Claudel visited his confined older sister seven times in 30 years, in 1913, 1920, 1925, 1927, 1933, 1936, and 1943. He always referred to her in the past tense. Their sister Louise visited her just one time in 1929. Her mother, who died in June 1929, never visited Claudel” (Wikipedia. Camille Claudel: https://en.wikipedia.org/wiki/Camille_Claudel).

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.

À porta do inferno

Auguste Rodin. Pormenor da Porta do Inferno. 1880–1917.

Bruno Aveillan produz uma curta-metragem, Divino Inferno, dedicada à Porta do Inferno, de Auguste Rodin. Uma confluência de dois artistas do sobre-humano. Uma esteticização do sofrimento extremo e da resistência visceral. O desespero, a travessia arrepiada.

Seguem três vídeos. 1) Divino Inferno; e 2) Humans, ambos de Bruno Aveillan; e, para complemento, 3) Auguste Rodin – The Gates of Hell, um documentário do Canal Educatif à la Demande (CED).

Título: Divino Inferno [Rodin created the Gates of Hell ]. A film by Bruno Aveillan. Produced by Arte, National French Museum Guild (RMN), NOIR, Quad & Fix Studio. 2017.
Título: Humans. Directed by Bruno Aveillan. Edit by Thanh Long Bach. Music by Max Richter: Dona Nobis Pacem 2. 2019.
Auguste Rodin – The Gates of Hell. Canal Educatif à la Demande (CED). 2008.

Solidão e indiferença

Gloria Friedmann. Les Contemporains. 2007

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Gloria Friedmann. Le compteur du Temps. Dijon. 2020.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.

Anunciante: Ministère des Solidarités et de la Santé. Título: Parce qu’on rêve tous de se retrouver. Agência: MullenLowe Paris. Direção: Olivier Desmettre. França, Março 2021.
Gilbert Bécauid. L’INdifférence. 1977.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?