Por outro lado

Que me lembre, estou pela primeira vez a escrever uma conversa. O motivo é simples: não pode durar mais de 90 minutos e quero saber onde tenho que cortar. Não sobra tempo para outros prazeres. Nada de explorações, limito-me a bater às portas da memória. Revisito. Por exemplo, os Doors. Remasterizados e algo mais. Proporcionam energia insubmissa.
Cruzeiro em águas remotas
Existe música clássica, jazz, pop, rock, country… ou simplesmente boa música, à espera de resgate e, eventualmente, reinterpretação. Na música, como na sociologia. Muitos mestres, nenhum ídolo, nem escola, corrente ou rede especial. Um passaporte para o isolamento e a autodeterminação.
Com uma carreira notável, colecionadora de êxitos (originais) e amores (célebres), Carly Simon regressa em 2005 com um o álbum “Moonlight Serenade” e dois concertos num cruzeiro a bordo do Queen Mary 2 (DVD “A Moonlight Serenade on the Queen Mary 2”). Seguem três canções da sua autoria e outras tantas versões de músicas dos anos 30′.
Errar é humano. O vídeo, o sexo e os cigarros
Engano-me tantas vezes que acabei por fazer do erro um amigo. Gosto, portanto, do Gaston Bachelard quando afirma que “não há uma verdade primeira, apenas erros primeiros” ou que “o conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão”.
Convenci-me que o vocalista da banda norte-americana Cigarettes After Sex era uma mulher! Na verdade, acedo a muita música, logo músicos, sem qualquer visualização.

Quando observei, há dias, um concerto dos Cigarettes After Sex, estranhei que aparecesse um homem com barba a cantar. Esperei pela substituição. Mas não! Procurei informar-me sobre alguma alteração na composição da banda. Só em último recurso, vencida esta resistência, constatei que a voz era a mesma. Em suma, tudo leva a crer que a visão continua a prevalecer sobre a audição!
Vocalista, guitarra e fundador dos Cigarettes After Sex, Greg Gonzalez “é barítono, mas canta usando uma mistura de voz de peito e falsete, o que cria seu som característico. (…) Esse estilo vocal leva a voz dele a ser frequentemente descrita como andrógina, o que leva algumas pessoas a assumir incorretamente que o cantor é mulher.”
Graças a esta ilusão, a banda adquiriu um valor acrescido. Coloquei, em janeiro de 2024, duas canções: “Nothing’s Gonna Hurt You Baby” e “Affection” (Cigarettes after sex). Acrescento cinco: “Sunsetz”, “K”, “Apocalypse”, “Sweet” e “Crush”.
Dança da vida, triunfo da morte

Um compositor anónimo italiano do início do século XVII, possivelmente Stefano Landi, compôs a passacaglia magistralmente cantada pelo grupo Apollo’s Fire. Trata-se de “um estilo de composição musical baseada num tema, que é repetido constantemente no baixo, e em variações sobre esse tema na melodia principal”.

“Este gênero, que data do século XVI, é fascinante. Simples e direta, a passacaglia atinge o coração do ouvinte com a sua melodia repetitiva e precisa, como o mecanismo de um relógio. O texto representa um memento mori, apresentado com graciosidade, uma dança macabra (…), que nos convida a refletir profundamente sobre a nossa existência.
Imagem: Mestre de Adelaide de Savóia. História de Merlim, Poitiers, ca. 1450-1455
Pois na nossa dança diária da vida, a um dado momento importa entregar-nos a uma pausa de reflexão (…) para nos interrogar se aquilo que somos é aquilo que gostaríamos de ser. É neste momento, quando paramos para pensar, que um novo impulso vital costuma surgir. Indo do movimento para a quietude e depois novamente para o movimento, percebemos que temos um passado e, embora não tenhamos a certeza de ter um futuro, vivemos verdadeiramente no presente. A vida é uma dança para a qual todos somos convidados, sem máscaras nem fantasias. E enquanto durar, por este momento de eternidade, podemos perfeitamente dançá-la bem.” (La Passaglia della Vita ©Marco Beasley: https://www.marcobeasley.it/la-passacaglia-della-vita.html).
Educação sexual. Alternativas
A série Jogar às cartas com o Diabo não é leve; e ainda faltam dois episódios. Convém introduzir um intervalo para publicidade.
Existem muitas fontes de educação sexual. A publicidade será uma delas. Os anúncios seguintes, dois portugueses, oferecem-se como exemplos de modalidades alternativas.
O “Cavalo”, da Indie Júnior, aponta para a autoaprendizagem entre pares. “Os boxes para toda a obra”, da Leroy Merlin, e “Um canalizador picante, mas não muito picante”, da Doritos, possuem um valor ilustrativo, convocando a figura metafórica, assaz corrente e didática, do canalizador a domicílio.
Trans. Antony e Anohni
A neta já partiu e os dois textos agendados, um prefácio e uma recensão, já saíram da forja. Solitário, como quase sempre, e com tempo disponível, regresso ao vício, ao Tendências do Imaginário [por exemplo, ler artigos de história da arte seria mais edificante].
Escrevo este post a pensar em amigas que lamentam ter perdido o rasto do Antony, leader da banda Antony and the Johnsons.

Por volta de 2015, Antony assume-se transgénero, muda o nome para Anohni e pede para ser tratada no feminino, como mulher.
Antony, publicou quatro álbuns: Antony and the Johnsons (2000), I Am a Bird Now (2005), The Crying Light (2009) e Swanlights (2010). A Anohni, que tenha conhecimento, três: Hopelessness (2016), Paradise (2017) e My Back Was A Bridge For You To Cross (2023).
“Anohni e a sua banda são uma presença assídua em Portugal, onde já atuaram em Lisboa, Porto e em Braga. Anohni considerou o Theatro Circo um “local mágico” e um dos mais belos teatros onde já havia tocado.” (Wikipedia, Anohni, consultado 30.07.2025).
Segue uma mão cheia de canções do último mais recente da Anohni (My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023): “Sliver of Ice”; “Spacegoat”; “Rest”, “You Be Free”; e “It Must Change”.
Recolhimento

Frescura balnear contrariada pela urgência de um artigo para uma revista francesa e de um prefácio para o livro de uma amiga, ambos para este mês. Sair, só para compras ou, ao entardecer, para uma água tónica na esplanada do Mergulho com vista privilegiada para a praia. As canções do Gregory Alan Isakov têm-me acompanhado nos últimos dias. “Venham mais cinco!”
Cansado da Espada
Não a conseguimos agarrar: a felicidade tem asas (Damócles)

Não estou só “cansado da América”, mas da espada, em geral. Rufus Wainwright (Ruz), nascido em 1973 em Nova Iorque e residente no Canadá, é compositor e compositor brilhante com uma voz única. No entanto, “apesar de um crescente grupo de fãs e da grande aclamação da crítica, Ruz alcançou somente um pequeno sucesso comercial”.
Imagem: Thomas Couture. Damócles. 1866
A Harpa, o Rouxinol e a Rosa
Para alguns, a vocação do ser humano é trabalhar; para outros, explorar ou dominar. No que me respeita, partilhar. De preferência, dar. Antes de mais, prazer. Mas para dar, não basta querer. É preciso alguém para receber. Acontece não conseguir… (AG).

O Tendências do Imaginário já dedicou um artigo a Deborah Henson-Conant, versátil e surpreendente harpista e compositora norte americana, célebre pela autoria da música “The Nightingale” (O Rouxinol). Segue o original instrumental, bem como a versão, com violoncelo, interpretada pelo duo romeno Cell’Arpa (Roxana Moisanu e Mladen Spasinovici, da orquestra da Ópera Nacional de Bucareste.

Para complementar a música, talvez se proporcione a leitura do conto, com subtis ressonâncias eróticas, “O Rouxinol e a Rosa”, do Oscar Wilde, que uma amiga virtuosa e oportunamente me sugeriu.
Pode também acompanhar a leitura com outras músicas. Por exemplo, as canções “The Nightingale” (1989), da série Twin Peaks, com interpretação de Julee Cruise, ou a “Cantilena” (1969), do Padre Francisco Fanhais.
Ilustração de P. J. Lynch, 1990
Memorial

Existem momentos em que é muito importante recordar; nos outros, também! Agradeço à Almerinda Van Der Giezen a partilha deste dois links respeitantes ao espiritual “Wade in the Water”.
Imagem: Peter Lely. Elizabeth Murray (1626–1698)with a Black Servant. C. 1651
“Wade in the Water” é um dos espirituais afro-americanos mais conhecidos e carregados de significado histórico, cultural e religioso. A canção remonta ao século XIX e está profundamente ligada à experiência dos escravizados nos Estados Unidos e ao movimento de libertação por meio da Underground Railroad (Rede de Fuga). (…)
Interpretação religiosa:
• Faz alusão ao episódio bíblico de João 5:4, onde um anjo “agitava as águas” e quem entrasse primeiro seria curado. A ideia é que Deus está presente e ativo, oferecendo livramento e cura.
• O uso da palavra “trouble” (perturbar/agitar) sugere que algo milagroso está prestes a acontecer.
Interpretação codificada:
• Acredita-se que essa música também tinha função prática na fuga de escravizados. “Wade in the water” era um conselho literal: entrar na água para mascarar o rastro e confundir os cães farejadores dos caçadores de escravos.
• Harriet Tubman, uma das principais líderes da Underground Railroad, teria usado canções como essa para comunicar rotas e perigos de forma velada. (…)
Legado
“Wade in the Water” é mais que uma canção: é um símbolo de resistência, fé e inteligência coletiva dos povos escravizados. Faz parte de um legado musical e cultural que influenciou o gospel, o blues, o jazz e o soul, sendo até hoje cantada em contextos religiosos, educacionais e artísticos. (ChatGPT, 29/05/2025)
