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O Rei da “Música da Alma”

Acabei de dar uma aula à Academia Sénior de Braga. Duas horas de pé sem vacilar.

Nas sociedades contemporâneas, designadamente nas cidades, insinuam-se duas ameaças que assombram os mais velhos: a solidão e o sentimento de inutilidade. As academias seniores oferecem-se como uma forma de lhes fazer face. O efeito da idade consta entre os mais negligenciados pela Sociologia.

Sem descurar a interação entre gerações, as pessoas tendem a apreciar o convívio com os da mesma idade. Os jovens, certamente; mas os mais velhos, também.

Prosseguindo a viagem pelo outro lado da América, ao ouvir Percy Sledge acode Otis Redding. Dois grandes da soul music. Otis Redding faleceu, com 26 anos. O seu avião pessoal caiu em dezembro de 1967 num lago gelado a cerca de 5 Km do destino. Acabara de gravar a canção “(Sittin ‘On) The Dock of the Bay” lançada postumamente em janeiro de 1968, “o único single de Redding a alcançar o número um na Billboard Hot 100 e o primeiro single póstumo número um na história das paradas dos Estados Unidos”.

Otis Redding – (Sittin’on) The Dock of the Bay. The Dock of the Bay, 1968
Otis Redding – For Your Precious Love. The Great Otis Redding Sings Soul Ballads, 1965
Otis Redding – I’ve Been Loving You Too Long. Otis Blue/Otis Redding Sings Soul, 1965
Otis Redding – These Arms of Mine. Pain in My Heart, 1964
Otis Redding – Try a Little Tenderness (cover). Complete & Unbelievable: The Otis Redding Dictionary of Soul, 1966

Sem precipitações

Amanhã, vou dar uma aula respeitante à iconografia da Virgem Maria. Por outro lado, continuo às voltas com os Estados Unidos. De passagem pelos anos sessenta dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, desemboquei na figura do Percy Sledge e na canção “My Special Prayer”.

Percy Sledge – My Special Prayer. The Percy Sledge Way, 1967
Percy Sledge – When a Man Loves a Woman. When a Man Loves a Woman, 1966
Percy Sledge – Take Time to Know Her. Take Time to Know Her, 1968
Percy Sledge – It Tears Me Up. When a Man Loves a Woman, 1966

Corações ao alto

A história é uma galeria de quadros onde há poucos originais e muitas cópias (Alexis de Tocqueville, L’Ancien Régime et la Révolution, cap. VI, 1ª ed. 1856).

Hegel observa algures que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). 

A propósito dos Estados Unidos, onde é que já vi algo semelhante como tragédia? Importa, no entanto, não esquecer aqueles que nos enriqueceram

Pelos vistos, tenho o coração em estado razoável! Reconheceu-o ontem a cardiologista após semanas de exames. Para saborear, deu-me para ouvir os Pearl Jam. Títulos como “Alive” (1991), “I Am Mine” (2002), “Just Breath” (2009) e “Future Days” soavam de feição.

Há duas semanas, 8 de maio, no concerto da Bridgestone Arena, em Nashville, os Pearl Jam convidaram o Peter Frampton para os acompanhar na canção “Black”. Pois o que se costuma dizer das divindades e dos anjos, parece aplicar-se a determinadas estrelas do rock: “sem idade”. Peter Frampton, embora com 75 anos, mobilidade reduzida e bengala, evidencia a habitual destreza na guitarra.

Proporcionou-se recuar a 1976, ano em que adquiri o Frampton Comes Alive. Naquele tempo, comprar um álbum duplo doía na carteira. Convinha, efetivamente, gostar!

Seguem três vídeos com músicas contempladas no álbum Frampton Comes Alive. Todas ao vivo: “Do You Feel Like We Do”, em 1975, “Show Me The Way”, em 1977, e, finalmente, “Baby I Love Your Way”, em 2019. Acresce o vídeo referido com a interpretação de “Black” com os Pearl Jam, tinha Peter Frampton 75 anos de idade.

A comparação do Peter Frampton em 1975 e 2025 comove. Afortunadamente, o bom coração parece estar bem.

Peter Frampton – Do You Feel Like We Do. Frampton’s Camel, 1973. Performance at Burt Sugarman’s Midnight Special, circa 1975
Peter Frampton – Show Me The Way. Frampton, 1975. Live at Oakland Coliseum Stadium, 7/2/1977
Peter Frampton – Baby I Love Your Way. Frampton, 1975. Live at  ine Knob Music Theatre, Clarkston, Michigan, 25/7/2019
Pearl Jam – Black (with Peter Frampton). Ten, 1991. Live at Bridgestone Arena, Nashville, 8/5/2025

Concha crepuscular

Imagino os anos noventa como uma concha com bastantes pérolas raras, mas de pouco aconchego para a geração vindoura. Mergulhou-a em águas paradoxais e paroxísticas, com a herança por desventura mais complicada desde a Segunda Guerra.

Os Mazzy Star eclodiram nos anos noventa. As suas canções ainda reverberam, sem, contudo, viralizar. Um rio subterrâneo em território sombrio e confuso. Em suma, desconchavado. Em vez de nos ufanar com as riquezas e conquistas que conseguimos, creio revelar-se mais oportuno assumir os desafios e as misérias que criámos e não enfrentámos. Um legado de tanta potência e vulnerabilidade numa vertigem de ansiedade e melancolia.

Os Mazzy Star são uma banda norte-americana de rock alternativo, fundada em 1989, composta, principalmente, pelo guitarrista David Roback e pela vocalista Hope Sandoval. Particularmente ativa até 1997, lançou três álbuns durante esse período: She Hangs Brightly (1990); So Tonight That I Might See (1993); e Among My Swan (1996). O quarto álbum, Seasons Of Your Day, foi editado em 2013, um ano antes de a banda se dissolver. “Fade Into You” (1993), “Into Dust” (1993), “Blue Light” (1993), “Flowers in December” (1996) e “Look On Down The Bridge” (1996) constam entre as canções mais caraterísticas e de maior sucesso.

Mazzy Star – Fade Into You. So Tonight That I Might See, 1993. Live at the Shoreline Amphitheatre in 1994
Mazzy Star – Into Dust. So Tonight That I Might See, 1993. Black Session, Studio 105 Paris. October 26th 1993
Mazzy Star – Blue Light. So Tonight That I Might See, 1993
Mazzy Star – Flowers In December. Among My Swan, 1996. Dutch music show “2 Meter Sessies”. Filmed on November 6, 1996
Mazzy Star – Look On Down From The Bridge. Among My Swan, 1996

Lobo

Enquanto a curiosidade não paga, creio, taxa de entrada nos Estados Unidos, aproveite-se para visitar tão contrastado mosaico, alternando arqueologia e prospeção, relíquias escavadas na memória e revelações mais ou menos recentes.

Lobo (Roland Kent LaVoie), nascido na Flórida em 1943, compositor e cantor, alcançou enorme sucesso nos anos setenta, com várias canções no topo de vendas nos Estados Unidos e na Europa. Nos anos noventa, o centro de gravidade da sua atividade deslocou-se para o continente asiático. Em 2022, com cerca de 80 anos, continuava ativo.

Alguns jovens da minha idade lembrar-se-ão, talvez, de canções tais como “I’d Love You To Want Me”, “Don’t Expect Me To Be Your Friend” ou “How Can I Tell Her”, do álbum Of a Simple Man, estreado em 1972. Por essa altura, não parava de riscar o 45 rotações com “I’d Love You To Want Me”. A estas canções, acrescento “Faithful” de uma fase “asiática” mais tardia (anos noventa).

Uma vez que o Lobo sofreu um apagão no Ocidente, pedia um feedback, um esboço de sinal [um (des)gosto ou emoji] a quem dele se recorde.

Lobo – I’d Love You To Want Me. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Don’t Expect Me To Be Your Friend. Of a Simple Man, 1972
Lobo – How Can I Tell Her. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Faithful. Asian Moon, 1994. 2004 Remaster

Sem fim

Não queria despedir-me [até à próxima] de Jeff Buckley sem partilhar duas canções que estimo menos conhecidas: “All Flowers in Time Bend Towards the Sun”, um dueto com Elizabeth Fraser, que junta duas vozes fabulosas; e “Je N’en Connais Pas La Fin”, um namoro ousado, mas bem conseguido, com a “canção francesa”.

Jeff Buckley & Elizabeth Fraser – All Flowers In Time Bend Towards The Sun. Unreleased, unfinished acoustic track by Jeff Buckley and his then partner Elizabeth Fraser. Recorded sometime around 1995-1996. Taken from the album “Rarities From NYC” and remastered by TheRightEarOfNash (2018).
Jeff Buckley – Je N’en Connais Pas La Fin. Live At Sin-é (Legacy Edition). Released on: 2001-07-03. Live at Sin-é, New York, NY – July/August 1993

Mágua

I’ve always felt that the quality of the voice is where the real content of a song lies. Words only suggest an experience, but the voice is that experience (Jeff Buckley)

Cantor, compositor e guitarrista norte-americano, Jeff Buckley foi uma das maiores revelações dos anos noventa. Não sei se me é permitido, mas arrisco afirmar que “bastante louvou Quem cedo o levou”. Faleceu afogado, em 1997, com 30 anos de idade, quando nadava, entoando uma música dos Led Zeppelin, num afluente do rio Mississipi. Seguem quatro canções com inspiração religiosa: Grace; Corpus Christi Carol; Satisfied Mind; e, incontornável, a versão de Hallelujah, do Leonard Cohen.

Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995
Jeff Buckley – Corpus Christi Carol. Grace. 1994
Jeff Buckley – Satisfied Mind. Sketches for My Sweetheart the Drunk. 1998
Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995

Noturnos com lua cheia

Pelos cinco continentes: depois da Oceânia, da Europa, da América Latina, da Ásia e da África, chega a vez da América do Norte. Admito que nestas travessias o meu radar não privilegia os Estados Unidos. Na minha opinião, exorbitam em recursos de divulgação e agentes de promoção. O que não obsta à profusão de autores e obras com qualidade, diversidade e originalidade notáveis. Como diz uma amiga, transbordam de surpresas e idiossincrasias.

Resulta estranho, mas o Tendências não contempla uma única canção dos The National, banda de indie rock fundada em 1999 no Ohio. Para compensar, segue meia dúzia de canções por data de estreia, excetuando a mais antiga que surge em último lugar. Por vício, relega-se para o fim aquilo que se pretende relevar.

The National – I Need My Girl. Trouble Will Find Me. 2013
The National – Peggy O. Day of the Dead. 2016. Cherry Tree Live Tour vol. 2. 2020
The National – Guilty Party. Sleep Well Beast. 2017. Live in the KEXP studio. Recorded November 29, 2017
The National – Space Invader. Laugh Track. 2023. With Jools Holland on BBC iPlayer, 2023
The National – Eucalyptus. First Two Pages of Frankenstein. 2023. Official Video
The National – About Today. Cherry Tree. 2004. Live. Germany 2008

O Êxtase de Santo Horácio Jogador

Xbox. Wake Up. Trailer. 2025

Horácio, transformado em rato, recupera a humanidade graças ao prazer do jogo (gaming). Seguimo-lo na azáfama quotidiana como rato: ambiente sobrepovoado, tédio laboral, almoço apressado na secretária. A rotina é interrompida por aparições breves de jogadores misteriosos — os únicos humanos entre os ratos. Findo mais um dia interminável, Horácio liga o Xbox na TV OLED Samsung e conecta-se com os amigos. Uma dose de diversão imprescindível que o converte no ser humano que sempre foi (Tradução muito livre).

“Deus criou três inimigos por causa dos nossos pecados: o rato nas nossas casas, a raposa na montanha e o cura na nossa paróquia” (provérbio da América Latina)”. Que fazer contra o estigma, a obsessão profundamente enraizada? Pobres ratos, associados ao mal, calhou-lhes o lado noturno do imaginário.

Xbox – Wake Up. Agência: Droga5, New York. Direção: David Fincher. USA, abril 2025

Morte Encalhada

Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).

Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.

A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.

Death Stranding 2: On the Beach – Pre-Order Trailer | PS5 Games. Colocado em 9 de março de 2025.

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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)