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“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço

Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.

Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Fantasmas do Mês dos Medos

O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.

Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”

Anunciante: Pepsico. Produto: Cheetos. Título: Todo Por Cheetos. Agência: Isla Ciudad de México. Canção: “La Llorona”, interpretada por Chavela Vargas. México, outubro 2025

A Banheira Fantasma

O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).

O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.

Marca: Hornbach. Título: DIY Odyssey / The Square Meter. Agência: HeimatTBWA, Berlin. Direção: Lope Serrano. Alemanha, agosto 2025

Anúncios de arrepiar

Brinquemos aos disparates!

Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.

Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal

Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.

O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.

Anunciante: APSI (associação para a promoção da segurança infantil). Título: Heavy Silence. Agência: Havas Worldwide Portugal. Portugal, julho 2022
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Park. Agência: Grey Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, agosto 2025

Martirografia

Nikola Saric. Les Martyrs de Libye, 2018. Aguarela (100 x 70 cm). Original no Petit Palais, em Paris

Impressionou-me a aguarela “Os mártires da Líbia” (2018), da autoria de Nikola Saric, artista sérvio residente na Alemanha (ver Interview With Nikola Sarić). Foi concebida em memória dos 21 operários coptas assassinados pelo Daesh, na Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. À primeira vez, pensei estar perante uma imagem medieval. Ocorreu-me, então, a palavra “martirografia” para aludir à análise das imagens respeitantes a mártires e martírios.

Não encontrei a palavra “martirografia” nos dicionários de língua portuguesa que consultei. Mas, como de costume, acabo por “inventar a pólvora”. Um vício entranhado que me dá um certo gozo.

Outros já tiveram a mesma inspiração, muito embora em italiano. Por exemplo, Roberta Denaro no subtítulo da obra Dal martire allo sahid: Fonti, problemi e confronti per una martirografia islamica, publicada em 2007.

“Os mártires da Líbia”, de Nikola Saric, foi recentemente incluída na coleção do Petit Palais, de Paris. Esta aquisição justifica uma notícia circunstanciada pela Aleteia, redigida por Caroline Becker, que entendo colocar. Para aceder ao artigo correspondente, carregar no seguinte endereço: https://fr.aleteia.org/2019/09/27/une-icone-sur-le-martyre-des-21-coptes-accrochee-au-petit-palais/. Acrescento a tradução simultânea do texto.

O Petit Palais acaba de fazer uma aquisição verdadeiramente emocionante. O museu parisiense adquiriu uma enorme aquarela contemporânea pintada em memória dos 21 trabalhadores coptas assassinados pelo Daesh na praia de Sirte, Líbia, em 15 de fevereiro de 2015. Uma tragédia que muitos não esqueceram, incluindo o pintor Nikola Saric, autor desta obra inspirada na iconografia bizantina.

Na parte superior, Cristo é cercado por uma suave luz rosa. Sua figura entronizada e hierática é contrabalançada pela bondade de seu rosto. Num gesto paternal, seus braços se estendem e abraçam seus filhos, os 21 mártires cristãos egípcios brutalmente assassinados pelo Daesh em 2015 em uma praia da Líbia. Um drama filmado, visto por milhões de internautas, que ninguém esqueceu.
Nikola Saric, o artista cristão sérvio por trás desta obra, também não se esqueceu. Ansioso por transcender esse martírio coletivo, ele escolheu a pintura como válvula de escape. O resultado é um ícone fortemente inspirado na iconografia tradicional bizantina. Composta a partir do vídeo da execução, a obra sintetiza os diferentes elementos da encenação: os 21 reféns, alinhados de joelhos, vestem macacões laranja. Os carrascos, atrás deles, formam outra fila e estão escondidos sob trajes pretos com capuz. Eles seguram os condenados no chão, com facas na mão.
O artista optou por incluir a figura de Cristo para recordar o sacrifício dos coptas que se recusaram a renunciar à sua fé. A sua presença realça, assim, que não se trata de uma simples execução, mas sim de um martírio. Cristo também está, simbolicamente, vestido com a mesma cor laranja. Uma iconografia que lembra o ícone dos Quarenta Mártires de Sebaste , um ícone do século XV que narra o martírio de 40 soldados cristãos durante o reinado do imperador romano Licínio, em 320. Outro martírio coletivo testemunhado por Cristo e do qual Nikola Saric se inspirou para criar o seu ícone. Com esta obra contemporânea, o artista sérvio coloca-se imediatamente na linhagem dos ícones hagiográficos.
Com esta aquisição, o museu parisiense completa sua já impressionante coleção de ícones. No entanto, esta é a primeira vez que adquire um ícone contemporâneo, marcando uma virada na história de suas coleções. Com esta obra original, a instituição testemunha eventos recentes da história e revela o nascimento do culto aos santos contemporâneos. Os 21 coptas já estão, de fato, listados no Synaxarium , o equivalente ao Martirológio Romano para a Igreja Copta, o que significa que já estão canonizados.”
(Caroline Becker, ” Um ícone do martírio dos 21 coptas pendurado no Petit Palais”. Aleteia, publicado em 27/09/2019)
40 Martyrs at Lake Sebaste – Greek Orthodox Archdiocese of America – Orthodox Church

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

Riso e ridículo sem fronteiras

Digamos algumas palavras prévias acerca da natureza complexa do riso carnavalesco. É antes de mais um riso de festa. Não é, portanto, uma reação individual perante um qualquer fato “engraçado” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar propriedade, do conjunto do povo (…) todo o mundo ri, é o riso “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge tudo e toda a gente (incluindo aqueles que participam no Carnaval), o mundo inteiro manifesta-se cómico, é apercebido e conhecido sob o seu aspeto risível, na sua alegre relatividade; enfim, em terceiro lugar, o riso é ambivalente: é feliz, transbordante de alegria, mas ao mesmo tempo trocista, sarcástico, tanto nega como afirma, tanto enterra como ressuscita (Mikhail Bakhtin, L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, 1970, p. 20).

Mas nem todo o riso é carnavalesco. Se tudo é risível, nem todos têm sentido de humor ou, por desventura, eventualmente nem sequer riem. Por seu turno, a publicidade oferece-se como uma espécie de Carnaval sem fronteiras e sem data marcada. Ontem como hoje, da França até à Austrália. Segue o disparatado anúncio Ecographie, da Eurosport (1999), mais o delicioso Four Legged Friends e o delirante Mirror Mirror, ambos da Telstra e acabados de sair (abril de 2025).

Eurosport – Écographie. Agência: Enjoy Scher Lafarge. Direção: Hervé Hiolle. França, 1999
Telstra – Silent Films – Four Legged Friend. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025
Telstra – Silent Films – Mirror Mirror. Agência: Bear Meets Eagle On Fire / +61. Direção: Dougal Wilson. Austrália, abril 2025

Morte Encalhada

Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).

Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.

A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.

Death Stranding 2: On the Beach – Pre-Order Trailer | PS5 Games. Colocado em 9 de março de 2025.

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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)

Fragâncias do Inferno

De Adriano Celentano para Sharon Kovacs. Do verso para o reverso, do segundo para o terceiro milénio, do luminoso para o sombrio, de Itália para Holanda. A música e as letras tornam-se mais tensas, pesadas e disfóricas. Estranha-se e custa a entranhar, mas acaba-se por saborear, senão venerar, como se aprecia o molho de alho ou o sumo de limão bem feitos.

Kovacs & Till Lindemann – Child Of Sin (Official Video). Child of Sin, 2023
Kovacs – My Love (Official Video). EP, 2014. Shades of Black, 2015
Kovacs – The Devil You Know (Official Video). Shades of Black, 2015
Kovacs & Metropole Orkest – Night of the Nights. Shades of Black, 2015. Metropole Session in Muziekcentrum van de Omroep, Hilversum, 2017
Kovacs – Cheap Smell (Live at Wisseloord). Cheap Smell, 2018

Conduzir pode matar!

Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.

Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.

Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.

Anunciante: ISBR (Institut Belge pour la Sécurité Routière). Título: Enterrement Sécurité Routière. Agência: 20something. Bélgica, abril 2014

Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: La Dernière Classe. Agência: La Chose. França, 2016

Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Perte de Controle. Produção: Quad. Direção: Bruno Aveillan. França, 2016

Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.

Anunciante: Associação Portuguesa do Sono. Título: Conduzir com sono pode matar. Agência: : Fischer+bus (Lisboa). Portugal, 2011