Das raízes às formas

Fernando Nobre. Pormenor de escultura. 2009.

Tenho um amigo escultor: o Fernando Nobre. Fui orientador da sua Tese de mestrado em Escultura (Das raízes às formas; 2009) pela Faculdade de Belas Artes, da Universidade do Porto. Desafiou-me, recentemente, para escrever o texto do catálogo da Exposição que inaugurou em Agosto de 2019 em Miranda. Seguem algumas fotografias de obras incluídas, em 2009, na tese de escultura, bem como o texto para o catálogo de 2019.

Berço de pedras (Miguel Torga)

Albertino Gonçalves

Pedra, ferro, madeira e terra. Sagrado, energia, sabedoria e vida. Estas são as fontes e a substância da escultura de Fenando Nobre. Confessam as suas origens: o “reino maravilhoso”, a freguesia de Sendim e a família. Touros, máscaras, troncos… Combinações felizes de materiais usualmente desencontrados: pás, ferraduras, pregos e relhas assentes em granito; aros de pipas abraçados por peças de madeira. Lembram pessoas e lugares resgatados pela magia do cinzel. Trata-se de uma obra árdua e interminável, apanágio de quem está sempre perto do que lhe escapa. Entrelaçam-se as saudades das raízes, a ansiedade urbana e a travessia pessoal. A escultura de Fernando Nobre ultrapassa a mera conceptualização. Aposta, religiosamente, no trabalho físico de apropriação e metamorfose dos materiais. Nada é linear. Tudo é dobra e rugosidade: gestos, batidas, sulcos, cortes, perfurações… Mente, corpo e identidade. É obra original, pessoal, orgulhosamente sofrida e acabada. Que contam as suas esculturas? Que testemunham? Trás-os-Montes, Miranda do Douro, a agricultura, o artesanato, a infância… O afastamento, o desassossego e a inquietação: o Porto tão perto e as raízes tão longe! As obras são, contudo, universais. Quem as observa confronta-se com a eterna interpelação humana. Carnaval à parte, as máscaras somos nós, os touros representam a potência e a violência e cada rasgo lavrado na escultura, um diálogo com o mundo.

Todos temos alguma vocação. Por chamamento ou por dedicação. Fernando Nobre herdou a vocação de artista. O pai esculpia pequenas peças de madeira. Fernando Nobre seguiu-lhe os passos. A inspiração paterna manifesta-se tão marcante que o próprio irmão abraçou igual destino: transformar a matéria em arte. Pressente-se na pedra, na madeira e no ferro o toque do menino a acompanhar as mãos do pai. Simplicidade, franqueza, vontade e dignidade.

A vida avança graças a conjugações improváveis: o altar de pedra, a espada de ferro, a tábua do conhecimento e o húmus da terra; o sagrado, a energia, a sabedoria e a fecundidade, que se disputam e confluem na escultura de Fernando Nobre. Obras abertas, humanas, em que o coração e a razão dão as mãos. A exposição de Fernando Nobre conduz-nos para além do Marão. Para além das fronteiras. Transitamos, deslumbrados, para o outro lado de nós mesmos.

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