Archive | Dezembro 2024

Solidão abençoada

“Os pobres têm gelo no inverno e os ricos no verão” (Anónimo)

O Natal quer-se solidário, não solitário. Caso necessário, imagina-se companhia, e a solidão arrisca tornar-se abençoada.
Gosto do Miguel Torga, em particular dos contos. Manifesta-se sempre grato (re)partilhar este “Natal”; (re)lê-lo, quase um milagre! A neve transmontana pode aquecer os corações.

Imagem: Jean-Pierre Philibert. Le vagabond efficace. 2020

A invenção do presépio

O primeiro presépio foi concebido por São Francisco de Assis em 1223 em Greccio, na Itália. As figuras eram seres humanos. Entre os artigos que contam a história, retenho “Assim Francisco inventou o presépio”, de Roberto Allegri (texto) e Nicola Allegri (fotografia), em italiano, mas a tradução automática para português funciona bem.

Imagem: Bonaventura Berlinghieri – São Francisco e cenas de sua vida, 1235, a mais antiga pintura representando São Francisco.

Para aceder ao artigo, carregar na imagem seguinte.

Afresco do séc. XV com a natividade de Greccio, à esquerda, e a natividade de Belém, à direita. Capela do Presépio, Santuário franciscano de Greccio, Itália

O Frango da Salvação

O quinto cavaleiro do Apocalipse é a gula/doçura: tudo se transforma em bolo. Tudo não! Sobrevive uma tábua de salvação: o menu galináceo da KFC.

O que seria da nossa apetência para o espanto sem a publicidade oriental, designadamente tailandesa?

Anunciante: KFC. Título: Cake. Agência: Bananas. Produção: Carbon Films. Direção: Bruno Bossi. Tailândia, novembro 2024

Experimentar algo diferente

Nem só de música e imagem vive o ser humano. O Thomas Lima ousou sonhar diferente. E nasceu o Palatial Restaurant em Arcos, Braga, um espaço de sabor requintado. Segue uma reportagem do Porto Canal. Para aceder, carregar na imagem seguinte:

Acudiu-me, a propósito, algo apetitoso e refinado: a série de anúncios, iniciada nos anos oitenta, da Ferrero Rocher com o Ambrósio e a Madame.

Original: Ferrero Rocher – Bravo Ambrósio, 1995
Ferrero Rocher Portugal – Comercial Bombom Ferrero Roche com Ambrósio veiculado em Portugal – 2000

Enfim, se dispuser de seis minutos e estiver interessado na história de um caso extraordinário de empreendedorismo, pode assistir a este pequeno documentário da Culture Pub sobre a família Ferrero, criadora de produtos/marcas de sucesso tais como Nutella, Tic Tac, Kinder (vários), Mon Chéri e, naturalmente, Ferrero Rocher. Carregar na imagem seguinte para aceder.

Culture Pub – Saga Ferrero ou le chocolat à l’italienne, 2011

Nouvelle Vague em Guimarães

Nouvelle Vague é um grupo parisiense fundado por Marc Collin et Olivier Libaux. Ativo desde 2003, convida várias vozes, sobretudo femininas. Celebrizou-se pelas suas versões deveras peculiares de temas clássicos. Atuam domingo, 15 de dezembro, à noite, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Seguem três canções: In A Manner Of Speaking, em inglês, ao vivo em Lisboa; Algo Familiar, em espanhol; e Week-end à Rome, em francês.

Nouvelle Vague – In A Manner Of Speakinn. Nouvelle Vague, 2004. Ao vivo em Lisboa em 2007
Nouvelle Vague – Algo Familiar (de Milton Nascimento). I Could Be Happy, 2016. Ao vivo em 2016
Nouvelle Vague feat. Vanessa Paradis – Week-end à Rome. Couleurs sur Paris, 2010

O Regresso de E.T.

O E.T. regressa 37 anos depois, em 2019, para visitar Elliot, não num filme do ainda ativo, e colaborador, Steven Spielberg, mas num anúncio natalício da Sky.

Marca: Sky. Título: E.T. Came Home For Christmas. Agências: Sky Creative Agency & Goodby, Silverstein & Partners (GS&P). Reino Unido, dezembro 2019

O Presidente e o Emigrante

Marcelo Rebelo de Sousa e João Gonçalves. Holanda. 09.12.2024

É a escala, estúpido!

Reparei hoje, não me lembra onde (Facebook, e-mail ou jornal), que está aberto o sétimo concurso do Programa Promove, destinado à dinamização das regiões do interior de Portugal, lançado pela Fundação “la Caixa” em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Passo a transcrever:

Objetivos
O Programa Promove tem por objetivo apoiar iniciativas inovadoras em domínios estratégicos para o desenvolvimento das regiões do interior com dinâmicas fronteiriças e que sejam replicáveis para outras regiões com características semelhantes.
A edição 2025 apoia três tipos de iniciativas:
Projetos-piloto inovadores;
Projetos de I&D mobilizadores;
Ideias com potencial para se tornarem projetos-piloto inovadores. (…)
Áreas geográficas
O presente Programa está aberto a entidades que pretendam desenvolver projetos apoiados localizados nas áreas geográficas seguintes:
Norte: municípios das NUTS III Alto Tâmega, Terras de Trás-os-Montes e Douro.
Centro: municípios das NUTS III Beiras e Serra da Estrela, e Beira Baixa.
Sul: municípios das NUTS III Alto Alentejo, Alentejo Central e Baixo Alentejo, e ainda municípios de Alcoutim, Castro Marim e Monchique, bem como as freguesias de São Marques da Serra do município de Silves, Alte, Ameixial, Salir e Querença / Benfim / Tôr do município de Loulé, e Cachopo e Santa Catarina de Fonte do Bispo do município de Tavira, da NUTS III Algarve.
Mapa [pdf]

Observando o mapa, não consigo evitar a uma pergunta:

Que motivos, substantivos, justificam que municípios como Chaves, Lamego, Vila Real, Bragança, Mirandela e Miranda do Douro se possam candidatar ao contrário de outros como Paredes de Coura, Ponte da Barca, Terras de Bouro, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto ou Vieira do Minho? No primeiro grupo, o rendimento bruto declarado médio por sujeito passivo era, em 2022, superior a 11400 euros; no segundo, inferior a 9600 (ver mapa 1 e tabela 1).

Mapa 1: Valor mediano do rendimento bruto declarado por agregado fiscal. Municípios. 2022

Fonte: Estatísticas do rendimento ao nível local – 2022. INE, 2024

Não consegui aceder a nenhum índice sintético de desenvolvimento desagregado por municípios. Recorro, como complemento, ao índice de envelhecimento, habitualmente associado às realidades, tendências e dificuldades da interioridade. Na tabela 1, não se observam diferenças significativas entre os municípios dos grupos acima referidos.

Poderia convocar outras variáveis, de índole económica, demográfica ou sociológica, mas não desejo demorar-me sobre o assunto. Não é água que me mova o moinho.

Então? Então, o busílis pode residir na escala e na demarcação. Já antes de Galileu se sabia que consoante a escala muda a realidade e Pierre Bourdieu enfatizou que dividir era decidir e dominar. Em suma, o território, com a exceção do Algarve, foi repartido por NUTS 3 e não por municípios.

Em Portugal, existem NUTS 3 que são mais heterogéneas dentro de si do que entre si. No Alto Minho, no Cávado e no Ave são enormes as disparidades entre os municípios do litoral e dos vales e os municípios do interior e de montanha. Por outro lado, não é menosprezável a proximidade destes últimos com, por exemplo, o Alto Tâmega e o Barroso e dos primeiros com a Área Metropolitana do Porto. A divisão por NUTS 3 tem destas artes!

Mapa 2: Índices de envelhecimento. Municípios. 2023

Fonte: PORDATA/INE

O problema da escala cruza-se com o da demarcação, da di-visão do território. Como se pode comprovar nos mapas 1 e 2, no Norte, a linha de clivagem ou a transição, entre o litoral e o interior não coincidem com as fronteiras entre as NUTS 3, por exemplo, do Alto Minho e do Cávado, por um lado, e, por outro, do Alto Tâmega e Barroso. Desenham-se, antes, no próprio seio das NUTS 3 do Alto Minho e do Cávado.

No Noroeste de Portugal, a divisão por NUTS 3 pouco se afasta da distribuição por distritos. A NUT 3 do Alto Minho corresponde ao distrito de Viana do Castelo e as NUTS 3 do Cávado e do Ave, com a ressalva da troca entre Mondim e Celorico de Basto, correspondem ao distrito de Braga. Formalizada há quase dois séculos, em 1835, a divisão do território nacional por distritos constitui uma relíquia do património histórico, ver arqueológico. Em princípio, nada a obstar. Uma unidade administrativa não precisa ser homogénea. Convém, todavia, precaver que, como diria Karl Marx, “o morto não se apodere do vivo”.

A adoção de um ponto de vista parcial, tendencioso, costuma tornar a leitura mais fácil, mas menos lúcida. Importa fazer um esforço de descentramento no sentido de partilhar o outro lado da questão.

Qualquer divisão do território nacional tem que adotar uma escala ou engenhar uma partição que coteje, cole, várias. Para o objetivo do referido concurso/programa (“o desenvolvimento das regiões do interior), a repartição por NUTS 3 não é de desconsiderar, antes pelo contrário. Resulta mais fina do que por NUTS 2. Por seu turno, a desagregação por municípios, além da difícil construção, complicaria a cartografia complicada e comprometeria a operacionalidade. Acresce que o principal argumento esgrimido contra a divisão por NUTS 3, a heterogeneidade interna, também vale para os municípios, com assimetrias internas apreciáveis, por exemplo, entre freguesias da montanha e do vale ou urbanas e rurais.

Nesta ótica, o que pode suscitar reservas? A ponderação da inclusão/exclusão de determinadas NUTS 3 e e a estranheza de não se ter feito para o Minho o que se fez para o Algarve.

Sobra, mesmo assim, a impressão de que, sem ofensa, no caso de alguns municípios, “andam os rotos a ver passar os esfarrapados”. Particularizando, os municípios do arco interior do Minho [ ver pdf anexo: As gentes do Minho] debatem-se, nesta como noutras iniciativas e circunstâncias, com uma situação desconfortável de “duplo vínculo”: “presos [excluídos] por ter cão e presos [excluídos] por não ter”.

Incomoda-me ter desperdiçado algum tempo com este arrazoado. Nada ganho pessoalmente, a não ser mais uma inconveniência. Aliás, até perco: ao fazer download de um pdf, avariei uma pen, por sinal, com muita informação exclusiva.

Sôfregos e insensatos

Three great forces rule the world: stupidity, fear and greed  /Três grandes coisas governam o mundo: a estupidez, o medo e a ganância (Albert Einstein)

Uma pesquisa no Tendências do Imaginário a partir da palavra “amamentação” conduziu-me ao artigo Born to be wild, de 2013. Um vídeo perdera a fonte e a resolução de outro deixava a desejar. Entendi recauchutá-lo. Acrescentei a canção The Pusher, dos Steppenwolf, que, tal como Born to be wild, integra a banda sonora do filme Easy Rider. Creio que mais que selvagens ou traficantes, tornámo-nos uns sôfregos insensatos.

*****

BORN TO BE WILD (Revisão do artigo de 6 de janeiro de 2013)

Steppenwolf. Born to be wild – A retrospective -1966-1990. 1991. Capa

Born to be wild. As árvores, naturalmente! Crescem na vertical e morrem de pé. Nós crescemos domesticados e com uma coluna vertebral muito flexível. Começámos logo na primeira amamentação a beber cultura. Para ser selvagem, é preciso renascer sem cordão umbilical. As feras que compunham o público deste tipo de música, podemos observá-las no concerto dos Focus, em 1973. Filho às cavalitas, cabelos l’orealizados, o futuro entalado nas calças e camisolinhas justas, curtas e sem mangas. Uma selvajaria muito mimosa!

Born to be wild, de 1968, foi o maior sucesso da banda canadiana Steppenwolf. Readquiriu notoriedade com o filme Easy Rider (1969). Este concerto é de 1969.

Steppenwolf – Born To Be Wild. Single, 1968. Ao vivo em 1969

Hocus Pocus, de 1971, foi o maior sucesso da banda alemã Focus. Este concerto é de 1972. A qualidade do vídeo não é a melhor, mas o conteúdo compensa.

Focus – Hocus Pocus. Moving Waves, 1970. (Live At Pinkpop Festival 1972
Steppenwolf – The Pusher (cover de Hoyt Axton, 1963). Single, 1967

Filhos da Vida

ROM – Immortal

Se fosse imortal, inventaria a morte para ter o prazer de viver (Jean Richepin. La Chanson des Gueux, 1876)

Nada em nós é eterno. Filhos da vida, herdamos a morte. Qual é a nossa pegada? Vale a pena atardar-se neste anúncio de seis minutos. Acelerado e excessivo em referências históricas, “Immortal” representa mais uma dádiva do Royal Ontario Museum. Por (des)ventura, demasiado generosa face à atenção que nos prestamos a dispensar.

Anunciante: Royal Ontario Museum. Título: Immortal. Agência: Broken Heart Love Affair/ Toronto. Produção: Scouts Honour/Toronto & Moonlighting Films/Cape Town. Canadá, maio 2023. Conquistou 4 prémios Clio 2023.