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Coro dos ciganos

Giuseppe Verdi

Em vinte dias de férias em Itália, engordei três quilos. Recordo um restaurante na praia de Lignano Sabbiadoro. Foram horas solitárias de antipasto, primo piatto (massas), secondo piatto (prato de resistência), formaggi (queijos) e dolci (sobremesa). Camilo Castelo Branco falava em coração, cabeça e estômago. Há quem pense com o coração e sinta com a cabeça. No que me respeita, sinto e penso com o estômago.

Não é de estranhar que um belo “escalope al marsala” me lembre Giuseppe Verdi. Garantia Verdi que não trocava a Itália pelo mundo inteiro. Também não troco Portugal. Quando ouvi, pela primeira vez, as aberturas de Verdi foi uma revelação. Os coros são cósmicos. Saem das entranhas e para as entranhas regressam. Rivalizam com os melhores riffs de guitarra da história do jazz, do blues e do rock.

Anfiteatro de Orange

O Tendências do Imaginário já inclui o “Coro dos escravos hebreus” (Nabucco, 1841) e “La Donna è Mobile” (Rigoletto, 1851). É a vez do “Coro dos ciganos” (Il Trovatore, 1853). Convoca a vulnerabilidade e a potência humanas. Coloco dois vídeos com o mesmo excerto. Duas interpretações excelentes e distintas: uma no anfiteatro de Orange; a outra, na Ópera de Paris. Quando se faz difícil escolher, faço como o burro de Burídan: não escolho.

Giuseppe Verdi :Vedi le fosche notturne (coro dos ciganos, 2º ato). Il Trovatore, 1853.
Le Trouvère by Giuseppe Verdi – Chœur des Gitans (Ekaterina Semenchuk).

Incompreendido

Incompreso, de Luigi Comencini. 1966.

A Itália é um santuário do cinema. Os anos cinquenta e sessenta foram gloriosos. Sobressaem o neorrealismo e a comédia. O filme Incompreso (Quando o amor é cruel, em Portugal), de Luici Comencini (1966), não é neorrealista nem cómico. Após a morte da mãe, o pai pede ao filho mais velho (Andrea) para manter segredo perante o irmão mais novo (Milo), bem como para o proteger. Acontece que, dos dois irmãos, o mais frágil é o mais velho. A situação agrava-se culminando na morte de Andrea. É um filme sobre o luto, a vulnerabilidade humana, a solidão e a incomunicação entre gerações (pai e filho). O filme é um melodrama denso e opressivo. Um misto de olhar psicológico e microssociológico. O Incompreendido é um filme marcante. Vi-o com o Marino Trancoso, um amigo jesuíta colombiano, que fez doutoramento com Claude Bremond. Faleceu há anos. Um dos principais anfiteatros de Bogotá tem o seu nome. Tanto olho para trás que fiquei com a cabeça torta e o pescoço dorido.

Consultei a Wikipedia a propósito do cinema italiano. Propõe uma lista com os trinta “principais directores”. Não contempla o Luigi Comencini. Tenho um gosto depravado; não acerto nos valores consagrados. Resolvi aceder à versão em inglês. Nos primeiros lugares, aparecem Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Ettore Scola, Sergio Leone e, em oitava posição, Luigi Comencini. Na Wikipedia portuguesa ocorreu, algures, um lapso.

Segue o filme completo, original, com legendas em inglês.

Incompreso (Vita col figlio) – Misunderstood (1966). Realizador: Luigi Comencini. Legendas em inglês.

Nuvens azuis. Ludovico Einaudi

Ludovico Einaudi

Franceses, espanhóis, portugueses e italianos, somos latinos. Quase PIG, não fosse a Grécia grega e a França, galo. Estranhamos o distanciamento social. Nada como um abraço, uma mão nas costas, outra no ombro, eventualmente, um encosto. Gosto-me latino. Ou, eventualmente, galego celta.

Países com línguas românicas na Europa

O que tem isto a ver com o Ludovico Einaudi? Nada, conversa fiada. A conversa fiada é primordial na socialização e na comunicação humanas. Erving Goffmann sublinhou esta importância na tese de doutoramento On Cooling the Mark Out, nas ilhas Shetland, defendida em 1952, sob a orientação de Gregory Bateson (Goffman, 1981; Goffman, 1988).

É provável que quem goste de Ezio Bosso, Philip Glass e Yann Tiersen, goste também de Ludovico Einaudi. O Daniel Noversa partilhou, no Facebook, o álbum Seven Days Walking // Day Three, de Ludovico Einaudi. Já publiquei a música Passaggio (Le Onde, 1996; ver https://tendimag.com/2018/05/23/o-espirito-de-erasmo/). Hoje, acrescento Nuvole bianche (2004), Primavera (2006) e Divenire (2006).

Ludovico Einaudi. Nuvole bianche. Una Mattina. 2004.
Ludovico Einaudi. Primavera. Divenire. 2006.
Ludovico Einaudi. Divenire. Divenire. 2006. The Royal Albert Hall Concert, 2010.

Referências Bibliográficas:

GOFFMAN, Erving (1981). Forms of Talk, Philadelphia: University of Pennsylvania Press.

GOFFMAN, Erving (1988). Les moments et leurs hommes, Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris: Seuil/Minuit.

E depois de nós

Paulo de Carvalho

Acabaram as aulas. Com uma sombra de amizade. As aulas vêm e vão. São um intervalo. Aquilo que esquece, também perdura… Seguem o fabuloso anúncio Kill The Gun, com a ária Casta Diva, do italiano Vincenzo Bellini (1801-1835) , mais a canção E Depois Do Adeus, de Paulo de Carvalho.

Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.
Vincenzo Bellini. Casta Diva, da ópera Norma. 1831. Interpretação: Maria Callas.
Paulo de Carvalho. E depois do adeus. Eurovisão 1974.

À espera do inimigo

Paolo Conte.

Num texto publicado no Facebook, no dia 2 de Junho, José Miguel Braga escreve:

“Qualquer bocadinho de sono me serve. Puseram-me de sentinela e o inimigo pode aparecer por ali, está a ver, meu coronel, detrás daqueles montes, é por onde se diz que virá a invasão. Quem diria que ainda vinha dormir uma noite ao “Deserto dos Tártaros”! Leiam, leiam, é um belo livro do Dino Buzzati.”

Nos anos setenta, uma amiga italiana ofereceu-me o Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, publicado em 1940.

Retribuí com Un amore, do mesmo autor, publicado em 1963.

Dino Buzzati é um dos grandes escritores do século XX. Não há mapa mental que o apague.

Acarinho a cultura italiana. Um quase nada esquecido deixa-me bem-aventurado.

Paolo Conte é um veterano da canção italiana. À semelhança de Jacques Brel, Edith Piaff ou Sérgio Godinho, reconhece-se uma música antes de ela começar. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções de Paolo Conte: Via Con Me e Sparring Partner. Acrescento Azzurro.

Paolo Conte. Azzurro. L’album di… Paolo Conte. 1988.

Quando a alma fecha a porta

Ezio Bosso

A alma adormeceu. Ezio Bosso (1971-2020), compositor, maestro e pianista italiano, faleceu há três semanas, vítima de doença neurodegenerativa. Desde setembro de 2019, sem agilidade nas mãos, deixou de tocar piano. Gosto da cultura italiana. Sou latino. As músicas Clouds, The mind on the (Re)Wind e Rain, in Your Black Eyes são excelentes para elevar a alma. Acrescento uma pequena reportagem, Concerto per la terra, capaz de a estremecer.

Ezio Bosso. Clouds, The mind on the (Re)Wind. …And the Things that Remain. 2016.
Ezio Bosso. Rain, in Your Black Eyes. …And the Things that Remain. 2016.
Ezio Bosso. Concerto per la terra. Bologna. 2017.

Mocidade académica. O amor burocrático

Quino

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.

Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:

Vamos cantar com alegria

E começar um novo dia

Para nós o estudo só nos dá prazer

Faremos tudo, tudo para aprender.

Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”

Quino

Crónica do subterrâneo

Klaus Nomi.

O mundo tem altos e baixos, cumes e subterrâneos. Deixei-me sentar na cave. Pouca luz, pouco ruído, pouca humanidade, alguma ressonância do ego. Há quem afirme que o mal se combate com o mal, homeopaticamente. Se alguém estiver a afundar-se nada melhor do que lhe colocar uma pedra em cima. As músicas de Klaus Nomi são boa companhia para uma passagem pelo subterrâneo. Gosto do Klaus Nomi, um artista com um excedente de originalidade: cultura, voz e presença notáveis. Foi uma das primeiras vítimas da sida, em 1983. Sinto-lhe a falta. Sinto, também, que estou a sair da cave. Acima dos pés, o humor passou os joelhos rumo à barriga.

Klaus Nomi. The twist. 1981. Klaus Nomi. 1981.
Klaus Nomi. Keys of life. 1981. Klaus Nomi. 1981.
Klaus Nomi. Wayward sisters. Simple man. 1982.

Os pinguins vão ao museu

The Nelson-Atkins Museum of Art. Penguins. 2020

Aprumados e desajeitados, animados ou ao natural, os pinguins são vedetas na publicidade. No anúncio Penguins, do Nelson-Atkins Museum of Art , a família pinguim visita o museu. Um tema esdrúxulo, mas a excentricidade, inspirada, compensa. Os pinguins deslocam-se, desafiados por tanta informação invulgar. O vídeo foca o “tornozelo” de uma pintura gigantesca de Monet (O tríptico Water Lilies) e exibe,  na íntegra, o São João Baptista no Deserto, de Caravaggio. Consta que os pinguins preferiram o São João, de Caravaggio, aos nenúfares, de Monet.

Marca: The Nelson-Atkins Museum of Art. Título: Penguins. Estados-Unidos, Maio 2020.

“We are so happy to welcome our colleagues from the zoo,” said Julián Zugazagoitia, the director of the Nelson-Atkins Museum of Art in Kansas City, Missouri, in a video posted by the museum. And who were these colleagues in question? None other than a family of Peruvian penguins who were brought along for a day trip to the museum to shake things up because, as the zoo-director Randy Wisthoff put it, the zoo’s temporary shuttering has caused the animals to “really miss having visitors come out and see them”, leaving zoo officials to find new, creative ways to provide the animals with stimulation. Zugazagoitia, who is originally from Mexico City, noted that “these are Peruvian penguins so we were speaking to them in Spanish, and they really appreciated art history.” Zugazagoitia also added that the avian museum-goers “seemed definitely to react much better to Caravaggio than to Monet.” So while these birds may not be able to fly, they certainly have taste (The Art Newspaper: https://www.theartnewspaper.com/video/these-kansas-city-penguins-took-a-field-trip-to-the-nelson-atkins-museum-and-preferred-caravaggio-over-monet)

Acrescento um trailer do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Trailer oficial do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.