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Senxualidades ou A Sereia Láctea

Nathalie Cardone – Baila si, 1999

Não fosse o nível de insinuação do neologismo fonético Senxualidades e o título deste artigo dedicado à Nathalie Cardone poderia ter sido Anjo de Perdição, Batismo Lácteo ou Sereia na Brasa.

Com sombra de pecado. Sexo angelical (20.03.2016)

Confesso a Deus todo poderoso
E a vós irmãos e irmãs
Que pequei muitas vezes por pensamentos
Palavras, atos e omissões…

Andrea del Verocchio – Tobias e o Anjo, ca. 1470 a 1475. National Gallery

Os anúncios “Little angel” e “The Nuns”, no artigo Sexo angelical (20.03. 2016), são uma delícia: duas maçãzinhas, senhor, [da porta] do paraíso.

Merdificação

Vivemos tempos de incerteza em que as oportunidades mais promissoras são também as ameaças mais sérias.

Em francês, resulta difícil distinguir Ça sent la mer d’ici (Daqui, cheira-se o mar) e Ça sent la merde ici (Aqui cheira a merda).

O Fernando deu-me a conhecer uma palavra nova, “merdificação”, ilustrando-a com o anúncio de consciencialização “A Day in the Life of an Ensh*ttificator”, do Norwegian Consumer Council.

Enshitification é um neologismo criado em 2022 por Cory Doctorow para aludir ao ciclo de perversão das plataformas digitais: “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários; depois, elas abusam dos usuários para tornar as coisas melhores para seus parceiros de negócios; por fim, elas abusam desses parceiros para reaver todo o valor para si mesmas. Então, elas morrem.” Aplicada inicialmente às plataformas digitais, a noção acaba por ser alargada pelo próprio Cory Doctorow à generalidade dos “bens” de consumo (Doctorow, “‘Enshittification’ is coming for absolutely everything”. Financial Times, 2024, January).

Os novos virtuosos, “merdeiros”, conseguem cativar o maior número de consumidores graças não a uma elevada mas a uma baixa relação benefício/custo. Transformam uma proposta promissora numa porcaria, eventualmente, aditiva.

Para uma síntese mais desenvolvida da noção de enshittification, sugiro, os artigos “A ‘Merdificação’ das redes sociais”, de Raul Oliveira Jung, e “The Age fo Enshittification”, de Philippe Buschini, ambos publicados em 2025.

Norwegian Consumer Council – A Day in the Life of an Ensh*ttificator. Produção: NewsLab. Direção: August Jorfald. Noruega, fevereiro 2026

Estamos confrontados com uma vaga de mudança não revolucionária: proliferam novidades que exacerbam a ordem existente sem a questionar. Por exemplo, o reforço e a expansão do capitalismo pelo hiperneoliberalismo.

O “hiperneoliberalismo” (ou hiper-neoliberalismo) é um conceito que descreve o aprofundamento radical das políticas neoliberais clássicas. Longe de defender um Estado mínimo tradicional, ele atua como um modelo onde o Estado é reconfigurado de forma autoritária para agir ativamente em prol dos interesses corporativos e do grande capital, impondo a lógica do mercado e da competição a todas as esferas da vida social e individual. As suas principais características incluem: Estado como Provedor do Mercado: Ao invés de simplesmente recuar, o poder público atua como um facilitador ativo de acumulação de riqueza, priorizando desregulamentações e benefícios fiscais para grandes corporações e super-ricos. Intensificação da Desigualdade: Promove a financeirização da economia e uma enorme concentração de renda, ignorando ou enfraquecendo redes de proteção social e direitos laborais. Governança Algorítmica e Individualismo: Transforma o indivíduo num “empresário de si mesmo” (capital humano), gerando uma cultura de hipercompetitividade e individualismo que enfraquece os laços sociais. Tendências Autoritárias: Requer a supressão de resistências sociais, movimentos de contestação e até de instâncias representativas e democráticas, impondo um consenso de mercado goela abaixo. O termo é frequentemente utilizado por sociólogos e analistas políticos (como o geógrafo David Harvey) para descrever as mutações do capitalismo na contemporaneidade. (IA, 21.06.2026)

Tendências do Imaginário. Avaliação pela IA

Há 7 anos, “quis saber a posição do Tendências do Imaginário no conjunto das páginas da Internet a nível mundial”. Reincido com a ajuda da Inteligência Artificial, que, embora saiba que dispenso adulações, não resiste, por vocação, a tentar-me com o pecado capital da soberba.

Junto com o artigo 1 696 382 páginas na Internet, de 2019, segue o balanço produzido, hoje, pela IA.

Naturalidades

Com o recurso à Inteligência Artificial, designadamente às potencialidades de animação, namora-se a hiper-realidade: a ilusão adquire outra vida e espessura. O anúncio “Give life some juice”, da Tropicana parece, assim, “natural” (como o sumo?). Simula a perfeição, “sem ponta por onde se lhe peque”, a não ser “dando-lhe a volta”, refrescando as ideias e os sentidos.

René Magritte – Tempo trespassado, 1938

Tropicana – Give life some juice / Anthem. Agência: FIG, New York. Direção: Dorian & Daniel. USA, junho 2026

Reconhecimento

Neste resgate de um artigo de 2020 e da memória de Odetta, muda-se de país e de música, mas sem perda: passamos do meraviglioso para o wonderful. Há seis anos, perdera o andar mas não o discernimento nem a busca de prazer. Hoje, estimo-os ainda mais importantes.

Do riso

O Tendências do Imaginário continua com um pendor ecologista: recicla. Retoma, desta vez, dois artigos dedicados ao riso: “Morrer de rir”, de 21 de agosto de 2014, e “Risoterapia. O consumo do riso” (restaurado), de 18 de junho de 2019.

Gustave Doré, Gargantua. Prologue, 1894

Demasiado potentes, prepotentes e impotentes

Quino e Mafalda

Que desenharia Quino (1932-2020) se estivesse vivo? Não lhe faltariam exemplares de potentes, prepotentes e impotentes em que se inspirar. Nada sofisticados nem discretos. A minha geração foi das mais “empoderadas” ao longo da vida; foi, também, daquelas cuja esperança mais inchou e desinchou.

As Cidades na Idade da Inteligência

Depois da Idade das Trevas e da Idade das Luzes, chegou a Idade da Inteligência, a uma velocidade que já não é a do caracol. Recuei mais de dez anos para rever o artigo Cidades Inteligentes (14.06.2014). Recoloco-o, restaurando o anúncio desaparecido e acrescentando dois também da mesma série da IBM.

Smart cities, creative industries and entrepreneurship, they seem to be the musketeers of her majesty Europe. Nos logotipos e nas representações de cidades inteligentes, a lâmpada sobressai como motivo central. Multiplicam-se como gafanhotos as imagens a louvar as cidades inteligentes. Escasseiam, porém, as imagens dedicadas aos cidadãos inteligentes.

IBM – Smarter Cities, 2014

A figura do caracol lâmpada, ao jeito dos híbridos medievais, assevera-se aliciante: SSS – Slow Smart Snail. O passo de caracol presta-se à observação e à memória. Melhor que hoje só anteontem; e anteontem não existiu. Até as novas palavras se dão ares de superioridade: cidades inteligentes, indústrias criativas, empreendedorismo. Não resultam da evolução da língua. São criadas em laboratório. Cheiram a provetas, pipetas e bicos de bunsen.

IBM – Smart Cities. Agência: Ogilvy & Mather France. França, 2013.
IBM – Smarter Cities. Agência: Ogilvy & Mather, 2014
IBM – Smart Cities. BDigital Global Congress 2011

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Os vídeos estão numa ordem interessante!

Primeiro, uma ideia criativa, simples mas que oferece pequenas grandes comodidades; um banco onde descansar ou esperar, uma rampa nas escadas, um abrigo para o mau tempo.

Depois entra o planeamento a uma maior escala; planeia-se, criam-se interações, mas parece-me uma mudança mais ao nível estético, para impressionar.

Finalmente, as pessoas já não entram na história; são as cidades, como organismos vivos e autónomos, mais rapidez, mais dinheiro, mais informação.

Esta é a cadência dos vídeos, uma escolha pouco aleatória, atendendo às datas.

Crescente ou decrescente? Seria preciso uma rampa para entender a velocidade, um banco onde absorver o choque, um abrigo para a devastação de algo valioso, inominável. Um telhado, ainda aue curvo, não será suficiente. (Almerinda Van Der Giezen, 14.06.2026).

Beleza tranquila

Confraternização na última aula de Sociologia da Arte e do Imaginário na Academia Sénior do Município de Braga. Fotografia: Maria Ivone Soares

Ao entardecer, há três anos, em Moledo do Minho, invadiu-me, como hoje, uma rara sensação de apaziguamento estético. Quando se procura o que é difícil de encontrar, dita a sabedoria antiga que importa beber na fonte certa. Por exemplo, nesta ocasião, nos filmes do Bruno Aveillan em que a poesia não só se escuta como se vê.

Sensibilidade (13.06.226)

Quando as palavras não sonham, as notícias não prestam, a música não dança, as pessoas não se abraçam, as sombras não se escondem, os minutos não passam e o depois não chega… segue os pássaros ou bebe um anúncio bem cheio, sem gelo, do Bruno Aveillan. Perde-te em Nova Iorque ou descobre AluLa. Sente! Sente os rostos, as mãos, os objetos e o que mais se oferecer.

Marca: Tiffany & Co. Título: Love (in) New York (Fashion Film). Agência: Ogilvy NY. Direção: Bruno Aveillan. 2022
AluLa, The World’s Masterpiece. UNESCO World Heritage Site. Agência: Leo Burnett KSA, Riyadh. Produção: QuadDireção: Bruno Aveillan. Arábia Saudita, 2021