Daqui ninguém nos tira

Fridays Future climate change protest Lausanne. 2019.

“Fugir para Marte ou salvar a Terra?”. Esta é a mensagem de um cartaz de uma manifestação em Lausanne em 2019. É também o tema do anúncio 1%, de Fridays For Future, um movimento global fundado por Greta Thunberg. Um anúncio irónico. Marte é promessa de um recomeço, para os pioneiros, mas a Terra ainda não chegou ao fim, para os resilientes. A canção Space Oddity, de David Bowie, tem uma pegada espacial: acompanhou reportagens dedicadas a momentos marcantes de viagens espaciais. A canção Life on Mars, apesar do título, não vem muito a propósito.

Anunciante: Fridays For Future. Título: 1%. Agência: FRED & FARID Los Angeles. Estados-Unidos, fevereiro 2021.
David Bowie. Space Oddity. David Bowie. 1969.
David Bowie. Life on Mars. Hunky Dory. 1971.

Aspirar a solidão

Edward Hopper. At the window. 1940.

O confinamento altera as rotinas. As pequenas e as grandes. Presta-se ao desempoeiramento dos objetos: filmes, discos, fotografias, entrevistas gravadas… Alguns aguardam uma infinidade por um gesto de atenção. Poderiam continuar esquecidos? A televisão é uma alternativa, mas irrita. O telemóvel? Nunca lhe apanhei o jeito. Despacho as pessoas, e elas ressentem-se. Entrego-me, portanto, às minhas coisas, como o Principezinho à rosa.

Sem o confinamento, os objetos são belas adormecidas à espera de animação.  Passo os dias só. A solidão não me larga. Também ganho pó. O Tendências do Imaginário é uma face deste isolamento. A solidão não é boa nem má. É um estado com que se convive bem ou mal. A música é uma companheira. Aspira o pó da solidão.

Joe Cocker. You are so beautiful. I Can Stand a Little Rain. 1974.
Joe Cocker. Up where we belong. An Officer and a Gentleman. 1982.

Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.

Flor de cheiro

Jacques Brel

Há tufos de plantas aromáticas que dominam olfativamente o jardim. Existe um poder do cheiro. De quem as plantas aromáticas não gostam é das abelhas. Não têm o sentido das hierarquias. Pousam onde há pólen, independentemente do cheiro. Pousam sem vénias. Esta fidalguia do cheiro lembra algumas organizações e associações, órgãos da verdade, do sentimento, da reputação e da água benta. Críticos incriticáveis prenhes de direitos. São os anjos da modernidade. Inevitáveis, ronronam no regaço do Estado.

Passei a tarde a ouvir Jacques Brel. Admiro-o com prazer. O Tendências do Imaginário inclui sete canções de Jacques Brel. Acrescento três.

Jacques Brel. Le Plat Pays. C’est comme ça. 1962.
Jacquel Brel. La Chanson des Vieux Amants. Jacques Brel 67. 1967
Jacques Brel. Orly. Les Marquises. 1977.

Mãos de tesouras

Cadillac. ScissorHandsFree. 2021.

O anúncio Super Bowl ScissorHandsFree, da Cadillac, inspira-se, assumidamente, na figura do Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1990). O novo Mãos de Tesoura é, seja qual for o contexto, um desastre. Ressalve-se o All-Electric Cadillac LYRIQ, um automóvel sem mãos. Mais uma fábula.

Marca: Cadillac. Título: ScissorHandsFree. Agência: Leo Burnet Detroit. Direção: David Shane. USA, Fevereiro 2021.

Carnaval magro.

Pieter Bruegel. A Luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559.

Este Carnaval foi cabisbaixo. A Quaresma começou mais cedo. Espero que haja Ressurreição. Jane Monheit interpreta The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Morais (1967). Acrescento If (2001), também de Jane Monheit.

Jane Monheit. The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. 1967. Ao vivo no Jazz Open Stuttgart. Alemanha. 2003.
Jane Monheit. If. Come dream with me. 2001.

Os Farrangalheiros

Farrangalheiros. Entrudo. Castro Laboreiro. Melgaço.

Faço parte de uma equipa que está a estudar os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Segue uma série precoce de apontamentos. Ainda estamos no início da investigação. Mas os apontamentos não servem apenas para registar o que foi feito mas também para antever o que falta fazer. Abrem janelas.

“Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.
A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.
Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves (…) Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes.
Miguel Torga. Portugal. 1950.

É costume encarar Castro Laboreiro como uma povoação isolada, num extremo do País, cercada pela Espanha. Com acessos difíceis até meados do século XX. Em verdade, não é uma população isolada. Outrora, a maioria dos homens migrava sazonalmente para o Douro, para as Beiras ou para a Galiza. A partir da Segunda Guerra, a emigração castreja para a Europa foi pioneira. Outras atividades contribuíram para a abertura de Castro Laboreiro. Por exemplo, a mineração do volfrâmio e o contrabando, que mobilizou homens e mulheres. Castro Laboreiro não é o fim do mundo. É, antes pelo contrário, “princípio do mundo” (Manoel de Oliveira, Viagem ao princípio do mundo, 1997). Quem se encontra com um castrejo, arrisca-se a conversar com um cidadão do mundo. Num recanto nas alturas, o cosmopolitismo prevalece. A saída massiva dos homens constrange as mulheres a substituir os pais e os maridos ausentes. Cumpre-lhes a responsabilidade do governo da casa, das propriedades, dos animais, dos pais e dos filhos. Conservam e criam o mundo, ao nível económico, social e cultural.

Castro Laboreiro localiza-se na serra da Peneda. A aldeia do Curral do Gonçalo ergue-se a 1 166 metros de altitude. Esta inscrição geográfica não isola, nem repele. Cedendo à poesia, aproxima do céu. Castro Laboreiro é rico em tradições antigas e originais. Os Farrangalheiros (esfarrapados) do Entrudo representam um exemplo.

Traje. Entrudo. Farrangalheiro. Mulher. Castro Laboreiro.

O entrudo castrejo (entroido na língua local), que inclui os Farrangalheiros, é um ritual carnavalesco comunitário. Não há memória da sua origem. As mulheres solteiras destacam-se como os principais protagonistas. Vestem um traje específico (ver fotografias). O saiote vermelho pertence à roupa interior, que, retirada a saia escura, fica, por um tempo, exposta. Na cabeça, os “garruços” são enfeitados com fitas coloridas. A cobrir a face, um bordado de renda serve como máscara. É feito pelas próprias portadoras. Como calçado, umas socas; na mão, um pau, um animal ou outro elemento provocador. Excetuando o “lenço franjon, todas as participantes usam o mesmo traje. Percorrem, neste preparo, os largos, os caminhos e as casas, a “meter-se” com as pessoas, achincalhando-as com humor. O ritual culmina, no último dia, terça-feira, com a queima do Entrudo. Um boneco de palha envolto em roupas velhas é queimado em local alto para ser visto ao longe pelos lugares vizinhos.

“A  palavra Entrudo provém do latim introitus, que significa «acto de entrar, entrada, acesso, introdução, começo». Nos textos medievais, aparecem registados os termos entruido e entroydo. Mais tarde, o termo apresenta a grafia com i: Intrudo. O Entrudo começou por designar a noite de terça-feira, que era a entrada da Quaresma; depois a própria terça-feira e, finalmente, os três dias que precedem imediatamente a entrada da Quaresma” (Ciberdúvidas da língua portuguesa: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/entrudo-novamente/26236).

O Entrudo é uma passagem, uma transição entre dois mundos, entre dois tempos. O antes e o depois. O interior e o exterior. O Entrudo despede-se do Inverno, do “velho”, rumo à Primavera. Para trás fica a escassez, o sono dos campos e a hibernação social. O Entrudo é um prenúncio, que se projeta para além da Quaresma. Crescem os dias, amanha-se a terra e rasgam-se os horizontes. O colorido exuberante dos “garruços” ofusca a escuridão invernal. Nesta perspetiva, o Entrudo é uma premonição mágica. Os rituais querem-se promessa. O banquete, por exemplo, é uma antecipação da abundância. Simula-se agora para garantir depois. Sobre as cinzas do passado, semeia-se o futuro.

Existe uma mudança cíclica na vida de Castro Laboreiro. Provavelmente, não se prende com o Entrudo. Não resisto, porém, a mencioná-la. Trata-se da “transumância”. Em muitas aldeias, os castrejos passavam o Inverno nas inverneiras, situadas nos vales, para onde descem no início do Outono. Em março, por altura do Entrudo, subiam, pessoas, animais e mobília, para as brandas, no planalto. A proximidade da data do Entrudo e da deslocação para as brandas resume-se, presumo, a uma mera coincidência. Não obstante, convém verificar.

O Entrudo encena e regenera a comunidade. Momentos como o banquete ou a queima do Entrudo propiciam uma comunhão emocional. O rebaixamento e a crítica revitalizam a sociedade numa espécie de caldo reparador. O mal é denunciado e Judas queimado. A fogueira é ambivalente: queima, ilumina e aquece. O fogo dizima mas também purifica. Ilumina a noite. A fogueira ameaça mas também aquece e redime o corpo, a alma e a comunidade. À volta da fogueira, a sociedade expõe-se e recompõe-se. A potência simbólica do fogo é universal (Bachelard, Gaston, La Psychanalyse du Feu, 1938; Durand, Gilbert, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960).

“Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e quase não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição” (Gonçalves, Albertino, A queima dos vampiros, https://tendimag.com/2019/05/25/a-queima-dos-vampiros/).

“Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (Gonçalves, Albertino, A bênção escatológica num mundo às avessas”. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado, https://tendimag.com/2017/12/14/a-bencao-escatologica-num-mundo-as-avessas-os-servicos-da-tarde-na-festa-de-sao-joao-de-sobrado/).

Nos Farrangalheiros do Entrudo castrejo, a participação feminina está confinada às mulheres solteiras. A roupa interior, o saiote vermelho, é exibida. Um pano de renda protege o rosto. Se fosse psicanalista, ao jeito de Sigmund Freud ou de Carl Jung, avançaria que são símbolos de fecundidade, ver de sexualidade. Os bailes e os animais transportados podem ser incluídos nesta leitura. É costume associar-se as manifestações carnavalescas à desordem, ao convívio, à liberdade, à crítica, à igualdade, à utopia e à folia. Na realidade, a fecundidade e a sexualidade rivalizam com estes tópicos (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, 1987). De Roma ao Brasil, passando pela Idade Média, a sexualidade palpita na experiência carnavalesca.

Numa sociedade pendurada no presente e omnívora, Castro Laboreiro guarda memórias e segredos.

Matar a música. Victor Jara

Victor Jara. Memória.

Há épocas e lugares em que a música e a política se aproximam. O canto politiza-se e a política canta. Aconteceu em Portugal nos anos sessenta e setenta. Esta relação pode degenerar, tornar-se trágica. Victor Jara foi torturado e assassinado em 1973 pelo governo chileno de Pinochet. O Tendências do Imaginário contém várias canções de Victor Jara. Acrescento duas.

Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974. Póstumo.
Victor Jara. Duerme, Duerme Negrito. Pongo en tus manos abiertas. 1969.

O medo e o racismo

É difícil discorrer sobre o racismo sem incorrer em contradições.  René Gallissot fala de Misère de l’Antiracisme (Paris, Editions de l’Arcantère, 1985). O anúncio Démasquons la Peur, da associação Licra, merece particular atenção. Em primeiro lugar, o morphing permite revelar a diversidade e a plasticidade humanas. Em segundo lugar, o recurso ao preto e branco propicia o esbatimento das cores e a acentuação dos contrastes. O discurso lembra uma árvore de palavras: alia a abrangência troncal à especificação dos ramos. O tópico do medo é matricial: “O racismo é o medo da diferença” (Franck Ntasamara).

Anunciante: Licra. Título: Démasquons la Peur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Akim Laouar. França, fevereiro 2021.