Nocturno: uma jangada no coração

Nocturne: Blue and Silver – Chelsea 1871 James Abbott McNeill Whistler 1834-1903 Bequeathed by Miss Rachel and Miss Jean Alexander 1972 http://www.tate.org.uk/art/work/T01571

Estranha-se o afastamento de um grupo que ajudámos a criar. Deslizam as sombras por carris distintos. Culpas? Responsabilidades? Apenas a bifurcação de vontades. E a náusea da viagem. Com as vértebras a tocar um nocturno.

Frédéric Chopin. Nocturne in E-flat major, Op. 9, No. 2. Played by Vadim Chaimovich.

Os dias correm para a sarjeta

Alannah Myles. Black Velvet. 1989.

Os dias correm para a sarjeta. Começamos com os outros e terminamos sem nós. Não sobra tempo, nem autoestima. A mesma borra, o mesmo esgoto. Tanto se faz e nada se colhe, a não ser adubo biológico. Nada como a música para nos animar: Black Velvet, da canadiana Alannah Myles.

Alannah Myles. Black Velvet. Alannah Miles. 1989.

Vítimas da culpa

Animalife. Karma. Portugal. 2019.

Onde quer que exijam responsabilidades, o instinto de julgar e de castigar anda, geralmente, mesclado na tarefa (…) Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados (…) O cristianismo é uma metafísica de verdugos.
Friedich Nietzsche (1888), O crepúsculo dos ídolos, Hemus S.A., 2001, p. 41)

Diz-se que a civilização judaico-cristã carrega a cruz da culpa. Como sugere Nietzsche, somos responsáveis logo culpabilizáveis O cristianismo, “uma metafísica do carrasco”, extremou o dispositivo de culpa durante a Idade Média. Atente-se nas imagens da crucificação. Deus feito homem sofre e sangra para expiar os nossos pecados. Na pós-modernidade, continuamos a carregar, monte acima, monte abaixo, a culpa. Somos culpados de tudo e de nada. O papel higiénico e a floresta amazónica, o preservativo e os peixes de Madagáscar, o desodorizante e o clima… Somos vulneráveis à culpabilização. Distribuidores de culpas não faltam. Pagamos-lhes para nos culpar de tudo e absolver de nada. Muitos anúncios enveredam pelo confronto da culpa e da vítima. Especialmente, os anúncios de sensibilização. O anúncio português Karma, da Animalife, está bem concebido e bem realizado. Aposta na sensibilização pela culpabilização. Não advém nenhum mal.

Marca: Animalife. Título: Karma. Agência: Havas. Direcção: PACO. Portugal, Maio 2019.
Nirvana. All Apologies.

O ninho

É bom saber que se tem um ninho. Segue a versão Pearl Jam (2011) da canção Mother dos Pink Floyd, bem como a canção Mamy Blue, dos The Pop Tops

Pearl Jam. Versão da canção Mother dos Pink Floyd. 2011 11 06 – Rio de Janeiro, Brazil.
The Pop Tops. Mamy Blue. Mamy Blue. 1971.

A salvação e o vício

Santé Publique France. #MoiSansTabac. 2018

Fumar mata, deixar de fumar é uma tortura, não fumar é uma salvação. Um mês sem cigarros e uma pessoa sente-se “mais zen, mais forte, mais livre”. Não há salvação sem sacrifício, sem alteração. O tabaco é a incarnação contemporânea do mal. Desde o fumo até à cinza. A profecia da desgraça é uma profecia da salvação, assente na conversão dos ímpios. Os ex-fumadores lembram os mouriscos, os cristãos novos ou, por exemplo, Madelena, a pecadora bem-aventurada. Assim reza a palavra refastelada no trono da verdade.

Atendendo à vulgata antitabaco, o anúncio #MoiSansTabac, da Santé Publique de France, revela-se interessante. Não promete a morte, mas uma vida melhor. Não mente com a verdade mas empenha-se na partilha da experiência. Tem, sobretudo, a vantagem de alertar os fumadores para a dificuldade de deixar de fumar. Visa o abandono do tabaco, sem incriminar os fumadores. Abre janelas de esperança, onde lavrava a retórica da condenação. Justifica, no entanto, uma reserva: o anúncio envereda pela metáfora do jogo, mas a vida não é um jogo, tem carne e osso. Oxalá esta nova sensibilização pegue! A anterior tornou-se enfadonha e sinistra. Afirmar que os fumadores vão morrer de alguma doença é pouca comunicação para tanto altifalante, tanta verdade decretada.

Anunciante: Santé Publique France. Título: #MoiSansTabac. França, Outubro 2018.

O paradoxo da relação com o mundo

“No suor do teu rosto comerás o teu pão”; e pensarás com a cabeça dos outros.

WWF. TooLatergram. 2018.

Não estrague o futuro, cuide dele no presente. Perca-se na televisão, no telemóvel e na Internet, mas não esteja sempre absorto e distraído. Também existe o mundo, perto e longe. Os distraídos são, neste mundo, abençoados com o lixo.

Perspetiva-se a mineração de lítio e outros minerais no território do Fojo, junto ao Parque da Peneda-Gerês, nos concelhos de Melgaço, Monção e Arcos de Valdevez. O Fojo é uma extensa área natural “milagrosamente” preservada. A mineração pode ter um efeito ambiental devastador.

Quando focamos imagens como as do anúncio da WWF, concluímos com os nossos botões: isso é no mundo, não é aqui. E “sofremos à distância” com um mundo que, pelos vistos, não é o nosso. A nossa propensão para o simulacro de generosidade não tem limites. Há desflorestação, poluição química, esventramento do solo e outras desgraças, mas não neste “cantinho do céu” que pisamos todos os dias. O mundo está, assim, sempre longe; é um dos paradoxos da humanidade e um dos problemas da cidadania.

Anunciante: WWF. Título: #toolatergram. Agência: TBWA Paris. França, Março 2018.

A beleza da biodiversidade

Apple. Don’t Mess With Mother. 2019.

Quando se aposta, com arte, na estética o resultado é compensador. O anúncio Don’t Mess With Mother, da Apple, é um hino à biodiversidade. Ao ritmo heavy metal da canção Last Rites dos Megadeth. Os autores do anúncio tiveram a sageza de dispensar a besta humana. Preferiram uma avalancha. Há marcas que são um expoente da publicidade.

Marca: Apple. Título: Don’t Mess With Mother. Estados Unidos, Abril 2019.

Bandas sonoras

The Farmhouse. Hilary and Jackie. 1998.

Lara’s Theme, do filme Doutor Jivago (1966), obteve, à semelhança do filme, um enorme sucesso. O realizador, David Lean, já tinha dirigido filmes como A Ponte do Rio Kwai (1957) ou Lawrence da Arábia (1962). Maurice Jarre compôs a música. Considero a versão original “muito instrumentada”. Não desgosto desta versão para piano.

De banda sonora para banda sonora, acrescento a música The Farmhouse, do filme Hilary and Jackie (1998), com realização de Anand Tucker e música de Barrington Pheloung.  

Barrington Pheloung. The Farmhouse. Hilary and Jackie. 1998.
Maurice Jarre. Lara’s Theme. Doutor Jivago. 1966.

Macnífico

“Académico já foi um adjectivo nobre. Anda mas é um pouco desgastado. Outros nomes se levantam, como Merceeiro e Patrulheiro. Quando batizei o primeiro filho cismei chamar-lhe Académico, mas no registo confundiram as letras e ficou Américo. Ainda agora tenho pena: gostava que o meu filho fosse Académico” (Anónimo).

Kermit, Denise e a maçã

Tantas estrelas, uma estrela: a maçã. Os utilizadores de Macs são o máximo. Desce uma espécie de aura sobre o consumidor: sou como os maiores, sou Mac. É macnífico! O consumo à frente, a produção atrás. Mais do que um consumidor, sou um utilizador de Mac. O importante, a rosa, sou eu mais aquelas estrelas todas: a Serena, o Bono, a Oprah… Creio que é uma fórmula de marketing antiga.

“The 60-second spot is composed of black-and-white still images featuring famous and not-so-famous people toiling away on their Macs: Serena Williams peering down at her screen, Paul McCartney in his studio, Kermet the Frog and Anna Wintour at their desks, Malala Yousafzai and Dave Grohl each engrossed in their work, Oprah and Bono collaborating. Interspersed are scenes of Mac users in cafes and school or out in the elements, studying, sleeping and browsing” (https://adage.com/creativity/work/apple-behind-mac-make-something-wonderful/955971).

Marca: Apple. Título: Behind the Mac. Estados Unidos, Outubro 2018.

Desafio

Warren Keelan.

Astrud Gilberto é uma cantora brasileira com uma discografia apreciável. Em 1966, lançou a canção “Maria Quiet” no álbum Look To The Rainbow. Há uma sequência curiosa, muito curiosa, nesta canção. Tente descobrir!

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Astrud Gilberto. Maria Quiet. Look To The Rainbow. 1966.