Telemóveis

Countdown

No filme Countdown, uma aplicação de telemóvel alerta as pessoas para o tempo que lhes resta de vida (ver trailer). O telemóvel é, deste modo, associado à ameaça e à morte. Não é o único vídeo em que o telemóvel possui uma aura fúnebre. Nos anúncios The Afterlife Bar, da Transport Accident Commission Victoria (2019: https://tendimag.com/2019/08/13/um-bar-do-outro-mundo/) e nos dois anúncios da AT&T, The Face of Distracted Driving (2018: https://tendimag.com/2018/05/28/o-discurso-do-morto/) e The Unseen (2016: https://tendimag.com/2016/09/12/distracao-fatal/), os falecidos contam como encontraram a morte devido ao abuso do telemóvel.

Countdown | Official Trailer [HD] | Now In Theaters

À perdição opõe-se à salvação. Nada de espantar! Como repete Moisés Martins, citando o poeta Holdërlin, “Lá onde está o perigo também cresce o que salva”. Do drama, saltamos para a apologia. O telemóvel Good Vibes app, do anúncio Caring for the Impossible, permite aos cegos, surdos e mudos comunicar. A espanhola Claro consegue, no anúncio Qué le dirías (https://tendimag.com/2014/12/22/telemovel-magico-novo-conto-de-natal/), conectar, graças ao telemóvel, familiares e amigos que não se encontravam há décadas. E, assim, de prodígio em prodígio.

Marca: Samsung. Título: Caring for the impossible. Agência: Cheil WW India. Índia, Outubro 2019.

Para além do drama e da apologia, existem outros estilos de anúncios com telemóveis. Por exemplo, a ironia, o humor e a fábula. A série de anúncios Les Dumas, da Bouygues Telecom, aposta no humor e na ironia. Nem drama, nem apologia, mas dentro e fora, com focagem variável e palavras que lembram Prévert. Os anúncios Les Dumas estrearam em 2012. O mesmo humor e a mesma ironia percorrem o anúncio Phone History, da Three (2018: https://tendimag.com/2018/10/21/parada-de-mitos/).

Marca: Bouygues Telecom. Título: Les Dumas et les portables. Agência : DDB (Paris). Direcção : Rudi Rosenberg. França, 2012.

Existem anúncios de telemóveis que são fabulosos. Polissémicos e com várias camadas de leitura. A estetização é cuidada. Imagens de sonho. Acresce a polissemia. Perfila-se uma ambiguidade nos cenários e nos comportamentos, que propicia uma espécie de currículo oculto. Os episódios do anúncio Real people, Real vacations, da Motorola, convoca pessoas absortas ao telemóvel nos locais mais maravilhosos e interessantes do planeta. Pressupõe-se que passam as férias mais atentos aos telemóveis do que aos locais que visitam. Que efeito produz este anúncio no público. As imagens, verdadeiras protagonistas, são esteticamente fantásticas. O alheamento das pessoas constitui uma nota de humor. Beleza e humor geram boa disposição, face a quem? Face à Motorola. Navegamos nas águas da fábula e da ilusão.

Marca: Motorola. Título: Real people, Real vacations. Agência: Ogilvy & Mather. Estados Unidos, Janeiro 2018.

Casal perfeito

A Hornbach, empresa alemã de ferramentas, tem publicado anúncios magníficos. Delírio puro! No Every project brings you closer, um homem apega-se a uma serra, uma parceira fiel, temperamental e de rara beleza. O namoro culmina em matrimónio. Prevêem-se muitos serrotes. Este caso de amor não é único. Um segundo homem enamora-se por um cepilho. E eu, pelo cinzeiro! Três casais híbridos perfeitos.

Marca: Hornbach. Título: Every project brings you closer. Agência: Heimat, Berlin. Direcção: Pep Bosch. Alemanha, Outubro 2019.

Para onde vão os mortos?

Agrupamento de Escolas de Briteiros. O Dia dos Mortos.

Hoje, temos direito a um comentário trifásico.

No dia dos mortos, solta-se a sede de cerveja. Ontem, a Budweiser brasileira, hoje, a mexicana Victoria. “A dónde vamos ao morir?” Para o nada abismal ou para a vida eterna? Cristo desceu ao inferno e regressou. E ressuscitou ao terceiro dia. As almas aguardam, pacientes, o Juízo Final. E os mortos visitam-nos… A última viagem, a passagem, permanece a nossa inquietação. Original e criativo, tecnicamente esmerado, o anúncio da Budweiser fascina os nossos fantasmas: pelos vistos, pixel a pixel, existe uma ligação biunívoca entre os vivos e os mortos.

Marca: Victoria. Título: Xibalba. A dónde vamos ao morir? Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Salomon Ligthelm. México, Outubro 2019.

Melgaço regressa à “noite dos medos”, um delírio mais celta do que maia. A bebida, agora, é a queimada. A procissão lembra a Santa Companhia (https://tendimag.com/2016/12/26/em-companhia-da-morte/). Sob uma chuva dionisíaca, os vivos incorporam as almas e comemoram os mortos.

Noite dos Medos em Melgaço | Altominho TV. 01/11/2019.

De origem mexicana, os “altares dos mortos” globalizaram-se. Homenageia-se quem é digno de memória. No Agrupamento de Escolas de Briteiros, erguem-se altares a uma diversidade de pessoas falecidas: Eusébio, Joaquim Agostinho, Amália Rodrigues, António Variações, Sophia de Mello Breyner Andresen, Steve Jobs, Edith Piaff, Camões, Martins Sarmento… Os mortos vivem no altar da memória, que, algum dia, também se apagará. Nem sequer falta o galo (https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/)!

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.

Homo Erraticus (Ian Anderson)

Teimoso, preguiçoso, cínico, melancólico e errático, nada submisso.

Nos anos sessenta e setenta, as bandas primavam por desenvolver uma sonoridade própria, a que se acrescentava, frequentemente, uma voz singular: Beatles, The Shadows, Rolling Stones, The Doors, Moody Blues, Creedence Clearwater Revival, Pink Floyd, Deep Purple, King Crimson, Black Sabath, Camel, Led Zepplin, The Who, Yes, Genesis, AC/DC, Renaissance, Tangerine Dream… E Jethro Tull!

Ando há anos para colocar os Jethro Tull no Tendências do Imaginário. Até agora, não encontrei um bom pretexto. Tão pouco hoje. Mas hoje, dia de descanso fúnebre, dei-me ao luxo de procurar vídeos dos Jethro Tull. Combinando qualidade do vídeo e da música, retive dois clássicos: Aqualung (1971) e Too Old to Rock ‘n’ Roll: Too Young to Die! (1976). Esticando-me no tempo, resgatei o instrumental Bourée (1969), num programa da televisão francesa, com um cenário expressivo.

Jethro Tull. Bourée. Stand up. 1969. Ao vivo na Televisão Francesa, programa La Joconde, 1969.
Jethro Tull. Too Old to Rock ‘n’ Roll: Too Young to Die! Too Old to Rock ‘n’ Roll: Too Young to Die! 1976. Ao vivo. British TV Show “Supersonic”, Março 1976.
Jethro Tull. Aqualung. Aqualung. 1971. Ao vivo. Rockpop In Concert 1982.

Diablo

Não existe dia mais apropriado do que o dia dos mortos para estrear o trailer do videojogo Diablo IV. Um grotesco de alta qualidade, que produz uma sensação de estranhamento vertiginoso rumo ao inferno. Se é muito sensível, dispense! Se é apenas um pouco sensível, veja só com um olho.

Fernando e Albertino

Diablo IV – Official Announce Cinematic Trailer | “By Three They Come” | BlizzCon 2019. 01/11/2019.

Feliz dia dos mortos!

SLOVENIA – MAY 03: Death accompanying a merchant and a wealthy banker, Dance of Death (1490), detail from the frescoes by Janez Iz Kastva, Trinity Church, Hrastovlje fortified church, Slovenia. Detail. (Photo by DeAgostini/Getty Images)

Feliz dia dos mortos! Dancem, dancem a dança macabra! Treinem os fémures e as tíbias.

Para o vídeo, convém uma resolução de, pelo menos, 720p.

Camille Saint-Saëns (1835-1921) Danse Macabre (1874) Opus 40 in G minor for violin + orchestra. National Philharmonic Orchestra, conductor Leopold Stokowski.

A cópia e o fragmento

“Nós só conhecemos verdadeiramente aquilo que é novo, aquilo que introduz bruscamente na nossa sensibilidade uma mudança de tom que nos choca, aquilo que o hábito ainda não substituiu pelos seus pálidos fac-símiles. Mas foi sobretudo este fraccionamento de Albertina em numerosos fragmentos, em numerosas Albertinas, que era o seu único modo de existência em mim (…) Cada um de nós não é uno, mas contém numerosas pessoas que não possuem todas o mesmo valor moral” (Marcel Proust, À la recherche du temps perdu. Livre 6 : Albertine Disparue, 1927).

Sempre que me deparo com o tema da sensibilidade, acode-me Marcel Proust, “o realista da alma” (Gazette de Lausanne, 15 de Abril de 1914). Leio e releio Proust pelo prazer literário, mas também pela vontade de aprender. Muitos autores, a começar por Pierre Bourdieu, encaram a obra de Marcel Proust como uma inspiração e uma referência da micro-sociologia. Na presente citação, Marcel Proust releva o “fraccionamento de Albertina (…) em numerosas Albertinas”. No que respeita à fragmentação identitária e à polifonia, Marcel Proust sucede a Arthur Rimbaud (“Eu é um outro”; Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871), mas precede Mikhail Bakhtin e Erving Goffman. Sem ofensa deontológica, no ofício recorro tanto a Blaise Pascal, Marcel Proust, Thomas Mann e Fernando Pessoa, quanto aos faróis mais sublimes do panteão da sociologia académica. Talvez por influência da sociologia fenomenológica, acredito que o conhecimento do social não começa, nem acaba, com um diploma ou uma certificação.

Men Pioneers, da Nívea (México), é um excelente anúncio. Encerra várias ressonâncias que compete a cada um interpretar. Por exemplo, a contradição entre o gládio e a taça (Gilbert Durand) e, eventualmente, a alusão à homossexualidade. Os episódios são impactantes, uns originais, outros, como diria Proust, fac-símiles: concentrados de sentido e emoção já circulados e testados. Despoletam um efeito garantido. O eco e a redundância podem ser amigos da persuasão.

Marca: Nivea for men. Título: Men Pioneers. Agência: FCB Mexico. Direcção: Nico Perez Veiga. México, Outubro 2019.

A democracia avançada

Jan_Miense_Molenaer. Family making music. 1630.

“Dois estilos que correspondem a duas concepções da vida claramente opostas: o estilo clássico, todo economia e razão, estilo das “formas que pesam”, e o barroco, todo música e paixão, grande agitador das formas “que voam” (Eugene d’Ors, Du Baroque, 1935).

Cumpre-me preencher formulário após formulário em plataformas electrónicas como se essa fosse a minha razão de existir. Costumo acompanhar esta penitência com música barroca. Espiraliza a quadratura.

A par do plástico, vigora a epidemia das regras e dos formulários. Mesquinha, quando não estúpida. Campos, campos e mais campos, para o rebanho apascentar. Neste mundo pós-novo, não há vontade, nem iniciativa, que não careça autorização. Autorização, autorização e mais autorização. Obrigados a preencher cinco vezes o mesmo formulário para a mesma entidade, que razão nos assiste? A razão reiterativa, com a repetição do ruído a proporcionar uma erosão do eu. Sinais de uma democracia avançada.

Garantem os sábios que os laços estão a afrouxar. Eu vejo-os a tolher os impulsos e a depenar as asas. Cada época tem as suas palavras mestras; “autorização” é palavra emblemática do nosso tempo. Existem, evidentemente, plataformas que permitem a criatividade, que não resumem as pessoas a coisas timbradas. A técnica sempre foi ambivalente. Há técnicas que nos disciplinam e técnicas que nos libertam. Mas essa é outra história.

A música barroca é um antídoto do classicismo digital, das “formas que pesam”. Além de Bach, Vivaldi ou Haendel, existem compositores barrocos que não desmerecem. Por exemplo, Giuseppi Torelli (1658-1709). Vale a pena ouvir até ao fim.

Giuseppe Torelli. Concerti grossi con una pastorale per il Santissimo Natale, Concerto A Quattro Op. 8, Nº 6 (1709).Performed by Il Giardino Armonico.

A medalha e a bolacha

Ontem, 26 de Outubro, foi dia de cerimónia.

Duas bolachas apaixonam-se num mundo sem salvação. O João bolacha é devorado pelo monstro horrível. Mas a Maria Bolacha vinga-se. É a história contada numa bela curta-metragem de animação da Magic.

Throne of Eldraine Official Trailer – Magic: The Gathering. Setembro 2019.

Fernando e Albertino.