Jornalismo zombie

Canal Q. Perto de si. 2018.

Sempre desconfiei da televisão e da Internet por cabo. No solo, existem raízes, minhocas, água e labaredas infernais. Notícias e imagens, não! Com estas novidades, desencovam-se jornalistas zombies, como sucede no anúncio The Zombie, da dinamarquesa TV2 (2020). Os portugueses descobriram o caminho marítimo para a Índia. Pois também descobriram, antes dos dinamarqueses, a figura do jornalista zombie. Atente-se na curta-metragem da Agência Q: Perto de Si, a série sobre jornalistas zombies | Inferno (2018).

Marca: TVE 2. Título: The Zombie. Dinamarca, Outubro 2020.
Agência Q: Perto de Si, a série sobre jornalistas zombies | Inferno T8 Ep.35. Portugal, 2018.

Com o coração

Princepezinho.

Gosto da Lizz Wright, em particular do álbum The Orchard (2008).Um dos álbuns “recentes” que mais me cativou. Interpretações ao vivo impecáveis. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções, por sinal, as mais populares, Coming Home e I Idolize You (https://tendimag.com/2016/08/16/greve-da-escrita/). Seguem mais duas: Speak Your Heart e Hit The Ground.

Lizz Wright. Speak Your Heart. The Orchard. 2008.
Lizz Wright. Hit The Ground. The Orchard. 2008.

Ninguém é normal.

01. Nobody is normal. 2020.

A normalidade não existe. Apenas desvios à norma. Na literatura, abundam figuras de monstros que são bons e de bons que são monstros. Por exemplo, a Bela e o Monstro, de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (1745), Quasímodo, de Victor Hugo (1831) ou Dorian Gray, de Oscar Wilde (1890). No anúncio Nobody is normal, da britânica Childline  –  NSPCC (Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças), todos são anormais por dentro e por fora.

02 Fonte de Diana de Éfeso. Tivoli. Villa d’Este

A metamorfose da figura feminina galardoada (ver figura 1) lembra, os justos que me perdoem, uma deusa grega, Ártemis, ou romana, Diana, na versão dita de Éfeso. “Bolsas” cobrem-lhe o peito (ver figuras 2 a 7). Há entendidos que alvitram seios, outros ovos ou testículos de touro. Sempre atributos de fertilidade, apanágio da “mãe natureza”. Entre as imagens de Ártemis de Éfeso, retenho a escultura no jardim da Villa D’Este, um colossal palácio maneirista construído no século XVI, em Tivoli, perto de Roma. As fontes de Villa d’Este são famosas (figuras 8 a 17). Os jatos de água provenientes das “bolsas” de Diana de Éfeso não enganam. Parecem seios, uma abundância de seios! Estes esguichos não são de ovos, nem de testículos de touro. Acode-me, que os justíssimos me perdoem, a lactação de São Bernardo (ver https://tendimag.com/2012/10/26/um-abraco-a-divindade-sao-bernardo-de-claraval/).

Anunciante: Nspcc. Título: Nobody is normal. Agência: The Gate. Direcção: Catherine Prowse. Reino Unido, Novembro 2020.

Galeria de imagens 1: Esculturas de Ártemis/Diana de Éfeso.

Galeria de imagens 2: Fontes da Villa d’Este, em Tivoli.

Estética estática. Música chinesa.

Dali religious painting. Extract of Zhang Shengwen’s Huajuan Scroll (1180) held at the National Palace Museum.

Do Japão para a China. Impressiona a postura dos intérpretes das músicasThe legend of Westward Journey (série de TV de 2011) e Adventure of Dali Prince.Optam por uma actuação discreta, quase imóvel. Por vezes, parecem estátuas ou escudeiros dos instrumentos. O que desconcerta.

Zi De Gukin (?).The legend of Westward Journey. China.
Zi De Gukin (?). Adventure of Dali Prince. China.

Modernidade e tradição. Música japonesa.

Japanese digital Art

A indústria dos videojogos constitui uma actividade em crescimento acelerado.

Le revenu mondial du jeu vidéo est estimé à 81,5 milliards de dollars américains en 2014. Soit plus du double de celui du chiffre d’affaires de l’industrie cinématographique mondiale en 2013. En 2015, il est estimé à 91,5 milliards de dollars. / Les plus grandes nations selon les revenus estimés du jeu vidéo en 2016 sont la Chine (24,4 milliards de dollars), les États-Unis (23,5 milliards de dollars) et le Japon (12,4 milliards de dollars) (fonte : https://fr.wikipedia.org/wiki/Industrie_vid%C3%A9oludique).

O jogo “Red Dead Redemption 2”, lançado em 2018, facturou mais de 600 milhões de euros em três dias. No mesmo ano, o filme recordista de bilheteira Avengers: Infinity War não ultrapassou os 570 milhões de euros. Lançado em 2013,  o Grand Theft Auto V (GTA V) facturou €900 milhões. Trata-se de um fenómeno que abrange todas as idades: no conjunto dos jogadores do mundo, apenas um em cada cinco tem menos de 20 anos.

“Os videojogos agora são transversais. Nos anos 80, eram uma coisa de nicho, mas, com o passar do tempo, as crianças tornaram-se adultos e, agora, o jogo é para o pai e para o filho”, refere Tiago Sousa, da Associação das Empresas Produtoras e Distribuidoras de Videojogos (AEPDV). “É hoje um meio influenciador na cultura popular como poucos alguma vez foram.” (https://visao.sapo.pt/atualidade/economia/2018-12-09-o-negocio-dos-videojogos-e-um-faroeste/).

Um meio influente na cultura popular”, mas não só. Nas outras culturas, também. Os videojogos são uma esponja: absorvem, sem cerimónia, traços e valores culturais de todo o mundo. Mas também irradiam traços e valores culturais por todo o mundo. De uma forma polifónica. Envolvem texto, informática, psicologia, música, dança, desenho, audiovisual, mitologia… Particularmente admirável é a forma como convocam modernidade e tradição.

O grupo japonês 傷林果 (shōrinka) caracteriza-se pelo recurso a instrumentos musicais tradicionais. Em Bad Apple interpretam uma música associada ao videojogo Lotus Land Story (quarto jogo da franquia: Touhou Project), lançado em 1998.

Fernando e Albertino

Shourinka. Bad Apple.

Reincidência

As crianças são adoráveis! Às vezes correm riscos, às vezes, teimosos. Por imprevidência? Para chamar a atenção? Apesar do infortúnio, repetem a experiência. Os adultos não são diferentes. A atração pelo risco não tem idade. Nestes dois anúncios neozelandeses da Calci Yum, a criança atreve-se, sofre os danos e recomeça. Sem emenda. A reincidência da asneira é proverbial. Impera, por exemplo, na banda desenhada e no cinema mudo. Não resisto a desencovar uma anedota estúpida e inconveniente.

No chão da sala de aula da escola primária, um pequeno charco aparentemente de xixi. A professora pergunta, em vão, quem foi o autor. Decide recorrer à psicologia pedagógica: “Vou apagar a luz e, no escuro, o autor vai escrever o nome no quadro”. A luz apaga-se, ouvem-se passos, um líquido a cair, passos, riscos no quadro e regresso à carteira. A professora acende a luz. O pequeno charco transformou-se num charco maior. No quadro, lê-se: “mijão fantasma ataca de noite”. A tentação do desvio e da reincidência.

Nos anúncios Bars e Cats, a animação é da autoria de Daniel Greaves:

Daniel Greaves is a director and animator. His enthusiasm and curiosity has enabled him to explore and experiment in a variety of contrasting animation techniques.

With many years of experience including running his own production company, Tandem Films, from June 1986 – 2014 as Co-founder and Creative Director, he has won around 100 international awards for short films and commercials. These include an Oscar, 2 Bafta nominations and the European Cartoon D’Or.

Advertising key campaigns under Tandem includes Ribena, Marmite, British Airways, Expedia.co.uk, Tesco and Schweppes (https://www.daniel-greaves.com/bio).

Marca: Calci Yum. Título: Bars. Agência: Colenso BBDO (Auckland). Direcção: Daniel Greaves. Nova Zelândia, 2009.
Marca: Calci Yum. Título: Cat. Agência: Colenso BBDO (Auckland). Direcção: Daniel Greaves. Nova Zelândia, 2009.

Pomplamoose e Django Reinhardt

Pomplamoose

Pomplamoose é um grupo musical, um duo elástico, norte-americano. Publicou músicas próprias mas também cover,  com arranjos e interpretações notáveis. A música Les Yeux Noirs inspira-se na música homónima (1940) de Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano pioneiro do estilo Gipsy Jazz. Segue a reinterpretação dos Pomplamoose e o original de Django Reinhardt.

Pomplamoose ft. The Vignes Rooftop Revival. Les Yeux Noirs (Dark Eyes). En Français. 2020.
Django Reinhardt & Quintette du Hot Club de France. Les Yeux Noirs. Parlaphone. 1940.

O nariz da discórdia

Cleópatra de Berlim, busto romano de Cleópatra, c. século I a.C. Museu Antigo, na Alemanha.

A gaffe é o centro do anúncio Plastic Surgery, da Scotch Brite. Uma gaffe abismal, maior do que o nariz de Cleópatra. A lançar foguetes e a apanhar as canas, a gente espeta-se. Desmancha-se. Desliza a cara para o fundo das costas.

Marca: Scotch-Brite. Título: Plastic Surgery. Agência: Grey (Argentina). Argentina, 2007.

Agnes Obel

Agnes Obel

Agnes Obel é uma cantora, compositora e pianista dinamarquesa. As suas canções são despojadas, quase intimistas. Parece soprar uma chama que não quer apagar. Publicou quatro álbuns;  algumas músicas ultrapassam 25 milhões de visualizações. Segue The Curse, ao vivo em Berlim.

Agnes Obel. The Curse. Aventine. 2013. Berlin live session.

Sem máscara

Máscara Reutilizável personalizada.

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.

O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.

Marca: One Medical. Título: You’re Freaking us out. Agência: Goodby Silverstein & Partners and barrettSF. Direcção: Jeff goodby & jamie Barrett. Estados-Unidos, Outubro 2020.