Língua fresca

yin yang - Great ultimate chinese medicine painting

Este anúncio tailandês é um pequeno concentrado de manga, anime, samurais e outros prodígios orientais. Nem sequer falta a levitação circular a lembrar o Yin e o Yang.

Marca: Yen Yen. Título: ลิ้นโลกันตร์. Produção: Phenomena Company Limited. Direcção: Ketchai Praponsilp. Tailândia, Janeiro 2017.

Querer com as velas levar o vento

Pablo Picasso. Seated Harlequin. 1901.

P. Picasso. Seated Harlequin. 1901.

Longe no tempo, o ancião, longe no espaço, o eremita, ambos vêem de longe o que já viram de perto. “Cansada já a velhice” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 90), sabem que é insensato “querer com as velas levar o vento” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 91), bem como é imprudente querer com a técnica levar o mundo. Aos olhos sentados, a técnica corre sempre adiantada em relação a nós, sempre atrasada, em relação a ela própria. O controlo remoto, como no anúncio GPS, recalculando, da BC, é a sua metonímia.

Marca: BC. Título: GPS recalculando. Agência: Delcampo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2010.

O espelho invertido

Detalhe da Tapeçaria do Apocalipse, por Jean Bondol e Nicholas Bataille, no Castelo de Angers. 1382.

Detalhe da Tapeçaria do Apocalipse, por Jean Bondol e Nicholas Bataille, no Castelo de Angers. 1382.

Quando a auto-derisão se extrema, é bom sinal, é sinal de que a identidade o admite. Pelos vistos, nem fumar, nem ser doente mental conseguem ser piores do que ser argentino! O absurdo, bem destilado, é um bom comunicador.

Marca: Argentina New Cinema Fillm Festival. Título: Transplant. Agência: Connil Advertising Los Angeles. Direcção: Dos Ex Maquina, USA, 2016.

Ontem, dia 13 de Maio, Salvador Sobral, representante de Portugal, venceu o Festival Eurovisão da Canção de 2017. Foi a primeira vitória de Portugal, com a maior votação de sempre. Esta notícia é sobejamente conhecida em Portugal, mas como cerca de 80% das consultas deste blogue provêm do estrangeiro, partilho a boa nova.

Salvador Sobral – Amar Pelos Dois (Portugal) Eurovision 2017 – Official Music Video.

Visão secreta

Andy Wahrol para a Ray-Ban

Andy Warhol para a Ray-Ban.

Há ocasiões em que os dois olhos não chegam. Por exemplo, hoje: Papa, Benfica, Eurovisão. Alguém pediu um três Fs? É muito ecrã para um distraído. Que fazer? Adquirir os óculos da Directv, (mais) um invento que vai revolucionar a nossa vida. O sonho torna-se realidade: vemos e não vemos, estamos e não estamos, participamos e não participamos. Nos contextos mais incríveis, apenas vemos futebol. O que a técnica pode fazer por nós!

Marca: Directv. Título: Sportglasses. Agência: Ogilvy Argentina. Direcção: Federico Russo. Argentina, Abril 2017.

A degradação humana

A degradação e a violência do ser humano em cinco fotografias da Getty Images escolhidas pela agência DDB Argentina (imagens em alta resolução, carregar para aumentar).

“La idea es mostrar la contraposición entre la sensibilidad social y artística de una fotografía” (…). “De esta forma, muestra las injusticias del mundo que tanto sensibilizan sin dejar de lado la belleza y calidad que contienen las fotos, ya que fueron capturadas por los mejores fotógrafos que trabajan para Getty Images” (DDB Argentina).

1. Lixo. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

1. Lixo. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

2. Pobreza. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

2. Pobreza. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

3. Soldado. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

3. Soldado. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

4. Ataque. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

4. Ataque. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

5. Corno. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

5. Corno. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Crepúsculo

Lucky Luke. O cow-boy solitário.

Morris. Lucky Luke. O cow-boy solitário.

“Crepúsculo: Símbolo intimamente ligado à ideia do Ocidente, o lugar em que o sol declina, se apaga e morre. Exprime o fim de um ciclo e, por conseguinte, a preparação de uma renovação. As grandes proezas mitológicas, prelúdio de uma revolução cósmica, social ou moral, tiveram o seu desfecho no decurso de uma viagem para Oeste: Perseu procurando matar a Górgona, Hércules o monstro do Jardim das Hespérides, Apolo levantando voo junto dos Hiperbóreos, etc.

O crepúsculo é uma imagem espácio-temporal: o instante suspenso. O espaço e o tempo vão emborcar ao mesmo tempo num outro mundo e noutra noite. Mas esta morte do Um é anunciadora do outro: um novo espaço e um novo tempo sucederão aos antigos. A marcha para Oeste é a marcha rumo ao futuro, mas mediante transformações tenebrosas. Para além da noite, aguardam novas auroras.

O crepúsculo reveste também, por si, e simboliza a beleza nostálgica de um declínio e do passado. É a imagem e a hora da melancolia e da nostalgia” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Ed. Robert Laffont, 1969, p. 311-312).

Marca: Sumol. Título: Fruit Bubbles. Agência: Brandia Central (Lisboa). Portugal, 2009.

O crepúsculo e a melancolia constituem tópicos marcantes da criação cultural e artística.  Não há como escolher. Segue um anúncio português da Sumol, uma meia dúzia de pinturas e dois vídeos musicais. Por último,  uma brincadeira desmiolada: a lenda da criação da Luz Eléctrica.

Galeria de imagens: Impressões crepusculares.

“A marcha para Oeste é a marcha para o futuro”. A expressão inglesa go west é, contudo, uma espécie de busto com duas faces. Pode ser uma bússola apontada para uma terra prometida. A expressão está historicamente associada à colonização, para Oeste, dos Estados Unidos. Go West é título de filmes de Buster Keaton (1925) e dos Marx Brothers (1940), bem como da canção dos Village People (1978), retomada pelos Pet Shop Boys (1993). O significado corrente da expessão go west na língua inglesa é, porém, o oposto: ir para Oeste é ser destruído ou morto.

Pet Shop Boys. Go West. 1993.

Lenda da Criação da Luz Eléctrica

Crepúsculo e Aurora gostavam um do outro. Mas a noite e o dia não os deixavam namorar. Rogaram ao sol e à lua, mas nada. O sol e a lua não paravam de rodar.  Um dia, a lua e o sol cansaram-se de tanta volta. Estacionaram um frente ao outro. Foi o mais longo e escuro eclipse de sempre. Nem se via um pirilampo. Crepúsculo e Aurora aproveitaram para se encontrar, não sei se ao meio-dia se à meia-noite. Desta união, nasceu a Luz Eléctrica, que brilha quando quer, seja noite, seja dia.

Anne Dudley. Moments in love. A Different Light. 2001.

O coro dos sapos

Plague of frogs, Pamplona Bible, Navarre 1197 (Amiens, Bibliothèque municipale, ms. 108, fol. 42v

Praga de sapos. Bíblia de Pamplona. Navarra. 1197.

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Songes drolatiques de Pantagruel, François Desprez, Paris, 1564.

Não tenho particular apreço pelos sapos. Nem para beijar, nem para engolir. Mas gosto de os ver no ecrã. Quem não tem saudades do Cocas?

A Budweiser apostou na figura do sapo, desde os anúncios Frogs e Tongue lashing frogs, ambos de 1995, até ao anúncio Bud Light Frogs, de Maio 2017.

No imaginário ocidental, o sapo é um símbolo crepuscular, associado à lua, à água, à terra e, por vezes, à bruxaria, ao diabo e à morte.

Marca: Bud Light. Título: Bud Light Frogs. Agência: Mcgarrybowen. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Budweiser. Título: Tongue lashing frogs. Agência: DDB Needham. USA, 1995.

Marca: Budweiser. Título: Frogs. Agência: D’Arcy Masius Benton & Bowles. USA, 1995.

De bicicleta até ao fim do mundo

Katie Melua Piede by piece

“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.” (Blade Runner, Tears in Rain).

Vi muitos anúncios de consciencialização: moralistas, solidários, sentenciosos, cómicos, grotescos, depreciativos, cruéis, tétricos, estúpidos, mas não dei conta de nenhum anúncio cínico. Le Cicliste, da Police cantonale de Fribourg, colmata a lacuna. Pedalar com presunção e euforia pode ser funesto; 50% dos ciclistas morrem por culpa própria. Quanto mais parvo ao pedal, mais depressa se chega ao outro mundo.

Para acompanhar, Katie Melua, 9 million bicycles.

Marca: Police Cantonale Fribourg. Título: Le Cicliste. Agência: Helvetics. Direcção: Jérôme Piguet & Raphael Sibilla. Suíça, Abril 2017.

Katie Melua, 9 million bicycles. Piece by piece. 2005.

Preconceito em cadeia

Man Ray, Ella Raines, 1947

Man Ray, Ella Raines, 1947.

Há um tipo de razão que custa aos homens admitir: a razão dos outros.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem ou no endereço http://www.culturepub.fr/videos/anti-racisme-le-banc/.

Racismo em cadeia

Anúncio: Anti Racismo. Título: O Banco. Agência: BDDP. Espanha, 1996.