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Algo

Fui a Coucieiro, algo rural, com o Eduardo, o Lilo e o Alberto, algo foliões. Na nave da igreja, uma celebração às colheitas, algo tardia, na torre, altifalantes com cantigas brejeiras, algo profanas, e no salão paroquial, a Festa das Papas de Sarrabulho, algo precoces. No regresso, a tasca do Valente, na Senhora do Alívio, algo atemporal, e, em casa, os Penguin Cafe Orchestra, algo minimalistas. No conjunto, um domingo, algo entre o céu e a terra.

Penguin Cafe Orchestra – Air à Danser. Penguin Cafe Orchestra, 1981
Penguin Cafe Orchestra – Prelude and Yodel. Penguin Cafe Orchestra, 1981
Penguin Cafe Orchestra – Telephone and  Rubber Band. Penguin Cafe Orchestra, 1981
Penguin Cafe Orchestra – Music for a found harmonium. Broadcastinf from Home. 1984
Penguin Cafe Orchestra- Perpetuum Mobile. Signs of Life.1987

“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço

Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.

Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Anúncio português vintage 9. Rave

Onde amassar? No meu carro, no teu ou no dele? Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Marca: Nissan. Título: Rave. Agência: BBDO. Portugal, 2003

A Ditadura do Riso. O grotesco no poder

Não sei se o século XXI vai ser religioso, agnóstico ou grotesco. Nem tão pouco se vai entoar outro fado qualquer. Não me cumpre ser profeta. Mas esboçar os traços do imaginário grotesco não se resume a um mero exercício académico de confrangedora inutilidade. Talvez importe saber diagnosticar o que lavra nestes feixes de interpelações de aparência grotesca. Na convicção de que não será tarefa fácil destrinçar, por exemplo, o trágico do grotesco, o herético do patético, o desencantamento do reencantamento, a utopia libertária da sereia totalitária (“O delírio da disformidade: o corpo no imaginário grotesco”, Comunicação e Sociedade (vol. 4, 2002, pp. 117-130).

Os ventos parecem favoráveis a totalitarismos de todas as cores e a “personalidades autoritárias” de todos os feitios, com o grotesco a grassar cada vez mais nas esferas do poder.

Talvez não seja de todo despropositado recordar o conceito de personalidade autoritária proposto por Theodor W. Adorno e demais colegas da Escola de Frankfurt no livro The Authoritarian Personality, publicado em 1950. Pretendia-se, então, diagnosticar quais eram os traços psicológicos que predispunham ao fascismo.

Imagem: George Grosz – Os Pilares da sociedade, 1926

Segundo as conclusões deste estudo, as principais caraterísticas da personalidade autoritária são as seguintes:

Convencionalismo – Apego rígido a valores tradicionais estabelecidos pela autoridade dominante.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer e se submeter a autoridades vistas como legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que não seguem normas convencionais.
Anti-intelectualismo – Desconfiança em relação ao pensamento crítico e à complexidade das ideias
Preocupação Exagerada com a Ordem e o Poder – Necessidade de estrutura rígida e hierárquica na sociedade.
Hostilidade a Grupos Minoritários – Preconceito contra aqueles considerados “diferentes” ou “inferiores”.
Pensamento Estereotipado – Visão simplista e categórica da realidade, baseada em rótulos fixos.
Projeção Psicológica – Atribuição de impulsos reprimidos a outros, especialmente a grupos marginalizados.
Ceticismo em Relação à Democracia – Preferência por sistemas mais autoritários em detrimento da liberdade individual.
Adorno e seus colegas usaram a Escala F (Fascismo Scale) para medir essas tendências e argumentaram que a personalidade autoritária nasce de experiências de socialização repressiva na infância, especialmente em lares muito rígidos e disciplinadores. Essa teoria foi fundamental para entender o autoritarismo e os mecanismos psicológicos do preconceito. (ChatGPT, 06.03.2025)

Em conformidade, foi construída uma escala, a Escala F, para aferir a propensão dos indivíduos a desenvolver personalidades autoritárias e atitudes favoráveis ao fascismo. Composta por nove dimensões, a escala consiste num conjunto de afirmações perante as quais os entrevistados expressam a sua concordância ou discordância. As nove dimensões são, esquematicamente, as seguintes:

“Convencionalismo – Forte adesão a valores tradicionais da classe média.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer cegamente autoridades consideradas legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que desafiam normas convencionais.
Anti-intracepção – Rejeição da subjetividade, imaginação e do pensamento introspectivo.
Superstição e Estereotipia – Crença em destinos sobrenaturais e tendência a categorizar rigidamente pessoas e eventos.
Poder e “Dureza” – Valorização excessiva da força, dominação e hierarquia social.
Destrutividade e Cinismo – Visão negativa e punitivista da humanidade.
Projeção – Tendência a ver nos outros os impulsos reprimidos da própria pessoa.
Sexualidade Exagerada – Preocupação excessiva com normas sexuais e condenação de comportamentos vistos como desviantes. (…)
Os participantes deveriam avaliar frases como:
“Obediência e respeito à autoridade são as virtudes mais importantes que as crianças devem aprender.”
“Nenhuma fraqueza ou gentileza deve ser permitida em um líder.”
“As pessoas podem ser divididas entre grupos superiores e inferiores.”
“A homossexualidade é uma ameaça à sociedade e deve ser severamente punida.”
As respostas eram pontuadas em uma escala de concordância, e pontuações altas indicavam forte inclinação autoritária.  (ChatGPT, 06.03.2025).

A página Culture Pub elaborou uma sequência de anúncios que ilustra humoristicamente a ambivalência grotesca do poder que tanto se presta à espetacularização como à ridicularização.

Compilation Culture Pub – La Dictature du Rire. Cinco anúncios. CulturePubTV. 15.02.2022

As Festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro

Ontem, conversei até à meia noite, durante mais de duas horas, sobre o carnaval. Comentei e ilustrei, com música e imagens, algumas das figuras mais caraterísticas do imaginário carnavalesco.

Imagem: Raoul Le Petit. L’Histoire de Fauvain, 1326. Bibliothèque nationale de France

Na Idade Média, sucediam-se, no final de fevereiro, três festas: dos Loucos, dos Inocentes e do Burro. Perduraram até ao século XVIII. Seguem:

  • Três cânticos da Missa do Burro;
  • Um testemunho de 1741 sobre as festas do Loucos e dos Inocentes;
  • Um programa da rádio Europe 1 dedicado a estas três festas.

Na festa do Burro, o “arcebispo” eleito, entrava na igreja montado num burro às avessas. Seguia-se uma paródia de missa e procissão, ambas acompanhadas a preceito com cânticos (a)berrantes, de preferência zurrados.

Clemencic Consort – Kyrie Asin- Litaniei. La Fête De L’Âne, 1980
Clemencic Consort – Novus annus – Hunc diem – Ite missa est – Orientis partibus II. La Fête De L’Âne, 1980
Clemencic Consort – Procession: Cavalcade. La Fête De L’Âne, 1980

Nas suas Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, publicadas em 1741, Mr. Du Tilliot descreve os desmandos das festas dos Loucos e dos Inocentes:

Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a bênção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.
Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas (…)
Em determinados Mosteiros de Provence se celebra a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. Nunca (…) os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6 e 19-20).

No podcast Au Coeur de l’Histoire, da Europe 1, no episódio “La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche”, Clémentine Portier-Kaltenbach aborda as festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro.

Au Coeur de l’histoire – Clémentine Portier-Kaltenbach: La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche. Europe 1, 07/07/2022

Prazer gutural

Amanhã, segunda 3, pelas 22 horas, vou animar uma tertúlia sobre o Carnaval, na Observalícia (Rua Nova de Santa Cruz, 369, lj18, Braga). Convocarei, principalmente, resultados de estudos que empreendi. Entretanto, enquanto preparo imagens, escuto música.

O canto é fonte de múltiplos prazeres, de ouvintes e intérpretes. Nos últimos, relevo o prazer que designo como gutural. Remete para a respiração, para a sensação do ar na garganta. A propósito da infância, Jean-Louis Tristani chega a avançar a noção de um  “estádio do respiro” (ver De cortar a respiração).

Afigura-se-me existirem cantores que apostam nesse efeito.

RY X – Howling. Single. 2016. Live from the Vibiana, 2022
RY X – Sweat. Dawn, 2016. Live from the Vibiana, 2022
RY X – Shortline. Dawn, 2016. Live at the Roundhouse with the London Philharmonic Orchestra, 2023

Não conhecia. Gostei e disfrutei. Ele usa a voz praticamente em modo de sussurro, com uma poderosa união ao instrumental, em que persiste uma batida de fundo, como o bater do coração. Na segunda, de modo ainda mais complexo, a orquestra eleva a cadência, juntando um instrumento de cada vez, até a uma linha curta mas contínua, como se fora o lugar do êxtase, para depois docemente voltar à batida do coração, sossegando. Apela a todos os sentidos, expirando toda uma sensualidade que, se não invoca, pelo menos roça o erótico. É perfeito para escutar com os olhos fechados numa união com os elementos. Howling, Uivando, se não à lua, para dentro do peito. Meu Deus, como me surgiu tudo isto. O melhor é mesmo sentir… (Almerinda Van Der Giezen)

Festa das Varas do Fumeiro e Procissão das Chouriças

Melgaço é terra de alvarinho, mas também de fumeiro. Os seus presuntos e enchidos destacam-se entre os mais reputados do País desde há muitos séculos. A Festa das Varas do Fumeiro, em Aranhas (Penamacor), e a Procissão das Chouriças, em Valado dos Frades (Nazaré), oferecem-se como tradições inspiradoras.

Carregar nas imagens seguintes para ver os respetivos vídeos.

Festa das Varas do Fumeiro. Aranhas, Penamacor. 2020
Procissão das Chouriças. Valado dos Frades, Nazaré. 2017

Boas festas

Oficina de Hans Thoman. Adoração dos Magos. ca. 1515–20. The Metropolitan Museum of Art

Com um conjunto escultórico do século XVI, um coro de embalar e uma canção ao Pai Natal, desejo-vos Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Compositor Kim Arnensen. Interpretação: Kantorei of Kansas City. Condução: Chris Munce. Igreja Católica de São Pedro, no Kansas, 20.12.2015
Tino Rossi – Petit Papa Noël, 1946

Matraquilhos

Acontece-me abusar do Tendências do Imaginário como uma espécie de diário onde me atrevo a colocar trivialidades. Ontem, após demasiados anos de jejum, voltei a jogar matraquilhos. Sem a velocidade nem a destreza de outrora. Soube mesmo assim a reconquista, não menos importante do que proferir uma conferência. Na loja do meu avô, havia matraquilhos. Pequeno, colocavam-me sobre um caixote para chegar aos varões. Na realidade, cresci a jogar matraquilhos, não a dar conferências.

A jogar matraquilhos com o Mingos. 22 de dezembro de 2024. Filmado por Fernando Gonçalves

Solidão abençoada

“Os pobres têm gelo no inverno e os ricos no verão” (Anónimo)

O Natal quer-se solidário, não solitário. Caso necessário, imagina-se companhia, e a solidão arrisca tornar-se abençoada.
Gosto do Miguel Torga, em particular dos contos. Manifesta-se sempre grato (re)partilhar este “Natal”; (re)lê-lo, quase um milagre! A neve transmontana pode aquecer os corações.

Imagem: Jean-Pierre Philibert. Le vagabond efficace. 2020