Tinha içado a vela, navegava à deriva obliquamente, como um caranguejo; depois, ao chegar ao fim do seu percurso, corrigia a deriva a baixa velocidade, posicionava-se de lado a três quartos do vento e a sua proa robusta abria-lhe caminho. (Roger Vercel, Remorques, 1935).
Apesar de estar com pouco tempo livre, assoberbado a escrever um capítulo intitulado ASenhora da Cabeça, São Bartolomeu e o sagrado em Penso, dei-me ao luxo, com imenso prazer, de revisitar o artigo A canção da morte a passo de caranguejo, colocado em 11 de setembro de 2017. A primeira parte retoma o artigo A passo de caranguejo. A canção da morte, publicado em 24 de abril de 2015. Versa sobre postais ilustrados, embora o mais interessante não seja o conteúdo, mas a indagação e a digressão, ao jeito de um crustáceo. O resultado não é pequeno. As coisas com que me entretinha em tempos adversos! Quando tiver uma folga, recomendo uma espreitadela. Já agora, o meu signo é o caranguejo.
O filme Le Roi et l’Oiseau (1980) constitui um bom exemplo de articulação entre a animação (Paul Grimault), a música (Wojciech Kilar e Joseph Kosma) e o texto (Jacques Prévert). Vale a pena ver este episódio da pintura do retrato do rei de Taquicardia.
Paolo de Matteis (1662-1728). Triunfo de Neptuno e Anfitrite. Barroco, Itália, Escola de Nápoles, Villa Margherita, Bordighera
Saiu um novo anúncio da Guinness: Made of Black (Gana). Um anúncio da Guinness costuma ser um acontecimento no mundo da publicidade. Por tradição, constam entre os melhores dos melhores. Recordo Sapeurs (2014), World (2009), Tipping Point (2007), Noitulove (2005), Lava (2002) e Surfer (1999). Este último somou prémios e foi considerado, em 2002, o melhor anúncio de sempre pelo Channel 4 e pelo Sunday Times. Os rankings valem o que valem, mas não deixam de valer o que valem.
Seguem três anúncios, todos com pós-produção da agência alemã Sehsucht. O primeiro, The Ultimate Visual Stimulant, é uma auto-promoção. Predominam as sensações, com uma exacerbada excitação dos sentidos. A agência pretende evidenciar a sua competência no domínio multimédia. / O anúncio Sounds of Summer, da Mercedes-Benz, convoca, através das sensações, emoções. No seu despojamento, os sons e as imagens despoletam sentimentos no espectador. / O terceiro anúncio, Coop Evolution, do Swiss Bank Coop, apesar da criatividade visual ou graças a ela, mas com algum risco de distracção, apela à razão: prepara e promove uma ideia, um entendimento.
O artigo O riso da velha grávida (revisto), colocado em 29 de janeiro de 2023, não surgiu por geração espontânea. Uma primeira versão homónima remonta ao do dia 13 de março de 2016. um intervalo de reincubação de quase sete anos. E ainda não está fechado. Hoje, volvidos três anos, introduzir-lhe-ia bastantes alterações. Mas assinei-o, e continuo a identificar-me com ele.
Imagem: Terracota com Baubo sentada num porco. British Museum.
O riso da velha grávida evidencia alguns defeitos e virtudes de uma forma de pensamento e de um estilo de escrita. Não são uniformes, nem lineares: adotam o desvio e a fragmentação como roteiro e arquitetura. Atardam-se nos detalhes e nas margens para aceder ao todo e ao núcleo. Como os vitrais, convocam uma variedade de pedaços não transparentes que aspriram a configurar-se juntos proporcionando uma nova luz. Pelo meio, esquecem a arte de ir direito ao assunto, de procurar sem se perder e de argumentar sem complicar. Empenham-se em seduzir o interlocutor, mas não ao ponto de lhe facilitar a recepção, um risco de preguiça mental e anestesia criativa.
Ontem, 31 de agosto, os artigos incidiram sobre a música e a publicidade. Hoje, será questão de imagens e pensamentos.