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Quando o negócio se oferece generoso

A vida e a morte aproximam-se, dão, aliás, frequentemente as mãos. Uma pressupõe a outra. No ciclo anual, esta proximidade é particularmente pronunciada no outono. “Salta-se” de uma comemoração da morte, dos que partiram, para uma celebração da vida, dos que nascem. A publicidade acusa esta viragem. Passa a aludir mais à vida e à esperança e menos à morte e à memória. A campanha natalícia começa na primeira metade de novembro, quase a seguir ao Dia dos Mortos. Os “anúncios de Natal” circulam, portanto, há já alguns dias.

A cadeia de lojas britânica John Lewis & Partners faz questão de publicar todos os anos anúncios de rara qualidade e criatividade. Extensos, convocam um universo mágico em que crianças desenvolvem uma relação inesperada e generosa com figuras fantásticas mais ou menos associadas ao espírito do Natal.

Segue o anúncio Snapper: The Perfect Tree, estreado no dia 9 de novembro. Aproveita-se o ensejo para recordar os anúncios de Natal da John Lewis dos anos 2019 e 2021.

Marca: John Lewis. Título: Snapper: The Perfect Tree. Agência: Saatchi & Saatchi, London. Direção: Megaforce. UK, 09/11/2023
Marca: John Lewis & Waitrose. Título: Edgar the dragon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direção: Dougal Wilson. UK, Novembro de 2019
Marca: John Lewis & Partners. Título: Unexpected Guest. Agência: Adam & Eve DDB London. Direção: Mark Molloy. UK, Novembro de 2021

A imaginação infantil ao poder

Toys’R’Us. Imagination Included – Mr. Ferguson. 2022

“A imaginação ao poder” (palavra de ordem de Maio 68)

O Halloween já passou, o Natal está à porta. A imaginação infantil ao poder, tanto nos Estados-Unidos (onde a Toys’R’Us tem sede) como na Rússia (onde a S7 Airlines tem sede)!

Marca: Toys’R’Us. Título: Imagination Included – Mr. Ferguson. Agência: Broken Heart Love Affair/Toronto. Direção: Mike Warzin. Canadá, novembro 2022
Marca: S7 Airlines. Título: Imagine. Agência: Wieden + Kennedy, Amsterdam. Direção: Joshua Neale. Holanda, março 2015.

E as crianças?

Save the Children

As realidades abordadas nestes três anúncios da Save the Children não são inauditas. De vez em quando, os meios de comunicação social fazem-lhe alusão. Save the Children Fund é uma organização internacional não governamental de defesa dos direitos da criança, ativa desde 1919, com sede em Londres.

Anunciante: Save the Children. Título: Save the Survivors. Agência: POL. 2022.

Anunciante: Save the Children. Título: Save the Children. Agência: POL. Direção: Niels Windfeldt. 2022.

Anunciante: Save the Children. Título: Survivors. Agência: Landia. Direção: Francisco Paparella. 2019.

Sweetie. Detetor virtual de pedófilos

Terre Humaine. Sweetie. 2014

A growing number of internet usage has also increased online child sexual exploitation. 750,000 predators are estimated to be connected to the web at any time. In the last 3 years 78 perpetrators worldwide have been arrested for engaging in Webcam Child Sex Tourism. The Terre des Hommes Netherlands project Sweetie was launched to tackle this situation. Sweetie, a virtual 10 year old Filipino girl, tracks down perpetrators.

A rapidly growing new form of online child sexual exploitation has emerged: Webcam Child Sex Tourism. This takes place where adults pay or offer rewards to children to perform sexual acts in front of a webcam. Tens of thousands of children in the Philippines are affected by this (…)

In 2013, using the virtual girl Sweetie, TdH researchers identified over 1000 offenders seeking webcam sex with children within two months. The following report served as a wake-up call worldwide and the UN placed the issue on their agenda. In the Philippines, internet dens exploiting children sexually were closed down and perpetrators faced prosecution based on the research handed over to law enforcement agencies. However, many perpetrators remained in the dark (..

To prevent the continuing phenomena of child webcam sex, Terre des Hommes has gone a step further: Sweetie 2.0 is a software being developed by a team of experts of the Universities Tilburg and Leiden. Sweetie detects, identifies and deters millions of potential offenders worldwide. The system will be aligned with national and international frameworks of investigation and prosecution” (Sweetie: how to stop Webcam Child Sex Tourism: https://www.tdh.ch/en/projects/sweetie-how-stop-webcam-child-sex-tourism; acedido em 01/08/2022).

Segue a apresentação do projeto #Sweetie 24/7 em duas versões: dois e seis minutos.

Anunciante: Terre des Hommes. Título: Sweetie. Agência: Havas Lemz. Países Baixos, 2014. Versão: 2:15.
Anunciante: Terre des Hommes. Título: Sweetie. Agência: Havas Lemz. Países Baixos, 2014. Versão: 6:09.

“L’utilisation croissante d’internet a également fait augmenter l’exploitation sexuelle des enfants en ligne. On estime à 750’000 le nombre de pédophiles qui sont connectés à internet en tout temps. Au cours des trois dernières années, 78 prédateurs ont été arrêtés dans le monde pour avoir été actifs dans le tourisme pédophile via webcam. Le projet Sweetie de Terre des Hommes Hollande a été lancé pour attaquer ce fléau. Sweetie, une fillette philippine virtuelle de 10 ans, piège les prédateurs sur le web (…)

Une nouvelle forme de pédophilie en ligne est en train de se développer: le tourisme sexuel avec des enfants via Webcam. Des adultes paient ou offrent des récompenses à des enfants qui acceptent de réaliser des actes d’ordre sexuel devant leur webcam. Rien qu’aux Philippines, des dizaines de milliers d’enfants sont concernés (…)

En 2013, utilisant la fillette virtuelle Sweetie, les chercheurs de Terre des Hommes ont identifié plus de 1’000 individus cherchant à attirer des enfants via Webcam à des fins sexuelles. Leur rapport a ensuite servi de signal d’alarme international et l’ONU l’a inscrit à son agenda. Aux Philippines, des sites internet qui exploitaient sexuellement des enfants ont été fermés et les prédateurs ont été poursuivis grâce aux résultats de ces recherches remis aux autorités policières. Cependant, de nombreux prédateurs ont pu rester dans l’ombre (…)

Pour stopper ce phénomène, Terre des Hommes a fait un pas de plus : Sweetie 2.0 est un programme développé par une équipe d’experts des universités Tilburg et Leiden. Ce programme, qui détecte, identifie et dissuade des millions de prédateurs potentiels dans le monde, sera harmonisé avec les systèmes nationaux et internationaux d’investigation et de poursuite” (Sweetie: stopper le tourisme pédophile via webcam: https://www.tdh.ch/fr/projets/sweetie-approche-novatrice-stopper-tourisme-pedophile-webcam; acedido em 01/08/2022)

Infância

Uma pausa na publicidade e na escrita, para intercalar a escuta. Duas canções de Patti Smith: a primeira, Mother Rose, dedicada à maternidade, para massajar os sentidos e o cérebro; a segunda, dedicada a Tarkovsky, com imagens da sua casa de infância, para perturbar o cérebro pelos sentidos.

Patti Smith. Mother Rose. Trampin’. 2004.
Patti Smith. Tarkovsky (The Second Stop Is Jupiter). Banga. 2012.

Peluches sem espinhos

Corey Wolfe. Mona Lisa como urso de peluche.

O Natal já passou. Vivam os Reis! Nesta ternura de anúncio da Butlins, o monstro é uma relva fofa, a bola uma flecha de Cupido e a música, Dust in the Wind em versão retocada, um regalo (Facebook, 27/12/2010).

Anunciante: Butlins. Título: Leaving. Agência: Mother London. Director: Nic & Sune. UK, Dez. 2010.

Uma moeda e três corações

Goethe

O anúncio chinês Change for good condiz com a tradição dos contos morais orientais. Dois rapazes irmãos amealham, com esforço, moedas com o objetivo de comprar um telemóvel para falar com a mãe distante. Prestes a conseguir, o mais novo perde o calçado. Gastam o dinheiro amealhado na compra de um par de sapatilhas. Desfaz-se o sonho do telemóvel. Mas o comerciante dá uma moeda de troco e altera o preço do telemóvel. O troco dá para comprar o telemóvel.

Nós, ocidentais, também temos lendas, com moedas, de elevado valor moral, por exemplo, a fábula com Jesus, São Pedro, uma ferradura, moedas e cerejas.

Carregue na imagem para aceder ao anúncio.

Anunciante: Tencent. Título: Change for good. Agência: Topic. China, Outubro 2020.

A Lenda da Ferradura

Quando ainda obscuro e desconhecido

Nosso Senhor andava na terra

Muitos discípulos o seguiam

– Que raras vezes o compreendiam,

Amava doutrinar as massas

Nas ruas amplas e nas praças,

Pois à face dos céus a gente

Fala melhor e mais livremente.

Ali, dos seus divinos lábios

Fluíam os ensinamentos mais sábios;

Pela parábola e pelo exemplo

Faziam de cada mercado um templo.

Certa vez quando, em paz e santidade,

Chegava com os seus a uma cidade,

Viu qualquer coisa luzir na estrada;

Era uma ferradura quebrada.

Disse a São Pedro com brandura:

– “Pedro, apanha essa ferradura!”

Porém São Pedro, no momento,

Tinha ocupado o pensamento

E absorto em êxtase profundo,

Sonhava-se o dominador do mundo,

Rei, papa, ou tal que se pareça.

Aquilo enchia-lhe a cabeça;

E havia de dobrar a espinha

Por uma coisa tão mesquinha?

Se fosse um cetro, uma coroa,

Mas uma ferradura à toa…

E foi seguindo, distraído,

Como se não tivesse ouvido.

Curvou-se Cristo, com doçura

Celeste, angélica, humilde,

E ergueu do chão a ferradura;

E quando entraram na cidade

Vendeu-a em casa de um ferreiro.

Comprou cerejas com o dinheiro.

Guardando-as, à sua maneira,

Na manga – em falta de algibeira.

Dali saíram por outra porta.

Fora a campanha estava morta;

Nem flor nem sombra; ao longe, ao perto

Era o silêncio, era o deserto,

Era a desolação; ardia,

Torrava, o sol do meio-dia.

Que não valia em tal secura

Um simples gole de água pura!

Nosso Senhor caminha à frente.

Deixa cair discretamente,

Furtivamente, uma cereja

Que Pedro apanha, salvo seja,

Com cabriolas de maluco.

A frutinha era mesmo o suco.

Outra cereja no caminho

Atira o Mestre de mansinho,

Que Pedro apanha vorazmente.

E assim por diante, não uma vez somente,

Fê-lo o Senhor dobrar a espinha

Tantas vezes quantas cerejas tinha.

Durou a cena um bom pedaço.

Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:

– “Pedro, se fosses mais ligeiro

Não tinhas tido este cansaço.

Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,

Tarde por muito menos se fadiga.”

(1797)

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

Incompreendido

Incompreso, de Luigi Comencini. 1966.

A Itália é um santuário do cinema. Os anos cinquenta e sessenta foram gloriosos. Sobressaem o neorrealismo e a comédia. O filme Incompreso (Quando o amor é cruel, em Portugal), de Luici Comencini (1966), não é neorrealista nem cómico. Após a morte da mãe, o pai pede ao filho mais velho (Andrea) para manter segredo perante o irmão mais novo (Milo), bem como para o proteger. Acontece que, dos dois irmãos, o mais frágil é o mais velho. A situação agrava-se culminando na morte de Andrea. É um filme sobre o luto, a vulnerabilidade humana, a solidão e a incomunicação entre gerações (pai e filho). O filme é um melodrama denso e opressivo. Um misto de olhar psicológico e microssociológico. O Incompreendido é um filme marcante. Vi-o com o Marino Trancoso, um amigo jesuíta colombiano, que fez doutoramento com Claude Bremond. Faleceu há anos. Um dos principais anfiteatros de Bogotá tem o seu nome. Tanto olho para trás que fiquei com a cabeça torta e o pescoço dorido.

Consultei a Wikipedia a propósito do cinema italiano. Propõe uma lista com os trinta “principais directores”. Não contempla o Luigi Comencini. Tenho um gosto depravado; não acerto nos valores consagrados. Resolvi aceder à versão em inglês. Nos primeiros lugares, aparecem Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Ettore Scola, Sergio Leone e, em oitava posição, Luigi Comencini. Na Wikipedia portuguesa ocorreu, algures, um lapso.

Segue o filme completo, original, com legendas em inglês.

Incompreso (Vita col figlio) – Misunderstood (1966). Realizador: Luigi Comencini. Legendas em inglês.

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

O carnaval dos alimentos

 

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

 

No dia 25 de Outubro de 2017, o V&A Museum of Childhood, de Londres, promoveu um evento delicioso. Organizou um banquete digno das fantasias infantis: nuvens com sabor a ananás, bolhas de ar feitas com vegetais e muitas outras surpresas, tais como embalagens, cartazes e postais comestíveis.

O postal comestível não é novidade. Existem empresas especializadas, como, por exemplo, a marselhesa Cracocarte. Abordo o tema dos postais comestíveis num capítulo de um livro em que colaborei (Postais Ilustrados: Textura e Sensibilidade, in Martins, Moisés de Lemos & Oliveira Madalena, Postal a Postal, Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, 2011. pp. 109-119)

“Visão, tato, audição e olfato. Falta o paladar. Assim como não há “tele-olfato”, também não há “tele-paladar”, nem e-cards comestíveis. Mas há, em contrapartida, bilhetes postais muito saborosos. Postais com uma face em chocolate ou bombom podem ser encomendados pela internet. Para crianças e para adultos. Por exemplo, as cracocartes propostas pelo site http://www.bonbonsgourmands.fr custam 3,60 euros, pesam 12gr., medem 17x12cm., o lado da imagem é comestível e no verso pode redigir-se uma mensagem. Em Portugal, o Festival Internacional de Óbidos propôs “um produto inovador e no mínimo original: bilhetes postais com chocolate”, conforme menciona Madalena Oliveira no post de 12 de março de 2009.

O bilhete postal tem marcado a nossa relação com a imagem e com o mundo, estendendo a sua influência a várias atividades, tais como a arte, a publicidade e, até, a pastelaria. Se o postal ilustrado se cobre de calorias, os bolos (de aniversário, de primeira comunhão e de casamento) adoptam, cada vez mais, o formato do bilhete postal. “As coisas mimosas ao paladar”sempre se prestaram à reciprocidade.

“O postal ilustrado tem duas faces – a frente e o verso. E é um objeto tátil, com uma textura e uma memória, entre o mesmo e o outro, o longínquo e o próximo”, conforme anota Moisés de Lemos Martins no post de 25 de abril de 2010. Textura e sensibilidade. Em papel, ou noutra matéria qualquer, o postal ilustrado é uma paleta de sentidos: de significados, de sensações e de sentimentos. A sua textura alberga um “não-sei-quê” (Jankélévitch, 1980) que franqueia a personalização e um “quase-nada” onde cabe o infinito. Do mais vulgar ao mais criativo, no postal ilustrado também mora o ser humano” (pp. 117-118).

Anunciante: V&A Museum of Childhood. Título: Edible Exhibition. Agência: AMV BBDO (London). Reino Unido, Outubro 2017.

“Parents of kids who are fussy eaters will know: the best way to get them to try new foods is to spark their interest in it. So, to get kids playing with their fruit and vegetables, London’s V&A Museum of Childhood held an “Edible Exhibition” last weekend in a collaboration with agency AMV BBDO, foodie creative company Bompas & Parr and illustrator at Blink Art, Rob Flowers.

At a free food workshop earlier this year, over 100 children were given the chance to use their imagination and invent their ultimate food fantasies. Six winning designs were then selected and turned into reality with the help of Bompas & Parr. They included glow-in-the-dark ice cream made from carrots, edible bubbles made from broccoli and cucumber and a “parsnip tornado.”

Rob Flowers helped bring the “Edible Exhibition” to life with a series of posters and invitations for AMV BBDO that were also entirely edible. Every aspect of the printing process, from edible paper to the multi-flavored inks, was custom-made for the exhibition in collaboration with Bompas & Parr. The posters went on display at the museum and visitors could take away postcards to eat for themselves.

The exhibit took over a year to create, according to Neil Clarke, copywriter at AMV BBDO who came up with the idea alongside his creative partner, art director Jay Phillips. “There was a lot of trial and error. But it was an amazing experience, and we all felt like kids again making it” (Editors).